Chaves da Minha Vida

"Explore o Turismo, e não o Turista!"

Livro Chaves Mini

Nasci em Chaves, uma cidade milenar situada no nordeste de Portugal, na fronteira com a Espanha. Ali vivi até aos vinte e um anos, quando me mudei para São Paulo, Brasil. Este romance é baseado nas histórias (reais) daqueles vinte e um anos que passei na minha querida cidade natal. O título, de duplo sentido, tem a missão de avisar que o conteúdo lançará luz sobre a escuridão da minha alma, e, ao mesmo tempo, homenagear a cidade que eu tanto amo, e da qual sinto saudades todos os dias. Então, caro leitor, aceite meu convite, pegue as chaves da minha vida e entre sem bater. Como se diz lá em Trás-Os-Montes, a província portuguesa onde Chaves está localizada, “Entre, quem for, se vier por bem…”

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Leia abaixo a introdução e um dos capítulos do livro

Chaves da Minha Vida

romance autobiográfico

  Rui Carvalho

Nota do autor

A vontade de escrever um livro autobiográfico esteve presente em minha vida nos últimos trinta anos, pelo menos. As tentativas só não foram mais numerosas que as dificuldades, que eram de toda a ordem, inclusive de inspiração. Comecei a alinhavar as primeiras frases, ainda em Portugal, no alvorecer dos meus vinte anos. Comecei descrevendo alguns acontecimentos num manuscrito que guardo até hoje como relíquia. Com a ingenuidade típica da adolescência, dei-lhe o nome pomposo de “Fragmentos de uma Vida”. Abandonei a ideia tão logo a vida me deu algum juízo. Já no Brasil, organizando antigas lembranças de uma velha caixa trazida na bagagem, deparei-me com aquele caderno de capa vermelha, com pouco mais de 20 páginas escritas, o famoso “Fragmentos de uma Vida”. Dei-lhe continuidade e escrevi mais vinte e tantas páginas, mas parei. Achei que não tinha o que contar. Estava já com 28 anos e esqueci o projeto por mais vinte, até que, já próximo de completar meio século, roído pela saudade e enternecido pela nostalgia, resolvi que precisava, ao menos, escrever para desabafar as amarguras, dúvidas e certezas de uma existência com muitos solavancos. Não conseguia tempo nem disposição, e mais um par de anos se passou até que a oportunidade surgisse. Mais recentemente, nas viagens que fiz a Chaves, de férias, as lembranças do passado tornaram-se cada vez mais constantes e doloridas e então achei que estava maduro e que a hora havia chegado. Decidi que terminaria o maldito livro, mesmo que nunca viesse a ser publicado.

Ao deitar mãos à obra, a primeira dúvida que tive foi se o que eu queria escrever tinha algum interesse ou relevância para as outras pessoas, para o eventual leitor. Em conversas com amigos percebi que valia a pena tentar. Se ninguém mais o lesse, não importava, eu leria e me daria por satisfeito com essa audiência qualificada. Tomada a decisão  deparei-me com as dificuldades normais de quem nunca havia escrito um texto tão comprido. Como ordenar os factos e as situações? Cronologicamente ou aleatoriamente? Que tipo de linguagem usar? Afinal eu já estava no Brasil há mais de três décadas e tanto o meu vocabulário quanto a elaboração do raciocínio, estavam já contaminados pela leveza e lassidão dos trópicos. Eu era um brasileiro tentando escrever em português. O texto não fluia, os factos perdiam-se no tempo, e a memória, que nunca foi meu ponto forte, não ajudava muito. A vontade era imensa, mas faltava-me inspiração. Faltava aquele estalo criativo que costuma estar na base dos grandes projetos. Não que este seja um grande projeto na verdadeira acepção do termo. Mas é, com toda a certeza, o MEU grande projeto. Em Dezembro de 2009 fui a Chaves passar o Natal e resolvi, com a ajuda do Paulo Setas, Madalena Setas, Quim Barrigas, Hernâni Castro Lopo, Beto Serra e mais meia dúzia de abnegados reunidos no facebook, organizar um almoço com amigos de infância. Previa a presença de 15 ou 20, acabamos confraternizando com nada menos que 45 malucos que vieram de vários lugares do país para matar saudades. Foi o estalo que estava faltando. Ali, nos salões do Hotel Forte de São Francisco, ao rever amigos que não via há mais de duas décadas, ao perceber que os sorrisos ainda eram francos e os abraços afetuosos, tive a certeza de que havia chegado a hora de realizar meu sonho. Regressei ao Brasil com o firme propósito de terminar o texto que havia iniciado 35 anos antes. Estava munido de novas informações, com as lembranças reavivadas por aquele convívio natalino, e com a certeza de que só teria paz se terminasse o projeto.

Depois de alguma pesquisa cheguei à conclusão de que deveria optar pelo gênero do romance autobiográfico. A razão disso é que nele há liberdade para inventar, criar, modificar e alterar factos e situações. A única obrigatoriedade é basear-se em factos reais, mas, como romance, não é preciso ser fiel a eles, há espaço para a ficção. Ora, isto vinha muito a calhar para amenizar o problema da falta de memória, e, claro, para possibilitar uma narrativa mais interessante, mais ao gosto popular. Não estando preso à frieza da realidade, ficava mais fácil emprestar interesse a situações corriqueiras, a acontecimentos banais, dando-lhe um arredondamento mais, digamos, literário, mais romanceado. Isso serviu também para dar a volta a situações embaraçosas, já que, como história autobiográfica, eu lidava com pessoas reais, e com nomes verdadeiros. Em conversa com meu editor, grande amigo e incentivador, JB César, que tanto contribuiu para que este trabalho tivesse um rumo, decidi que manteria quase todos os nomes reais dos personagens, com exceção de dois ou três que, por razões óbvias, foram alterados. Antes de decidir pela publicação do livro, também consultei uma das principais personagens da história, Maria de Fátima Nascimento Silva, a Faty, minha namorada entre 1974 e 1976, musa inspiradora deste trabalho. Foi ela a primeira a ler o texto e a autorizar-me, tacitamente, a usar seu nome verdadeiro.

A história cobre os primeiros 21 anos de minha vida, e passa-se em Chaves, cidade onde nasci e vivi nesse período. Evidentemente nem tudo é contado, pois não pretendi fazer uma narrativa histórica ou uma varredura minuciosa dos 7.676 dias que decorreram entre meu nascimento e minha vinda para o Brasil. Por causa dessa característica, o livro não fala de todos os amigos com quem convivi, de todas as pessoas que cruzaram o meu caminho, pois isso nem seria possível. Aos que não são mencionados peço compreensão e ofereço meu respeito e gratidão. O critério que utilizei foi o de narrar apenas determinadas passagens, dentro de um roteiro que escolhi com base na quantidade de detalhes que encontrei na memória. Não houve, de minha parte, nenhuma tentativa de fazer juízo de valor, nem de privilegiar uns em detrimento de outros. Há amigos íntimos que sequer são mencionados, e outros, apenas conhecidos, que, por força da narrativa, aparecem com algum destaque. Não se iludam. Os verdadeiros amigos, mencionados ou não, ocupam posição importantíssima  no lugar que merecem: meu coração. A eles a minha eterna gratidão pela generosidade e desprendimento com que sei que vão entender a sua ausência neste livro. Aos mencionados, meu muito obrigado por fazerem parte desta viagem tão louca. Por emprestar-me uma parte de suas histórias para enriquecer a minha própria história. Por terem feito parte desta minha aventura de viver. Não se zanguem pela maneira como são aqui retratados, pois ela não é necessariamente a expressão da verdade, mas apenas fruto da minha percepção, e  resultado da minha necessidade de usá-los em favor da narrativa. Estamos a ficar velhos, e, por isso, mais melancólicos e saudosistas. Em nome disso ouso pedir-lhes que me perdoem alguma veleidade, e que procurem debitar as incorreções na conta da licença poética que é assegurada a todos os que precisam abrir a alma para se redimir do passado.

À minha família, que aqui expus à execração pública, peço benevolência e compreensão. Não quis promover um julgamento, pois não teria a necessária isenção e imparcialidade, mas oferecer uma oportunidade para que reflitam sobre o impacto de suas ações e omissões na formação da personalidade de um jovem. Aos que vão me julgar, e sei que muitos serão, peço equilíbrio e parcimônia. Apresentar-me nu, liberto de qualquer pudor ou preconceito, não foi uma decisão fácil. Só consegui expor-me de forma tão absoluta por ter certeza de que o mais severo dos juízes sou eu mesmo, é minha própria consciência. Não temo os algozes, os justiceiros morais. O que temo é viver sem ter conseguido compreender qual é o propósito de tudo. O que não aceito é partir sem deixar que meus amigos compreendam, não o que fui, mas o que tentei ser.

Por fim quero agradecer aos meus filhos, Fábio, Mariana e Camila, por terem amenizado muito a minha luta com os fantasmas que combati. Quero pedir-lhes que leiam este livro com carinho e humildade, com o espírito desarmado e a alma leve. Só assim poderão compreender tudo que fui e o que não fui para eles. Só assim poderão, um dia quem sabe, perdoar-me por tantas ausências, entender as escolhas que fiz. A eles, e às muitas mulheres que me amaram, a minha gratidão, o meu respeito e o meu eterno carinho. E agora chega, que isto não é uma carta de despedida, mas apenas uma forma de dizer que os amo e que sempre foram a razão maior da minha vontade de seguir em frente. Vamos continuar escrevendo nossa história, e tentar, quem sabe, construir uma família mais feliz. Sei que ainda há tempo, é preciso que haja tempo. Haverá tempo. Se quisermos.

Rui Carvalho – Outubro de 2010

Capítulo XII

O despertar do Santo do pau oco!

Aquele ano foi relativamente tranquilo no Liceu de Chaves. A cidade seguia o seu ritmo arrastado, sem grandes sobressaltos. Sobressaltado estava eu que sempre tive a sensação de não caber nela, de que ela era muito pequena para os meus sonhos. Vivia desassossegado, inquieto, procurando respostas para as minhas angústias nas velhas muralhas da cidade transformadas por mim em confidentes. O certo é que havia alguma coisa naquela cidade que me fascinava, me atraía, e isso ocorre até hoje. Mas nunca consegui decifrar exatamente o que era, o que isso significava ou como poderia usar essa sensação a meu favor, ou a favor da cidade. Comecei a sentir-me incomodado, dividido entre uma família em que não conseguia encaixar-me e uma cidade que não se encaixava em mim por ser pequena demais. Era uma situação estranha, que tinha tudo para não ter um final feliz. Para piorar eu achava as pessoas esquisitas, cheias de preconceitos. Mesmo os mais jovens gostavam de repetir tudo que os mais velhos lhes diziam, sem fazer nenhum esforço para pensar por si próprios. Aquilo deixava-me confuso, desconcertado. O meu raciocínio lógico dizia-me que as pessoas mais velhas tinham mais experiência e, por isso, muito a ensinar. Mas o facto era que, na maioria das vezes, o que elas tentavam ensinar-me não fazia nenhum sentido pra mim, e só contribuía para acelerar o turbilhão de ideias que me tirava a paz sempre que parava para refletir. No início achei que tudo aquilo passaria com o tempo, que acabaria por ajustar-me, por vestir o figurino que haviam criado pra mim. Acabaria representando bem o papel que me haviam atribuído. Afinal, todos pareciam fazer isso e eram felizes assim, por que não eu? Não podia ser tão diferente de todos os outros. Eu sei que todo o ser humano se julga único e especial, e eu não era excepção. Mas a vida ensina-nos que depois de muitas desilusões somos cada vez mais parecidos uns com os outros, além de patéticos na nossa ignorância, somos também irmãos em nossa semelhança. Não é à toa que a Igreja diz que somos todos filhos de Deus. Mas se somos mesmo filhos de Deus, depois de algumas centenas de pecados, devemos ser irmãos gémeos, com os mesmos defeitos congênitos, sabe-se lá!…

Por falar em Igreja, é bom lembrar que a religião era um caso à parte na minha desarticulada família, e merece alguns comentários. Como quase toda a gente da minha geração, devo à formação religiosa muito do que sou hoje. Mas não se comece a tirar conclusões precipitadas. Foram os erros que presenciei na Igreja que fizeram com que me tornasse um ser humano melhor, provavelmente só para ser melhor que eles, os padres, que, supostamente, deveriam ajudar na minha formação como cristão temente a Deus. Eu sei que é sempre um assunto espinhoso, um caminho cheio de curvas sinuosas e escorregadias, um terreno minado, mas não posso privar o leitor de factos que ajudaram a formar a minha personalidade e meu pensamento crítico. Os leitores mais fervorosos, impregnados que estarão com a infinita bondade católica, saberão perdoar-me, quanto mais não seja para amolecerem os juízes do julgamento final e garantirem um lugar privilegiado para suas almas, como se isso não fosse, por si só, jogo sujo. Os laicos saberão compreender-me e até concordarão com meus argumentos, ou seja, posso desabafar à vontade, pois estarei a salvo. Inferno por inferno, não tenho medo pois já vivo nele há muito tempo. Vamos a isto.

Já disse que a minha avó materna, Arminda, foi a pessoa mais santa que conheci. Muito mais santa do que todas aquelas imagens horríveis de barro e pau que via na missa de domingo. Generosa, meiga, sensível, carinhosa, conciliadora, sempre pronta a dar ao próximo o melhor de si. Acho que ela acreditava sinceramente nos ensinamentos da Igreja e sonhava que um dia todos seríamos tão bons quanto ela, que viveríamos para sempre felizes no paraíso, ao lado de Deus. Pobre senhora, onde ela estiver deve estar decepcionada, mas enfim, que Deus a tenha, pois é o único que a merece. Criatura que frequentava a igreja regularmente, e considerava a falta à missa de domingo como um pecado mortal, é claro que desde cedo me obrigou a frequentar a catequese e a assumir algumas tarefas no serviço religioso dominical.  No começo era uma séca do caraças! Mas, depois, até me divertia muito. Junto com mais dois ou três colegas, entre eles o Tóquim, do qual já falei aqui, tínhamos acesso à sacristia, ajudávamos o padre Meireles a paramentar-se (vestir-se para a missa, para quem não sabe), e auxiliávamos na condução dos rituais da celebração que ainda era feita em latim. Aos domingos lá íamos nós para a belíssima Igreja da Madalena, que, coincidentemente, ficava em frente ao comércio e à casa do Tóquim. A missa era às onze horas e nós tínhamos que chegar antes das dez, para subir ao campanário e tocar os sinos para chamar os fiéis para o culto. Conforme a hora se aproximava havia um toque diferente, e coordenar o movimento dos badalos dos três sinos pode parecer fácil, mas tinha lá a sua arte. Subíamos a imensa escadaria em caracol até o topo da torre, de onde se avistava boa parte da cidade. Para passar o tempo levávamos revistas eróticas que algum primo mais velho nos emprestava. Alguns mais ingênuos poderão perguntar: Mas… revistas eróticas na igreja? Sim, revistas eróticas na igreja tinham lá a sua lógica. Afinal, pensávamos, haveria lugar menos suspeito para que nos entregássemos a prazeres que julgávamos proibidos? Ali se pecava e ali se conseguia a absolvição! Nada mais prático, nada mais desconcertantemente lógico, nada mais estarrecedoramente desprovido de pudor, como convinha a autênticos pré-adolescentes. Dependendo do conteúdo da revista, e do interesse ou reações que ele despertava em nós, o toque do sino, cujo badalo era acionado pelas cordas que segurávamos, acelerava e saía do ritmo. Os fiéis achavam que era falta de jeito, pouca prática, mas nós sabíamos que era o coração (?) inundado de entusiasmo pelas imagens pornográficas daquelas páginas despudoradas. Está bem, vou confessar: se calhar era a dificuldade em coordenar os movimentos da mão que segurava a corda, com os movimentos da outra, que segurava o… ou melhor, que estava entretida naquela famosa e renhida luta dos cinco contra um, se é que me entendem! Aquilo, para nós, era o máximo da transgressão, e por certo era mesmo. Só confesso isso por saber que a minha querida avó não vai saber desta grave ofensa, pois já partiu para juntar-se aos seus santos.

Sentíamos-nos verdadeiros facínoras, desafiando a moral ensinada pelas nossas famílias, enxovalhando os ensinamentos da Santa Madre Igreja bem ali, no seu âmago. Éramos uma flecha cravada no seu coração, uma das cinco chagas de Cristo na Cruz, uma traição digna de tragédia grega. Éramos uns desavergonhados, isso sim. Mas essa mistura de desafio terrestre e divino dava-nos uma sensação de grandeza, de coragem, um poder a que não tínhamos direito, mas que ninguém nos podia usurpar. Aquela sensação de prazer e medo, tudo à mistura, garantia a adrenalina que precisávamos para enfrentar a falta do que fazer. Mas enfim, o importante é que, excitados ou relaxados, lá dávamos conta do recado e a missa ficava sempre cheia, em boa parte, graças ao toque dos nossos três sinos. Mal imaginavam as beatas que nós, além dos sinos, tocávamos ao mesmo tempo outro instrumento menos nobre. Mas isso é só mais um detalhe, como diria o poeta. A verdade seja dita: muito mais que entregar-nos ao prazer proibido e solitário no campanário, gostávamos mesmo era de inventar algumas brincadeiras que hoje parecem inocentes, mas que na época assumiam contornos da mais pura ousadia e temeridade.

Certo dia resolvemos arreliar as beatas que iam à igreja diariamente e atrapalhavam as nossas sessões de viola na sacristia, com muito rock, vinho tinto da missa (sangue de Cristo, dizia o padre Meireles na celebração) e hóstias –  antes da consagração, claro. Era para nós uma verdadeira comezaina, um banquete indescritível. As velhotas, no entanto, teimavam em aparecer no meio da tarde, sempre com a desculpa de rezar pelo falecido, ou à procura do padre (que era um bonitão, arrasador de corações). Percebendo o pouco caso que fazíamos do recinto sagrado, ameaçavam denunciar-nos ao sacerdote, sem falar no pior: acusar-nos ao próprio Cristo, exigindo punição exemplar para os nossos pecados. Como se fosse preciso avisar o Criador de alguma coisa! Afinal Ele não era omnipresente? Não tinha um olho em tudo que se passava cá em baixo com os seus filhos? Aquilo era muito estranho, ou o padre superestimava os poderes de Deus, ou as velhas estavam a gozar-nos. Além disso, acreditava eu, Deus devia ter coisas mais importantes do que nossas impertinentes brincadeiras para se ocupar. Enfim, pelo sim pelo não lá nos confessávamos de vez em quando para sermos autorizados a pecar novamente, sem culpa e sem remorso. Quanto às velhotas, coitadas, resolvemos implicar com elas só para passarmos o tempo.

A entrada da igreja, como convinha a um templo daquela natureza e importância, era solene e escura. Uma pesada porta de madeira, com mais de três metros de altura, separava o pequeno hall da rua de paralelepípedo que ia da esquina do Lourenço até o Parque de Campismo. Curiosamente, no passeio em frente à igreja havia, pelo menos, três ou quatro tascas, sempre frequentadas por bêbados, desocupados ou as duas coisas numa só. Era bem apropriado, novamente o pecado ficava porta com porta com a virtude, ou, como no filme clássico de Billy Wilder, aquele de 1955 em que Marilyn Monroe aparece na cena antológica do vestido branco esvoaçante: o pecado mora ao lado! Assim era no bairro da Madalena, o pecado também morava ao lado da Igreja, e, às vezes, dentro dela.

Estas contradições faziam-me pensar que talvez nem tudo na Bíblia devesse ser levado a sério. No fundo achava tudo bastante irônico, mas contentava-me em observar essas subtilezas e nunca comentava abertamente com ninguém. Achava que talvez só eu as percebesse e que me tomariam por lunático se as compartilhasse. Enfim, provavelmente coisas da minha cabeça desmiolada. Eu era um ímpio que arderia eternamente no fogo do inferno, mas enquanto ninguém acendia as labaredas, era preciso aproveitar, e foi o que fiz.

Mas voltando à igreja, atravessando-se a imponente porta pintada de verde havia o tal hall, separado da nave central do templo por duas portas de vai-vem, em madeira entalhada, decoradas na parte superior com vitrais, que coavam a já fraca luminosidade do templo. De cada lado desse pequeno vestíbulo havia uma pia de granito onde era colocada a água benta. As pessoas entravam, e, na penumbra, dirigiam-se a uma das pias, mergulhavam a ponta dos dedos naquela água sagrada e faziam o sinal da cruz compenetradamente, fazendo uma pequena vênia ao cruzar o corredor central, a caminho de um dos muitos bancos corridos de madeira onde, ajoelhadas, ficavam horas murmurando palavras ininteligíveis. Pois foi ali que resolvemos atacar. Um belo dia, sorrateiramente, substituímos a água benta por tinta vermelha. Escondidos na escadaria que dava acesso ao campanário, sufocávamos o riso ao ver aquelas compenetradas senhoras com a testa, os lábios e as bochechas pintadas de um vermelho que parecia sangue. Pareciam verdadeiros mártires expiando as suas faltas, embora apenas vítimas de meia dúzia de fedelhos mal educados que não hesitavam em debochar de tudo que lhes parecesse sério demais. Mas a melhor parte estava por vir. Horas depois, na saída, já à luz do sol que escaldava o estreito passeio de cimento, era muito engraçado ver a cara de espanto das velhas senhoras ao descobrirem-se marcadas com tão misteriosos sinais. Algumas, na visão delirante que turva a mente de todo o fanático, achavam que era coisa divina, que haviam sido escolhidas por Deus para alguma missão secreta e sagrada. Não sabiam bem o quê nem pra quê, mas já se achavam especiais só por terem sido escolhidas. Santo Deus, quanta ignorância! Mas com isso nós é que nos sentíamos mais e mais importantes, já que, de certa forma, éramos capazes de nos fazer passar por deuses, de influenciar respeitosas senhoras, de tocar as suas almas como se fôssemos importantes e superiores.

Outra ocasião, na época da Quaresma, quando tínhamos novena diariamente, montamos um plano para amarrar as pontas dos xales das devotas velhinhas. Como o leitor bem sabe, no interior de Portugal, principalmente no Norte, as viúvas costumam ficar de luto por toda a vida. Nunca soube se era em sinal de respeito ao falecido, ou se por se acharem feias demais para encontrarem um novo pretendente, mas enfim, era assim que era e não nos compete ficar aqui a fazer ilações de natureza profana num momento tão vetusto da narrativa. O que lembro é que as viúvas transmontanas vestiam apenas roupas pretas e cobriam-se dos pés à cabeça com os seus xales de lã, cujas pequenas franjas caem até perto da parte anterior dos joelhos, formando um grande triângulo nas costas, a partir dos ombros. Combinamos que cada um se ajoelharia numa fileira atrás das beatas, e, sem que elas percebessem, amarraria as franjas de umas às outras com pequenos nós. No final do serviço religioso, quando o pároco se despede, toda a gente se levanta, faz o sinal da cruz e se encaminha para a saída. Só então elas perceberiam que estavam presas umas às outras através das pontas atadas dos xales. Foi uma barafunda, um puxa daqui, estica dali. Houve até discussão e princípio de zaragata. Não fosse a intervenção do padre Meireles em pessoa, acho que algumas teriam chegado a vias de facto. Era divertido ver aquelas senhoras de preto, com os seus véus de tule ou renda, alvoroçadas sem saber o que fazer ou o que pensar. Ficavam desnorteadas, sempre dispostas a acreditar que algo sobrenatural se passava ali. As mais devotas diziam que aquilo tudo era desígnio de Deus. Outras, mais aflitas e com culpa no cartório, temiam ser coisa do diabo. Sempre achei que há certas crueldades que só as crianças são capazes de fazer. As nossas brincadeiras com as beatas da Madalena, com certeza, estão entre elas. Que Deus nos perdoe se tiver tempo e disposição. Estes eram os gandulos da Madalena, como o lado de cima da cidade nos conhecia.

Mas por falar em perdão divino, uma das tarefas que mais me impressionava era ajudar à missa na hora da comunhão. Aquelas pessoas todas em fila, com ar de santas, olhos semi-serrados a caminho do cálice sagrado, em frente ao qual, de boca escancarada, recebiam a hóstia abençoada que lhes daria a absolvição. Hipocritamente, como eu viria a descobrir depois, absolvição que a maior parte deles entendia como uma licença para pecar outra vez, num círculo vicioso e virtuoso que garantia lucros na terra e impunidade no céu. Mas ali ficava eu, protegido pela batina vermelha com renda branca de ajudante de sacristão, a segurar a bandeja dourada por baixo do queixo do devoto, como se estivesse a aparar a baba, enquanto o sacerdote, também com ar solene, pronunciava as palavras bíblicas: “O corpo de Cristo”, e, antes de esticar a língua para receber a hóstia, o ex-pecador, já a pensar no próximo pecado, respondia, contrito: “Amém”, como se aquela palavra fosse mágica, fosse um salvo-conduto para continuar a trair a esposa, a mentir aos filhos, a roubar nos impostos ou a falar mal da vida dos outros. Como se aquele “Amém” fosse uma espécie de abracadabra que abriria as portas do paraíso, onde todos viviam felizes e livres de pecados e impostos. Eu achava tudo aquilo muito esquisito. Procurava ficar sério, pois já ensaiava para tornar-me um bom ator, mas aquela hipocrisia quase sempre fazia aflorar nos meus lábios um sorriso impregnado de ironia e ceticismo. Para disfarçar aquela incômoda sensação procurava concentrar-me na arte da observação. Daquela posição privilegiada, apanhando as pessoas em situação tão frágil quanto patética, não deixava de prestar atenção às maltratadas bocas que desfilavam, sem pudor, a dois palmos dos meus incrédulos olhos de miúdo reguila. A falta de dentes era comum, e o mau hálito era, por vezes, insuportável. Acho que foi ali que eu decidi que nunca seria dentista. Arre, só se fosse por penitência para fazer daquelas bocas fétidas um meio de vida. Era preciso ter muita fé para achar que aquele trabalho de ajudante de padre melhoraria a minha vida. Mas eu fazia aquilo por respeito à minha avó, que fazia tanto gosto em ver o neto bem encaminhado nas obrigações religiosas dominicais. Sempre que podia ela ensinava-me os principais segredos da beatitude. Lembro-me que sempre dizia: “Só podes comungar depois de te confessares, senão vais arder no fogo do Inferno”. Belo argumento para quem já não simpatizava muito com o calor! Em seguida ensinava: “Quando o senhor padre te oferecer a hóstia leva-a com a língua ao céu da boca, mas sem lhe tocar com os dentes, pois aquilo é o corpo de Cristo, é sagrado, não se lhe pode tocar”. Valha-me Deus, e eu que adorava mastigar aquelas hóstias branquinhas durante as nossas reuniões nas tardes preguiçosas de Verão. Tudo bem, ainda não tinham sido benzidas, era diferente, e, por isso mesmo, eu achava que estava perdoado. Na dúvida, evitava comungar, até mesmo porque, ao confessar-me, das duas uma: ou mentia, e a confissão perderia o seu sentido, ou seria obrigado a falar dos nossos concertos eróticos no alto do campanário nas manhãs ensolaradas de domingo. Cedo aprendi que até com Deus se pode negociar. Que o digam os fiéis que pagam as bulas na quaresma para poderem fugir do jejum, ora pois! Pra mim não sei o que era pior, se correr o risco de ir para o Inferno, fugindo à confissão, ou perder a chance de continuar a pecar deliciosamente, autorizado por Deus após a absolvição. Essas dúvidas, essa incapacidade para decidir o melhor caminho entre o que a minha avó e os padres ensinavam, e o que eu era capaz de perceber da observação da vida real, foi sempre o fio condutor que levou à construção (ou desconstrução) das minhas convicções religiosas. O golpe de misericórdia, entretanto, coube aos próprios padres. Um deles, que por respeito à decência vou omitir o nome, era um homem especialmente severo, de rígida moral, parecia sentir prazer em assustar-nos com a ameaça do castigo divino, inexorável como a morte. Tratando-se de sexo, ou sexualidade, então, era radical, feroz até. Nunca prevaricava, ao menor deslize era capaz de garantir-nos a danação eterna. Imaginem o choque quando descobrimos que ele era amante de uma professora do Liceu, que ainda por cima era casada! O meu mundo caiu. O que restava da minha religiosidade desmoronou, as minhas crenças esvaíram-se no ar, esfarelaram-se. Foi um milagre ao contrário, um ato de fé às avessas! De repente, de um dia para o outro, confirmei o quanto o mundo era hipócrita e o quanto eram inúteis os sacrifícios que fazíamos em nome de uma religião e de uma moral que exalavam o cheiro agridoce da decomposição. Foi nessa época que comecei a dar mais consistência ao meu pensamento lógico, passei a valorizar mais a minha opinião, as observações que fazia do mundo à minha volta, o conhecimento empírico. Enfim, passei a ter mais simpatia pelo pragmatismo do viver um dia atrás do outro da melhor maneira, do que pelo dogmatismo de acreditar numa vida eterna no paraíso que não sabia onde ficava. Se o paraíso estivesse cheio de pessoas como os padres, alguns professores, os ditadores e muitos dos adultos que eu conhecia, então eu, com certeza, não fazia a menor questão de ir pra lá. Pronto, era simples assim, comecei a ensaiar o meu próprio caminho. A Igreja, com os seus pecados e mentiras, afastou-me da Igreja. A religião, com seus dogmas, seus mistérios, sua infalibilidade e soberba, apagou a religiosidade com que fui criado. Se Deus era nosso Pai e os sacerdotes os seus representantes na Terra, eu comecei a achar que Ele não sabia escolher representantes à altura da missão que deviam desempenhar. Daí em diante, se Ele era o meu pai, decidi que falaria diretamente com ele, sem intermediários e sempre que quisesse, em qualquer lugar, como um filho deve falar com o seu pai. De certa forma, foi uma libertação, um verdadeiro e salutar encontro com a minha intuição. A partir daquele momento as minhas batalhas internas seriam encaradas sob uma nova perspectiva. Não havia mais zona cinzenta, hesitações ou dualidades. Passei a ver o mundo em cores vivas, mas também a saber vislumbrar por trás da luz, a interpretar a penumbra, ou melhor, a projetar um foco de luz sobre ela, de modo a desmascará-la, a trazê-la para a minha zona de conforto, onde o sim é sim e o não é não, onde a vida pode ser vista através do espectro das sete cores do arco-íris. Comecei a achar que precisava construir a minha própria estrada, trilhar o meu próprio caminho. E assim o fiz. Ainda hoje não posso dizer se consegui, mas posso, por certo, garantir que vale a pena tentar.

É sempre difícil avaliar o verdadeiro impacto das nossas escolhas juvenis, mas que aquela revelação me levou a um novo patamar em relação à percepção que tinha da vida e da religiosidade que me era imposta, isso não posso negar. Ao decidir eliminar os intermediários na minha relação com Deus, trouxe não só qualidade a essa relação, mas também um pouco do pragmatismo que parecia faltar ao Todo-Poderoso. O mecanismo era relativamente simples, e por isso mesmo, pragmático e conveniente. Funcionava assim: ou falava direto com Deus, usando palavras, pensamentos ou atos, ou permaneceria em silêncio e Ele que usasse dos seus poderes infinitos para perceber o que se passava na minha alma e se comunicasse comigo, se achasse necessário. Acho que Ele tinha coisas mais importantes a fazer, pois nunca se dirigiu a mim diretamente, mas também não posso dizer que me abandonou. Ou seja, deu empate nessa relação, aparentemente temos um acordo: eu não lhe dou muitos aborrecimentos e Ele mantém-me como beneficiário da sua apólice colectiva de seguro. Até agora não há do que reclamar, as duas partes cumprem o combinado e permanecemos longe de atritos. De vez em quando até entro na casa d’Ele só para provar que não guardo ressentimentos. Benzo-me, ajoelho-me a um canto e falo com Ele de filho para Pai, a pedir conselhos ou proteção. Como podem ver, e apesar do que dizem as más línguas, não sou ateu, até porque, se o fosse, a minha mulher tinha que ser atua, e isso eu não recomendo.

Com estas idas e vindas desenhava-se ali o projeto de uma personalidade baseada na independência em relação aos valores religiosos e morais, e contida pelos limites do rigor lógico, características normalmente encontradas nas pessoas inteligentes ou desajustadas, quem sabe, em ambos os casos… Tudo bem, vamos admitir que alguns especialistas chamem isso de arrogância, e que essas características, que são fruto do cruzamento da minha timidez com a minha inquietude, na verdade sempre foram uma grande fonte de transtornos a complicar a minha vida. Até hoje, passadas mais de cinco décadas, os meus melhores amigos não sabem dizer se sou tímido ou prepotente. Talvez as duas coisas, embora eu tenha a certeza da veracidade da primeira e prefira chamar a segunda de convicção de propósitos. Mas… vá lá, posso fazer uma concessão aos críticos e aceitar que sim, que frequentemente faço uma gestão temerária dos meus pensamentos. Pronto, é o máximo que posso conceder sem correr o risco de comprometer a minha tímida arrogância. Mas, já agora, permitam-me propor um exercício de relativa complexidade mental, que já mencionei lá mais acima, mas que pode ter passado despercebido naquele contexto, e que, pela importância da sua interpretação, vale a pena ser reapresentado ao julgamento do paciente leitor: não acham que a humildade voluntária, aquela que alguns escolhem exibir como artifício para agradar aos outros, é, na verdade, a arrogância a pedir aprovação? A prepotência em busca de aceitação e apoio? Pensem nisso, mas pensem de espírito desarmado, pois o assunto é controverso e explosivo, exige moderação.

O importante é que daquele dia em diante eu mudei o meu status de ser humano. Deixei de utilizar os serviços dos padres e bispos com suas rezas decoradas e cheias de palavras difíceis, deixei de lado o respeito pelos santos e arcanjos com as suas múltiplas especialidades e milagres, e abri um canal direto de comunicação com “o tipo lá de cima”, que todos diziam ser o meu pai. A minha vida simplificou-se, os dogmas da Igreja, que ainda hoje não compreendo nem aceito totalmente, deixaram de pesar sobre os meus ombros como a cruz do nazareno, e o pensamento lógico (sempre ele) passou a comandar, também, a minha relação com Deus. Rezar passou a ser algo bem mais prosaico, uma simples conversa de filho para pai, com a vantagem de que o pai nem tem direito a réplica, o que torna a conversa muito mais confortável e se traduz numa vantagem competitiva importantíssima. Ele só ouve, nunca me questiona, não dá sermões, não oferece conselhos, apenas fica ali (não sei bem aonde, mas dizem que em todo lugar ao mesmo tempo), a ouvir pacientemente as minhas queixas, os meus desabafos, como se fosse um muro das lamentações particular, impávido e sereno como convém a um Deus, talvez uma oportuna abstração que atende perfeitamente ao propósito de perpetuar as minhas dúvidas, não sem antes tentar subornar a minha consciência. No mínimo, os terapeutas tinham perdido um potencial cliente. Pronto, esta era a minha essência católica, resultado condensado dos meus dias de igreja da Madalena, fruto apodrecido pela observação dos exemplos dos padres que cruzaram o meu caminho. Não era grande coisa, mas era eu. Era assim que me sentia melhor e, não raras vezes, obtinha alguma paz nas conversas diretas com um Deus que ficava a cada dia mais humano, mais próximo, mais fácil de compreender, e, por isso mesmo, mais fácil de respeitar. Acho que fiz um bom acordo. A Igreja  perdeu um auxiliar, mas Deus conseguiu manter-me no seu rebanho e eu deixei de implicar com Ele. De vez em quando temos as nossas diferenças, mas depois de uma boa conversa (ou monólogo, já que Ele nunca fala comigo) a gente acaba por se entender e tudo volta ao normal. Para ser sincero preciso dizer que continuo a ter mais perguntas do que respostas, e que Ele persiste na divina tarefa de tomar conta do mundo, de conduzir o seu rebanho por caminhos que nem sempre eu aceito seguir. Enfim, se é verdade o que dizia a minha avó, não tardará para que eu seja chamado a encontrar-me com Ele, e, finalmente, descobrir se as nossas conversas tinham realmente algum sentido. Não estou seguro, mas estou pronto. Algum dia terei que enfrentar os meus medos sem a proteção de uma consciência contorcionista. Enfrentá-los de peito aberto, de coração rasgado, colocando ao léu as chagas de uma existência infeliz. Algum dia poderei conferir se fui uma pessoa tímida ou prepotente. Não vai ser fácil, mas será inevitável e nunca tive muito jeito para contestar o inevitável. Que seja o que terá que ser. Afinal, diante da imponência de Deus todo poderoso, até os mais prepotentes e arrogantes não passam de humildes amadores. Que venha o juízo final, talvez ele, afinal, me traga algum juízo.

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