MEU ROMANCE AUTOBIOGRÁFICO
CHAVES DA MINHA VIDA ( romance autobiográfico)
by Rui Carvalho on out.17, 2010, under MEU ROMANCE AUTOBIOGRÁFICO
ouça a trilha do texto: 05 Samba Pa Ti
Chaves da minha
vida
romance autobiográfico
Rui Carvalho
Nota do autor
A vontade de escrever um livro autobiográfico esteve presente em minha vida nos últimos trinta anos, pelo menos. As tentativas só não foram mais numerosas que as dificuldades, que eram de toda a ordem, inclusive de inspiração. Comecei a alinhavar as primeiras frases, ainda em Portugal, no alvorecer dos meus vinte anos. Comecei descrevendo alguns acontecimentos num manuscrito que guardo até hoje como relíquia. Com a ingenuidade típica da adolescência, dei-lhe o nome pomposo de “Fragmentos de uma Vida”. Abandonei a idéia tão logo a vida me deu algum juízo. Já no Brasil, organizando antigas lembranças de uma velha caixa trazida na bagagem, deparei-me com aquele caderno de capa vermelha, com pouco mais de 20 páginas escritas, o famoso “Fragmentos de uma Vida”. Dei-lhe continuidade e escrevi mais vinte e tanhtas páginas, mas parei. Achei que não tinha o que contar. Estava já com 28 anos e esqueci o projeto por mais vinte, até que, já próximo de completar meio século, roído pela saudade e enternecido pela nostalgia, resolvi que precisava, ao menos, escrever para desabafar as amarguras, dúvidas e certezas de uma existência com muitos solavancos. Não conseguia tempo nem disposição, e mais um par de anos se passou até que a oportunidade surgisse. Mais recentemente, nas viagens que fiz a Chaves, de férias, as lembranças do passado tornaram-se cada vez mais constantes e doloridas e então achei que estava maduro e que a hora havia chegado. Decidi que terminaria o maldito livro, mesmo que nunca viesse a ser publicado.
Ao deitar mãos à obra, a primeira dúvida que tive foi se o que eu queria escrever tinha algum interesse ou relevância para as outras pessoas, para o eventual leitor. Em conversas com amigos percebi que valia a pena tentar. Se ninguém mais o lesse, não importava, eu leria e me daria por satisfeito com essa audiência qualificada. Tomada a decisão deparei-me com as dificuldades normais de quem nunca havia escrito um texto tão comprido. Como ordenar os factos e as situações? Cronologicamente ou aleatoriamente? Que tipo de linguagem usar? Afinal eu já estava no Brasil há mais de três décadas e tanto o meu vocabulário quanto a elaboração do raciocínio, estavam já contaminados pela leveza e lassidão dos trópicos. Eu era um brasileiro tentando escrever em português. O texto não fluia, os factos perdiam-se no tempo, e a memória, que nunca foi meu ponto forte, não ajudava muito. A vontade era imensa, mas faltava-me inspiração. Faltava aquele estalo criativo que costuma estar na base dos grandes projetos. Não que este seja um grande projeto na verdadeira acepção do termo. Mas é, com toda a certeza, o MEU grande projeto. Em Dezembro de 2009 fui a Chaves passar o Natal e resolvi, com a ajuda do Paulo Setas, Madalena Setas, Quim Barrigas, Hernâni Castro Lopo, Beto Serra e mais meia dúzia de abnegados reunidos no facebook, organizar um almoço com amigos de infância. Previa a presença de 15 ou 20, acabamos confraternizando com nada menos que 45 malucos que vieram de vários lugares do país para matar saudades. Foi o estalo que estava faltando. Ali, nos salões do Hotel Forte de São Francisco, ao rever amigos que não via há mais de duas décadas, ao perceber que os sorrisos ainda eram francos e os abraços afetuosos, tive a certeza de que havia chegado a hora de realizar meu sonho. Regressei ao Brasil com o firme propósito de terminar o texto que havia iniciado 35 anos antes. Estava munido de novas informações, com as lembranças reavivadas por aquele convívio natalino, e com a certeza de que só teria paz se terminasse o projeto.
Depois de alguma pesquisa cheguei à conclusão de que deveria optar pelo género do romance autobiográfico. A razão disso é que nele há liberdade para inventar, criar, modificar e alterar factos e situações. A única obrigatoriedade é basear-se em factos reais, mas, como romance, não é preciso ser fiel a eles, há espaço para a ficção. Ora, isto vinha muito a calhar para amenizar o problema da falta de memória, e, claro, para possibilitar uma narrativa mais interessante, mais ao gosto popular. Não estando preso à frieza da realidade, ficava mais fácil emprestar interesse a situações corriqueiras, a acontecimentos banais, dando-lhe um arredondamento mais, digamos, literário, mais romanceado. Isso serviu também para dar a volta a situações embaraçosas, já que, como história autobiográfica, eu lidava com pessoas reais, e com nomes verdadeiros. Em conversa com meu editor, grande amigo e incentivador, JB César, que tanto contribuiu para que este trabalho tivesse um rumo, decidi que manteria quase todos os nomes reais dos personagens, com exceção de dois ou três que, por razões óbvias, foram alterados. Antes de decidir pela publicação do livro, também consultei uma das principais personagens da história, Maria de Fátima Nascimento Silva, a Faty, minha namorada entre 1974 e 1976, musa inspiradora deste trabalho. Foi ela a primeira a ler o texto e a autorizar-me, tacitamente, a usar seu nome verdadeiro.
A história cobre os primeiros 21 anos de minha vida, e passa-se em Chaves, cidade onde nasci e vivi nesse período. Evidentemente nem tudo é contado, pois não pretendi fazer uma narrativa histórica ou uma varredura minuciosa dos 7.676 dias que decorreram entre meu nascimento e minha vinda para o Brasil. Por causa dessa característica, o livro não fala de todos os amigos com quem convivi, de todas as pessoas que cruzaram o meu caminho, pois isso nem seria possível. Aos que não são mencionados peço compreensão e ofereço meu respeito e gratidão. O critério que utilizei foi o de narrar apenas determinadas passagens, dentro de um roteiro que escolhi com base na quantidade de detalhes que encontrei na memória. Não houve, de minha parte, nenhuma tentativa de fazer juízo de valor, nem de privilegiar uns em detrimento de outros. Há amigos íntimos que sequer são mencionados, e outros, apenas conhecidos, que, por força da narrativa, aparecem com algum destaque. Não se iludam. Os verdadeiros amigos, mencionados ou não, ocupam posição importantíssima no lugar que merecem: meu coração. A eles a minha eterna gratidão pela generosidade e desprendimento com que sei que vão entender a sua ausência neste livro. Aos mencionados, meu muito obrigado por fazerem parte desta viagem tão louca. Por emprestar-me uma parte de suas histórias para enriquecer a minha própria história. Por terem feito parte desta minha aventura de viver. Não se zanguem pela maneira como são aqui retratados, pois ela não é necessariamente a expressão da verdade, mas apenas fruto da minha percepção, e resultado da minha necessidade de usá-los em favor da narrativa. Estamos a ficar velhos, e, por isso, mais melancólicos e saudosistas. Em nome disso ouso pedir-lhes que me perdoem alguma veleidade, e que procurem debitar as incorreções na conta da licença poética que é assegurada a todos os que precisam abrir a alma para se redimir do passado.
À minha família, que aqui expus à execração pública, peço benevolência e compreensão. Não quis promover um julgamento, pois não teria a necessária isenção e imparcialidade, mas oferecer uma oportunidade para que reflitam sobre o impacto de suas ações e omissões na formação da personalidade de um jovem. Aos que vão me julgar, e sei que muitos serão, peço equilíbrio e parcimónia. Apresentar-me nu, liberto de qualquer pudor ou preconceito, não foi uma decisão fácil. Só consegui expor-me de forma tão absoluta por ter certeza de que o mais severo dos juízes sou eu mesmo, é minha própria consciência. Não temo os algozes, os justiceiros morais. O que temo é viver sem ter conseguido compreender qual é o propósito de tudo. O que não aceito é partir sem deixar que meus amigos compreendam, não o que fui, mas o que tentei ser.
Por fim quero agradecer aos meus filhos, Fábio, Mariana e Camila, por terem amenizado muito a minha luta com os fantasmas que combati. Quero pedir-lhes que leiam este livro com carinho e humildade, com o espírito desarmado e a alma leve. Só assim poderão compreender tudo que fui e o que não fui para eles. Só assim poderão, um dia quem sabe, perdoar-me por tantas ausências, entender as escolhas que fiz. A eles, e às muitas mulheres que me amaram, a minha gratidão, o meu respeito e o meu eterno carinho. E agora chega, que isto não é uma carta de despedida, mas apenas uma forma de dizer que os amo e que sempre foram a razão maior da minha vontade de seguir em frente. Vamos continuar escrevendo nossa história, e tentar, quem sabe, construir uma família mais feliz. Sei que ainda há tempo, é preciso que haja tempo. Haverá tempo. Se quisermos.
Rui Carvalho – Outubro de 2010
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I A família Carvalho
Eu tinha sete anos quando meus pais se separaram. Ainda não sabia, mas aquilo seria o fim do mundo, pelo menos do meu. Não fazemos ideia nenhuma do quanto um facto como esse pode afetar a nossa vida adulta, até que seja tarde demais e as marcas estejam já forjadas na nossa personalidade, causando prejuízos irreparáveis. Raramente aprendemos com os erros dos nossos pais. Preferimos criticá-los ao invés de procurar entendê-los. Nem poderia ser diferente – infância e adolescência são sinónimos de rebeldia e transgressão. Frequentemente repetimos os equívocos que presenciamos nas nossas famílias, que aprendemos com os nossos pais através do exemplo. É mais ou menos como se já começássemos a nossa vida marcados pelo pecado original. No meu caso, por exemplo, esse pecado revelou-se na forma de certa incapacidade, ou inaptidão, por assim dizer, de constituir uma família normal, relacionamentos duradouros baseados em laços afetivos fortes. É uma pena, ou uma sina? Não importa. Isto não passa de uma despretensiosa reflexão que faço antes de apresentar-lhes a minha família. Sim, eu também tenho uma!
Estávamos na metade de 1962 e eu vivia na cidade onde nasci, Chaves, uma cidadezinha muito antiga, fundada pelos romanos durante a ocupação da Península Ibérica há cerca de dois milénios. A elevação a município data do ano 79 d.C., quando quem dava as cartas no Império Romano era o imperador Tito Flávio Vespasiano. O seu território compreende o rico vale do rio Tâmega, e estende-se por pouco menos de 600 quilómetros quadrados, no norte de Portugal, na região hoje chamada de Alto Trás-os-Montes. A Serra do Brunheiro e as montanhas da Galiza, já no lado espanhol da nossa conveniente dualidade, são testemunhas da sua beleza única. Digo conveniente dualidade porque nós, transmontanos, embora portugueses de uma das cepas mais legítimas, gostamos de ser chamados de espanhóis, ou galegos, desde que isso nos proteja dos habituais desmandos do governo de Lisboa. É como uma espécie de refúgio, uma vacina. Se Lisboa nos ignora, relegando-nos a segundo plano, nós os renegamos, transferindo nosso patriotismo para o lado de lá da fronteira. Como se vê, muito conveniente. Na maior parte do tempo, porém, como bons vizinhos, abusamos do direito de espezinhar os galegos verdadeiros, como se fossem um estorvo, um implante ali colocado para nos atrapalhar, quase uma intromissão, um calo que não mata, mas que mói, como diria Rui Veloso. Quem melhor sintetizava esse sentimento era a minha avó materna, Arminda, que fazia questão de nos lembrar que “da Espanha, nem bons ventos nem bons casamentos”. Era uma clara demonstração do carinho que devotávamos aos nuestros hermanos do outro lado da fronteira, que fica a pouco mais de dez quilómetros da casa onde morava.
Mas, enfim, implicâncias à parte, a verdade é que, por norma, transmontanos e galegos entendiam-se muito bem, principalmente depois que as feridas resultantes das ditaduras fascistas de Francisco Franco, na Espanha, e António Salazar, em Portugal, puderam ser cicatrizadas. Ou deixadas de lado, porque talvez seja mais acertado dizer que perdoadas ou compreendidas () nunca o serão, pois cicatrizes são assim mesmo, nem com plástica costumam desaparecer. Mas digamos que, no caso de ditaduras, é bom que assim seja, servem, na falta de melhor uso, para nos lembrar de um tempo em que era proibido sonhar ou pensar. Como perdoar ou compreender uma violência tão atroz?
Mas vamos voltar à minha cidade, sempre linda e faceira, com ou sem ditadura. Chaves é muito luminosa, acolhedora, e esparrama-se languidamente pelas verdes e férteis margens do rio Tâmega, um afluente do Douro, que, como parte de nós, tem raízes na vizinha Espanha. O Tâmega, aliás, sempre foi a sua alma e o seu charme, e foi em volta dele, espreguiçando-se nas suas margens, que a cidade amadureceu. Na época aqui relatada, meados de 1962, pouco mais de dez mil habitantes tentavam sobreviver ao isolamento imposto pela ditadura, e levar uma vida que, ao menos, parecesse normal. Um dos nossos orgulhos são as Caldas de Chaves, um dos mais destacados balneários hidrominerais do mundo, que atende milhares de usuários a cada temporada, trazendo fama à cidade desde a antiguidade, e fortuna ao comércio e serviços, principalmente no Verão, que se estende de Junho a Setembro. A origem dessa maravilha está nos primórdios da própria fundação da cidade, quando os primeiros romanos que por ali se estabeleceram descobriram algumas nascentes de águas minero-medicinais, que brotavam do solo a incríveis 73 graus centígrados. Não era só a água que fervia, ferveu também o orgulho do imperador, quando o seu nome foi dado ao primeiro núcleo urbano ali iniciado, justamente para aproveitar e explorar aquelas águas milagrosas. Não importa se por bajulação ou mérito, o facto é que reza a história que os responsáveis pela descoberta resolveram dar-lhe o nome de Águas de Flávio, ou Aquae Flaviae, em latim. Fica assim explicada a razão de chamarem-se Flavienses, e não chaveiros, os felizardos ali nascidos, como eu!
Foi nessa singular cidade, com nome originalmente pomposo e história povoada de batalhas e heróis que eu nasci às 23h00 do dia 21 de Setembro de 1955. O meu pai , embora nascido no Rio de Janeiro, pertencia a uma família local, respeitada e tradicional, daquelas típicas famílias da classe média portuguesa de então, quase sempre com mais modos do que dinheiro. Meus avós paternos, ambos filhos de abastados lavradores das redondezas, mais por capricho do que por necessidade, pasmem, resolveram tentar a vida no Brasil e foram para o Rio de Janeiro no início da década de vinte. Já lá estavam quando os aviadores portugueses Carlos Viegas Gago Coutinho e Artur Freire de Sacadura Cabral, a bordo do Lusitânia completaram, em março de 1922, a primeira travessia aérea do Atlântico Sul. Meus avós achavam, talvez, que a vida no Rio de Janeiro seria mais branda do que nos confins de Trás-os-Montes, onde o clima e o povo, ambos de forte temperança, não combinavam muito com personalidades sensíveis, gostos refinados e mentes menos brutas. No orçamento familiar, o dinheiro, sempre o fascinante e vil dinheiro, rareava mais pela avareza típica dos patriarcas da família do que propriamente pela sua escassez. Era o estilo Serôdio (apelido do meu bisavô) de administrar a família. O meu avô não quis saber, pegou a delicada esposa, meteu-se num navio e, tal qual a família real em 1808, exilou-se voluntariamente no Rio de Janeiro.
A temporada tropical revelou-se um erro que duraria apenas dois anos, mas, para não perderem a viagem, ou contagiados pela lassidão e sensualidade dos trópicos, entre um samba de breque e um fado castiço, os meus avós acabaram por conceber a figura que seria o meu pai trinta e três anos depois. Nascia no bairro da Lapa, hoje baluarte da boémia carioca, Waldemar Pereira de Carvalho, com quem eu aprenderia muitas coisas ao longo da vida. Para ser franco, muito mais o que não fazer do que propriamente exemplos a seguir. O pequeno carioca, com apenas dois aninhos, em 1923, seria levado para Portugal pelos seus desiludidos pais, já convencidos pela dureza da vida de emigrantes no Rio de Janeiro, a aceitar o relativo conforto de Trás-os-Montes, trajeto que eu faria no sentido inverso muitos anos depois. Perversa ironia! Mas as boas ironias são assim mesmo, perversas e deliciosamente sedutoras. Ou sedutoramente deliciosas? Enfim, fiquemos com o benefício da dúvida.
De regresso a Chaves, os Carvalhos costumavam dizer aos amigos que no Brasil fazia muito calor, não sendo o clima muito saudável para criar um filho. O argumento, para os mais céticos, soava como alegoria de carnaval carioca. Na verdade, o que meus avós queriam dizer, é que não tinham o perfil típico dos emigrantes portugueses. O senhor José António de Carvalho, que pelos padrões de então já tinha estudado o bastante ao completar o quinto ano liceal, gostava das boas coisas da vida, era adepto fervoroso do carpe diem na sua mais mundana acepção. Quem pode culpá-lo? Vinha de uma família abastada, sem luxos mas com muitos mimos, e pouco habituado a calejar as mãos. Não aguentou muito tempo as agruras de ser emigrante, e só quem é ou já foi pode saber do que estou a falar. Ter que trabalhar de sol a sol para economizar algo que valesse a pena, não estava nos seus planos. Não, esse não era o seu sonho, não era a sua vocação, tinha apenas satisfeito mais um capricho de menino bem criado. Fim da odisséia brasileira. Início do calvário português!
Enfim, de volta ao torrão natal, trouxeram na bagagem o brasileirinho de pouco mais de dois anos. Meses depois, aprovado em concurso, o meu avô acabou por entrar para o serviço público, trabalhando como oficial de justiça no tribunal de Chaves, onde investiria mais de quatro décadas numa carreira cinzenta e sem brilho. Dizem que por conta da pouca simpatia que nutria pelo regime de Salazar, e pelas suas constantes críticas aos baixos salários e à ausência de meritocracia, colaram nele o rótulo de subversivo. Ainda tenho as minhas dúvidas se essa postura tinha algo a ver as com suas convicções políticas, coisa difícil de se ter, naquele tempo. Nem convicções era permitido ter, o que dirá políticas! Acho que o motivo era um pouco mais prosaico, mais pragmático, puro desentendimento entre patrão e empregado, mas, enfim, as coisas eram assim mesmo, quem não estivesse a favor do regime, por certo estava contra e teria que sofrer com o ostracismo e o esquecimento. Deixaram-no apodrecer ali, enterrado naquela sala sombria, desempenhando funções burocráticas no meio de um mar de servilismo por mais de quarenta anos. Aguentou enquanto pôde, reformou-se quando lhe permitiram e era infeliz ao morrer, em 1968, ainda sem poder ver a democracia na terra que tanto amou.
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Já o carioquinha Waldemar, esse é um caso à parte e merece um pouco mais de atenção, senão vejamos: pouco afeito ao trabalho pesado, talvez consequência da exposição prolongada ao calor da terra natal, o meu pai teve todas as oportunidades e não aproveitou nenhuma. Em vez de cuidar da própria vida como qualquer mortal adulto, preferiu empenhar-se numa briga de egos com o meu avô, como faria qualquer adolescente. Imaturidade? Insegurança? Vaidade? Orgulho? Insensatez? Misture-se tudo isso num pote e tem-se a matriz de comportamento do meu pai . Sabe-se lá por que, ou até mesmo por causa dessa indigesta mistura, fazia questão de optar por tudo quanto fosse profissão que desagradasse o sisudo senhor Carvalho do Tribunal. Parecia uma luta de (egos) gigantes, mas era pura sandice. Nunca consegui descobrir qual era mais teimoso. Mas também não sou a pessoa mais indicada para fazer essa avaliação, uma vez que, por (d)feito genético ou ironia do destino, também não sou lá um primor de tolerância em questões de princípio, nem muito flexível nas minhas opiniões. Defendo-as como se convicções fossem, e cultivo certa tendência para empacar feito mula, quando contrariado. Coisa de (mais um) menino Carvalho mimado! Quando vejo a minha inflexibilidade criticada, na tentativa inócua de aliviar a minha consciência, lanço mão de um argumento carregado de sofisma: que a teimosia é uma das características mais conhecidas dos transmontanos! Ora bem hajam. É sempre conveniente termos uma desculpa para os defeitos. Isso não os diminui, mas dá-nos a resposta que precisamos na hora da necessidade e alivia-nos o peso de termos que encarar a consciência quando finalmente ganhamos a discussão. Pois, tudo muito conveniente e prático.
O meu pai sempre teve uma paixão incontrolável pelo que chamava, carinhosamente, de “a roda”. Referia-se ao volante, qualquer volante. Era fanático por carros, camiões, tratores, enfim, tudo que tivesse rodas e motor! Só não foi mecânico porque isso exigia muito esforço e enforretava a roupa! Essa paixão, por si só, não seria um problema, não fosse o facto de que, mais ainda do que de volantes, ele gostava do que chamava de “liberdade”. Aí sim, a conjugação dessas duas paixões é que acabou por potencializar a capacidade de atrair problemas vida afora. Às vezes pego-me a desconfiar que tudo isso queria dizer que não gostava mesmo é de trabalho duro, mas posso estar a ser severo demais no meu julgamento. Se não gostava muito do trabalho duro não o culpo, afinal há tantas coisas melhores para se fazer na vida, não acham? Por que razão alguém iria gostar de trabalhar duro? Infelizmente a vida tem dessas idiossincrasias e por mais que tente evitar, há sempre uma força misteriosa que me impele a julgar o meu pai . Espero que meus filhos consigam ser mais condescendentes comigo, embora eu duvide que o mereça.
Mas não vão achar que o meu pai era algum malandro, preguiçoso, ou coisa que o valha. Nada disso, não vamos exagerar. À sua maneira trabalhou a vida toda. À sua maneira, claro. Só que isso significava não gostar de horários, de patrões, de regras, enfim, não gostar de um emprego regular. Talvez isso não fosse um problema se indicasse propensão para o empreendedorismo. Mas não. Também nunca demonstrou qualquer espírito empreendedor. Nos poucos negócios em que se meteu só perdeu dinheiro. Era dono de uma fórmula infalível: se algo despontava como negócio promissor, pronto, lá ia ele, geralmente com alguns anos de atraso, atrás de uma oportunidade. Mal se metia no ramo, entretanto, era só prejuízo e dívidas. Que homem azarado, nunca conseguiu ganhar dinheiro onde os outros o faziam. Parecia estar sempre um passo atrás do lucro, como se o perseguisse em câmara lenta, sem nenhuma convicção. Decididamente, senso de oportunidade não era o seu forte.
Muitos neurónios queimados depois cheguei à conclusão que lhe faltava tino comercial, faro para os negócios, ambição. Mas há outra maneira de interpretar essa coisa: talvez fosse honesto demais, incapaz de mentir, respeitava os amigos, cumpria a palavra, e isso não costuma fazer muito bem aos negócios, como bem sabem. Mas também não adianta negar – gostava de acordar tarde. Pois é, devia ser mesmo a tal da herança carioca, o certo é que nunca conseguiu levar adiante nenhum dos vários negócios em que se meteu. Foi assim com os táxis, foi assim com a comercialização de batatas “de semente”, foi assim com tudo que resolveu fazer. A única coisa que sempre fez muito bem e com devoção monástica, foi dirigir as viaturas dos bombeiros voluntários e o autocarro que transportava as equipes de base do glorioso e ingrato Desportivo de Chaves. Ah, é claro que ambas as funções, embora desempenhadas com extremado afinco por décadas a fio, nunca renderam um tostão. Era sempre um trabalho voluntário como voluntários são os bombeiros. Mas devia servir de desculpa para não se dedicar a outro que o remunerasse. Afinal, pensava, como poderia ter um emprego se precisava estar disponível para conduzir as ambulâncias e o autocarro do Desportivo? Pois é, sobrava voluntariado e faltava dinheiro, estávamos na presença do bom samaritano, teso, mas sempre prestativo. Mas quem se importava com dinheiro, esse detalhe sórdido que só é importante para quem o não tem? Dinheiro, ora o dinheiro! Vejamos isso por outra perspectiva: de certa forma, o meu pai foi precursor do trabalho de responsabilidade social tão admirado pelas empresas de hoje. É irónico, mas para quem sempre chegava atrasado aos negócios, nisso ele foi precoce e pioneiro! Penso que achava que ao agir assim, descuidando do trabalho remunerado em troca do voluntário, a sua folclórica excentricidade e o seu jeito ranzinza seriam tolerados mais facilmente, como se fosse um preço a pagar, um mal necessário. Pode ser, mas eu não creio. Não sei se ele se deu conta alguma vez, mas, em várias oportunidades, já avançado na idade, pude perceber que algumas pessoas apenas o suportavam por que ele lhes havia sido útil, mas não tenho notícia de que alguém tenha reconhecido o seu valor pelos (muitos) serviços prestados voluntariamente à comunidade flaviense. A exceção fica por conta dos Bombeiros Voluntários Flavienses, onde sempre foi respeitado, admirado e condecorado. Também… pudera, foram mais de sessenta anos ininterruptos de dedicação. Salvou a vida a muita gente com a habilidade e rapidez com que conduzia as ambulâncias pelas precárias estradas da região, a caminho dos hospitais do Porto. Hoje, esquecido e doente, os amigos escasseiam e ele vive de lembranças, como se fosse um museu vivo e cheio de novidades para contar. Orgulha-se de coisas a que ninguém mais dá valor, continua a enfrentar os seus moinhos de vento, como um D. Quixote transmontano! Mas está sozinho, não há mais nenhum Sancho Pança a aturar-lhe as esquisitices, que esses, ingratos que são, deixaram-se convencer pela realidade, venderam os sonhos e fingem-se de mortos.
Mas naquele tempo lá ia tocando a vida à sua maneira, e, diga-se, com admirável humor. Ninguém mandava nele, dizia, orgulhoso, levantando a sobrancelha esquerda, no que entendia ser um sorriso. Fazia apenas o que queria e o que gostava, e isso lhe bastava. Dinheiro? Ora dinheiro, isso era preocupação de gente sem classe, incapaz de sentimentos mais nobres e altruístas. Hoje, a caminho dos 90, ao vê-lo ali abandonado, prostrado pela doença que o come devagar, mas implacavelmente, repetindo, confuso, as histórias do passado, penso nos poucos momentos que consigo passar ao seu lado: este homem poderia ao menos ter sido feliz à sua maneira, mas desconfio que nem isso conseguiu. Como felicidade também pressupõe esforço, dedicação, mudança de paradigmas e, muitas vezes, renúncia ao orgulho, também isso se revelou tarefa impossível de cumprir. E tenho certeza de que o meu pai , embora sempre se esforçasse para disfarçar, nunca soube realmente o que era ser feliz. Começo a desconfiar que isso seja hereditário. Tal qual muitas outras mazelas que herdei da minha família, não será descabido supor que a incapacidade de ser feliz também tenha vindo incluída no meu pacote genético. Valha-me Deus!
Os factos relevantes, no entanto, é que devem ser ressaltados, e é preciso entender algumas circunstâncias na trajetória do meu pai, para que seja possível compreender algumas passagens da minha vida, e as influências que as determinaram. O relacionamento familiar esfarelado pela incompatibilidade entre o meu avô e o meu pai , sempre foi determinante para definir os rumos que a família tomou. A relação do meu pai com o meu avô, como já devem ter intuído, nunca foi muito saudável. Havia ali uma mistura perigosa de amor e ódio que construiu uma convivência muito conflituosa, e que acabou por determinar muitos dos factos desagradáveis que viriam. Desentendimentos são normais em qualquer família, principalmente nas famílias latinas, compostas de gente de sangue quente, nervos à flor da pele e língua afiada. Se até os anglo-saxões, com toda a tradição de fleuma e sangue frio, são capazes de esdrúxulas cenas de baixaria, como se pôde ver pelo rumoroso caso do príncipe Charles e sua cândida Diana, o que dizer de reles mortais gerados em famílias machistas e conservadoras, onde as aparências, mais das vezes, contam mais que o conteúdo! Pois bem, as brigas constantes entre o meu avô e o meu pai , ao fim de alguns anos, acabaram por esgarçar tanto os laços familiares que o resultado só podia ser a ruptura. Zeloso dos princípios de família vigentes na época, meu avô não via com bons olhos a tendência do filho para entregar-se a empregos, digamos, pouco à altura das possibilidades da família. De gerente de garagem (recusou a oportunidade de ser sócio) a auxiliar de escritório de advocacia (gabava-se de ser o datilógrafo mais rápido da cidade, como se isso fosse um feito a comemorar para o filho de uma respeitável família de abastados antepassados), O meu pai acabou por parar atrás do volante de um camião da Sapec, uma empresa de adubos de propriedade do Sr. Américo Teixeira que ficava ali na hoje chamada Rua 25 de Abril, em frente ao Grande Hotel. Não era um camião qualquer, como fazia questão de explicar aos mais céticos. Era uma Berliet de 40 toneladas, um veículo moderno, de procedência francesa, com o qual ele galgava as estradas esburacadas e sinuosas da região como se pilotasse a última maravilha da tecnologia aeroespacial. Enfim, cada louco com a sua mania, mas era até agradável ouvi-lo contar as peripécias das muitas viagens para o Porto, com os seus 180 quilómetros de intermináveis e perigosas curvas, ou dos pitorescos povoados onde ia distribuir os sacos de adubo para os pequenos agricultores transmontanos. O sisudo senhor Carvalho, meu avô, embora não visse essa profissão do filho com bons olhos, lá ia fazendo de conta que não se importava, e, no íntimo, torcia para que nenhuma ideia mais mirabolante saísse da cachola amalucada do filho. Justiça lhe seja feita, até entrou com uns “tostões” para que o filho, finalmente, pudesse ter o próprio camião. Tudo em vão. Novas e fortes emoções ainda viriam.
Lá pelo final de 1952 o meu pai cultivava com afinco outro dos seus hábitos: correr atrás de um bom rabo de saia, ou simplesmente de um bom rabo, de preferência sem a saia. Mais uma vez não o culpo. Que homem pode dizer que não é um hábito prazeroso? Entre uma aventura e outra, no entanto, e foram muitas e variadas, conheceu Lídia, uma bela jovem com pouco mais de 17 anos, espevitada como pimenta malagueta. Foi fulminante, paixão à primeira vista, dessas em que o coração bate na garganta, e nos exaure o fôlego só de ficar perto! Na época já homem feito, com mais de 30 anos, o meu pai sucumbiu aos encantos da morena, que, diga-se a bem da verdade, era da pá virada. Em pouco tempo, não sem a intenção de dar mais uma estocada no orgulho do pai, acabou por casar-se com aquela que viria a ser a minha mãe. A pobre miúda estava com 18 anos e ele com 32, ou seja, para os padrões da época, era um casamento pouco plausível, principalmente se considerarmos que a minha futura mãe não estava grávida. É claro que havia nesse relacionamento um componente potencialmente mais perigoso do que uma gravidez indesejada, que, se tivesse acontecido, até tornaria, aos olhos do meu avô, a união mais justificável. O problema, mais uma vez, era fruto do orgulho e preconceito de uma sociedade hipócrita, de um puritanismo indecoroso. Quero crer que o senhor Carvalho do tribunal não gostava da minha mãe porque descendia de uma família de padeiros, sem nenhuma tradição, títulos ou credenciais que não fossem o trabalho honesto e uma ou outra pequena propriedade, conquistadas não por herança, mas a duras penas, com muito suor. Não importa. Casaram-se mesmo assim, contra tudo e contra todos, mas, essencialmente, contra o bom senso. Em meados da década de cinquenta, depois de deixar o emprego de motorista de camião, que já tinha causado uma trinca na rígida couraça moral do orgulhoso senhor Carvalho, o meu pai decidiu, não sei se por seu cáustico senso de humor, se mesmo por vocação, comprar um táxi e passar a trabalhar na praça de Chaves, ironicamente situada bem ao lado do tribunal onde meu avô dava expediente. Olha aí a ironia novamente mostrando as delícias da sua perversidade! Obviamente ele não era um taxista comum, nada disso. Aliás, ele nem era um homem comum, nem ao menos um taxista! Enquanto os outros se esforçavam para chegar cedo para disputar os escassos clientes, o meu pai estacionava o carro na praça apenas após o almoço, e bem lá ao fundo, perto da Estalagem Santiago, bem longe da vista dos clientes. Isso tudo tinha uma razão – é que ele fazia questão de escolher quem queria transportar. No seu conceito, e nisso ele pode ter puxado um pouco à família, só transportava quem era merecedor (segundo a sua própria avaliação, claro) de pisar nos tapetes impecavelmente limpos do Mercedes Benz 180 D, matrícula MT-34-17, novinho em folha. Isso significava que ele limitava a clientela a umas poucas famílias da cidade, normalmente médicos, juízes, comerciantes, ou, no máximo, abastados lavradores amigos, desde que com as botas livres da lama transmontana. Com essa peculiar visão do negócio, a sua excentricidade fez história na praça de Chaves. Os (poucos) amigos verdadeiros que conseguiu admiravam-lhe o caráter reto, mas divertiam-se com as esquisitices pouco compatíveis com a profissão que escolhera. Ali era realmente um peixe fora d’água. Tinha muitas manias e parece que experimentava um estranho prazer em cultivá-las e exibi-las sempre que a ocasião surgia. Como o senso de oportunidade parecia não ser o seu forte, por vezes tornava-se inconveniente e apenas obtinha dos interlocutores uma mal disfarçada tolerância. Mas havia quem achasse divertido provocá-lo apenas para ouvir suas respostas pouco ortodoxas. Era dono de uma lógica indestrutível – daquelas que encerram uma discussão antes que ela comece, de uma língua afiada e de um humor cáustico e mordaz que fazia a alegria, e às vezes a raiva, de quem se colocava no caminho das suas verdades. Por exemplo, sempre prezou pela elegância, quer nos modos, quer no vestir ou falar. Afinal descendia de uma família de educação esmerada. A exemplo do Pai, tinha o quinto ano, considerado suficientemente bom para os padrões de então, e fazia questão de ser cortês com todos os que o cercavam, independentemente de classe social. Em suma, era quase um gentleman, uma espécie de D. Quixote britânico, se me permitem a ousadia.
Esta eu presenciei: certa vez, numa tarde cinzenta e fria de Inverno, com o termómetro a namorar os zero graus, lá estava ele a desfilar a irretocável elegância pelo passeio em frente à praça de táxis, no Largo do Arrabalde. Vestia um fato de lã, finos sapatos de cabedal (sola de borracha e botas são coisas de parolo, dizia com convicção), camisa social e gravata. Por baixo, e apesar do frio intenso, apenas uma camisola interior de flanela, de manga comprida, mais para evitar o contacto direto da camisa com o corpo do que para espantar o frio. Era assim que sempre se vestia. Fui encontrá-lo a passear na calçada, de um lado para o outro, a bater os pés no chão na tentativa de aquecê-los um pouco, esfregando as mãos uma na outra. Em intervalos regulares, abufava nas mãos em forma de concha. Nada de luvas, prendiam-lhe os movimentos e prejudicavam o tacto. Era o retrato da elegância desconfortável. Não havia como negar que estava com frio. Um dos amigos, o também taxista Américo Rambóia, embrulhado num pesado sobretudo de lã, com um pulôver de gola alta, luvas e cachecol, e mesmo assim tiritando de frio, perguntou à queima roupa:
– “Ó Waldemar, não estás com frio, carago?”
– “Claro que estou, e tu?” – disparou O meu pai em tom ríspido já a fazer-se à crítica.
– “Porra, como não hei-de estar? Está um frio de rachar!” – respondeu o Rambóia a bater os pés no chão e esfregando as mãos.
– “Pois bem o sei. Mas se estás com frio não precisavas andar práqui vestido como um espantalho! Deves andar com mais de uma arroba de roupa em cima do pêlo, nenhuma delas de bom gosto, e mesmo assim continuas com frio!? Que carago, já que sentimos frio, pelos menos eu ando elegante e sem perder a classe, caraças!” Arrematou o senhor Waldemar sem dar chance de resposta! Era assim mesmo, capaz de desarmar qualquer um com argumentos desconcertantes, improváveis até, mas impregnados de uma lógica difícil de rebater. Levava esse jogo muito a sério, e isso dava ainda mais prazer aos seus contendores ocasionais. Para ele, vestir-se era um ritual. Jamais usava camisola de lã, chapéu (despenteava o cabelo, dizia ele), gorro, luvas, cachecol, galochas ou qualquer calçado que não fosse de cabedal legítimo (inclusive na sola). O fato bem cortado, omnipresente, só aceitava a companhia de um leve pulôver de caxemira, daqueles com decote em “v”, de forma que permitisse visualizar a indefectível gravata estampada. As refeições eram outro ritual digno de apreciar. A mais informal demorava, no mínimo, uma hora e meia. Era meticuloso e difícil de agradar. Capaz de conduzir por várias horas só para comer um prato especial num restaurante de que gostasse, nunca permitia que se comesse o que quer que fosse dentro do carro. Entrava no restaurante, metia-se à conversa com toda a gente, fazia amizade, ia entrando pela cozinha, mexia com as cozinheiras, com as empregadas de mesa, enfim, era uma figura alegre e sempre bem-vinda em qualquer lugar. Mas era bastante exigente e tinha muitas manias na hora de comer. Gostava de batatas fritas, mas tinham que ser acabadas de fritar e colocadas no prato uma a uma, cortadas em dois pedaços. Enfim, era mais um ritual que consumia esticados minutos e impacientava um pouco quem não entendia a essência da arte de apreciar um bom prato, como ele costumava dizer. Havia também maneira certa de servir à mesa: “a primeira coisa que deve vir para a mesa é o pão e o vinho”, gostava de repetir. Concordo plenamente. Aliás, o que seria da vida sem rituais? Além de herança milenar, trazem organização e ordem, pois isso de viver em sociedade tem lá os seus mistérios. O importante é não levar as coisas tão a sério que resvalem para o comportamento obsessivo compulsivo, mas essa análise eu deixo para os psicanalistas, dos quais falarei mais adiante.
Do que o meu pai mais gostava mesmo era de conduzir. Qualquer que fosse o veículo, conduzia-o muito melhor do que a própria vida, pois para essa nunca teve muita habilidade. Um dia pilotou por vinte e três horas seguidas parando apenas para fazer as necessidades. Queria dormir em casa, justificava-se, como se tivesse algum apego à família. Viajar com ele era uma experiência deveras interessante. Não parava de contar histórias dos lugares por onde passava. Dono de uma memória prodigiosa descrevia lugares, situações, pessoas e episódios pitorescos de cada aldeiazinha do caminho. Mas viajar ao seu lado exigia preparo. Era preciso cumprir algumas regras, respeitar algumas manias. Primeira delas: nada de comer no carro.
– “Isto aqui não é restaurante. Se quiseres comer, paramos e comemos no lugar certo, aqui não.” – sentenciava sem deixar margem para argumentos. Por vezes alguém reclamava.
–“Mas, Waldemar, é só uma bolachita…Que mal há em comer uns biscoitos?” – A resposta estava sempre na ponta da língua: – “No carro não! Automóvel foi feito para viajar e não para comer. Uns biscoitinhos aqui, umas bolachitas acolá, daqui a pouco enche-se isto aqui de formigas e depois dá um trabalhão para acabar com elas. Não senhor. Se quiserem eu paro lá mais à frente, mas comer no carro não.” – Pronto, veredicto proferido, seguia-se a viagem e não se tocava mais no assunto. Aliás, ele não gostava muito de parar. No início da viagem dizia:
– “Façam as necessidades, comam, estiquem as pernas, que o depósito já está atestado e agora só paro no destino final. Quem não gostar, pode ir de autocarro que esse sim, pára muitas vezes. Eu não.” – No fundo era um chato, dirão os mais intolerantes. Pode ser, mas era um chato com quem eu gostava muito de viajar. Era um cromo esse meu pai ! E como é que eu poderia ser diferente depois de um aprendizado destes?
Pois é, mas nem tudo era folclore ou excentricidade. Havia coisas muito sérias a acontecer. O meu avô, já pouco contente com o rumo que o filho estava a tomar, nem imaginava que logo depois levaria o golpe de misericórdia no seu orgulho burguês. Como contei há pouco, em meados de 1953, o meu pai resolveu casar-se com a namoradinha, Lídia, a tal filha de um humilde padeiro da cidade, Manuel Abreu, mais conhecido como “Gaio”. Foi a gota d’água. As relações com o filho já estavam estremecidas pela lambança que este fazia com camiões, táxis e demais “volantes”. Não aguentou o ultraje de ver o filho, almofadinha, casar-se com uma rapariga sem eira nem beira. Numa atitude típica do temperamento tinhoso dos “Carvalhos”, cortou relações com o filho e entregou-o à própria sorte. Coitada da minha avó Arminda, uma santa mulher, apanhada no fogo cruzado. De um lado a personalidade forte do marido e o sentido de obediência que era lei naquele tempo, do outro lado o infinito amor maternal pela sua cria desencaminhada. Situação difícil numa cidade da província, onde todos se conheciam pelo nome de família e onde certas regras eram, por assim dizer, inquebráveis. Foi um Deus nos acuda, a família ficou dividida, o pessoal dos panos quentes entrou em ação, mas, nada feito. O meu avô, do alto do seu superlativo orgulho, não engoliu a afronta e não quis mais saber do filho taxista. O meu pai, cuja teimosia só não era maior que a paixão pela rapariga faceira, não mexeu uma palha para melhorar a situação. Encarou. Casou-se e foi viver com a esposa numa casa que arrendou a um colega dos táxis. Ficava na parte histórica da cidade, se é que alguma coisa na cidade não era histórica. Era na Rua do Anjo, uma viela estreita, cheia de casarões antigos com avarandados altos e paredes coloridas, que fazia a ligação do Largo do Anjo com o formoso Jardim do Bacalhau. A minha avó materna morava na rua de trás, onde mantinha uma bem afreguesada padaria familiar. E assim a vida seguiu em frente, com o meu pai a fazer de conta que trabalhava nos táxis sem se importar muito com as tinhosices do meu avô. Acho que fez muito bem. Afinal, não fora isso, eu não estaria aqui a contar a história.
Mais de um ano depois, em Setembro de 1955, eu fazia a minha estréia neste mundo, como já tive oportunidade de dizer. Vim trazido pelas mãos experientes da Sra. Marcelina, habilidosa e dedicada parteira da Casa de Saúde do Dr. Alcino, que, tendo-a a ela, não precisava incomodar-se com partos de gente pouco importante. Nasci lá mesmo, no segundo andar da residência dos meus pais, na Rua do Anjo. Alto lá! Rua do Anjo? Seria um presságio? Acho que não. Está mais para contradição ou ironia, pois tenho muitos defeitos, confesso, mas ser anjo não será um deles, isso eu garanto!
Ainda hoje, sempre que passo pela estreita ruela, não consigo evitar um arrepio de emoção ao lembrar o tempo em que ali vivi. Segundo a minha mãe, eu era um bebé esperto, agitado. Mas, também, que mãe não acha o seu filho esperto, não é verdade? Mas vamos relevar os exageros de mãe. Na verdade, eu era mesmo agitado, inquieto, chorão e muito mimado. Era o primeiro filho de uma paixão possessiva, como possessivas devem ser as paixões. Paixão tal que ignorou os “muxoxos”de uma influente família para seguir o seu curso e gerar os seus frutos. Não podia ser diferente. Eu era especial, tinha que ser. Loiro como o miolo dos pães de trigo que a minha avó assava no enorme forno a lenha da padaria, faces sempre rosadas pela proximidade do fogo, olhos pequenos e inquietos, só sossegava quando a minha avó, já cansada da choraminguice, me punha a dormir na masseira onde o pão descansava antes de ir para o abrasador destino no fundo do forno. Era só ajeitar-me ali ao lado da massa, aquecido pelo bafo quente das brasas, que eu encontrava o sono e dava algumas horas de paz àquela senhora altiva e nervosa. A minha mãe, ainda muito jovem e sem experiência, ocupava-se em tentar manter o impulsivo marido longe de problemas. Não era tarefa das mais fáceis. O meu pai sempre gostou da borga, de viagens, de alegria, e, infelizmente para a minha mãe, era chegado a “mijar fora do pote” algumas vezes. Ficou muito feliz com o nascimento do primeiro herdeiro, mas isso não era motivo para mudar o seu festivo estilo de vida. Dona Diamantina, minha espevitada avó materna, há muitos anos divorciada do também padeiro Manuel Gaio, além de assar pães e folares que faziam a alegria de parte da cidade, e o desgosto do ex-marido agora concorrente, ainda ficou com o ónus de ajudar a sustentar a família, já que por causa do estilo pouco ortodoxo que o meu pai usava para administrar a improvisada carreira de taxista, a “grana” era pouca e as despesas muitas. Sempre sobrava mês no fim do ordenado, e isso eu aprendi bem com ele. Até hoje não consegui reverter essa perversa herança, e os meses continuam a sobrar, cada vez com mais constância.
Em Janeiro de 1957 nascia a minha irmãzinha, Cristina, uma pessoinha miúda e tímida, que parecia querer pedir licença até para existir. Pela atitude do meu pai quando do nascimento da filha, ausente numa viagem com amigos, já se pode ver que a paternidade não era lá a sua vocação mais forte. Tampouco o casamento, como se veria depois. A minha mãe com a ajuda rabugenta, mas abnegada, da minha avó, foi levando a vida como pôde, driblando as dificuldades procurando entender aquele mundo novo onde se metera por paixão. Algum tempo depois mudámos para uma casa na Rua da Ponte, bem ao lado da casa do meu avô materno, com o qual, aliás, as nossas relações eram bem menos quentes do que os pães que saíam da sua padaria para abastecer boa parte das aldeias dos arredores. Lembro-me bem dessa casa. Um corredor estreito e comprido começava logo depois da porta verde da rua. Uma escada com doze grandes degraus de madeira escura levavam ao pavimento superior, onde era a moradia propriamente dita. Na frente havia uma varanda com balaústre de madeira rendilhada, pintada de verde escuro, que era a nossa área de lazer. Ali se desenrolavam as brincadeiras e as principais atividades do meu dia. Havia outra varanda nos fundos, que dava para os terrenos das margens do rio Tâmega, mas que era mais utilizada como área de serviço por ser contígua à grande cozinha. Não me lembro bem quantas divisões havia na casa, mas sei que era ampla, confortável e, principalmente, muito bem localizada. Ficava de frente para a rua principal da cidade. À direita, a cerca de dez ou quinze metros apenas, abria-se o Largo do Arrabalde, onde ficava o tribunal e a praça de táxis, coincidentemente, os locais de trabalho do meu avô e do meu pai. Em frente à nossa porta começava a Ponte Romana, monumento nacional que a todos enchia de orgulho. Nos dias atuais, de tão fotografada, Beto Serra, um amigo de infância, fotógrafo e blogueiro de primeira, alcunhou-a de top model. Com toda a justiça, fotografa bem por qualquer ângulo, acho que é a Giselle Bundchen das pontes! Toda construída em pedra, com dezoito arcos, naquela época já parte deles encobertos por construções urbanas que, ao longo dos séculos, foram mutilando a obra prima de Trajano, o imperador que dá nome à ponte, era por ali que desfilava toda a cidade. Até hoje, quase completando dois mil anos, a Ponte Romana é o ex-libris da cidade de Chaves, o seu maior orgulho, seu principal cartão postal. Quem a olha fica a pensar como os romanos, sem cimento ou betão armado, conseguiram erigir aquela maravilha, assentando pedra sobre pedra, aplicando apenas as leis da física e da engenharia, com uma perfeição de causar inveja aos arquitectos de hoje (principalmente àqueles que, muitos séculos depois, mutilaram o Largo das Freiras, com a sua estúpida noção de modernidade)! Mas a ponte, além de ser a continuação da rua principal, era, para nós, também, a melhor ligação com o bairro da Madalena, na outra margem do rio, onde meu avô residia. Isso significava, evidentemente, que o senhor Carvalho do tribunal era obrigado a passar várias vezes ao dia na porta da nossa casa, criando situações embaraçosas numa cidade como aquela, onde todos exerciam com prazer o desporto mais praticado: falar da vida dos outros. A Madalena era também a principal entrada da cidade, o que significa dizer que quase todos os que chegavam a Chaves eram obrigados a passar à frente da minha porta, transformando as minhas tardes numa festa contínua. Era um regalo! Às quartas-feiras, então, como era dia de feira (vinham as pessoas das aldeias fazer as compras à cidade e vender suas mercadorias e seu gado), o movimento era intenso e formava um mosaico divertido que nos encantava. Passávamos horas naquela varanda inventando histórias para cada figura que desfilava lá na rua. Às vezes descíamos para a calçada e por ali ficávamos, a admirar aquela gente, aquela azáfama que nos deslumbrava. De tão variada, a fauna humana das quartas-feiras, era o nosso zoológico particular. Nem precisávamos pagar, era tudo de graça! Convém dizer que naquela época nossas expectativas iam pouco além daquela ponte. Ela bastava-nos, era a passarela por onde desfilavam nossos sonhos. Nosso futuro parecia caber nos limites daqueles arcos. Protegido pelas grades de ferro não tardaria a fazer o caminho inverso, indo aconchegar-se nas velhas ruas da Madalena, com suas quimeras, histórias centenárias e muita, mas muita melancolia a servir de cimento para nossos desventurados alicerces. Seríamos mais duas vidas gastas ao redor das velhas árvores, a não ser que algo extraordinário acontecesse. Quem sabe?
II Visitas à casa do Sabugueiro
A família continuava cortada ao meio, cada metade fingia ignorar a existência da outra, e nós, crianças, sem darmos muita importância àquilo, íamos aproveitando da melhor maneira o facto de viver numa cidade em que tudo era para nós familiar, exceto a família. Mas crianças são fáceis de satisfazer, já o meu pai, esse, era bem mais difícil. Continuava nos táxis, escolhendo os passageiros que não lhe sujassem os tapetes do Mercedes, fazendo itinerários que não abusassem muito da suspensão e dos pneus Michelin que equipavam originalmente o bólido. Enfim, dedicava-se com afinco crescente a ser o que sempre foi: um idealista envolto num manto de excentricidade. Se calhar, um excêntrico embrulhado num manto de idealismo, o que viria a resultar na mesma impossibilidade. Mas era com certeza um homem mimado e imaturo, sem ambição ou planos. Não sei qual das definições melhor lhe cabe. Por isso vou deixar que o leitor escolha, pois como filho sou obrigado a desconfiar da minha improvável imparcialidade. As relações dele com a família eram tensas, camufladas, fingidas, quase como se não houvesse relações nem família. Não poderia ser diferente. Um dos irmãos, Hélder , veio a ser também chofer de táxi (assim se chamavam os taxistas), mas nunca foram muito íntimos. Embora irmãos com poucos anos de diferença, a verdade é que nunca combinaram, nem sequer se entenderam. Os feitios eram opostos. Tio Hélder era mais sisudo, mais puxado ao pai, enquanto o meu pai, apesar das esquisitices, sempre foi muito popular e circulava com certa desenvoltura pelas festas e arraiais da região. Aliás, com muito mais desenvoltura do que convinha a um homem casado e pai de família. Entretanto, desde que o deixassem ser como era, não incomodava ninguém, vivia intensamente, aproveitando cada minuto como se fosse o último. Como a um louco, era preciso não lhe contrariar as vontades e tudo estaria em paz. Curiosamente, esta interpretação que faço da personalidade do meu pai, é bom que se diga, não tem como base o conhecimento profundo que eu tenha dele. Apesar do seu permanente bom humor e de seu comportamento afável, nunca foi dado a confidências ou intimidades com os filhos, era retórico, quase uma personagem. Tampouco tinha o abraço fácil. Contacto físico, se o tinha amiúde e espontâneo, era lá com umas poucas raparigotas das aldeias, pois todos sabiam que as havia, espalhadas pelos portos onde ancorava o seu infalível paleio. O certo é que sempre teve dificuldade em demonstrar emoções sinceras. Escondia-se atrás das performances da personagem que criava para iludir a vida que se escoava por trás da aparente alegria. Ao iludir a si mesmo, tal qual o poeta fingidor de Fernando Pessoa, sentia-se mais seguro. Não tenho nada com isso, não escrevo para julgá-lo. Afinal, crianças não se metem nesses assuntos e adultos sabem a hora de fazê-lo, a qual, por certo, não é esta. Mas há coisas que não posso deixar passar, pois incomodam demais. Uma delas é o facto de nunca ter recebido dele um afago, um carinho, um gesto que não fosse a mais pura expressão da formalidade com que ele mesmo tinha sido criado. Não me lembro se nos meus primeiros anos era diferente, talvez fosse. Mas o que ficou, o que sempre me intrigou, foi a paradoxal certeza de saber que podia contar com ele sempre que precisasse, podia sentir o seu amor e a sua admiração por mim, mas nunca poder sentir a sua mão, os seus lábios, os seus braços em volta do meu pescoço, os seus dedos no meu cabelo… Disso não tenho memória. Por isso, a maneira como o descrevo aqui, passados mais de quarenta anos, é fruto da observação que a nossa convivência permitiu. É mais o resultado das espreitadelas ocasionais que eu conseguia dar para além da personagem com que encenava a convivência comigo diuturnamente. Tal observação, portanto, não deve ser entendida como juízo de valor, e por certo não valeria em juízo. Como pessoa curiosa e observadora, já me habituei a ver e interpretar comportamentos, a intuir sentimentos, enfim, a conhecer pessoas. Só agora me arrisco a tentar interpretar, mais com percepções do que com certezas, aqueles que atravessaram a minha vida num passado que às vezes confundo com o presente. Se errar na minha avaliação, ainda que tarde demais, aqui deixo meu reparo e peço tolerância para com os meus deslizes. Perfeição é coisa dos deuses, e deuses são seres perfeitos demais para existirem de verdade. Eu sempre preferi seguir exemplos mais humanos, mais compreensíveis, mas era difícil encontrar algum na família enviesada onde cresci. Na falta de alternativas, precisei crescer e ser guiado apenas pelo que dizia a minha consciência. A julgar pelo resultado, ainda não sei se fiz uma boa escolha, mas fiz a escolha possível, isso eu garanto, e este pensamento, por sinal, não poderia ser mais “Carvalhosamente” petulante! Ora, cada um com os seus demónios. Ainda é cedo para me julgarem, vamos aguardar mais alguns capítulos, deixem-me amadurecer mais um pouco. Vamos devagar com o andor que o santo é de barro.
Mas voltemos à Rua da Ponte e às brincadeiras com a minha irmãzinha. É claro que naquela época, eu com pouco mais de cinco anos e a minha irmã chegada nos quatro, não tinha consciência da confusão em que a minha família estava metida. As discussões passavam longe da minha compreensão, embora não dos meus ouvidos. Atritos, brigas e argumentos toscos eram coisas de adulto e pouco me importavam. Claro que não podia imaginar ainda até que ponto aquilo tudo poderia afetar-me. Era criança, agia como criança, queria e precisava ser criança. Mas as coisas também não eram bem assim. Já compreendia que havia algo errado, e nunca achei a minha família normal. Mesmo sem ter maturidade para entender as razões da minha família ser assim, tão esquisita, eu podia, ao menos, compará-la com as famílias dos meus amigos. Nesses momentos percebia que a minha não era igual. Havia mais mistérios, mais conversas pelos cantos, sempre um clima pesado, uma tensão no ar.
Apesar desse clima nublado, havia uma coisa que eu adorava e me deixava em polvorosa quando acontecia: eram as visitas à casa da minha avó paterna, Arminda, a mulher mais generosa que eu conheci em toda a vida. Só a visitávamos quando meu avô, que eu só conhecia de vista, se ausentava da cidade. Era divertido porque trazia para as nossas vidas um pouco de mistério e aventura. De vez em quando lá íamos nós até à Madalena, eu e a minha irmã e o meu pai (nunca a minha mãe, embora a minha avó Arminda nada tivesse contra ela, como, aliás, nada tinha contra nenhum ser vivo, principalmente se fosse católico e frequentasse a santa missa de domingo). Mas quando o meu avô se ausentava da cidade lá íamos nós a reboque. Atravessávamos a ponte, indiferentes aos quase dois mil anos de história impregnados em cada pedra que nos via passar, e rumávamos para a Rua do Sabugueiro, onde os meus avós possuíam uma casa enorme, com um grande quintal na frente, e um jardim que me fascinava. A casa tinha sido construída em cima da velha muralha que outrora delimitava o perímetro do burgo medieval. O terreno tinha duas frentes, ficava numa esquina da rua, aliás, na única esquina da rua. Por um lado chegava-se a um largo portão de garagem, onde cabiam doze carros com folga, estacionados de frente para a muralha milenar. Logo ao lado, uma pequena porta de metal dava acesso a um amplo corredor que terminava numa escadaria de pedra, com quinze degraus. Lá em cima ficava o tal jardim que eu adorava. Havia canteiros onde floresciam violetas, rosas e as famosas hortênsias da avó Arminda. Tinha várias árvores frutíferas, como uma figueira, duas laranjeiras, um pessegueiro e até um limoeiro. Num canto do jardim ficavam as instalações dos animais domésticos que era costume criar: eram as bezeiras dos porcos, o galinheiro, a coelheira e um enorme armazém lá no fundo, com cerca de duzentos metros quadrados, a que chamávamos de “palheiro”, embora nunca lá tivesse visto um fio de palha. Era usado como depósito, despensa e até cozinha típica, com escano e lareira. Ao lado ficava o lagar, onde, a cada Setembro, as uvas eram amassadas com os pés e produzia-se o vinho para consumo da família. Agora voltemos à rua. Lá em baixo, depois da esquina, o acesso era feito por um pequeno portão de ferro vermelho, ao qual se seguia um corredor de cimento, estreito, ladeado por plantas, que levava ao enorme portão de ferro forjado que dava acesso à escadaria de pedra de que falei há pouco, aquela com quinze degraus. Quem entrasse pelo pequeno portão vermelho podia ver à esquerda um amplo quintal, com mais de quinhentos metros quadrados, onde meu avô cultivava batatas, alface, cebola, morangos e algumas hortaliças. Tudo era irrigado por um poço com cerca de cinco metros de profundidade, cuja água era puxada por uma bomba manual que ficava lá em cima no jardim, e que, quando acionada pela manivela de ferro que movia a enorme roda, fazia jorrar a água em abundância para os dois tanques de cimento construídos ali para permitir a lavagem da roupa e a irrigação dos canteiros de flores. Para mim tudo era novidade. A casa da minha avó era quase imponente. A cozinha, iluminada por quatro amplas janelas de vidro martelado e folha dupla de madeira vermelha. Tinha até um hall que fazia a ligação com a sala de jantar. Entrava-se nela por uma porta, também vermelha, de onde se via a passagem para a enorme sala de jantar da família, só usada em ocasiões especiais. A mobília era antiga, pesada, cheia de peças que atestavam a tradição da família que ali morava. Era como um subtil recado: se não sobrava dinheiro, sobrava tradição, sobravam normas e costumes. Naquelas visitas furtivas que fazíamos, eu sentia que profanava um templo sagrado, sem que o Deus que ali habitava pudesse saber da minha presença ou seríamos todos excomungados. Deus me livre! Particularmente eu gostava da cozinha. Era ali que eram feitas as refeições diárias, numa mesa imponente e pesada, de madeira maciça de carvalho, que tinha um único pé com cerca de trinta centímetros de espessura, esculpido em forma de pata de leão. Lembro-me que essa mesa, redonda, se abria ao meio para a colocação de uma tábua embutida por baixo do tampo, que permitia acrescentar mais dois lugares. A entrada principal da casa era feita por uma porta construída em ferro forjado, pintada de vermelho, que ficava entre dois lindos canteiros de flores amarelas e azuis, acho que eram amores-perfeitos. Passando a porta, havia um estreito corredor de cerca de três metros onde havia um belíssimo aparador feito de madeira e mármore com alguns porta-retratos, louças antigas e uns poucos livros. De frente para o corredor havia a sala de visitas com uma pequena sacada por cima da garagem, que dava para a rua principal e era decorada com móveis de vime também vermelhos. Acho que meu avô já denunciava nas cores a sua intuitiva simpatia para com a esquerda socialista, mas isso ainda era assunto proibido em Portugal, capaz de levar a consequências perigosas quem nesse terreno se arriscasse. Por isso acho que ele se contentava em fazer do vermelho a cor predominante. Era talvez uma maneira simbólica de chamar a atenção, como que a dizer que se a vida na repartição pública era cinzenta e triste, pelo menos a casa transpirava cor e alegria.
Mas voltemos à casa. O corredor de entrada terminava num outro corredor mais longo, fazendo um “T”. Seguindo à esquerda chegava-se ao amplo quarto do meu avô, com duas enormes janelas que davam para a rua principal. A mobília era sóbria, de madeira escura trabalhada, com uma enorme cama de casal, um imenso guarda-fatos, uma penteadeira com um espelho oval de cristal, e dois criados mudos com gavetas e portas onde eram guardados os penicos de fina porcelana que eram comuns em toda a casa portuguesa da época. Voltando ao corredor, e passando pela porta da sala de visitas, encontrava-se o quarto da minha tia Dina, moça de belos olhos verdes, pouco passada dos trinta anos, e que, assim como a irmã mais nova, Nilde, era solteira e morava com os pais. Em frente ao quarto delas ficava a sala de estar, o ambiente onde a família mais convivia. Havia ali uma mesinha redonda, vestida com uma colcha espessa, costurada sob medida para cobrir do tampo aos pés, onde um estrado de madeira, com um buraco no meio, servia para receber a braseira de cobre que no Inverno aquecia os pés da família com suas brasas incandescentes. Por cima da mesa havia sempre uma toalha de croché, com elegantes desenhos florais, feita pelas mãos hábeis das mulheres da casa. Completavam a decoração da saleta, como era chamado o aposento, um velho rádio alemão Grundig, de ondas médias, e uma luminária de pé alto, que ficava atrás da poltrona de tecido ocupada pela minha avó. Quatro cadeiras com almofadas verdes faziam-lhe companhia. As paredes do casarão eram enfeitadas por figuras religiosas e retratos antigos da família. No fundo do corredor ficava a casa de banho, com azulejos brancos nas paredes e piso em branco e preto. Uma das paredes possuía uma janela de duas folhas que dava de frente para a escadaria de pedra que subia do quintal para o jardim. Uma banheira branca, de ferro, um bidé, um lavatório e uma sanita, faziam o conjunto que combinava com a brancura do esquentador a gás, um Junkers do qual, infelizmente, me lembraria por toda a vida depois que, anos mais tarde, fui encontrado desacordado e quase asfixiado pela inalação do dióxido de carbono que, na falta de exaustor, se concentrara nos meus pulmões. Mas isso não vem ao caso, e nem o devia ter contado, pois assim já ficam a saber que mais tarde para lá fui morar. Coisa de amador. Acho que jamais serei um escritor de mistério, serei mais um mistério como escritor, vá lá! O certo é que ao lado da casa de banho, numa das pontas do corredor, havia um pequeno pátio descoberto, um jardim de Inverno que servia como lavandaria, e onde conviviam, pacificamente, a botija de gás do esquentador e um pesado e obscuro oratório de madeira, peça de devoção da avó Arminda, que tinha uma figura de Nosso Senhor dos Passos, que mais assustava do que inspirava veneração. Na outra ponta do corredor havia uma porta que dava para uma estreita escada de madeira, com dois lanços e um patamar entre eles, que dava acesso ao piso superior, no nível do telhado, onde havia um corredor, e, à direita, dois pequenos quartos com telhado em forma de “V”, servidos por uma linda varanda comum, feita de tijolos e com acabamento em vermelho (olha o vermelho outra vez). Eram os quartos do sótão, ou mirante, como eram conhecidos. Serviam para eventuais visitantes de pouca importância, para as crianças que a família não tinha nem gostava de receber, ou para algum parente da aldeia de passagem pela cidade.
As escapadas para visitar a minha avó eram sempre divertidas. Exigiam bastante cuidado para impedir que meu avô nos apanhasse na terrível falta de visitar a santa mulher. O meu pai ficava lá conosco por algumas poucas horas, sempre que avisado pelas irmãs que meu avô estava fora da cidade. A minha avó recebia a gente com um gostoso lanche, muito carinho e, lembro-me bem, uma mal disfarçada ansiedade, provavelmente fruto da sensação de insegurança que experimentava por cometer o pecado de desobedecer ao intolerante marido. Para uma mulher criada sob princípios rígidos, dentro da mais tradicional moral religiosa, devia mesmo ser uma provação passar por aqueles momentos de escancarada rebeldia. Tenho certeza de que ela se debatia entre o prazer de ver os netos e o filho querido – sim, o meu pai, ironicamente, sempre foi o mais mimado da casa –, e o desconforto de agir pelas costas do marido, a quem, na concepção da época, devia cega obediência. Para um coração tão cheio de bondade como o da minha avó Arminda, aqueles encontros furtivos e ilegais deviam ser uma pesada penitência que ela, com a sua extrema e inabalável religiosidade, encarava com franciscana resignação. Alheio a tudo isso, meu avô seguia a sua rotina. Dava expediente no Tribunal de Justiça, onde os seus vencimentos mal faziam frente aos gastos da família, mas cultivava gostos sofisticados, incomuns para um homem da sua estatura social. Entre outras veleidades, só vestia fatos cortados pelos bons alfaiates do Porto, já que Lisboa, sua preferência, era tão longe que mais parecia ficção, capital de um país que em nada se parecia com o nosso. Mas não eram só as roupas que o atraiam na cidade grande. O meu avô sempre teve uma queda pela agitação e o glamour dos grandes centros, para onde ia frequentemente, em trabalho, e era apaixonado pelo teatro de revista. Gabava-se de apenas uma vez, sem alternativa, ter usado a carteira de oficial de justiça para conseguir assistir um espetáculo que tinha os bilhetes esgotados há várias semanas. Era assim mesmo, contraditório, orgulhoso da sua condição de funcionário público incorruptível, e ao mesmo tempo, incapaz de um gesto de tolerância para com o filho desmiolado ou de reconhecer a inocência dos netos que teimava em ignorar. Há uma cena que ilustra bem essa contradição, e que me marcou pelo absurdo da mensagem que transmite.
Certa vez estava com a minha irmã a brincar na calçada da Rua da Ponte, em frente à casa onde morávamos, na companhia da senhora Azeveda, a empregada que cuidava de nós e da casa, já que o meu pai, ou por estar ainda apaixonado, ou para aliviar a consciência pelas suas constantes ausências, não gostava que a minha mãe fizesse trabalho doméstico. Mas isso também iria mudar. Pois bem, como todas as crianças saudáveis, brincávamos com grande alarido. Eu corria atrás da minha irmã, que fugia em círculos e gritava desesperada como se escapasse de um perigoso maluco (pensando bem, a comparação não é assim tão descabida). De repente a senhora Azeveda aproximou-se de nós, pegou-nos pelas mãos encardidas e suadas, e encostou-nos às suas pernas, um de cada lado, apertados e imóveis. Não compreendi a razão, mas a velha senhora não deixava margem para dúvidas. Segurava firme como um polícia de choque, e não gostava de ser desobedecida. Troquei um rápido olhar com a minha irmã, como que a pedir apoio, e percebi que alguma coisa estava para acontecer. Alguns segundos depois a velha apontou para a esquina do Arrabalde e perguntou:
– Meninos, sabeis quem é aquele senhor alto, de chapéu, que vem ali na esquina?
Apenas balancei a cabeça negativamente, sem poder visualizar direito a figura a que a velha se referia. Cristina, a minha irmã, permanecia imóvel, como que à espera do fim do que para ela parecia uma brincadeira qualquer. – Pois aquele senhor é o vosso avô Carvalho, pai do senhor Waldemar, vosso pai. – Disse em tom de mistério, quase sussurrando.
– Não sabia que o meu pai tinha um pai, Azeveda – respondeu a minha irmã, entre decepcionada e curiosa. – Claro que o senhor Waldemar tem pai, mas é que não se dão muito bem e ele não vos conhece. – Respondeu a velha empregada como se cometesse uma indiscrição imperdoável. Eu estava a adorar aquela cumplicidade, mas não conseguia digerir muito bem a informação. Nem deu tempo, o homem estava a meia dúzia de passos. Nunca vou esquecer aquela figura ereta, com o queixo levantado, nariz empinado, chapéu de feltro escuro combinando com o impecável fato cinzento, gravata grená sobre uma alvíssima e engomada camisa. O meu avô devia medir pouco mais de um metro e setenta e cinco, mas naquele momento, para mim, aquela figura media mais de três metros e meio de altura! Com passos largos e firmes, a figura aproximava-se perigosamente, e eu, num reflexo involuntário, quase como num espasmo, apertei-me contra as velhas coxas da Azeveda, que ainda nos tinha agarrados à cintura. Aquele homem desconhecido, de rosto comprido, papada protuberante e fofa, olhos espremidos e grandes orelhas, estava agora a menos de três passos de nós e parecia assustador. Mesmo tendo sido impossível não nos ver ali tão perto, a sua cabeça continuava reta e o seu olhar já alcançava o meio da ponte. Foi então que nossa velha empregada, em tom desafiador, colocou-se à frente daquele homem e perguntou sem rodeios: – Ó senhor Carvalho, não quer conhecer os seus netos? – Prendi a respiração, aquilo estava a ficar complicado. Sem olhar para baixo, sem modificar o passo, e não demonstrando qualquer traço de emoção, o senhor Carvalho apenas respondeu: – Eu não tenho netos.
Eu era criança, mas aquilo eu percebi muito bem, e doeu. Não tinha sido uma resposta, mas uma sentença. Um veredicto sem direito a apelação. Do alto de seu orgulho cego, o meu avô tinha montado o inquérito, instruído o processo, presidido o júri e proferido a sentença, tudo sozinho, a um só tempo. Tinha decidido que nós, inocentes crianças com os cueiros há pouco tempo largados, estávamos impedidos de ter avô paterno. Estávamos condenados a uma família mutilada, rachada ao meio. Além disso, foi tal o desprezo da sua resposta, que mentiu despudoradamente! Além de nós, ele tinha netos sim. O meu tio Hélder , irmão do meio do meu pai, tinha dois filhos, o Zé e o Heldinho, quatro ou cinco anos mais velhos do que nós. Portanto, ainda que o meu avô não nos reconhecesse como netos, ele mentia, pois tinha-os, sim. Mas enfim, mentiras eram o prato diário daquela família. Eram tantas e tão bem contadas que mal as percebiam e chegavam mesmo a acreditar nelas, transformando-as em verdades, emprestando à versão a imponência do facto.
Era assim o senhor Carvalho do tribunal. Todo cheio de mimos no trato com a frágil esposa, e capaz de ser duro como uma pedra com quem o contrariasse ou ousasse desafiar o seu infinito orgulho. Ninguém poderia supor que aquele iceberg, que até as velhas pedras da ponte milenar reverenciavam, seria capaz, pouco tempo depois, de mostrar o lado humano e carinhoso que agora escondia com tanto afinco. Mas isso já é outra parte da história. Naquele dia aprendi que a soberba e a ignorância podem causar tanto mal quanto as armas. Fiquei perplexo. Não tinha a percepção exata da gravidade do que tinha acontecido, mas, de algum modo, senti que havia passado por um momento importante. Uma marca havia sido deixada, e ela seria testemunha eloquente do pior sentimento que o ser humano é capaz de produzir: a indiferença. Azeveda, irritada e incrédula, pegou-nos pelas mãos e arrastou-nos de volta para dentro de casa. Ainda pude ouvi-la dizer: – Ah senhor Carvalho, olhe que Deus castiga! – Creio que falava mais para ela do que propriamente para que o meu avô ouvisse. Ele já estava quase a meio da ponte, e aquela frase soou mais como um desejo do que como ameaça. A vida era assim, torta, rude, sem acabamento nem edição.
III As brincadeiras no Canto do Rio
A Rua da Ponte continuava a ser o meu mundo particular. Naquela calçada mandava eu. Passava os dias entretido com brincadeiras, sempre na companhia inseparável da minha irmã. Na casa ao lado morava meu avô materno, Manuel Gaio, cujas relações conosco, como já falei, também não eram das melhores. Só não sei porquê. Não deixaria de ser engraçado se fosse por não aceitar que a filha, de origem humilde, tivesse casado com o playboy filho do senhor Carvalho! Situação curiosa, a minha. Parece que para ter pai e mãe, eu tinha que abrir mão dos avós! Por alguma razão que até então eu desconhecia, a minha família tinha dificuldades enormes para se comportar como família. Talvez por isso os laços que construí com ela ao longo dos anos, nunca tenham sido muito importantes. Foram-se esgarçando, enfraquecendo, ficando cada vez mais formais e distantes, a ponto de eu ter dificuldade em dar à família a importância que outras pessoas costumam dar. Sempre que me defronto com amigos que sofrem com a ausência de familiares, ainda que sejam parentes muito próximos, fico meio que sem entender a razão do sofrimento. Sempre acabo achando que é falta de problemas maiores, fragilidade emocional, fraqueza de princípios. Para a maioria posso estar a revelar aqui uma inversão de valores, mas é assim que eu me sinto. Ao longo dos mais de trinta anos em que tentei construir a minha própria família partindo do zero, não obtive muito sucesso. Acho que acabei mais por desconstruir do que por estabelecer uma base sólida e saudável, com laços fortes. Pelo menos pelos padrões normalmente aceites. Mas afinal, o que são padrões? E o que é normalidade? Será que padrões eram os costumes e princípios que aquela sociedade gostava de cultivar? Aqueles empapuçados de hipocrisia e superficialismo, e que tantos desencontros proporcionaram? E podemos considerar como normal o facto de um cidadão de bem, no pleno gozo das suas faculdades mentais, ignorar a existência de dois netos só porque o filhinho querido resolveu seguir um caminho independente e não condizente com os tais padrões? A resposta, se é que existe, não deve ser fácil. Mas nunca me deixei intimidar por essas reflexões. Nunca fugi delas, e embora tenham sido inquilinas permanentes e perturbadoras da minha mente por todos estes anos, sempre as encarei de frente. Pelo menos eu procurei ser mais tolerante e flexível com a minha família, do que me ensinaram os exemplos daqueles anos de ferro. Na falta de uma família verdadeira, ensaiei algumas de mentira, por vários cantos do Brasil, espalhadas como sementes, talvez na tentativa de que germinassem algo mais interessante do que aquilo que consegui colher da safra original. De uma coisa me orgulho, orgulho idiota, dirão alguns, mas mesmo assim, um orgulho, uma meta, um princípio, quem sabe um padrão normal? Sempre mantive um relacionamento civilizado, por vezes até amistoso, com todas as mulheres que cruzaram o meu caminho com alguma relevância. Sou o rei das ex-esposas, o ex-marido que todas gostariam de ter, e, por isso mesmo, um fantasma esmaecido, assombrando a normalidade do relacionamento delas com os atuais maridos. Não perco o sono com isso, provavelmente são homens inseguros, incapazes de aceitar a minha concepção de normalidade familiar. Quem pode entender! Mas, pelo sim e pelo não, é melhor não perguntarem a elas (ex-esposas) se concordam com esta minha teoria. Conheço bem as surpresas que a alma feminina nos reserva. E como esperar imparcialidade e benevolência de mulheres feridas pela minha maneira peculiar de amar? Pensando bem, talvez seja melhor deixar as coisas como estão. Afinal, se, como dizem os humoristas, cunhado não é parente, nada nos faz supor que ex-mulher seja parente. Se bem que, com a experiência que eu tenho de família, talvez o segredo seja mesmo confiar e buscar apoio em pessoas estranhas, de fora do círculo familiar. Acho que ex-esposas, se não fosse pelos seus ciumentos maridos, poderiam cumprir bem esse papel! Uma coisa é certa, essa minha desconfiança em relação à capacidade da família de nos confortar nos desgostos e sofrimento, deve ter sido responsável pela tendência que sempre tive de me abrir com estranhos. Parece que quando falo dos meus problemas, ou procuro ajuda com estranhos, por estes não terem a menor obrigação de ajudar, sequer de ouvir, diminuo muito o risco de decepção, caso o resultado não seja o que esperava. Afinal, qualquer esforço, qualquer gesto amistoso, qualquer tentativa de ajuda vinda de um estranho, tem a capacidade de nos surpreender positivamente e nos fazer acreditar que, afinal, o ser humano ainda vale a pena. É mais ou menos como se, num repente, numa rendição incondicional ao ceticismo, descobríssemos que, quem tem uma família provavelmente não precisará de inimigos, e estará mais seguro na companhia de desconhecidos. O problema desse raciocínio é que nos transfere uma carga de responsabilidade difícil de suportar. Significa dizer, meus amigos, que na vida estamos absolutamente sozinhos e precisamos buscar, no escuro profundo da alma, as soluções, o conforto, as razões e o brilho que podem iluminar o caminho e ajudar a encontrar as saídas. Convenhamos que não é tarefa das mais simples. Egoísmo, baixa auto-estima, egocentrismo e experiências ruins acumuladas, podem revelar-se maus conselheiros e transformar-se em obstáculos poderosos, impedindo a visão do fim do túnel. Ou então, e eis-nos de volta ao princípio, negar-nos o acesso aos padrões de normalidade. Por isso mesmo quem é que nunca se viu a pensar: ao diabo com os padrões! Ou então: quem é que sabe o que é ser normal? Pois é, não podemos é desanimar. O ser humano é assim mesmo, complicado, confuso, contraditório, cruel e amável, egoísta e generoso, lobo e cordeiro, e, por isso mesmo, absolutamente fascinante. Mas por ora chega de filosofia de algibeira e voltemos às brincadeiras do Canto do Rio.
Por volta dos seis anos ganhei de presente um triciclo a pedal. Era um brinquedo caro, objecto de desejo de qualquer miúdo da minha idade. Foi-me presenteado pelo “tio” Flávio, na época marido (bom, mais ou menos marido), da minha madrinha, a Tia Maria, irmã mais velha da minha mãe, que tinha ido embora para o Brasil em busca de melhor sorte. Aliás, nesta altura, já quase toda a família da minha mãe tinha ido para o Brasil. Foi assim com o Lelo, o irmão mais velho, que fugiu da severidade do pai e da falta de perspectivas da vida às margens do Tâmega. Foi assim com o Zeca, o irmão do meio, que não demorou a seguir os passos do irmão, e foi o caminho também trilhado pelo Lelito, irmão mais novo da minha mãe, fiel escudeiro durante o tempo em que os meus pais namoravam, não fosse o Waldemar aprontar alguma antes do tempo. Para onde o casal ia, tinha que levar o Lelito a tiracolo. Ordens da xerifa, Dona Diamantina, preocupada com o namoro da filhinha de dezoito anos, com o experiente marmanjo de mais de trinta. Sábia senhora, reconheço hoje! Cabe esclarecer que Lelito era filho apenas da minha avó, fruto de um relacionamento pós-divórcio. Naquele mesmo ano, 1961, a minha avó Diamantina, aliás, embarcaria para o Brasil, para juntar-se aos filhos já encaminhados na vida. A duras penas, deixava para trás a filha mais nova, casada com o excêntrico e inconsequente menino bonito dos Carvalhos, e dois netos inconformados pela súbita separação daquela que, mais das vezes, era avó, mãe, amiga e protetora, embora não abrisse mão de uns merecidos cascudos de vez em quando, ora pois, que a democracia ainda demoraria a chegar. Resumindo o cenário familiar materno, a minha mãe contava apenas com a presença do pai, o meu avô Gaio, com quem, se bem se lembram, não mantinha relações muito próximas, apesar de viver porta com porta. Os irmãos, todos mais velhos, nunca se desligaram da influência do pai e chegaram a trabalhar com ele na padaria da Rua da Ponte, enquanto a minha mãe tinha sido criada pela minha avó, auxiliando na padaria da Rua do Aljubre, lá no bairro do Anjo. O facto da minha mãe ter ficado com a minha avó na separação, mais o casamento com o taxista esquisito e snob, teriam sido as razões do afastamento dela com o pai. Olhando agora para trás e conhecendo os dois como eu conheço, posso garantir que a personalidade forte de ambos, e a incapacidade de levarem desaforo para casa, com a ajuda da grande possibilidade de atrito facilitada pela convivência forçada nos limites de uma cidade com menos de dez mil habitantes, devem ter contribuído muito para sedimentar esse afastamento. Mas tudo bem, no que me dizia respeito, pelo menos de vez em quando, o meu avô materno falava comigo e até me levava para alguns passeios no velho Fiat Balila, modelo 1938, carro com mais manhas e segredos do que toda a família junta. O meu avô Gaio não era homem dado a amabilidades, nem de sorriso fácil, mas lembro-me dele como pessoa justa, de caráter reto como o ralo bigode e de grande capacidade de trabalho. Dormia sempre antes do pôr do sol e mal o dia clareava já estava entregue à tarefa de distribuir o pão e cuidar da quinta que possuía nos limites da cidade, no Campo da Fonte.
Mas voltemos ao meu triciclo de última geração. Era um brinquedo com estrutura tubular, pintada na cor vermelha (olha o vermelho aí outra vez!), com um manípulo cromado, uma reluzente campainha do lado esquerdo e um selim com acabamento de curvim bege, em forma de triângulo, mais ou menos como o das bicicletas atuais. A roda dianteira era bem maior que as duas pequenas rodas traseiras, em cima de cujo eixo se assentava uma caçamba de madeira, em forma de caixote, com cerca de 50 centímetros de largura por 30 de altura. O charme da geringonça era uma alavanca de ferro com cabo de madeira, localizada na lateral direita, que, quando acionada, causava um efeito basculante na pequena caçamba de madeira, despejando no chão tudo que estivesse dentro dela, ou seja, era quase como ter um triciclo de carga! Não havia nada igual na cidade e eu era alucinado por aquilo. A brincadeira mais interessante consistia em colocar a minha irmã na caçamba, pedalar com a maior força que conseguisse, e, quando atingisse a velocidade máxima, malandramente, acionava a alavanca, deixando a pobre criatura estatelada na calçada, com as pernas para o ar, entre contrariada e divertida, pois não podia negar que a brincadeira, dentro de certos limites, era engraçada. Passávamos boa parte da tarde entregues àquela diversão, que quase sempre terminava quando os hematomas nas pernas dela começavam a incomodar mais do que as broncas e advertências da minha mãe. Quanto menos Cristina gostava da brincadeira, mais eu curtia e me empolgava. Criança é assim mesmo, cruel e sádica, como só os desprovidos de senso de responsabilidade e pesos de consciência podem ser. Há quem chame isso de inocência, eu chamo de ausência de culpa, talvez uma liberdade com jeito de psicopatia.
Um dia levei um susto enorme. Brincava com a Cristina na beira do rio, a cerca de duzentos metros da porta de casa. O Tâmega, no Verão, era pouco caudaloso. Chovia pouco nas cabeceiras lá na Galiza, e o leito chegava a secar em alguns períodos de estiagem mais acentuada. Naquele dia, a água no trecho que passava por baixo da ponte de Trajano tinha pouca profundidade. Podiam ver-se uns rapazotes entregues à deliciosa tarefa da guerra de água, lá mais no meio do leito, perto do quinto arco. Com as mãos em forma de concha, enchiam-nas de água e procuravam molhar quem estivesse mais perto. Ao final da brincadeira saíam todos ensopados, mas felizes. Entravam no rio só de cuecas (calções de banho era coisa inútil numa região cuja praia mais próxima ficava a mais de três horas de penosa viagem). Deixavam o resto das roupas arrumadas numa trouxinha na escadaria que dava acesso ao rio pela margem do lado de lá, no bairro da Madalena. Nesse tempo, embora a ponte, como já disse antes, tivesse originalmente dezoito arcos, só doze estavam visíveis. Desses, apenas nove estavam sobre as águas do Tâmega, os outros três, todos do lado do Arrabalde, estavam já em terra firme e permitiam que se passasse por baixo deles como se fossem uma extensão da rua. Também serviam de garagem improvisada para os três primeiros carros que lá chegassem ao anoitecer. O meu avô era um dos usuários mais assíduos, o Fiat Balila tinha ali a sua residência oficial. Pois era nesse espaço, passando por baixo de um desses três arcos, que eu gostava de brincar. Utilizava o que ficava mais próximo da água, claro, era o mais perigoso e por isso o mais sedutor. Toda a margem do rio, daquele lado, possuía um muro de contenção, que impedia que o aumento do caudal oferecesse perigo para as residências próximas. Esse muro devia ter cerca de dois metros de altura, talvez um pouco menos. A largura das pedras que o arrematavam em cima, numa espécie de parapeito, devia ser de mais ou menos setenta centímetros, formando uma espécie de pista, um passeio reto e liso que servia de ciclovia improvisada para aqueles com coragem suficiente para desafiar o perigo de despencar da altura de dois metros e mergulhar nas águas calmas do rio. Pois era ali que eu gostava de experimentar a sensação de pedalar com a máxima força, flertando permanentemente com a possibilidade de cair na água e acabar, na melhor das hipóteses, por levar um puxão de orelhas da minha mãe. Sendo a queda em direção à água do rio, não havia grande perigo, pensava eu, na ingenuidade típica da infância. Entretanto, havia um detalhe que eu não costumava levar em conta: não sabia nadar, e até tinha certo receio de água! E seria por isso mesmo que eu gostava daquele desafio. A mistura de medo e prazer sempre foi um poderoso elixir que viria a proporcionar-me muita adrenalina, muitas vitórias e muitos transtornos ao longo da vida. Acho que me viciei nessa sensação, o perigo calculado, a aventura atenuada pela certeza de sobreviver. O facto é que sempre fui atraído pelo novo, pelo desconhecido, sempre fui mais de experimentar do que de “ouvir falar”.
Nessa tarde lá estava eu com os meus companheiros inseparáveis, o meu triciclo e a minha irmã. Meia dúzia de miúdos brincavam no meio do leito com a água pelos joelhos, não mais que isso. Senhores de idade caminhavam pela margem, em direção ao Jardim do Tabolado, algumas centenas de metros ao sul, local onde aconteciam os namoricos mais afoitos, e onde os adultos costumavam esticar as pernas em modorrentos passeios, antes de tomarem a sua dose diária da poderosa água das Caldas, que jorrava gratuitamente na fonte ali localizada, aquela, a dos romanos. No local havia uma “buvette”, assim chamavam ao bucólico recinto em estilo retrô, onde a Câmara tinha instalado o atendimento aos que procuravam a água como terapia, como curiosidade, alívio para o estômago maltratado pelo pecado da gula, ou pela simples falta do que fazer. Frequentemente, uma mistura de tudo isso era o que os levava até lá. Era preciso sorver a água com pequenos goles, para evitar queimar o céu da boca e a garganta, já que a natureza a entregava, como já disse antes, a mais de 70 graus centígrados. Mas fazia um bem danado para digestões demoradas, males do fígado e reumatismo. frente, local onde aconteciam os namoricos mais afoitos, e onde os velhos iam esticar a pernas e tomar a sua dose dircionar-me O Jardim do Tabolado era um ícone da cidade. Tinha um extenso relvado, com amplas alamedas de terra batida, bancos de madeira pintados de branco, candeeiros de mais de um metro de altura em forma de cogumelos, ou “tertulhos”, como diziam os da aldeia. Esta bela área de lazer começava a cerca de duzentos metros dos arcos da ponte, e acompanhava o leito do rio, na direção sul, estendendo-se por uns seiscentos metros com uma leve curva à direita no meio do percurso. A mureta de amparo do rio acompanhava todo o correr da margem, prolongando aquela pista improvisada, minha ciclovia particular, por toda a extensão, da Ponte Romana até à chamada Ponte Nova, da década de quarenta, construída lá mais ao fundo, junto à nascente das Caldas. Pois era nesse belíssimo recreio que eu fazia jorrar a adrenalina na corrente sanguínea, arriscando perigosas pedaladas, bem próximo ao desnível da margem, por sobre o corredor de pedra formado pelo arremate do muro. Naquele dia eu parecia mais inspirado do que nunca. Enquanto pedalava furiosamente pela estreita trilha, sob o olhar temeroso da minha assustada irmã, não percebia o olhar de apreensão que me dirigiam alguns idosos que caminhavam a passos lentos na direção do Tabolado. Ocupado em provocar Cristina, que eu percebia encolhida de medo, chegava a ousar tirar uma das mãos do manípulo, e seguir naquela correria desabalada e irresponsável, virando a cabeça na sua direção para apreciar o deslumbramento, misto de medo e admiração, daquela criatura que, do irmão, tudo parecia aceitar. Não satisfeito com isso, e aproveitando uma pausa para recobrar o fôlego, perguntei malicioso?
– Oh Cristina, não queres subir aqui no atrelado? – Era assim que eu chamava a caçamba do triciclo. – Não, tu vais-me fazer cair! – respondeu ela hesitante. Tal qual um pitbull que fareja o medo no oponente, imediatamente provoquei: –És uma cagona, não tens coragem pra nada, nem pareces minha irmã, carai! – Pronto, estava armado o circo. Cristina não suportava que eu duvidasse do seu companheirismo, da sua solidariedade, muito menos que eu insinuasse que poderia não ter o meu sangue. Após alguns segundos de “profunda” reflexão, entregou o jogo: – Prometes que não vais puxar a alavanca do atrelado? – Eu, já empolgado com a possibilidade de mais diversão, nem pensei duas vezes: – Prometo. Juro que não puxo, anda cá, vais gostar disto! – respondi sabendo que não cumpriria a promessa e fazendo aflorar um sorriso tão cruel que só a inocência de uma criança é capaz de produzir. A coitada lá se encaixou no atrelado, como sempre, de cócoras, segurando firme na parte posterior do selim onde eu me sentava. Rumei para a beira do rio, alinhei o triciclo no trilho de pedra lisa formado pelo muro de arrimo, e preparei-me para pedalar o mais rápido que conseguisse. Após meia dúzia de metros, pressentindo o perigo, a minha irmã suplicou: – Pára Rui, quero descer, tenho medo, não quero brincar mais. – Aquilo enfureceu-me, odiava gente que voltava atrás, que dava o dito pelo não dito, como se eu mesmo não o fizesse constantemente! Parei por alguns instantes e tentei convencê-la a continuar. – Cagona, tens medo de tudo, como é que vais ter filhos quando fores velha? – Provoquei, meio sem noção. Enquanto ela procurava entender o significado das minhas palavras, e, possivelmente, o que ter filhos tinha em comum com andar de triciclo, avaliei o cenário da minha aventura. À minha frente estendia-se o trilho de pedra por mais de quinhentos metros, livre e a convidar-me para o (nem tão) inesperado desfecho. À minha direita, a rua de terra com cerca de vinte metros de largura, separava-me das casas que se alinhavam da ponte ao Tabolado, e por onde alguns adultos passeavam sem pressa. À minha esquerda, cerca de dois metros abaixo, as águas calmas do Tâmega, cuja placidez só era quebrada pelos gritos dos malandrotes que brincavam lá no meio, com a água a lamber-lhe os joelhos. Obviamente nada havia que me protegesse de cair no rio se perdesse o equilíbrio, ou se, numa breve distração, não conseguisse manter a corrida em linha reta e tombasse para a esquerda. A minha irmã sabia que nenhum dos dois era capaz de nadar, por isso se recusava a embarcar comigo naquela irresponsabilidade. Pressentindo que ela ia desistir de vez, arrisquei o suborno:
– Cristina, se continuares a brincadeira podes ficar com o chocolate que o paizinho me trouxe da Espanha! – Aquilo tinha que dar certo, era a minha última esperança. – E tu inda tens chocolate, por acaso? – A pergunta justificava-se, pois eu sempre acabava com o meu para poder comer o dela em seguida, nem que fosse à força! – Pois tenho, guardei um cibinho pra comer amanhã na escola. – Menti descaradamente, sem pestanejar. – Se eu concordar contigo prometes que me dás o chocolate? – perguntou, ingénua, já quase aceitando. –Prometo, eu juro. – Nem me importava de jurar falso, só pensava na farra que ia fazer com ela dentro do atrelado. – Tu não vais descarregar o atrelado comigo lá dentro, pois não? – ainda insistiu ela. – Juro que não. – respondi, já impaciente. – Está bem, eu vou, mas vai devagar, estou com medo. – Pronto, lá fomos nós ao encontro de mais alguns hematomas. Reiniciei o trajecto pedalando devagar, segui em linha reta por mais de dez metros e então comecei a aumentar a velocidade. A minha irmã segurava-se como podia e, aos gritos, pedia para eu ir devagar. Sem lhe dar atenção, pedalei ainda mais forte, e, cerca de vinte metros à frente levei a mão direita à alavanca que acionava o atrelado. Cristina, percebendo o perigo iminente, gritou desesperada: – Não puxes, não puxes, estou com medo… pára… pára… – No segundo seguinte puxei a alavanca com firmeza fazendo com que o atrelado, no seu movimento basculante, deixasse a minha irmã esparramada nas pedras do piso. Para meu azar, entretanto, a sua perna esquerda ficou presa dentro do atrelado, e, no esforço para libertar-se, ela acabou por fazer com que o triciclo se inclinasse perigosamente para a esquerda. Instintivamente virei o guidão para a direita na tentativa de evitar a queda, mas a força centrífuga venceu a batalha, e, enquanto o triciclo dava duas cambalhotas e se precipitava na água dois metros abaixo, eu resvalei pelo muro, rasgando os joelhos, a calça e a auto-estima. Podia ter sido pior. Tive sorte, um arbusto esquisito que crescia a esmo do leito raso do rio para o muro, amorteceu a queda e permitiu que eu caísse de rabo na água, molhando os fundilhos, depois de alguns infinitos segundos tentando, em vão, segurar-me na folhagem do arbusto. Pensando bem não tive tanta sorte. Preciso confessar que não era uma folhagem qualquer, era um vitaminado e implacável ramo de urtigas que me deixaria com coceira nas mãos pelos dois séculos seguintes! Um par de minutos depois, atraídos pela gritaria da minha irmã, dois adultos conseguiram resgatar-me, com alguns arranhões, a roupa rasgada e completamente encharcada, e o orgulho mais ferido que os joelhos! De mãos dadas com a minha irmã e rebocando o triciclo que nada de grave sofreu, percorri os duzentos metros que me separavam de casa no mais absoluto silêncio, já pensado nas palmadas que levaria da minha mãe tão logo ela soubesse da aventura. Dito e feito, assim que nos viu naquele estado e depois de ouvir as explicações da minha irmã (esta tinha a péssima mania de contar tudo, fazendo sempre parecer que a culpa era minha) acabei por levar uns cascudos e ficar de castigo pelo resto do dia. Mas o pior não foi isso, nem a ardência causada pelo mercúrio com que a minha mãe, num toque de sadismo e à guisa de vingança, me “embeloutou” os joelhos feridos. O pior foi que, não sei bem porquê, naquele dia resolvi cumprir a minha promessa e achei que a minha irmã bem merecia o chocolate. Muito a contragosto, com os olhinhos escorridos de gula, entreguei-lhe o bocado que, com tanto sacrifício, tinha conseguido guardar. Por alguma razão, aquela tinha sido a parte mais difícil daquele movimentado dia de aventuras.
Nos dias atuais, quem se der ao trabalho de observar atentamente o meu relacionamento com a minha irmã, não terá nenhuma noção da cumplicidade que nos unia quando crianças. As brincadeiras na Rua da Ponte, e a generosidade com que a Cristina suportava as minhas peraltices, eram apenas a ponta mais visível de uma admiração e amizade que iam muito além dos laços fraternos. Ela, na verdade, e eu nunca soube a razão, era absolutamente dependente da sua relação comigo. Alimentava-se dela como se aquilo fosse garantia de sobrevivência. Acompanhar, proteger e imitar o irmão mais velho eram atividades que ela desempenhava com esmero e dedicação. Eventualmente essa postura podia ser atribuída também ao costumeiro ciúme existente entre irmãos de idades tão próximas. Não descarto a hipótese de que, muitas vezes, ela simplesmente quisesse disputar a atenção que eu, como primogénito e varão, merecia da família, principalmente do meu pai. Entretanto, não se pode negar que havia nela certa fascinação pelo comportamento extrovertido e inconsequente do irmão.
Essa fixação, por vezes produzia situações inusitadas e hilariantes. Certa vez, fruto da minha inquietude, e com a avidez por explorar o mundo à minha volta que sempre alicerçou o meu comportamento impulsivo, acabei, vejam só, por enfiar um grão de milho no nariz. Sim, é verdade. Brincando com o grão amarelinho que havia encontrado no chão, não sei por que motivo, razão ou circunstância, o dito cujo foi introduzido na minha narina esquerda. Assustado com a súbita dificuldade para respirar, usei a ponta do dedo indicador para tentar desalojar aquele corpo estranho. Com a pouca habilidade manual que sempre me foi atribuída, acabei por empurrar o bendito grão ainda mais para cima, fixando-o a uma profundidade que inviabilizou a sua retirada com o uso dos dedos. Com medo da reação da minha mãe (ela sempre dizia que eu tinha mais medo que vergonha! Não sei o que exatamente ela queria dizer, mas devia estar certa, pois os sarilhos, comigo, estavam sempre garantidos), não comentei o incidente e deixei o grão de milho ali mesmo, passando a respirar pela boca, acreditando que o tempo se encarregaria de resolver o problema. Evidentemente que estava enganado. Alguns dias depois, com o nariz um pouco dilatado e a respiração irregular, a minha mãe percebeu que havia algo errado. Olhou-me de frente e perguntou: – Oh filho, o que tens? Parece que o teu nariz está vermelho, inchado! Estás constipado, filho? – Receoso das palmadas que levaria se confessasse, esquivei-me como pude: – Não tenho nada mãezinha, estava a coçar o nariz e ficou vermelho, mas eu não fiz nada. – Acho que o meu tom de voz defensivo, ou meu olhar ansioso em busca do apoio da minha irmã fez o alarme materno disparar. Acredito que não se pode mentir para as mães, elas sempre sabem que há algo errado e a situação só piora a cada mentira, por menor que seja. Nada convencida com a minha resposta, ela resolveu aproximar-se e inspecionar-me o nariz com mais cuidado. Pois era isso que eu não queria! Quando ela espreitou a narina esquerda, segurando-me pelo queixo e forçando a minha cabeça para trás, exclamou preocupada: – Mas o que é esta coisa amarela que tens aqui? Ora deixa lá ver o que é isto, anda cá, fica aqui na luz, filho, deita-te aqui que preciso espreitar lá no fundo. – Pronto, tinha sido apanhado. A bronca seria pesada e eu comecei a ficar corado e com os olhos lacrimejantes. Para encurtar a história, tive que confessar que havia introduzido o milho no nariz e que não tinha conseguido resgatá-lo. Quando lhe disse que já se tinham passado alguns dias, ficou claro que era necessária uma visita ao médico da família. Lá fomos nós, eu com a orelha quente de tanto ouvir sermão, a minha irmã acompanhando tudo com curiosidade, sem parar de fazer perguntas, choramingando, decepcionada dizia: – Só ele é que vai ao médico? Eu também quero ir ao doutor, mãezinha. – Como criança é irritante! Tem ciúme até da desgraça. – Queres mesmo ir ao doutor? Queres tomar injecção, filha?– Arriscou a minha mãe para ver se acabava com a conversa. – Injecção não mãezinha, mas outro dia o doutor deu ao mano um xarope docinho! Eu nunca vou ao doutor pra ele me dar xarope! – Não sei como as mães aguentam estas disputas. É um dom especial, uma habilidade que poucas vezes tem o seu mérito reconhecido. – Mas filha, o teu irmão meteu um milho no nariz, olha como está inchado, também queres ficar com o nariz inchado, queres filha? – insistiu a paciente senhora. – Inchado não, mas eu queria que o doutor me desse o xarope docinho, mãezinha! – Após breve pausa, Cristina arqueou as sobrancelhas exatamente como o meu pai costumava fazer e atacou confiante: – Já sei, vou meter um milho no nariz também, se o Rui pode, eu também posso, não posso mãezinha, não posso? – A minha mãe não sabia mais o que fazer! Hesitava entre consolar o meu choro de medo da consulta, e argumentar com a minha irmã sobre a igualdade de direitos entre irmãos quando levada ao pé da letra, e suas inevitáveis consequências. O habitual pragmatismo de “dona Lídia” rapidamente pôs fim ao dilema: deu um vê se te avias nos dois e apressamos o passo em direção à clínica. Após um breve exame, o médico concluiu que o milho havia criado raiz na mucosa nasal e estava germinando. É impressionante! Um milho germinando no meu nariz e a minha irmã com inveja! A coisa foi tão séria que o clínico teve que fazer uma micro-cirurgia para extrair o grão de milho antes que se transformasse numa plantação e atraísse os melros e os tordos que usam os lindos milharais transmontanos para os seus vôos rasantes e as suas degustações ocasionais.
Acho que tínhamos uns quatro para cinco anos de idade. Essas disputas eram frequentes e exigiam dos meus pais uma habilidade extraordinária para administrar conflitos. Era preciso muita paciência, muita conversa, e, muitas vezes, pulso firme e um par de puxões de orelha. Mas vamos esquecer essa última parte, pois hoje isso caiu em desuso, é politicamente incorrecto. Os pais preferem crianças mal educadas e inseguras, enfim!…
Os dias que se seguiram passaram dentro da mais absoluta normalidade, e isto quer dizer com muitas zangas, disputas, arranhões e hematomas, até que, cerca de duas semanas depois, o nariz da minha irmã amanheceu irritado, vermelho e dilatado. Pronto, ela tinha levado a sério a tal questão da igualdade de oportunidades. Questionada com firmeza pela minha mãe, Cristina acabou confessando que tinha introduzido no nariz uma pérola que se soltara de um colar, e que havia encontrado no tapete do quarto do casal. Incrédula, a minha mãe segurou a filha pelos ombros e disparou: – Filha és maluquinha, és? Então não vês que isso é perigoso, que com essas coisas não se brinca? Porque fizeste uma asneira destas?Meu Deus, dai-me paciência e calma! – apelou. Cristina, de cabeça baixa, olhinhos molhados, ouvia tudo em silêncio. Com as mãos largadas ao longo do corpinho delgado, fazendo beicinho e fungando o inchado narizinho, respondeu com aquela cara de anjo que derrotava qualquer intenção menos carinhosa que a minha mãe pudesse ter: – Eu avisei, se o Rui pode, eu também posso. Eu também quero ir ao doutor tomar xarope docinho, não achei milho, então meti a bolinha do teu colar! – Pronto, estava enunciado o conceito universal de igualdade entre irmãos que a minha pequena parceira perseguia com afinco. Aquilo até parecia voto de casamento, aquela conversa fiada de “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”, lembram-se? Pois é. Sem chance de dar bronca perante aquele ar de desamparo, lá foi a minha mãe com os dois até ao médico para extrair a pérola do nariz da filha. Não sei o que o doutor disse, que conselhos deu à minha mãe, mas que deve ter ficado com a impressão de que éramos uma família de malucos, isso eu não duvido. Mas Cristina saiu de lá com a receita de um xarope arrancado a poder de algumas lágrimas e muito senso de isonomia. Já valeu!
Mas eram assim aqueles dias, era assim a nossa infância, fazíamos o que achávamos certo, agíamos como se a vida nunca fosse capaz de separar-nos, como se ela fosse um bem infinito. Vivíamos uma época de inocência que há muito se foi. Não havia televisão, videogame ou videotape, era a diversão em estado puro, a vida em directo. Pouco sabíamos das agruras dos adultos, pois se soubéssemos, duvido que tivéssemos tanta pressa de crescer. E tínhamos! Como toda a criança achávamos que bom mesmo era ser adulto. Hoje, já desgastado por mais de meio século de bofatadas do destino, passo horas a fio tentando enganar a insónia, na esperança de reviver, ainda que em sonho ou pensamento, um pouco da inocência que a experiência me roubou. Em vão, é claro. O que consigo é só ficar cada vez mais triste, e perceber o quanto o tempo nos embrutece, o quanto reduz a nossa capacidade de ter esperança, o quanto é implacável com os nossos sonhos, o quanto reduz as ilusões a pó, como dizia o poeta Cartola em sua infinita sabedoria popular. Pois é meus caros, o mundo é mesmo um moinho, oh se é!
IV O jardim-escola João de Deus
Eram dias felizes, despreocupados, vividos com a certeza de que a vida era maravilhosa e sem riscos, com deliciosa irresponsabilidade. Claro que não sabíamos de nada, éramos crianças cheias de energia e esperança. Mas as coisas não tardariam a mudar, e nossos sonhos seriam, senão castrados, pelo menos envenenados com certa dose de realidade. O certo é que nunca mais seríamos os mesmos, pois passaríamos por experiências para as quais nenhum ser humano está preparado, por mais que se prepare, o que nem era nosso caso, claro! Como alguém pode estar preparado para enfrentar a vertigem desse ciclo interminável que nos leva da esperança à decepção como se fôssemos passageiros de um combóio desgovernado? Sem que possamos fazer nada para evitar o desastre, a não ser aprender a conviver com as consequências dele? O que aconteceria nos meses que estavam por vir, contribuiria decisivamente para moldar a minha personalidade e determinaria a forma como me relacionaria com o mundo dali em diante. Resumindo: eu tomaria altas doses de vida real e sem retoques. Eu amadureceria à força. Como se estivesse recolhido a uma colónia de embrutecimento, eu conheceria de perto a hipocrisia como meio de subsistência, e adotaria o ceticismo como projeto de vida. Alheia a tudo isso, a roda do destino continuava a girar, e a minha história seguia o seu curso.
Naquela época eu frequentava o jardim-escola. Estudava no João de Deus, uma instituição particular que gozava de grande prestígio e era cara para os nossos padrões. Mas eu não pagava nada, frequentava-a gratuitamente por conta do “Tio Flávio”, um gentleman brasileiro que fazia as vezes de marido da minha tia Maria, irmã da minha mãe, e que era um benemérito da escola, ajudando a mantê-la e dando dinheiro para a construção do novo prédio que seria inaugurado em breve. Por causa desse parentesco eu estudava com os filhos das melhores famílias da região. Não que a minha não fosse boa, mas, enfim, digamos que era quase boa! Aos olhos da elite, tisnada pela arrogância do falso moralismo, pela hipocrisia cevada no preconceito, eu era o filho de um taxista a estudar lado a lado com a aristocracia burguesa. Esta, claro, sempre de nariz empinado a querer impor e preservar o seu padrão de comportamento, a proteger o seu mundinho onde cada um deveria ter o seu lugar, desde que o lugar dos outros fosse abaixo do deles, claro. O importante, para mim pelo menos, é que não tenho memória de alguma vez ter sido discriminado pelos colegas nesta fase, isso é facto. Os meus amigos, fossem de que estrato social fossem, eram mesmo meus amigos e nunca sofri nenhum tipo de discriminação. Éramos crianças e o mundo ainda não estava dividido em castas nas nossas brincadeiras desprovidas de preconceitos. Contribuia muito para que não percebêssemos os defeitos da sociedade hipócrita o facto de convivermos pouco com os adultos das outras famílias. Havia naquele tempo certo cuidado em preservar a intimidade familiar, não era comum, como hoje acontece, que uns frequentassem a casa dos outros. Desta forma, na escola e na rua éramos todos iguais e amigos, e, dentro de casa, cada um vivia seu universo particular, refugiava-se nas suas crenças e era educado segundo as normas de cada família, normas essas que eram sempre muito parecidas. Se isso era bom, não sei. Se isso influía no nosso comportamento lá fora, talvez. Se isso determinou parte do que somos hoje, é bem provável. Mas não nos preocupávamos com esse tipo de análise e nenhum regime familiar ou classe social impediu que as amizades ali iniciadas se perpetuassem e tenham sido trazidas, ao longo de mais de quatro décadas, até os dias de hoje, apesar das distância que nos separa e das escolhas que fizemos. Amizades como aquelas, definitivamente, nunca mais se fizeram, o que me leva a concluir que acertámos nas escolhas, foi apenas o tempo que errou.
Todos diziam que eu era um garoto muito inteligente, astuto, bom com as palavras, capaz de influenciar e convencer quem me desse dois dedos de conversa. Mas também era rebelde, teimoso e de temperamento explosivo, pavio curto, muito curto. Apesar de franzino, miúdo até, a minha personalidade forte era fonte permanente de conflitos com colegas, professores e família. Curiosamente, atravessei toda a infância e adolescência sem me envolver em brigas. Os conflitos nunca chegavam às vias de facto. A lógica dos meus argumentos e a habilidade para conciliar interesses antagónicos, sempre me livraram dos confrontos físicos – o que foi uma benção, dada a escassez dos meus músculos – e acabaram por consolidar certa liderança, quase sempre exercida por instinto, intuição ou falta de alternativa. Resolvia tudo na conversa, era questão de tempo e oportunidade, mas eu recusava-me a admitir que a violência fosse uma alternativa, e naquele tempo muitas vezes era, sim. Sem recorrer a ela exerci sempre grande influência sobre colegas fisicamente mais avantajados e até com idade superior. Não tenho dúvidas em afirmar que a minha segurança, ou a segurança que parecia transmitir, era o aspecto mais marcante da minha personalidade, era o que seduzia e impunha algum respeito. Aprendi cedo que tão importante como ser alguma coisa, é parecer alguma coisa, convencer os outros de que somos o que eles pensam que somos, ou gostariam que fôssemos. Por vezes a saída é convencer os outros de que somos exatamente o contrário do que eles pensam, mas isso é raro, serve apenas para despistar, para ganhar tempo. Enfim, desde muito jovem percebi a força da estratégia, do raciocínio lógico, das aparências sob controlo. Aprendi a distinguir o facto da versão, e a usar ora um, ora outro, de acordo com a conveniência do momento. Saibam que ninguém vai muito longe sendo sincero o tempo todo, negando-se a jogar o jogo de sinais. Melhor que evitá-lo, é aprender-lhe as regras e vencê-lo. Nunca ninguém desconfiou que, paradoxalmente, o meu excesso de confiança era, na verdade, uma forma ardilosa de esconder a insegurança, a instabilidade, a propensão ao improviso. Ou seja, a minha arma mais letal era, ao mesmo tempo, a minha maior fraqueza. Sou assim, gosto de me proteger com o avesso do avesso, mas cedo percebi que todo ser humano, assim como eu, o que quer é colo. Se soubermos dar-lho e negar-lho na medida certa, teremos achado o caminho para a manipulação. Não pretendo dar aqui nenhuma aula sobre comportamento humano ou psico-sociologia, pois para tal não tenho preparo. Entretanto, e pelo sim pelo não, espero que nenhum político se entusiasme com este parágrafo, ou as coisas podem ficar ainda piores do que já são numa sociedade que, por incrível que pareça, parece não se importar em ser manipulada por eles.
Eu não gostava muito de estudar, mas como era inteligente, a simples presença nas aulas fazia com que desse conta do recado. Até a puberdade sempre fui um dos melhores alunos da escola, surpreendia os professores com perguntas (im)pertinentes, ajudava os colegas, questionava o que não era capaz de perceber, enfim, cumpria o meu papel de aluno aplicado, criança inteligente e interessada. Parecia já acreditar que o que move o mundo não são as respostas, mas as perguntas, a curiosidade. Sempre fui um pouco precoce. Aos nove meses já dava os primeiros passos, e ao completar quatro anos estava alfabetizado. Gostava de ler e de falar. As habilidades que hoje garantem o meu sucesso profissional, aparentemente, e embora de forma embrionária, já se manifestavam nos primeiros anos de escola. Muitas vezes era punido por falar demais. Isso não mudou muito, ainda sou boquirroto. A língua destravada e ferina ainda é a razão dos meus maiores dissabores. Já em criança tinha opiniões demais, ignorava os códigos de comportamento que os mais velhos esperavam dos rapazotes como eu, e pagava por isso, muitas vezes levando uns cascudos dos educadores, quer na escola quer em casa, que a varinha de cerejeira do avô Carvalho nunca foi prá reforma! Os mais atentos, entretanto, já podiam ver indícios de um inconformismo e de um desassossego que, no futuro, viria a causar-me muitos contratempos, alguns problemas sérios e, principalmente, muita dor de cabeça e dificuldades. Mas também muita paz de consciência. Sempre tive enorme dificuldade para lidar com o que considere injustiça. Alguma força maior, vinda da boca do estômago – pelo menos é ali que a sensação de angústia se manifesta com mais intensidade – faz com que me meta onde não sou chamado, desde que perceba o menor indício de injustiça. Simplesmente não consigo ficar alheio, passar ao largo, fazer de conta que não é comigo. No jardim-escola isso ainda não era nítido, mas era uma característica embrionária. Já se manifestava aqui e ali, no defender de um amigo de brincadeiras humilhantes, no contestar uma ou outra norma esquisita estabelecida pelos mais velhos, enfim, sempre tentava dar algum sentido ao estilo autoritário dos educadores, da família, e da sociedade em geral, fazendo-os ver, com certa ingenuidade, claro, que era possível considerar outras opiniões sem que isso significasse abdicar da autoridade, ou demonstrasse fraqueza moral. Pelo contrário, achava que estavam exatamente na flexibilidade e no perdão as maiores forças do ser humano. Evidentemente ainda não pensava assim de forma organizada e lógica. Com minhas atitudes apenas dava forma concreta às percepções, à intuição, a um chamado que vinha de dentro da alma, ou da boca do estômago, como disse antes. Enfim, era um idealista e não sabia! Mas também, convenhamos, quem não é idealista até aos vinte anos? Mais das vezes eram atitudes intuitivas, tomadas com impulsividade e genuíno interesse de melhorar o mundo. Mas vivíamos num regime fechado, numa ditadura civil, com o país controlado com mãos de ferro pelo, ao mesmo tempo obscuro e brilhante Dr. António Salazar, e a minha constante rebeldia, o meu idealismo, não eram tolerados nem compreendidos. Obviamente eu não sabia disso, nem imaginava aonde isso poderia me levar. No que diz respeito à ditadura, duvido até que a minha própria família tivesse consciência plena do processo de isolamento que afastava Portugal do resto do mundo e que seria responsável por mais de quatro décadas de subdesenvolvimento, de crimes contra a liberdade e os direitos humanos, cometidos em nome da manutenção da ordem, e do desejo de manter Portugal longe do que o regime pensava serem más influências externas. Era ainda muito cedo para todos, mas tenho a certeza que a forma como vivemos, o ambiente onde nos desenvolvemos, é capaz de influir de forma bastante direta no nosso modo de ver a vida, e determinar, em grande parte, os principais traços da personalidade. Não sou psicólogo, não tenho competência para afirmar até que ponto isso é cientificamente comprovado, mas, o conhecimento que acumulei vivendo da melhor maneira que consegui os últimos cinquenta anos, as lições que pude tirar de diversos episódios, transformaram essa percepção em certeza. Creio que certo espírito libertário já podia ser identificado na época no meu comportamento inconstante, e ainda é um dos princípios que norteiam boa parte das minhas escolhas. Deixemos, portanto, que os especialistas e a história nos ofereçam a última palavra. Tudo que não quero com este livro é filosofar, fazer reflexões académicas, ilações levianas ou apontar caminhos e soluções. Muito menos justificativas para os erros e acertos que cometi. Sou humano, sou contraditório, sou cheio de defeitos, como humana, contraditória e cheia de defeitos é a vida. O único julgamento que cabe aqui é o teu, leitor. É para ti que escrevo, é a ti que dedico a minha história e só a ti cabe decidir se ela valia a pena ser contada, só a ti é permitido fazer julgamentos. Mas até a ti peço comedimento, cuidado e tolerância. Talvez até aquela que não tive ao escrever, mas enfim, prova-me que podes ser melhor que eu e já terá valido a pena. Entretanto procura não ser injusto. Como já disse, nunca lidei muito bem com injustiças e posso querer vingar-me de vós, leitores, escrevendo mais livros! Além disso, a esta altura da vida, o julgamento dos leitores pode influenciar o juízo que faço de mim, pode dar-me mais uma última e indigesta decepção comigo mesmo, e desta forma atrapalhar os planos de uma velhice, se não feliz, ao menos digna. Preciso acreditar numa velhice com a certeza do dever cumprido e a realização de ter feito filhos, plantado árvores e escrito livros! Em nome de quê me tirariam esse prazer?
Voltando ao jardim-escola João de Deus, há um episódio que a minha mãe conta com orgulho, e que dá uma amostra clara da personalidade, do jeito tinhoso e do atrevimento que eu já manifestava na infância. E não pensem que me orgulho disso. Quem ficou orgulhosa do episódio foi a minha mãe. Eu acho que só exercitei a minha teimosia.
Em meados de 1962, então com seis anos, era preciso encarar as provas finais no João de Deus. Era início de Verão, o ano lectivo estava encerrado, e seria preciso mudar-se, em Outubro, para o ensino primário, onde a maioria começava o seu processo de alfabetização, e para onde eu já iria com folgada vantagem. As tais provas do jardim-escola consistiam, entre outras coisas, numa disputada apresentação oral, sendo o aluno sabatinado por uma junta de três professores, na presença dos colegas, pais, familiares e funcionários da escola. Era uma espécie de festa de encerramento do ano lectivo, mas era mais um sarau cultural, à moda antiga, com muita pompa e pouca brincadeira. Ali eram apresentadas aos pais e familiares as habilidades adquiridas ao longo do ano, os conhecimentos introduzidos nas cabecinhas quase virgens daquelas crianças. Fazia-se também uma exposição de trabalhos manuais, uma apresentação de dança, declamação e leitura, enfim, era uma festa que procurava provar que o investimento feito nos filhos havia resultado em conhecimento e formação adequada. Mas era indiscutível que o ponto alto do evento era a famosa e temida apresentação oral, com os pequerruchos a serem “examinados” por rigorosos mestres, que escrutinavam todos os cantos daqueles cérebrozinhos inquietos em busca do mais leve sinal de ignorância, insegurança ou falha de aprendizagem. Aquele tinha sido o meu último ano de jardim-escola e estava preparado para a sabatina. A minha humilde mãe lá no meio do auditório, misturada com as ricas mães dos outros finalistas, aguardava ansiosa a minha performance. Havia também tios, primos, vizinhos, enfim, toda a fauna que costuma fazer-se presente nessas ocasiões, uns para admirar as habilidades da canalha, outros, não se enganem, apenas para torcer por um tropeço que lhes dê a ilusão (ou esperança) de que os seus sejam melhores ou mais capazes. Enfim, era uma feira de vaidades, um circo romano onde nós fazíamos o papel dos cristãos atirados aos leões. Naquela tarde de Junho todos estavam lá, exceto o meu pai, claro, que devia estar ocupado a impedir que algum parolo necessitado de um táxi metesse as botas enlameadas nos finos tapetes do seu Mercedes Benz. Sinceramente nunca soube a razão da ausência do meu pai num momento importante como aquele. Talvez ele achasse que coisas assim eram de mulher, que homem que é macho não se presta a esses papéis, o de ficar ali ouvindo cantilena, apreciando trabalhinhos de tecido e pinturas de guache produzidas por meia dúzia de miúdos, ainda que um deles fosse o seu. Pois não sabe o que perdeu. Se o que a minha mãe conta foi verdade, e tudo indica que sim, o miúdo deu um espectáculo de gente grande. A coisa passou-se mais ou menos assim: num determinado momento daquela manhã, fui chamado ao palco, ou estrado, para, perante a junta dos três professores, provar as minhas habilidades e meus conhecimentos. Ali estava eu, indefeso e ridículo com aquele bibe um tanto maricas, de xadrez castanho e branco, a olhar curioso para a enorme plateia que se apinhava no auditório, à minha esquerda. Tentava manter a concentração para decifrar o que aqueles três carrascos ali à minha frente tinham preparado para me torturar em público. Aquilo era a minha inquisição particular, ia ser queimado na fogueira. Eram dois homens e uma mulher, todos professores de escolas de outra cidade, provavelmente de Vila Real, não sei dizer ao certo, só sei dizer que a mim me pareciam hostis. A minha mãe também não se lembra de onde eram, mas garante que tinham cara de poucos amigos e que, a julgar pelo meu aspecto, temeu pela higiene dos meus calções por baixo do avental. No seu modo de ver as coisas não seria de estranhar que, caso eu fosse pressionado além da conta, saísse mijado do confronto, humilhado de vergonha e sedento de vingança. Coitada da minha irmã, meu alvo preferido em momentos de frustração! Segundo relatos da Dona Lídia, é assim que, carinhosamente, chamo a minha mãe hoje em dia, eu até estava a dar conta do recado com competência e certo brilho. Respondia de forma segura, pensava rápido, olhava nos olhos dos inquiridores, desculpem lá, professores. Não apresentava nervosismo e, de forma geral, acertava nas respostas, fazendo aflorar um tímido sorriso de aceitação no professor que perguntava, e olhares de admiração na plateia. Lá pelas tantas, a professora, uma senhora alta, com o cabelo armado num picho, sobrancelhas finas, olhos espertos escondidos atrás das grossas lentes dos óculos com aro de tartaruga, boca afilada, com os cantos dos lábios inclinados para baixo, que lhe davam um ar carrancudo e de mau humor, levantou-se da sua cadeira, postou-se, ereta, à minha frente e disse:
– Oh Ruizinho – Começou mal, eu odiava que me chamassem pelo diminutivo. – Diga-me cá uma coisa: é capaz de escrever aí no quadro à sua frente “Chaves, princesa do Tâmega, é uma cidade que faz fronteira com a Espanha?” – desafiou ela com ar emproado e arrogante. – Sou capaz sim, senhora professora. – respondi confiante.
– Então escreva, ande lá: “Chaves é a princesa do….”
– Pronto senhora professora, já escrevi. Avisei enquanto tentava descobrir a razão daquele exercício. Estava desconfiado, pois não via nenhuma dificuldade naquela frase, nem onde isso podia nos levar. A esquálida senhora leu com atenção, franziu o sobrolho, envergou ainda mais os cantos da boca numa careta ameaçadora e fuzilou: – Está mal escrito menino Ruizinho, há duas palavritas grafadas de forma incorrecta. Por acaso sabe quais são? – De novo o “Ruizinho”! Aquilo começava a irritar-me, e os nervos tiravam-me a concentração. Respondi seguro de mim: – Não senhora, não vejo nenhuma palavra mal escrita – disse, enquanto conferia de esguelha o que tinha escrito no quadro à minha direita. – Não discuta comigo menino, eu sou a professora e digo-lhe que há dois erros na frase que escreveu! – insistiu a simpática senhora enquanto olhava de soslaio para a platéia em busca de aprovação ou cumplicidade. Olhei a frase novamente, revi cada palavra, li mentalmente mais duas ou três vezes e arrisquei já com as bochechas vermelhas de raiva e vergonha: – Acho que a senhora professora está enganada. A frase não tem erro nenhum. – Meus olhos humedeceram, estava a ponto de chorar, mas segurei à força, mais por orgulho que por convicção. – O menino tem a absoluta certeza disso? Olhe bem, ainda há tempo de corrigir – insistiu a sádica mestra, já a demonstrar sinais de mal contida irritação.
– Tenho a certeza sim, senhora professora, não quero mudar nada – confirmei, já enfastiado com aquele joguinho idiota. – Pois está bem, então o menino está reprovado. Devia saber que princesa escreve-se com “z” e “faz” escreve-se com “esse”. Não concorda?
– Não concordo senhora professora. Tenho a certeza que escrevi a frase corretamente – retruquei, olhando para ela em tom de desafio. Na verdade procurava exercitar o meu poder de dissimulação ao parecer controlado. Era tudo encenação, eu estava a começar a entrar em pânico. Consegui segurar o choro que, àquela altura, ameaçava inundar-me os olhos e borratar o meu orgulho. Odiava ser contrariado, principalmente quando sabia estar com a razão. Fechei o semblante. A minha sobrancelha direita curvou-se para baixo quase fechando o meu olho, enquanto a esquerda subia franzindo a testa. Era o meu sinal de frustração, de raiva mal contida. Um nó armou-se-me na garganta, espremi os lábios na tentativa de evitar o colapso, o meu olhar errante procurou o chão e acabou por fixar-se na cabeça do prego enorme que prendia a tábua do assoalho. Com o bico do pé esquerdo comecei a bater levemente no prego, como se quisesse enterrá-lo ainda mais, empurrá-lo para o porão junto com a tábua. Queria desaparecer junto com o chão, refugiar-me também no porão. Deixei de ouvir as vozes, não existia ninguém ali, era só eu e a minha raiva, a minha decepção. Naquele momento a senhora, empertigada pela autoridade de que fora investida, e pela soberba com que a desempenhava, virou-se muito lentamente para a platéia, que, perplexa, estava no mais absoluto silêncio. Hesitou por alguns instantes, olhou ao redor, parecia procurar alguém. O clima era de tensão, o ar estava pesado, dava para cortar com uma faca, as pessoas olhavam-se incrédulas, com a mão a tapar a boca numa expressão de espanto e respeito. A minha mãe, coitada, num canto da sala, tremia muito e olhava o chão em busca de ajuda, mas, na solidão daquela multidão, nada nem ninguém podia salvá-la. Era preciso levantar a cabeça e enfrentar: a vida não era perfeita, não era um conto de fadas. Mas que diacho! Tratava-se de uma criança de seis anos que havia errado a grafia de uma ou duas palavras, que mal havia nisso? Não era o fim do mundo, a criança nem sequer tinha começado o ensino formal! Que direito tinha aquela lambisgóia snob e petulante de humilhar o seu filhinho na frente de metade da cidade? O pior é que era a metade mais impiedosa e hipócrita, ainda se fosse a nossa metade! Ora essa, a que perversos interesses a velhaca estaria a servir? Como se atrevia a perturbar a paz daquela pacata cidade, onde se fazia de conta que tudo era perfeito, mesmo quando se sabia que a perfeição passava longe? A minha mãe só despertou da sua introspecção quando sentiu o cotovelo da vizinha a pressionar o antebraço. Levantou a cabeça e voltou à superfície a tempo de ouvir a voz grave e séria da professora:
– Quem são os familiares desta criança? Temos cá o pai ou a mãe? – A minha mãe, ainda não totalmente recuperada, levantou a mão direita exibindo uma firmeza que ainda não conhecia e preparou-se para dar uma resposta à altura da crueldade daquela bruxa. Iria ver com quantos verbos imperativos se faz a alma transmontana, pagaria caro aquela maldade. Estava armado o estrandete que a família Abreu, conhecida por defender os seus brios de forma contundente (às vezes até demais, diziam), era capaz de armar para proteger a sua cria. Embora quase todos de estatura baixa na família, os meus tios sempre foram temidos pelas suas habilidades para a briga, o seu destemor, o seu destempero verbal. Bem, talvez esteja aqui a filosofar só para não dizer que eram um fanfarrões mal educados, não sei! A minha avó materna, a única com mais de 1,70 naquele ramo da família, costumava dizer ao meu atarracado avô Manuel Gaio, que media pouco mais de metro e meio “homem pequenino ou é maroto ou bailarino, mas eu nunca te vi dançar, Manel!”. Pronto, era a deixa para mais uma discussão interminável que sempre acabava com os ânimos mais quentes do que as labaredas do forno onde os pães assavam indiferentes aos humores do casal. Entretanto, herdeira da estatura apequenada do pai e do seu temperamento, digamos, apimentado, a minha mãe, procurando controlar o nervosismo, respondeu à professora com voz áspera e solene:
– Eu sou a mãe da criança, minha senhora. – Os segundos seguintes foram gelados, pesados, longos e nervosos. O silêncio sepulcral só foi quebrado pela voz estranhamente macia e simpática da experiente professora, que, abrindo um sincero sorriso e encarando o olhar fulminante da minha mãe quase com candura, disse com admiração:
– Parabéns minha senhora. Tenho visto poucas crianças com a segurança do seu filho. Por mais que eu tentasse enganá-lo em relação à resposta, o miúdo manteve a opinião e enfrentou as consequências. Das duas uma, minha senhora: ou o pequerrucho é muito inteligente ou muito teimoso. Provavelmente as duas coisas! Mas, vá lá, há males que vêm pra bem. Parabéns minha senhora, pode levar o seu miúdo pra casa, parabéns. – A sala irrompeu num efusivo aplauso enquanto a professora se virava para os colegas na mesa e dizia em tom de galhofa: “Só tenho pena dos coitados dos professores que o miúdo vai desafiar nos próximos anos, Deus me livre!” – Todos os olhares se voltaram para a minha mãe, as pessoas abriram largos sorrisos e soltavam frases de admiração e espanto. Dona Lídia, mal refeita do susto, procurava o meu olhar com sofreguidão. Tinham-se esquecido de mim. Parado ali no estrado, ainda a olhar para o prego no assoalho, só voltei à vida quando os aplausos me tiraram daquele torpor. Estremeci, tentava dar conta do que tinha acontecido ali. Era muito novo para perceber a importância de tudo aquilo, mas de uma coisa eu tinha certeza, nem a cara zangada da professora, nem o silêncio da platéia nem a roupa negra dos examinadores da junta seriam capazes de me convencer de que “princesa” não se escrevia com “s” e que “faz” não se escrevia com “z”. Disso eu tinha certeza, como tinha certeza de que os adultos, às vezes, pareciam mais crianças do que nós. Ainda não os percebia muito bem, mas, no que me dizia respeito, quase todos pareciam amalucados e, do meu ponto de vista, naquele dia memorável, fiquei com a impressão de que a professora não sabia escrever! Como teria sido nomeada para a função de examinadora? A vida tinha cada mistério, rais parta o diabo!
V O fim do sonho
Eu nem desconfiava, mas por essa altura o casamento dos meus pais já andava muito mal das pernas. Ele, sempre ausente, parecia dar mais importância à vida social do que à família. Passava o tempo em viagens com o táxi, nem sempre a serviço de clientes, mas a serviço dos colegas de borga, de rapioquice. Frequentava festas, arraiais e jornadas gastronômicas com amigos e, não raras vezes, na companhia de amiguinhas mais desmioladas do que ele, pois sabiam tratar-se de homem casado e com família. A minha mãe, com pouco mais de vinte e seis anos, tentava manter as aparências e levar o casamento a bom termo. Era uma moça bonita e que chamava a atenção. Mesmo depois de dar à luz dois filhos, ainda era viçosa, atraente, espevitada. O meu pai era muito ciumento, possessivo, controlador. Deixemos os eufemismos de lado: era machista! Por alguma razão que desconheço, parecia dar mais importância à opinião dos amigos do que às advertências da jovem esposa. Discutiam muito, brigavam, reclamavam um do outro, ou seja, percebo hoje muito bem, agiam como casados. A minha irmã e eu fazíamos de conta de que nada percebíamos. Continuávamos as nossas brincadeiras sem tomar partido, não nos interessava quem tinha razão. Aliás, nem sabíamos as causas das brigas, só ouvíamos os gritos, as discussões, e ficávamos com medo, encolhidos num canto, um tentando consolar o medo do outro. Não era fácil. Aquilo foi ficando mais frequente, as discussões mais ásperas, o meu pai menos paciente, e de vez em quando sobrava alguma coisa para nós. Um cascudo aqui, uma reprimenda menos justa ali, enfim, o tecido familiar estava esgarçando e eles pareciam esquecer-se, a cada dia que passava, do amor que os tinha levado a enfrentar meio mundo, ou a família inteira. O meu pai chegava tarde da noite, a minha mãe passava os dias fora, na casa de amigas, buscando conselhos onde só havia opiniões a favor, procurando amparo em quem só podia dar-lhe razão, buscando sentido onde nada mais fazia sentido. Nessa altura entrou em cena um personagem que viria a ser decisivo no processo de separação que não tardaria a ocorrer.
Na frente da minha casa havia uma agência bancária, do BNU – Banco Nacional Ultramarino, que era chefiada por um senhor de fora, transferido não sei de onde, provavelmente da cidade grande, já que circulava com desenvoltura, parecendo achar-se superior a nós. Aparentemente desenvolveu verdadeira fixação pela minha mãe. Da janela do gabinete ele podia vê-la todos os dias nos afazeres de casa, lavando a varanda de frente para a ponte, cuidando dos filhos, saindo para as compras. Sempre que podia, o homem passava bem devagar pela frente da casa, atirando olhares nada discretos na nossa direção. Fazia sinais para a minha mãe, piscava o olho, perseguia-a por onde ela fosse. De carro ou a pé, ele sempre dava um jeito de passar onde ela estava, de cruzar o seu caminho. A minha mãe não tinha mais sossego. Tentou ignorá-lo, mas os estreitos limites da cidade não lhe davam muitas alternativas. As coisas começaram a ficar complicadas. Cidade pequena, toda a gente conhecida, enfim, estava impossível esconder aquela situação, todos sabiam que aquele homem tinha uma queda pela minha mãe e as coisas foram saindo do controlo. O falatório maldoso não tardou. O meu pai, se já sabia, ainda fazia de conta que não era com ele, mas o maior medo da minha mãe, conhecendo o temperamento do marido, era que alguma coisa trágica pudesse acontecer. Certa vez saiu para fazer compras e o homem, mais uma vez, foi no encalço dela. Percebendo o perigo, a minha mãe rumou para uma rua menos movimentada, parou e, virando-se para trás interpelou o sujeito: – Ouça lá, o senhor por acaso é maluco? Não sabe que sou casada e o meu marido pode matá-lo se souber do que se passa? – avisou com voz firme. –Mas eu só queria… – balbuciou o homem. – Não me venha com conversa fiada. Não quero saber o que o senhor queria ou deixava de querer. Deixe-me em paz antes que aconteça alguma tragédia, tenha juízo! – Dizendo isso, aprumou o pescoço e seguiu o seu caminho rua acima, com passos firmes e sem olhar para trás. Dona Lídia ainda não sabia, mas já era tarde demais. Alguém havia presenciado aquela conversa, de longe, furtivamente, e, claro, chegou à conclusão mais fácil: uma senhora casada de namorico com o amante! O fim trágico não seria exatamente uma cena de pugilato ou uma briga onde alguém acabasse atingido por um tiro, já que o meu pai, embora tivesse porte de arma e carregasse uma pequena pistola Mauser, alemã, que tinha comprado a um tio da minha mãe, emigrado para a América, nunca tinha disparado um tiro sequer e não seria agora que o faria. O final seria trágico sim, mas para toda uma família que se veria privada do seu direito de ter um futuro. Seria trágico para duas crianças que veriam os seus laços familiares se romperem abruptamente, e teriam revogado o direito de viver em paz e ter uma adolescência comum, junto dos seus.
Já sabemos que o meu pai era um homem orgulhoso, de opiniões fortes, teimoso como ninguém. Ao ouvir os boatos sobre o suposto caso da sua mulher com o gerente do banco ficou desconfiado, arisco. Passava ainda mais tempo fora de casa, evitava o assunto, mas não conseguia pensar em outra coisa, como é natural. Comportava-se como a avestruz que enfia a cabeça na areia na tentativa vã de evitar o perigo. Certo dia, depois do episódio da perseguição na rua no qual a minha mãe avisou o pretendente do risco que corria, o meu pai foi abordado pelo irmão também taxista, o meu tio Hélder , e por mais dois amigos. Disseram-lhe que a situação estava insustentável e que ele tinha que fazer alguma coisa, e rápido, antes que o caso tomasse proporções maiores e a honra dele viesse a sofrer danos irreparáveis. Foi aí que ele tomou a decisão mais desastrosa da sua vida, e que até hoje eu não percebi: sem nos dar qualquer explicação desapareceu por uns dias, refugiando-se em algum lugar enquanto pensava no que fazer. A minha mãe, embora desconfiada de que algo estava fora do lugar, não sabia das intenções do marido e ficava cada dia mais preocupada. Não sabia o que nos dizer, a não ser que nosso pai, como sempre, estava viajando e não tardaria a voltar. Mas ela sabia que algo ruim estava a acontecer. Pressentiu no ar, com a sensibilidade dos corações dos que amam desbragadamente, que a tempestade não tardaria. Três ou quatro dias depois recebeu uma notificação formal do escritório do Dr. Cabugueira, advogado, de que o meu pai havia entrado com um pedido de separação consensual. Às vezes me pergunto: como se pode fazer uma separação consensual sem o conhecimento e a concordância da outra parte? Bom, não sei, mas o meu pai achou que podia, e fez. Ele era assim mesmo, na primeira dificuldade, pressionado pelos amigos e pela família, motivado pelo machismo e aconselhado pelo orgulho, achou que não havia um plano melhor. Refugiou-se dentro de si mesmo, no único lugar de onde ninguém escapa: a própria consciência. Acho que tentou negociar a sua paz com o difícil remorso, mas este nunca foi bom conselheiro, e o resultado é que a paz, essa não a encontrou mais.
O que me surpreende é que em vez de tirar satisfações com o sujeito, dar-lhe um susto, exigir que ele parasse de agir de forma leviana e inconveniente, buscou o amparo da justiça contra uma mulher cujo único crime tinha sido apaixonar-se por um machista incorrigível, um homem inseguro, cuja dificuldade para lidar com os seus próprios sentimentos só não era maior que o seu orgulho! Em vez de conversar com a esposa, pedir explicações, ouvi-la, tentar resolver o assunto dentro de casa, optou por defender-se com a letra fria da Lei, certo de que, num ambiente machista, conservador e alcoviteiro, teria a opinião pública a seu favor. E quem se importa com o público quando é o privado que está em causa? Ele, pois é preciso manter as aparências, mesmo quando tudo dentro de nós está desabando. Mas não deve ter tomado a decisão sozinho. Por certo os amigos contribuíram para que ele levasse a loucura adiante. Contava também com o facto de ser filho do senhor Carvalho do tribunal, condição que, por certo, lhe facilitaria a vida e ajudaria a driblar a burocracia. Na verdade, desde o início era para esse desfecho que parte da família torcia, e não havia razão, agora que achavam que havia um motivo concreto, para não ficarem do lado do mimado rebelde desgarrado da família há anos. Era a chance que a família Carvalho tinha de reunir a todos debaixo do mesmo tecto e vingar-se daquela intrusa que ousara intrometer-se numa família em cuja história não cabia. Eu ainda era muito jovem para entender todos os acontecimentos daquele tempo, se é que algum dia serei adulto o suficiente para entender tragédias assim. Mas algo muito triste estava para acontecer, algo que iria deixar marcas pelo resto da minha vida.
A situação ficou insuportável para a minha mãe. Estava sozinha, confusa, perdida, sem saber o que fazer. Quase toda a família, mãe e irmãos, havia emigrado para o Brasil. O cenário não era nada promissor. Naquela época o lugar das mulheres era em casa, a cuidar do marido e dos filhos. Estudar era para uns poucos sortudos, e a obediência cega ao marido ainda era uma qualidade muito valorizada, esperada, exigida. Como se isso não bastasse, a minha mãe seria obrigada a lutar nos tribunais, se estivesse disposta a lutar, claro, com uma família tinhosa, dona de recursos que ela não tinha, e certa influência. Tudo isso num ambiente artificialmente criado para configurar adultério, falta muito grave, capaz de mobilizar toda a opinião pública. Ela era uma pária na sua própria terra. Uma mulher marcada por um pecado que não cometeu. Separada, sem profissão e sem possibilidade de trabalhar para se sustentar, com dois filhos, sem família que a apoiasse, no interior de um Portugal açoitado por uma ditadura cruel, enfrentando uma cidade impregnada de preconceito, de ranço, ávida por uma boa história para animar a vida sem graça dos seus habitantes, ela desistiu. Era o fim. Ainda que lutasse jamais conseguiria vencer. Era a crónica de uma injustiça anunciada. Acuada, sozinha e sem dinheiro, obrigada a enfrentar a família e o sistema, não lhe restou alternativa a não ser abandonar tudo, bater em retirada antes que tivesse de enfrentar o penoso linchamento moral imposto por uma comunidade sem moral para linchá-la! Todas as portas se fecharam, a única aberta era a que dava acesso ao aeroporto e ao avião que a levaria ao Brasil. Estava escrito que, dali em diante, por decreto dos Carvalhos, ela seria uma mulher infeliz, obrigada a conformar-se com uma vida que não escolhera, uma vida compulsória como a morte, já que outra coisa não era senão a morte de um sonho. Pronto, estava montado o palco onde se encenaria o drama da minha própria vida.
Não lembro ao certo de todos os detalhes, o meu cérebro, talvez na tentativa de amenizar as consequências, apagou episódios, adaptou situações, manipulou imagens, subtraiu datas e omitiu pormenores que poderiam dar um contorno mais nítido àqueles dias. Mas o legado principal foi preservado, o sofrimento, as perseguições, as fugas, o andar escondido de casa em casa, a agressão física do meu tio Hélder à minha mãe, em público, na minha presença, em frente à praça de táxis, deixando-a caída no passeio empoeirado, e levando, com essa imagem brutal, o desespero à minha mente, tudo isso ficou bem registrado e vai acompanhar-me enquanto eu viver. Essa parte da minha vida é responsável por muito do que sou hoje, pelo homem que me tornei, assim como é responsável pelo homem que nunca consegui ser. É responsável também pela maneira como encaro o amor, o casamento, e até o ser humano. Para o bem e para o mal. Mesmo sem base científica, o que posso dizer é que ninguém passa incólume por episódios assim. As marcas vão muito além da nossa compreensão, e não há terapia que nos faça entender por que as coisas tinham que ser assim. Na falta de respostas, vamos formulando mais e mais perguntas, e assim empurramos a vida pela vida fora, decepcionados, mas com a esperança de que um dia encontremos alguém que nos prove que o amor pode ser uma saída, que o ser humano pode ser melhor, que a vida pode fazer mais sentido. Ainda espero por isso, apesar de tudo não desisti, sou teimoso, sou tinhoso, levo muito a sério o lema consagrado pela minha gente transmontana: antes quebrar que torcer! Se depender de mim, as marcas do passado não vão quebrar-me, eu é que vou torcê-las, até que se moldem ao meu gosto, até que as transforme em aliadas. Posso não conseguir, mas morrerei tentando, isso é certo. Escrever este livro, expor minha intimidade, faz parte dessa tentativa e espero assim ser compreendido. Não guardo luto permanente como é comum às viúvas transmontanas, mas também não vivo em festa permanente como os brasileiros. Decidi abrir as janelas, deixar a luz entrar, convidar o leitor para dentro de minha alma na tentativa de torná-la mais compreensível, menos amarga. Espero que me ajudem nessa faxina. Espero que o compartilhar de meus medos ilumine os porões onde guardo meus recalques. Com a cabeça invadida por luzes e sombras, com as ilusões resultantes desse jogo de contrastes, espero poder tornar mais concreta a minha vontade de redimir-me, poder expurgar o veneno que me amargou a existência por tantos anos. Espero, paradoxalmente, perdoar a minha família e ser perdoado por ela. Mas não queria fazer isso sozinho, sem testemunhas, por isso te convido, caro leitor, para ser, ao mesmo tempo, testemunha e juiz, aliado e contendor, armando comigo esta trama contraditória, bem ao meu gosto esquisito. Se não conseguir tudo bem, é sempre melhor escrever um livro ruim do que frequentar uma boa e cara terapia. Psicólogos não vão concordar comigo, mas não faz mal, eu raramente concordo com eles também! Cada um com seus fantasmas.
Mas voltando à história, o pior estaria por vir. Uma nova realidade, nada promissora, estava prestes a mostrar-se para mim e para a minha pequena e assustada irmãzinha. Como era de esperar a minha mãe acabaria perdendo a guarda dos filhos. No processo de separação comandado pelo advogado do meu pai, o meritíssimo juiz, invocando o bem-estar e os interesses dos menores, decidiu que o pai tinha mais condições de se encarregar da educação das crianças. Afinal a ré, a minha mãe, sem renda e sem meios de prover o sustento da família, iria abandonar o país. Teria uma vida incerta e cheia de perigos, não estava em condições de assumir a responsabilidade de criar duas crianças de pouco mais de seis anos. Na opinião do juiz, os menores ficariam melhor com a família do pai, morando na mesma cidade, frequentando a mesma escola e mantendo o mesmo círculo de amizades. Tudo isso, ainda segundo a sentença, proporcionaria um ambiente mais adequado ao desenvolvimento das crianças, evitando o trauma da mudança de país, com todas as consequências que isso traria. À luz da razão não se pode negar o bom senso da decisão, e dificilmente alguém discordaria de que a Lei defendeu os interesses dos menores, como manda o livro dos homens. O problema é que nem legisladores nem juízes são capazes de prever ou evitar os truques do destino, as nuances do acaso, as consequências de interromper duas histórias de vida de forma tão abrupta. Não posso culpá-los, ninguém pode, eu mesmo só hoje, passados mais de quarenta e cinco anos, consigo avaliar os danos que aquela decisão causou. Mesmo assim, faço-o usando apenas a minha intuição, baseado em percepções e não em certezas absolutas. Acredito que o juiz não errou, quem errou foi o meu pai e a sua família, e, creiam, todos eles já pagaram caro por esse e outros erros. Que Deus os perdoe, pois eu, não sendo santo, ainda não consegui, embora venha tentando com extremado afinco. Nestes anos todos quantas vezes me perguntei: e se eu tivesse vindo com a minha mãe para o Brasil? E se os meus pais não tivessem decidido separar-se? E se a minha mãe tivesse ficado em Portugal e tivesse lutado para ficar conosco? Pois é, são perguntas para as quais nunca terei resposta. Mas é preciso ser prático. Talvez as respostas não sejam importantes agora, e por certo elas não têm a capacidade de mudar a realidade. Foi feito o que tinha que ser feito. Ela rumou para o Brasil e nós ficamos. Ninguém pode dizer se foi melhor ou pior, apenas foi assim que aconteceu, e o que importa é relatar as consequências dessa decisão, a partir dos factos e não das hipóteses. Imaginar o que teria sido a minha vida se as escolhas dos meus pais tivessem sido outras, é o meu inferno particular, e, em nome do bom senso e do bom gosto, pouparei o leitor desse exercício inútil.
Os últimos dias da minha mãe em Portugal foram difíceis. Lembro que o meu pai nos escondia na casa de parentes para evitar que ela nos raptasse e fugisse connosco para o Brasil sem deixar rastros. O meu pai chegou mesmo a tomar providências legais quanto a isso. Fez com que ficasse averbado nos nossos passaportes que só poderíamos deixar o país na companhia dele. Lembro-me até de um episódio curioso que aconteceu dias depois. O meu pai, como taxista, era muito solicitado para levar clientes até Verín, cidadezinha espanhola a pouco mais de vinte quilómetros de Chaves. Eu gostava muito de ir com ele, pois comprávamos chocolates (quase sempre Suchard ou Elgorriaga) e comiamos gelados. Era sempre motivo de alegria fazer aquela pequena viagem. É claro que não era só pelos chocolates e pelo gelado. Havia um certo espírito de aventura, pelo menos na cabeça de uma criança de seis anos, no facto de atravessar a fronteira, visitar outro país, ouvir uma língua diferente e engraçada. Como os regimes políticos de Portugal e Espanha eram muito fechados e muito repressivos, cheios de mistérios e histórias de violência, abusos e desaparecimentos, havia sempre uma aura de perigo no acto de atravessar a fronteira, ainda que legalmente. Todo aquele ritual de apresentar documentos para sinistros agentes policiais da ditadura, a inspeção minuciosa da sempre suspeita mala do carro, os olhares desconfiados dos agentes da alfândega, os capacetes pretos, de três pontas, dos carabineros espanhóis, que eu achava muito engraçados e ridículos, enfim, todo aquele aparato, aquela liturgia do mudar de país, ainda que a distância fosse de apenas poucas centenas de metros, compreendia certo risco e inundava de adrenalina as minhas veias infantis. Eu costumava ficar encolhido no banco dianteiro do Mercedes Benz, olhando de esguelha para os policias, tentando entender o que diziam, analisando com sincera curiosidade o comportamento do meu pai, que, de repente, se revelava humilde e afável, quase servil, no trato com aqueles homens rudes. Isto nos dá uma ideia de como uma ditadura afeta o inconsciente coletivo, avilta a dignidade, controla muito mais que o simples acto de ir e vir, mas o próprio pensamento. O que me causava mais confusão, entretanto, era que tudo aquilo se passava entre amigos. Afinal, o chefe da alfândega em Chaves, o Dr. Chiote, era nosso conhecido, morador da cidade há muitos anos, e eu até me dava bem com o filho dele, o Geninho, um rapaz tímido, inteligente e, não sei porquê, demonstrando certa dificuldade para fazer amigos e criar intimidade com os colegas. Afinal, criança como nós, ele não tinha culpa nenhuma das atividades do pai, e nem idade para compreendê-las, muito menos criticá-las. Enfim, era mais uma vítima, mesmo que de uma forma diferente, ao avesso, era também um orfão da ditadura. É claro que naquela altura eu também não sabia que o Dr. Chiote era um agente da temida PIDE, a polícia secreta de Salazar, capaz de lidar com desafetos de maneira nada gentil. Bastava que alguém discordasse de alguma diretriz do governo, criticasse algum acto, manifestasse opinião própria, para que estivesse sujeito a ser retirado de casa à força, nas sombras da noite, e levado para alguma sala de interrogatório, onde a subtileza nunca entrava, e os métodos para obter as respostas que o regime queria eram sempre violentamente persuasivos. Vivia-se um tempo de sussurros, vizinho desconfiava de vizinho, todos tinham que olhar por cima do ombro com medo dos bufos, os informantes disfarçados de cidadãos comuns, muitas vezes nossos próprios vizinhos, que delatavam quem quer que ousasse ter opinião contrária sobre qualquer coisa, como se fosse proibido pensar. Era proibido pensar, o governo pensava por nós. A truculência da ditadura ainda era um facto desconhecido para mim. O perigo real no contacto com aqueles homens eu ainda não podia avaliar, mas que o comportamento do meu pai, sempre que passava na fronteira, era diferente, subserviente, lá isso era. Nesse dia o meu pai passou em casa e perguntou:
– Ó Jorge, queres vir comigo a Espanha mais à tarde? – Jorge era o nome pelo qual o meu pai me chamava, aliás, como ele me chama ainda hoje. Nunca aceitou que o seu filho tivesse outro nome, e como a minha mãe tivesse insistido em baptizar-me como Rui, ele não se deu por vencido e só concordou quando ela aceitou o nome composto, e assim eu fui registado como Rui Jorge. É claro que o meu pai sempre fez questão de ignorar o primeiro nome. A sua teimosia não dava trégua, nunca!
– Claro que quero ir, paizinho – respondi com mal contida excitação. – Então vê se te avias, que às três e meia venho buscar-te.
Pronto, desassossegado comecei a imaginar a viagem como mais uma aventura e a fazer mentalmente a minha lista de compras. Pouco depois das três da tarde o meu pai apareceu e lá fomos em direção ao posto fronteiriço, a apenas oito quilómetros de casa. Tomei o meu lugar à frente, no banco inteiriço, de couro verde, do Mercedes 180D, modelo de 1957, que o meu pai havia adquirido novinho em folha, e nem dei atenção ao casal sentado no banco traseiro, provavelmente os clientes que haviam alugado o táxi para fazer a viagem. Ocupei-me na brincadeira que mais me dava prazer sempre que viajava com o meu pai: usar a tradicional estrela cromada de três pontas plantada no capô como mira de fuzil para acertar em inimigos imaginários. Via-os por todos os lados, a correr na minha direcção pela risca amarela que separava as duas pistas da estrada, ou acercando-se pelas laterais, vindos dos batatais e das searas de centeio dos dois lados da pista de asfalto liso e escuro. Não falhava nenhum tiro. Com o dedo crispado num gatilho imaginário disparava sem parar produzindo um barulho estridente que irritava o meu pai. Sem prestar atenção à conversa dos adultos, lá me entreguei na tarefa de acabar com os bandidos. Já tinha acabado com mais de dois mil meliantes quando o meu pai parou o carro na barreira levadiça de madeira, pintada em vermelho e branco, que indicava o fim de Portugal e o princípio da Espanha. Todos desceram do carro, passaportes à mão, e o meu pai, metendo a cabeça pela janela dianteira, disse, sem me dar muita atenção: – Jorge espera aqui que já voltamos, não mexas em nada. Olha lá, não vás mexer no travão de mão, senão o carro só pára lá na Espanha, estás a ouvir, pá? – Nunca fui de desobedecer ao meu pai. É bem verdade que ele nunca tinha encostado a mão em mim, mas, por via das dúvidas, eu achava que era mais prudente obedecer e ficar longe de problemas. Fiquei quieto, observando cada movimento, cada carro que encostava atrás de nós à espera da sua vez, ou os que avançavam na minha direcção, vindos do lado espanhol da minha aventura. Por um momento pensei aonde estaria a minha mãe, o que estaria a fazer, quando a veria de novo. Mas aquilo não era uma boa coisa para se pensar e resolvi concentrar-me no que se passava dentro do guichê da alfândega. Ergui a cabeça e espreitei pelo vidro, acompanhando os procedimentos burocráticos habituais que seguiam a sua enfadonha rotina, exigindo muita paciência de todos. Depois de inspecionar e liberar os passaportes do casal, o polícia, com ar surpreso dirigiu-se ao meu pai:
– Ó Sr. Waldemar, com o senhor está tudo em ordem, mas olhe que não posso deixar passar o miúdo! – O miúdo era eu, claro. – Mas que conversa é essa, senhor Antunes? Não pode deixar passar porquê? O miúdo tem passaporte, o senhor bem sabe que é o meu filho, passamos por aqui quase todas as semanas, ora valha-me Deus! – O tom de voz do meu pai chamou a minha atenção. Percebi que havia algum problema. Aquilo estava a ficar emocionante, caraças! – Bem o sei senhor Waldemar – dizia o agente da alfândega procurando acalmar o meu pai. – Bem sei que o miúdo é seu filho e que passam por aqui muitas vezes, mas é que temos cá uma ordem judicial para impedir essa criança de sair do país, e ordens são ordens! – informou o polícia, em tom categórico. –Homessa senhor Antunes, mas que diabo de confusão fizeram? Quem pediu essa ordem ao Juiz fui eu, mas era para impedir o miúdo de sair com a mãe! Estamos em processo de separação e eu tenho receio que ela fuja com ele para o Brasil! O que pedi ao juiz foi que ele só pudesse deixar o país na minha companhia! – O meu pai estava a ficar cada vez mais irritado, e eu, embora não compreendesse muito bem o que se passava, compreendi a parte que falava de fugir para o Brasil. Fiquei a dar voltas à cabeça para ver se achava se aquilo seria bom ou ruim. Aventura da boa, isso era com certeza. – Ora bem Sr. Waldemar, sei de tudo isso, é uma cidade pequena, o senhor sabe como são as coisas, as notícias correm. Mas é que a ordem que temos diz que o seu filho não pode deixar Portugal sem autorização do tribunal. Vai-me desculpar, mas não posso deixar passar o miúdo. – O oficial fez uma breve reverência e estendeu os documentos na direcção do meu pai, que não se conformava. O casal, sem compreender nada, aguardava curioso o final da história, assim como eu! – Mas que grande sarilho senhor Antunes, devem ter confundido tudo lá no tribunal. Vou ter que voltar pra traz para deixar o miúdo em casa e voltar com os clientes. Mas que sarilho arranjei! – disse o meu pai, já conformado com a situação. Como dizia o meu avô, o que não tem remédio, remediado está! – Pronto, está bem, Sr. Waldemar, vá lá então, ainda bem que é perto – tentou amenizar o senhor Antunes da Alfândega. – Isso é verdade, do mal o menos. Vou num pé e volto no outro. –respondeu o meu pai, dirigindo-se ao carro enquanto se desculpava com o casal que havia alugado o táxi. Pronto, com seis anos quase causei um incidente internacional, isso sim, é precocidade. Assim que o meu pai explicou a confusão aos clientes senti-me importante. Não percebia nada das questões legais, claro, mas senti que alguma coisa diferente tinha acontecido e, por alguma razão, achei que aquela aventura tinha ficado mais emocionante. Era preciso voltar para casa, tinha mais oito quilómetros de sangrentas batalhas contra os meus imaginários inimigos, mais algumas centenas de tiros seriam disparados pela mira da estrelinha do Mercedes. Para uma criança de seis anos tinha sido uma tarde emocionante. Sei que, de repente, fiquei preocupado. Acabara de me lembrar que tinha perdido a chance de comprar chocolate. O pior é que não havia clima para pedir ao meu pai que trouxesse algum de lembrança, pois devia estar chateado comigo por ter atrapalhado a viagem. Amuei, estiquei o beiço, franzi o cenho e uma lágrima teimosa apareceu no canto do olho. Perdi a vontade de disparar o meu fuzil de estrelinha, ignorei as hordas de inimigos que me atacavam pelos flancos, desisti de lutar, apenas me encolhi no couro macio do Mercedes e chorei baixinho, chorei de decepção, chorei de raiva daqueles homens da polícia, eles não tinham o direito de me impedir de ir ao encontro do meu chocolate. Acho que foi a primeira vez que senti o incómodo da ditadura de Salazar. Outras viriam, mas eu ainda não sabia. Alguns minutos depois o meu pai deu conta de que eu estava muito quieto, o que não era nada normal, e percebeu uma lágrima a escorregar do meu olho esquerdo, molhando a bochecha avermelhada, indo desaguar no canto da boca. Fingindo não prestar muita atenção disse-me assim:
– Então rapaz, o que se passa? Não é preciso chorar, tu não tiveste culpa nenhuma, essas coisas são uma chatice, mas não te rales, vais à Espanha outro dia, prometo! – disse, olhando finalmente para mim. – Não é nada disso paizinho – resmunguei, mal controlando o choro e já com a voz embargada. – Se não é isso então o que é? – perguntou depois de uma breve pausa. Como eu não respondesse, ele olhou de relance para o casal no banco de trás, piscou o olho num sinal de cumplicidade, e coçando o queixo, pensativo, continuou: – Hum…ava vindo do lado de lou que avanmento ficar longe de problemas.a barreira de madeirarulho la cromada do capnem dei aten o que já sei, já percebi tudo – comentou, sorrindo como só ele sabia sorrir, envergando as sobrancelhas, e olhando pelo retrovisor como que para pedir o apoio do casal de clientes. Depois de leve suspense concluiu: – Fica sossegado que não me esqueço do chocolate, era isso não era? – Não pude conter o riso, as lágrimas secaram como que por milagre, nem precisei responder. Ajustei o olho na mira do fuzil imaginário e voltei a ocupar-me em exterminar os inimigos que, àquela altura, já se aproximavam por todos os lados aos magotes. Só na primeira rajada acabei com mais de cem! Ah!.. como era bom ser criança. Era só aprender a não pensar nos assuntos que me chateavam, como, por exemplo, as saudades da minha mãe. Eu estava a aprender a enganar as saudades, não deixaria que esse sentimento perturbasse as minhas brincadeiras nunca mais. Sentir saudades era um luxo que eu não podia permitir-me. Apesar de tudo eu era feliz! Feliz como nunca mais na vida consegui ser.
VI Na toca do lobo
Aquele Verão de 1962 começou esquisito, cheio de novidades ruins, com mudanças que eu demoraria a assimilar. A relação dos meus pais tinha acabado tão abruptamente como começou. No fim das contas tinha sido uma separação consensual mesmo, já que, pressionada pela falta de alternativas, a minha mãe acabou por concordar com os termos impostos pelo advogado do meu pai, que acabou por ser o dela também. No fundo, nunca me convenci completamente de que a decisão final havia sido dele. Como já disse, acho que a família e os amigos exerceram influência definitiva e orientaram muitas das suas decisões. Mas é preciso dizer em sua defesa que descrevo os factos sem nunca ter tocado no assunto com ele, ou seja: esta narrativa é fruto das minhas observações, das conversas que tive, já adulto, com a minha mãe, e do depoimento informal de várias outras pessoas directa ou indirectamente envolvidas. Aceito que pequei num aspecto fundamental e por isso chamo a atenção do leitor: não atendi ao princípio mais básico do bom jornalismo: ouvir todas as partes envolvidas. Mas também, isto aqui nunca pretendeu ser uma peça jornalística, nem sequer uma verdade absoluta, é apenas a minha versão para alguns factos que influenciaram minha vida e determinaram a pessoa que sou. A verdade, entretanto, é que meu pai nunca foi ouvido ou consultado. Mas se o fosse, duvido muito que tivesse algo a dizer. Provavelmente ficaria recolhido ao silêncio com que sempre sepultou o episódio da separação. Se não era assunto proibido, muito menos era consentido ou bem-vindo, e o tempo encarregou-se de selar este pacto de silêncio que não fez bem a nenhum de nós. Pois bem, eu resolvi rompê-lo na tentativa de dar algum sentido ao meu sofrimento. Quanto a ele, creio que o manterá até à morte, e continuará a sofrer como sempre fez, também em silêncio. Acho que só consegue conversar sobre o assunto com seus fantasmas, tendo o remorso por testemunha e o orgulho como advogado. Triste sina para quem um dia foi tão alegre e jovial. Que Deus o compreenda, pois eu nunca consegui.
Mas voltando à narrativa, foi preciso ser pragmático. Tomada a decisão de se separar, não havia muito que fazer a não ser usar o bom senso para diminuir as consequências traumáticas inevitáveis. Nestas situações é difícil não misturar sentimentos, não deixar contaminar as decisões pelo desejo de vingança. Acima de tudo é quase impossível que uma mãe não lute, ainda que de forma inglória e inútil, pela guarda dos filhos menores. Foi isso que ela fez, foi a essa tarefa que ela dedicou os últimos meses vividos em Portugal. Por mais que eu tenha sido criado à sombra de outra versão dos factos, estou convencido de que foi esse o único propósito da minha mãe naquele Verão de 62: tentar ficar com os filhos, encontrar um meio, legal ou ilegal, de reavê-los. Por isso o temor do meu pai se justificava, e a ordem judicial que nos impedia de deixar o país sem que estivéssemos na sua companhia havia sido emitida. O Verão, por fim, encontrou o Outono, e a minha mãe, derrotada e humilhada, inconsolada e ferida, foi ao encontro do avião que a levaria a São Paulo, a uma nova vida, a uma nova estrada, a um período de provação cujas consequências só poderiam ser avaliadas muito mais tarde. Aquela seria outra vida modificada para sempre pelo orgulho e a soberba dos Carvalhos. Para estes, a conta viria muitos anos mais tarde, mas viria, pois ninguém foge de seus medos impunemente.
Foi o início do Outono de 62 que levou a minha mãe de mim, para sempre. Só hoje posso avaliar o significado daquele período, os estragos que causou, as marcas que deixou. Fiquei órfão naquele dia. E o pior: órfão de mãe viva! Tiraram-me muito mais que a pessoa mais importante da minha vida. Tiraram-me parte da minha história, roubaram as minhas verdades, esconderam-me factos e ofereceram-me versões, manipularam acontecimentos, superestimaram a minha capacidade de sofrer dores incompreensíveis. Muito mais do que ficar sem mãe, aos sete anos fiquei sem rumo, sem entender o que tinha acontecido, e, principalmente, por que tinha acontecido! Aos sete anos fui divorciado de uma parte importante de mim, privaram-me da capacidade de entender a família como algo a ser preservado, lugar seguro para os perigos da vida, algo que faz sentido. Amputaram-me a capacidade de acreditar nas pessoas, subtraíram-me o direito a uma infância normal. Não, não estou a ser dramático, nem piegas. É assim mesmo que me sinto. É claro que não era esse o sentimento que preenchia o meu coração naquela época. As crianças têm enorme capacidade de adaptação, de superar o que não entendem, de varrer para algum canto remoto da mente as circunstâncias que lhes escapam à compreensão. Não, eu não estou a fazer drama. Na verdade, o drama nem havia começado ainda. Estava longe de ter o seu enredo definido. Os principais personagens nem haviam entrado em cena, o palco nem estava armado, o figurino não saíra da prancheta, o teatro permanecia vazio, como vazio estava o meu peito. Só o que se sabia era que o realizador desse espectáculo, lá do alto da sua incompreensível sabedoria, já tinha decidido que o drama seria o género que orientaria a minha vida. A minha veia dramática estava pulsando, inchada, transbordando de vontade de impor-se sobre as outras, assumindo o controlo que viria a determinar boa parte do meu comportamento ao longo dos anos. Eu estava nascendo como actor, só não sabia que o único papel que encenaria seria o da minha inquietude, o do não conformismo, o da busca constante de respostas, seguidas de mais perguntas e mais respostas. O que resumiria minha motivação para viver dali em diante seria o dissecar destas palavras: Porquê? Porque fizeram aquilo comigo?
Não me lembro da despedida. Ainda bem. Essa lembrança deve ter ficado escondida em alguma dobra do cérebro, um daqueles cantos cegos que ele usa para nos dar algum alívio. Devem ter sido dias de suplício para a minha mãe. Devem ter sido dias confusos para nós. Devem ter sido dias difíceis para o meu pai. Com certeza foram dias inesquecíveis para alguns. Não para mim, que sou obrigado a lidar com as suas consequências, mas não com as lembranças. Graças a Deus o meu cérebro encarregou-se de esconder de mim esses dias tristes, impedindo que a memória possa trazê-los de volta, não permitindo que o sofrimento se perpetue! Pura defesa, instinto de sobrevivência da sanidade mental, mais um dos truques fantásticos da mente humana. O que não mata, fortalece-me. O que não compreendo, esqueço.
Num dia qualquer do fim de Setembro a minha mãe sumiu da minha vida, foi-se para sempre. Não ela, em pessoa, pois continuava viva e com saúde, mas o seu significado, o seu papel, a importância que teria na minha formação. Foram-se para sempre os carinhos e os cascudos, o riso e o choro, a palmada e o abraço, o sim e o não. Restaram para mim as regras de uma nova vida na casa dos meus avós, o cinzento de uma infância que deveria ter sido colorida, o buraco negro da falta de algo que busco ainda hoje. Na casa do meu avô, sob a batuta das minhas tias, eu iria mergulhar na minha ditadura particular. Salazar e o seu regime fechado eram anjos de candura perto do que me esperava. Como podem ver, se não ficaram lembranças, é fácil perceber que sobraram angústias. A minha mãe foi-se, e, como dizia o poeta Renato Russo, “Já que você não está aqui, o que posso fazer é cuidar bem de mim”. Foi o que procurei fazer pelo resto do tempo. Tempo que não passava, contado em relógios que andavam às avessas. Tempo que não abria, não clareava, que insistia em permanecer nublado, parado, imóvel…Tempo que moldava a minha vida sem me consultar. Tempo que escrevia as minhas cenas sem que as pudesse ensaiar, tempo que tudo apagava menos a angústia contida em seis simples letrinhas sem resposta: porquê?
Toda a família se mobilizou para encontrar uma solução que acomodasse os interesses dos dois lados. O lado forte do orgulho do meu avô paterno, e o lado fraco de duas crianças assustadas e confusas. O desfecho foi o mais óbvio, sem surpresas, o que já vinha sendo arranjado desde o falso flagrante de adultério com que caluniaram a minha mãe. Tão logo a farsa começou a ser montada, uma força-tarefa familiar foi convocada para pavimentar o caminho que me levaria à casa do meu avô Carvalho. Esse caminho, ironicamente, começava exatamente na calçada da Ponte Romana onde, tempos antes, ele havia proferido a mais estúpida sentença sobre nós: “Eu não tenho netos.” Lembram-se? Não deixa de ser curioso que ali, naquele mesmo local, numa tarde triste de Outono, tivesse início a nossa caminhada para dentro da sua casa, e da sua vida. A tarde estava húmida, cinzenta, quase chuvosa. O céu carregado de nuvens negras parecia querer ajudar a compor o cenário sombrio da cena burlesca que estava por vir. Alguns poucos carros atravessavam a ponte de Trajano, que ainda conservava duas mãos de trânsito. Passava um pouco das seis da tarde e o movimento era pequeno. Bem, o movimento era sempre pequeno, mas naquela tarde parecia menor. Ou seria impressão minha, não sei. Pessoas recolhidas nos seus casacos caminhavam apressadas, cumprindo os seus afazeres, tratavam das suas vidas, e, sem quererem, tocavam as nossas também. Possivelmente algumas delas tinham uma mãe esperando em casa, com um sorriso amigo, um copo de leite morno e uns biscoitos espanhóis à espera para um lanche. Bem, esse não era o meu caso. Não tinha mãe a esperar-me, nem sabia bem onde ela estava, desconhecia o que era São Paulo, e o Brasil era pouco mais que uma abstração! Só sei que era longe, muito longe, e que era também o lugar onde eu queria estar naquele momento. Começava ali uma relação de amor e ódio que perdura até hoje e que não sei bem explicar, ou, se quiserem, que prefiro não explicar. O Brasil sempre foi uma incógnita para mim, um mistério, um desafio, um lugar distante que roubou a minha mãe, e que mais tarde, bem mais tarde, me roubaria também, me transformaria, seria ao mesmo tempo salvação e túmulo, presente e futuro, reencontro e separação, enfim, uma contradição em si mesmo, que combinaria tão bem com a contradição ambulante em que me transformaria. Mas deixemos o Brasil que, naquela altura, ainda era para mim apenas um lugar improvável, e voltemos à Rua da Ponte, onde, de mãos dadas com a minha irmã, eu estava prestes a iniciar a caminhada mais penosa da minha vida, a travessia que mudaria a minha história. Ou talvez não, talvez apenas permitisse que eu tenha agora uma história para contar.
Azeveda, a nossa fiel empregada dos bons tempos, tinha preparado uma trouxinha com roupas e alguns brinquedos, e fazia as últimas recomendações. –Portem-se bem. Sejam carinhosos e obedientes com os vossos avós e vossas tias. Comam tudo e não dêem trabalho.
– Está bem, Azeveda – respondia eu já enfadado, mais preocupado em começar logo a aventura de mudar de bairro, e de vida. – Olha que vós bem sabeis o caminho. Atravessaide a ponte, depois, ó chegar ao chafariz da Madalena, viraide à esquerda, passaide em frente à igreja e ao Parque de Campismo, é só virar à direita, nos Ferreiros, pronto, já lá estais. – dizia a velha empregada como se nos ralhasse, mas já com uma lágrima a inundar-lhe o canto do olho. – Bem sei Azeveda, eu sei o caminho, já lá fui muitas vezes com o paizinho. É um portãozito vermelho de ferro, há um corredor e…
– Pronto, está bem, eu bem sei que sabeides o caminho. Agora ide que está a escurecer. A vossa avó já está à espera. O paizinho vai depois, encontra-vos lá mais tarde. Rui, cuidado com os carros na ponte, não largues a mão à tua irmã. Recomendava ela, preocupada com a nossa segurança, mas também na tentativa de retardar a nossa partida e ficar mais alguns segundos connosco. Nunca soube ao certo o que se passava na cabeça daquela mulher rude e amiga, mas eu confiava nela, e aquela cena foi ficando difícil para todos. Sabíamos que, apesar de vivermos numa cidade pequena, que permitiria que nos víssemos amiúde, estávamos partindo para vidas diferentes, para mundos diferentes. Talvez não houvesse mais volta, e ela intuía isso.
– Já percebi Azeveda, eu tomo conta dela. Guarda o meu triciclo que depois venho buscá-lo. – Foi tudo que consegui dizer antes que o meu olhar fosse turvado por teimosas lágrimas. – Então pronto, ide lá, adeus. – A velha Azeveda não conseguiu segurar por mais tempo a emoção. Uma lágrima morna escorreu-lhe pelo olho esquerdo salgando-lhe o paladar ao entrar pelo canto da boca. Fungou disfarçando a angústia que sentia, agarrou com as mãos rudes o avental puído e assoou o nariz adunco e vermelho. Empertigou-se num último gesto de altivez, e, acenando com a mão direita encarquilhada, enquanto ainda segurava o avental com a esquerda, saiu para sempre da nossa vida. Terminava assim a fase mais feliz da minha infância, encerrava-se o ciclo da Rua da Ponte, 24. Azeveda passou a ser uma lembrança perdida em algum canto escuro da minha memória, mas uma lembrança terna, amigável, protectora e fugaz. Que Deus a tenha!
De mãos dadas com a minha irmã iniciei a travessia de trezentos metros que me levaria ao outro lado da cidade, ao bairro da Madalena, à casa dos meus avós, ao outro lado da minha vida. As poucas centenas de metros que separavam o Arrabalde da Rua do Sabugueiro, a minha nova direcção, seriam percorridas inúmeras outras vezes, mas nunca mais com o mesmo significado, com o mesmo espírito, com a mesma carga dramática. A cena, vista de longe era insólita, áspera até. De perto era brutal, desumana. Duas crianças com pouco mais de seis anos, de mãos dadas, com uma trouxinha de roupa às costas como se fossem ciganos errantes, rompiam com os seus passos miúdos e hesitantes o escurecer húmido e triste da bela e àquela altura sombria cidade de Chaves. Estavam a caminho do seu destino. Atravessar aquela ponte era um acto cheio de simbolismo. Não era só a casa que deixávamos para trás, era uma vida, uma história, uma família despedaçada pela incompreensão, pela intolerância, pelo orgulho, mas uma família, a minha família. Aquela ponte não ligava apenas duas margens do mesmo rio, ela separava também dois pedaços da mesma vida. Aquela ponte não servia para facilitar a travessia, ao contrário, ela lembrava que havia uma distância a impor-se entre passado e presente. O rio Tâmega, àquela altura já com grande caudal, não se prestava mais às brincadeiras de Verão, apenas afastava, com a sua correnteza e o traçado sinuoso de seu curso, as boas lembranças de uma época em que tínhamos uma família normal, em que ainda era permitido brincar de faz-de-conta, de polícia e ladrão, de descarregar o triciclo, plantar milho no nariz, beber calda de pudim, uma época onde ainda era permitido sonhar. As pessoas olhavam para nós com alguma curiosidade. Não sei se conheciam a nossa história, mas é bem provável que sim. Numa cidade como aquela, a separação do filho do Sr. Carvalho do Tribunal não passaria despercebida. Forçosamente seria tema das conversas de café, do apetite das alcoviteiras, tema da famosa quinta coluna, como era chamado o grupo de homens que se reunia na esquina do Lopes, no Largo das Freiras, para criticar tudo que caísse na roda. Era preciso falar da vida dos outros, já que a própria era tão desengraçada, tão vazia, tão sem relevância que não pagava a pena perder tempo com ela. Não sei o que pensavam as pessoas que nos olhavam ao passar, mas jamais esquecerei aqueles olhares. Eram invasivos, indiscretos, intimidadores, incomodavam-me e assustavam a minha irmãzinha. Alguns eram piedosos, complacentes, outros conformados, com certa ternura até. Mas eram todos coniventes com a forma de pensar que tinha levado àquela situação. Para mim eram todos farinha do mesmo saco, eram todos baluartes de uma sociedade de abutres, que se alimentava da desgraça dos outros, baseada na hipocrisia, no falso moralismo e na aridez de ideias. Era a sociedade da falta de perspectivas, fruto da ausência crónica do que fazer, da preguiça de pensar, da mediocridade com que o regime de Salazar dirigia um país que já não ousava pensar por si mesmo. Eram todos um quase nada, e nada era tudo que eu tinha no coração naquele momento. Nem triste conseguia ficar. Estava a ficar seco, anestesiado. Aos sete anos já estava a converter-me em cético, as minhas emoções estavam estéreis, pelo menos era o que eu sentia enquanto apertava solidariamente a mão da minha amuada irmã.
Para passar o tempo, enquanto atravessava aquela ponte milenar revivia as brincadeiras que deixava para trás. As aventuras à beira do rio com a minha irmã e o meu triciclo. As tardes em frente à TV, na pensão da Dorinha na Rua do Tabolado, uma das poucas casas que possuíam o cobiçado aparelho. Ainda me lembro bem de ficarmos ali, no salão de refeições da pensão, misturados com caixeiros viajantes, com utentes das águas quentes das Caldas, assistindo a séries como o Bonanza, o Chaparral ou a Viagem ao Fundo do Mar. Ficávamos sentados em silêncio, com o pescoço esticado a olhar para aquele pequeno rectângulo cinzento, lá no alto, espetado na parede, hipnotizados com as aventuras da família mais admirada do Oeste selvagem. Assim que terminava o episódio, ao ouvirmos os primeiros acordes do famoso tema de abertura, com a imagem do mapa do estado americano do Nevada a arder em chamas, pegávamos nas nossas armas de madeira, nos nossos cavalos de cabo de vassoura, e lá íamos viver as nossas aventuras de mentira, encenando os episódios que víamos no ecrã, imaginando o Rancho Ponderosa e as belas paisagens do Nevada e do lago Tahoe, ali ao lado, nas margens calmas do Tâmega. Já tínhamos a nossa produção combinada, o escript acertado. O Quim Barrigas, filho da dona da pensão, por sua figura avantajada, ar bonachão e coração transbordando de bondade, sempre encarnava Hoss, o irmão mais rechonchudo e engraçado do seriado da TV. Eu e o Jime, cujo pai, Alberto, tinha uma sapataria ali ao lado da pensão, disputávamos aos gritos o privilégio de ser o canhoto Little Joe, filho mais novo do clã comandado por Ben Cartwright, e o mais impulsivo, irresponsável e romântico dos três. Completando a família, o filho mais velho, Adam, era uma espécie de jocker, e costumava ser interpretado por quem se apresentasse primeiro para completar a brincadeira. Corríamos aos saltos, imitando as desabridas cavalgadas dos Cartwright, percorrendo as passagens e vielas do Arrabalde até ao Canto do Rio. Uma vez por outra, a minha irmã tentava acompanhar-nos, mas não resistia à cara torta dos rapazes que não viam como poderia uma moça, franzina e tímida, encaixar-se nas histórias cheias de luta e paixão que nos deixavam ofegantes, com a língua seca e os olhos esbugalhados. Certa vez, já depois da brincadeira terminada, a minha irmã foi encontrar-me em frente à porta da casa do Jime, um casarão antigo, de três andares, de frente para o Largo do Arrabalde. Enquanto eu lhe contava as peripécias daquela tarde, percebi a uns duzentos metros, perto do quiosque do Hélder, a caminhar na nossa direção, o Eugénio Parreco, polícia antigo, com ar de poucos amigos, para mim, pelo menos, mas que era muito conhecido de toda a população pela sua benevolência quase paternal. Fazia cara de mau, gostava de implicar com a canalha, mas era mais para se divertir do que propriamente para exercer alguma autoridade. Por alguma razão que desconheço, eu tinha um medo atávico de homens fardados. Era só ver um polícia ao longe para ficar encolhido, inseguro, constrangido. Parecia que eu estava em falta com a Lei, que era fugitivo da justiça, sei lá, não havia razão específica, mas eu borrava-me de medo da polícia. No momento em que percebi o coitado do Parreco a descer o Largo do Arrabalde em direção à ponte, agarrei na mão da minha irmã e corri como quem vai tirar o pai da forca. Como a Cristina não conseguisse acompanhar-me, soltei-lhe a mão e corri sozinho, abrindo uma folgada vantagem. Corria desabalado em direção à porta de casa sem olhar para trás. Os calcanhares batiam no rabo de tanta pressa. Ao enveredar pela travessa dos couros, aquela viela que faz a ligação com a Rua do Tabolado, olhei para trás e perguntei à minha irmã sem abrandar a correria: – Cris, o polícia ainda está aí atrás?
– Acho que não, Rui, não consigo vê-lo. – Pelo sim pelo não, mantive o ritmo até alcançar a segurança da porta de casa. Entrei desenfreado, ofegante, amarelo de medo. A minha irmã chegou segundos depois com a notícia: – Acho que ele não andava atrás de nós, Rui, ele virou na Rua do Tabolado e foi pró lado das Caldas! – Já era demasiado tarde pra mim. Para meu constrangimento e alegria da minha irmã, a mancha húmida nas calças podia ser vista à distância. A minha bexiga não aguentou a emoção do perigo e desandou, urinei descontroladamente, ficando ensopado da cintura até os pés. Cristina, claro, ria sem parar, mais por nervosismo do que por vontade, mas ria-se, ria-se muito. Foi preciso suborná-la para garantir o segredo. Ofereci-lhe parte da próxima remessa de chocolate que o nosso pai traria da Espanha. Ingénua e generosa aceitou. Ninguém mais soube desse episódio vergonhoso (até hoje, claro), minha honra estava a salvo. Entretanto, a aventura deixou-me deprimido, inquieto. Nessas horas só uma coisa me acalmava: chocolate. A minha mãe não estava em casa, tinha saído para fazer umas compras na Cezarina, a poucos metros de casa, mas isso ainda me dava alguns minutos antes que ela chegasse. Vasculhei a casa em busca de algum chocolate guardado, mas foi em vão. Não havia o menor sinal da guloseima. O meu pai não ia a Espanha há mais de uma semana e o stock estava a zero. Aflito, continuei a busca por açúcar, por adrenalina, por emoção. Abri o frigorífico e deparei-me com um vistoso pudim de leite, com aquele molho acastanhado, feito de açúcar queimado, doce como o céu. Só então me lembrei de que, naquela noite, íamos receber um casal amigo dos meus pais para jantar e a minha mãe queria fazer um agrado, servindo o pudim que era sua especialidade. Peguei o prato fundo da iguaria, olhei para a minha irmã como que a implorar cumplicidade, e não tive dúvidas. Ali mesmo, levando o prato à boca com o risco de ver o pudim espatifar-se no chão, bebi a calda do pudim, deliciando-me com o melaço, como se aquilo fosse a solução de todos os meus problemas. Cristina olhava a cena entre assustada e incrédula. Após alguns segundos, não podendo conter a excitação, disse em tom de reprovação:
– És parvo Rui? E quando a mãezinha der conta que o pudim não tem o molho? – perguntou aflita, olhando-me com perversa e mal disfarçada admiração. – Que me importa a mim? – gabei-me. – Depois invento uma desculpa, as visitas nem vão dar conta de nada, as pessoas nem costumam comer a calda! – Guardei o pudim de volta no lugar e fui vestir outra roupa, pois ainda estava com as calças mijadas agarradas ao rabo. Ficámos entretidos até o jantar, a brincar e a rir das peripécias da movimentada tarde. Não me lembro se o casal fez questão do molho do pudim, mas sei que, quando a minha mãe percebeu que a sobremesa estava, digamos, mutilada, não teve dúvidas acerca do autor da proeza, e veio atrás de mim com o chinelo com que sempre tentava mostrar-me o seu desagrado com as minhas peraltices. Tão logo conseguiu encurralar-me num canto do corredor, levantou a mão ameaçadora e passou-me um sermão sobre respeito pelos outros e boas maneiras. Não me bateu. Acho que conseguiu encontrar certa graça na trapalhada toda e acabou por se render aos encantos do filho traquinas. A minha irmã, claro, não conseguiu esconder a história da perseguição policial e do final húmido que resultou do episódio. Ao saber da tarde atribulada, a minha mãe acabou por relevar o roubo da calda do pudim, deve ter-se justificado com as visitas de alguma maneira, e eu acabei sendo punido apenas com a repreensão e a ameaça de apanhar da próxima vez. Pensando bem, barata feira, devia ter acabado com o pudim!
Foi bem divertida aquela tarde. Mais uma vez eu e Cristina tínhamos reforçado os laços de fraterna parceria, na alegria e na tristeza, para o bem e para o mal, como só as crianças conseguem estabelecer. Não há dúvida, fazíamos uma bela dupla!
Agora, enquanto seguia pelo estreito passeio esquerdo da velha ponte, a caminho da casa do meu avô e da minha nova realidade, lembrei-me de histórias como esta, mas elas pareciam ter acontecido há séculos. Não sei bem por que, ainda nem havia entrado na nova vida e já sentia saudades da antiga! A intuição dizia-me que dali em diante essas brincadeiras seriam mais raras, menos prováveis. Algo se estava rompendo naquela travessia, alguma coisa além da porta verde da minha casa da Rua da Ponte estava a ser deixada para trás. Senti um leve arrepio na espinha. Talvez fosse natural, a noite começava a estender o seu manto, a temperatura caía, a proximidade da água do rio também deixava o ar mais frio, as narinas sentiam a diferença, o nariz começava a ficar avermelhado. Puxei a gola da jaqueta para as orelhas, apertei de leve a mão da minha irmã, apressei o passo e completei a travessia da ponte convencido de que, se não fossem aquelas, outras aventuras viriam, isso era certo. No final da rua, na esquina do Lourenço, viramos à esquerda em direção à igreja e ao Parque de Campismo. Mais à frente, à direita, pudemos ver a entrada do Terreiro da Madalena. A oficina dos ferreiros à nossa frente sinalizava que a Rua do Sabugueiro, direcção dos meus avós, começava ali. Evitando os charcos lamacentos, a pular de pedra em pedra, conseguimos evitar o vexame de chegar à nova vida com os sapatos enlameados. Em poucos segundos alcançámos o ponto onde a rua fazia uma curva à direita. Ali estava o sabugueiro que lhe dava nome, uma espécie de arbusto gigante, com folhas verdes e espessas, que se estendia por cerca de dez metros. Logo em frente ficava a casa dos Morgados, família com quem conviveria por muitos anos, e com quem construiria uma longa e conturbada amizade, como longas e conturbadas costumam ser as verdadeiras amizades. Logo depois da curva ficava o portãozito vermelho que dava acesso à casa do meu avô, pelo quintal, o corredor de cimento beirando a horta, o enorme e pesado portão de ferro forjado, os quinze degraus de pedra, o jardim e, finalmente, a porta de entrada daquela que seria a minha casa nos próximos quatorze anos. Já conhecíamos o caminho. Era o mesmo das visitas furtivas que fazíamos à minha avó na ausência do Sr. Carvalho. Subimos as escadas, com a trouxinha de roupa às costas, ansiosos e conformados, completamente abandonados e indefesos, como cordeiros mansa e ingenuamente entrando na toca do lobo. Acho que não tínhamos nenhuma ideia do significado daquele momento. Só muitos anos depois, nas rodas de conversa da família, nos poucos momentos em que as minhas tias se permitiam algum tipo de intimidade, é que começamos a perceber o significado da situação que havíamos vivido. A gravidade do que havíamos protagonizado, a cena tragicómica que, inocentemente, havíamos representado, espremidos entre a necessidade do meu pai em conseguir um novo lar para os filhos meio órfãos, e o orgulho do meu avô, que insistia em humilhar o filho.
Um pouco receoso, sem saber o que esperar, mas ciente da minha missão e responsabilidade, caminhei pelo corredor de cimento que ladeava os canteiros de violetas e hortênsias e parei em frente à porta da cozinha. A esta altura Cristina já estava encolhida atrás de mim, embrulhada no sobretudo e com a cabeça enfiada num bizarro gorro de crochê vermelho que só deixava a marrafa de fora. Do rostinho assustado e trémulo de frio e ansiedade, quase só a pontinha do nariz se podia ver. Os dois olhitos apertados e o cenho franzido davam uma ideia da seriedade da situação e do que lhe ia na alma. Mais destemido (ou irresponsável), fechei os dedos e bati três vezes, com firmeza, na madeira da porta. Esperei segundos que pareceram séculos, o coração na boca podia ouvir-se bater a dez metros. A eternidade de poucos segundos teve fim quando ouvi passos arrastando chinelos, passos vagarosos, pesados, passos sem muita convicção e nenhuma pressa. O ranger da porta ao abrir-se, a nesga de luz que escapava lá de dentro iluminando o chão de cimento, a enorme sombra disforme projetada na parede, tudo isso fez com que aquele momento ficasse por muitos anos tatuado na minha memória. O meu avô, um homem alto e corpulento, ali de cima do degrau de cimento que separava o nível do chão da cozinha do piso do jardim, vestindo uma pesada samarra com gola de pele e uma boina galega de feltro preto, parecia ainda maior e mais assustador do que era. Nunca o havia encarado frente-a-frente, não estava preparado para aquele encontro, era um embate desigual, uma luta de David contra Golias, uma situação surreal que só a coragem inocente e irresponsável de uma criança poderia suportar. Refeito do susto após uma fração de segundo de hesitação, pensei que, de certa forma, aquilo também era uma grande aventura, talvez melhor do que brincar de Bonanza, fugir da polícia ou roubar a calda do pudim. Eu só precisava conter minha bexiga, fazê-la compreender que, por mais ameaçadora que fosse a figura à minha frente, que diabos, era meu avô, nada de mal poderia acontecer. Decididamente, mijar nas calças não seria propriamente a coisa mais adequada àquele momento solene! Nem tive tempo de tentar convencer a bexiga, contraí a pélvis dobrando levemente os joelhos, encarei a fera nos olhos e esperei o destino. Nesse instante percebi que as minhas tias, Dina, a mais velha, e Nilde, apareciam por trás da figura corpulenta e instransponível do meu avô. Não lhes via o semblante, o meu olhar concentrava-se naquele senhor que um dia dissera, solene: “Eu não tenho netos”. Às tantas, o silêncio foi rompido por uma voz menos áspera do que eu me lembrava ou esperava: – Olá miúdos, então quem sois vós?– Fiquei paralisado. Afinal que porra significava aquele “quem sois vós”? Mas que parvoíce era aquela? De repente um pensamento brilhante atravessou minha mente como um raio. Não consegui evitar o esboçar de um sorriso sarcástico no canto da boca. Solenemente, tão solene quanto deve ser uma boa vingança, disparei sem hesitação: – Somos os netos, quem mais poderíamos ser?– Pude ouvir o riso nervoso das minhas tias nas costas daquele gigante completamente desconcertado com a minha lépida resposta. Percebi que se afastava para nos dar passagem, e que logo uma das minhas tias nos pegou pela mão e nos levou para dentro da cozinha. Os risos ainda se ouviam, o meu avô, refeito da surpresa da minha resposta faceira, repetia a frase certeira, “somos os netos”, soltou uma gargalhada curta e sincera e repetiu, “somos os netos”. Mais uma gargalhada e completou: “Mas que miúdo atrevido! Este aqui não pode negar que é um Carvalho. Pois sim senhor!…”. Não sei porquê, senti naquele momento que a fera estava domada, senti que havia conquistado o meu avô, nada no mundo poderia assustar-me, a tarefa mais difícil da minha curta existência tinha sido plenamente cumprida e eu estava orgulhoso. Não sei se eu era um Carvalho ou um Gaio, como a minha mãe costumava dizer, só sei que eu era um vencedor, tinha encarado a travessia daquela ponte, deixado uma vida para trás, tinha levado minha irmãzinha em segurança, tinha vivido mais uma aventura. Percebi que minha vida, longe de estar perto do fim, estava apenas a começar, a tomar outro rumo, ou a seguir o rumo natural, o destino do qual ninguém escapa. Aprendi naquele momento que não há nada como um dia atrás do outro, que no fim tudo se acerta, e se não se acertou é porque o fim ainda não chegou, ora, pois! Não era pouca coisa para um assustado miúdo de sete anos que ainda brincava ao Bonanza e se mijava com medo da polícia!
No dia seguinte pude testemunhar uma cena que demoraria a entender, e que, depois de entendida, me negaria a aceitar. Na minha infantil concepção, aquilo era algo difícil de imaginar, mais do que improvável era impossível, até que aconteceu. Parecia uma cena de ópera bufa, tão medieval que melhor teria sido se tivesse acontecido numa das salas do castelo da cidade. Ainda não consigo interpretar o que senti naquela tarde. Levei anos a tentar compreender o significado do que presenciei, mas corro o risco de morrer sem aceitar que havia um motivo plausível para aquela bizarrice. Talvez eu tenha bem mais do orgulho típico dos Carvalhos do que eu mesmo queira admitir, pois só um orgulho inflado e superlativo, contraposto à absoluta falta dele, pode, ao menos, tentar explicar os factos daquela tarde.
Embora já tivéssemos sido aceites na casa do meu avô, ainda havia a questão do relacionamento rompido com o meu pai. Distraído com todo o alvoroço da minha nova condição, afinal, pela primeira vez, eu tinha um avô que me pegava no colo, acabei por esquecer que o meu pai não estava lá, e, principalmente, a razão de não estar lá. No dia seguinte, o meu avô amanheceu acamado com uma forte gripe. A minha tia Nilde chamou-nos de lado, na saleta de estar, e, com muito jeitinho, explicou que o meu pai e o meu avô precisavam conversar, pois nós havíamos sido aceites na família, talvez para sempre, mas ainda havia alguns detalhes para resolver. Disse-nos que naquele dia, um pouco mais tarde, o meu pai deveria aparecer para tentar entender-se com o meu avô. Como eles não se falavam há anos, e para evitar que o clima ficasse mais tenso do que já era esperado, minha tia pediu que nós estivéssemos presentes nessa conversa, como forma de, digamos, amolecer o coração do vô Carvalho. Seria uma conversa difícil, que nós não entenderíamos bem, mas era preciso que lá estivéssemos para desanuviar o ambiente. A presença de duas crianças, que já haviam ganho a simpatia do avô, ajudaria muito, segundo a minha tia, a levar a conversa a bom termo, pois daria à cena um aspecto, ao menos, de arremedo de família. Acho que a minha tia estava prestes a compor um quadro surreal, como se ela fosse um Salvador Dalí de Trás-os-Montes a pintar relógios derretidos. Neste caso, famílias derretidas, o que seria ainda mais surreal, sei lá! Pouco passava das quinze horas quando o meu pai apareceu. Fez-nos um afago quase protocolar, perguntou se tínhamos gostado da casa como se não a conhecêssemos, e entrou na saleta onde ficou alguns minutos com a minha avó e as minhas tias. O meu avô continuava na cama, no quarto grande, lá no fundo, à direita do corredor. Cristina e eu ficámos no jardim a brincar às escondidas até que a minha tia nos chamou. De mãos dadas com o meu pai entrámos na toca do lobo, quer dizer, no quarto do meu avô. O significado do que se passou nos minutos seguintes, embora eu tenha sido testemunha ocular, nunca vou saber completamente. Não vou esquecer a cena de ver o meu pai, o meu orgulhoso, elegante, alegre e excêntrico pai, de joelhos na beira da cama, ao lado do meu avô, a chorar compulsivamente, pronunciando palavras que nunca percebi. Era um choro sofrido e humilhante, o choro de um homem adulto a pedir perdão ao pai por tê-lo contrariado tanto e tantas vezes! Não lembro exatamente o diálogo, mas recordo que falava na situação difícil dos miúdos sem uma mãe para cuidar deles, enfim, do perigo de criar dois filhos sem uma família que pudesse servir de exemplo e essas coisas que somos capazes de dizer quando, humilhados e frágeis, precisamos desesperadamente da ajuda de alguém. A situação de estarem ali, pai e filho, frente-a-frente naquelas circunstâncias, pintava a cena com cores fortes. Fiquei chocado. Achava que o meu pai era incapaz de chorar. Tinha certeza que jamais se ajoelharia num ato de submissão. Afinal, nem perante o representante da ditadura, lá na alfândega, ele se havia intimidado ou humilhado, quanto mais ficar de joelhos e a chorar!
Naquela idade eu não era capaz de entender a lógica das necessidades, dos atos de desespero. Por isso, o que senti, foi que a imagem do meu herói, que já era meio bandido pra mim, desmoronou. Mais uma vez, as minhas referências e as minhas convicções foram deitadas ao chão, feitas em pedaços, reduzidas a pó. Acho que depois desse dia nunca mais consegui ver o meu pai da mesma maneira. A minha noção de família, se já era vaga e confusa, só piorou. Não conseguia compreender os motivos que o levaram a agir de forma tão contrária à imagem que tinha dele. Não fui capaz de perceber que a razão era exatamente a situação de desamparo experimentada por seus filhos, eu e minha irmã! Hoje, também pai, já sei que somos capazes de qualquer coisa para proteger os nossos filhos. Naquele momento, naquela tarde fria do Outono de 1962, perdido e confuso lá nos confins do interior de um Portugal vergado por tradições seculares e amordaçado por uma ditadura truculenta e burra, demorei a recobrar a alegria de viver. Aquela cena foi um duro golpe na minha esperança de uma vida melhor, mais estável, uma vida cercado de uma família normal. Mas afinal o que é normalidade? Passados mais de quarenta anos, homem maduro e habituado aos revezes da vida, consciente de que há certas coisas para as quais não devemos buscar motivos ou tentar compreender, tenho procurado aceitar o que houve. Mas não pensem que isso torna a cena menos desconcertante, menos carregada de perplexidade. Às vezes ainda dou comigo a pensar que aquilo não foi um pedido de desculpas, foi uma demonstração de vassalagem. Foi a cena onde um súbdito rebelde e desmiolado presta juramento ao seu senhor, arrependendo-se de ter ousado tomar suas próprias decisões, ter tido a coragem de tentar o seu próprio caminho. Nada mais humilhante para alguém com a personalidade do meu pai. Nenhuma outra cena que eu pudesse ver seria capaz de me chocar tanto, de ficar tão indelevelmente gravada na minha memória. Mesmo protegido por todo o tempo que passou, ainda não consigo ter discernimento para julgar se aquilo foi uma atitude nobre do meu pai para garantir o bem-estar dos filhos, ou se foi a demonstração de uma inaceitável falha de caráter que ainda me deixa perplexo. Talvez eu mesmo deva pedir desculpas a ele por pensar assim, mas o certo é que, mesmo depois de todos estes anos, aquela tarde permanece irritantemente presente num cantinho da memória, aguardando uma explicação mais fácil de engolir. Só o que me ocorre dizer neste momento, é: que Deus nos perdoe a todos, quem nunca errou que atire a primeira crítica. O milagre estava feito, daquele dia em diante viveríamos juntos, debaixo do mesmo tecto, exatamente como uma família deve ser. Não viveríamos em paz, pois isso já seria pedir demais. Aquela não seria a última demonstração da moral torta e rançosa da minha família eivada de preconceitos, quem me dera! A intolerância dos corações empedernidos de mágoas e ignorância de uma família perdida nos seus próprios dilemas ainda faria outras vítimas, mas pelo menos eu já estava vacinado. Começava a ficar imune ao vírus da hipocrisia e do cinismo!
VII
A Matança
Os anos seguintes testemunharam grandes mudanças. Estava numa nova família, numa nova casa, num novo bairro, numa nova vida. Havia lembranças que era preciso acomodar, e novidades que precisava compreender e aceitar. Aos poucos fui percebendo que o meu avô era um homem com muitas qualidades, apesar dos inúmeros defeitos. Era íntegro, preocupado com a família, e tinha um amor pela esposa que enternecia qualquer um que observasse o seu comportamento com olhos de ver. A aspereza, o orgulho e o ar superior que exibia na rua, ou no contacto com estranhos, esfarelavam-se completamente na presença da minha avó Arminda. Mas, também, pudera!… Uma alma caridosa como aquela! Pessoinha que transbordava bondade e meiguice, sempre disposta a ajudar os outros, sempre procurando manter a família longe de conflitos, sempre pronta a perdoar antes mesmo de conhecer a extensão da ofensa. Nem sempre obteve êxito nessa tarefa, isso é verdade, mas nunca se deu por vencida, lá isso não se pode negar. Acobertava a todos, das esquisitices dos filhos, às peraltices dos netos, enfim, era, com a sua religiosidade e fé inabaláveis, o fiel da família, o porto seguro de todos nas horas em que o mar encrespava. A doença já a consumia, lenta, mas inexoravelmente. Era diabética, sofria de hipertensão e de outras complicações que foram aparecendo como decorrência da frágil saúde. Aos poucos foi perdendo a visão, a audição, o prazer da mesa, enfim, nos últimos meses até a inesgotável paciência ficou mais curta. Efeitos da doença e da medicação, diziam os médicos. O meu avô, sempre que ela tinha alguma crise mais aguda redobrava as atenções, cobria-a de carinho e ternura. Era emocionante vê-lo em volta dela, tentando tirá-la das crises de mau humor que a doença causava, fazendo brincadeiras, servindo-lhe as refeições, enfim, preocupando-se com tudo que a ela dissesse respeito ou que contribuísse para amenizar o seu desconforto. Com os netos também era outro homem. Carinhoso, brincalhão, firme quando tinha que ser, mas não exibindo nenhum traço daquele homem arrogante que dizia que não tinha netos. Desse tempo nem nos lembrávamos mais. Às vezes, já reformado, encarrapitava cada neto numa das pernas e ficava horas a contar as histórias engraçadas do tribunal, ou até dos tempos em que vivera no Rio de Janeiro. Lembro-me bem de que falava com entusiasmo e certo encantamento da tendência do brasileiro para levar tudo na brincadeira e driblar as agruras da vida. Falava muito de um tal “jogo do bicho” e de como os cariocas encaravam de forma bem humorada as dificuldades de praticar esse jogo de loteria que era ilegal, considerado contravenção. Recordo-me bem que contava, entusiasmado, que certo dia um vizinho, interessado em saber se acertara no bicho ou não, não conseguia esperar a chegada do bicheiro com o resultado. Lá pelas tantas percebeu que a procissão de Corpus Christi passava à sua porta, com os andores, os anjinhos, a multidão atrás, enfim, todos os tipos que compõem esses desfiles solenes. Aguçou a vista e notou, lá no meio da multidão, segurando um dos estandartes religiosos com a figura de Cristo, um sujeito bem alto, magro, que se destacava da multidão. Era o gerente da banca de jogo do bairro, que com a sua devoção talvez tentasse buscar a remissão dos pecados. Contava o meu avô que, para tentar saber o resultado do jogo, o tal vizinho, criativo como todo carioca, aproveitou-se do cântico religioso que todos entoavam, e, parodiando a letra divina, ergueu a voz e cantou:
Você que é mais alto diga lá se viu,
no jogo do bicho, que bicho saiu!
Ao que o sujeito alto e esguio como o próprio estandarte que carregava, sem se dar por achado, juntou a sua voz cavernosa ao coro da multidão e respondeu:
Avé, avé, avestruz,
Avé, avé avestruz!
Vô Carvalho cantava para nós imitando o tom solene dos coros religiosos e terminava o relato, divertido com as nossas expressões de encantamento, soltando uma ruidosa gargalhada que lhe deixava as enormes faces rosadas e lhe fazia tremer a volumosa papada. Quase todos os dias lhe pedíamos que ele contasse a mesma história, e ele, com paciência de Jó, nunca se furtava à tarefa. Tudo pelos netinhos. Ora, ora, quanta mudança desde aquele impiedoso encontro no passeio da Ponte Romana!
Quem observasse o meu avô com atenção conseguiria perceber muito da personalidade do meu pai. As tiradas engraçadas, as respostas diretas, a lógica desconcertante, tudo estava lá, tudo tinha a sua origem naquele homem orgulhoso e gentil, que passava horas com os netos ao colo. Era capaz de respostas tão inusitadas que se transformavam em bordões na família e se perpetuaram. Até hoje eu cito muito o meu avô, de tanto que a convivência com ele, embora curta, me marcou. Lembro-me, por exemplo, de que a minha avó tinha, como toda a portuguesa, uma preocupação quase obsessiva com a comida. Estava sempre aconselhando, recomendando, tentando que o seu marido se alimentasse da melhor maneira possível, de forma mais equilibrada e saudável, coisa que ele se negava a fazer. Quando ele aparentava estar com a saúde mais fragilizada, ela dizia com carinhosa implicância: – Oh home, come esta saladinha que faz tão bem à saúde! Olha este caldinho de nabiças que está tão saboroso! – dizia, com ternura, tentando convencê-lo a deixar de lado os fortes temperos, o toucinho, os rojões e o presunto. – Oh Arminda, deixa-te de tretas, se faz bem à saúde manda servir lá no hospital que eu não estou doente, carago! – respondia, com ar divertido, assim como quem faz o fecho de uma anedota e espera o riso da plateia. No mesmo instante virava-se para nós e continuava: “Comida para ser boa tem que fazer mal! Se vos disserem que esta ou aquela comida faz bem, que é boa para a saúde, podeis acreditar que não presta, deve ser desensaibida, sem alma, sem paladar!”. Foi assim, ouvindo estes “sábios” conselhos, que me habituei a comer do bom e do melhor, mas sem preocupações nutricionais ou com a saúde. O meu avô podia ser muito engraçado e até entendo que, naquela época, não havia mesmo as preocupações de hoje com a saúde e com uma alimentação equilibrada. A própria ciência ainda não se havia debruçado muito sobre o tema, mas o resultado de toda aquela despreocupação com a saúde e o nutricionismo, foi a gastrite que consegui e que tanto sofrimento me causa no dia-a-dia. Mas não posso reclamar. Só para ouvir as histórias e as saídas espontâneas do meu avô, sofreria tudo outra vez, sem nenhuma culpa. A comida, aliás, foi um capítulo à parte na nossa educação transmontana. Não entendo como podíamos ingerir tantas calorias e tanta gordura e, ainda assim, crescer saudáveis e fortes como as fragas da Serra do Brunheiro que víamos pela janela. Naquela época a carne de porco era a base da alimentação. “Do reco tudo se aproveita, do rabo ao sangue”, costumava dizer o meu avô para nos lembrar que não podia haver desperdício. No norte de Portugal, na região do Alto Tâmega, a matança, sempre no início do Inverno, quando o porco era sangrado até à morte, e depois esquartejado e colocado na masseira de sal grosso, era motivo de alegria e de festa. Havia equipas especializadas em abater os suínos num ritual que nos dias de hoje seria, certamente, condenado pelas entidades protectoras dos animais e pelos corações mais sensíveis. Os profissionais especializados eram chamados de matadores, e levavam umas boas croas para fazer o seu trabalho com cirúrgica precisão. Mas era preciso, era a tradição, era assim que sabíamos fazer, assim fomos ensinados, de geração em geração, até que a matança foi caindo em desuso, mais por falta de mão-de-obra do que por drama de consciência, e hoje é muito raro poder assistir-se a um espectáculo daqueles. Há quem agradeça por isso, e há quem sinta saudades daquele tempo. Mas por muitos anos eu participei desse ritual milenar, e, claro, por mais que não considerasse as cenas agradáveis, nunca me perguntei se havia como evitá-las. Limitava-me a aceitar a execução do suíno como algo inevitável, uma fatalidade, uma sequência lógica do calendário, assim como a vindima, a apanha das batatas ou o ceifar do trigo e do centeio. Na verdade era assim mesmo, eu nada podia fazer além de viver cada experiência e aprender com os mais velhos. Das lembranças que ficaram eu só posso dizer que, no final, tudo acabava em festa, comemoração e muita comida, boa e gordurosa, o que, em si, como diria meu avô, é uma redundância!
Mas o matador e sua equipa chegavam cedinho, lá pelas seis da manhã. Normalmente eu ainda dormia. Muitas vezes só fingia que dormia para evitar ter que presenciar a parte mais cruel. Os homens aproximavam-se da bezeira, onde os porcos dormiam e se alimentavam, identificavam a ceva a ser abatida (era assim que chamávamos ao porco mais gordo, o mais cevado), e iniciavam uma dança de aproximação com a vítima, um bailado macabro, um jogo cheio de fintas, dribles (quase sempre do porco), e fights entre a meia dúzia de homens rudes e robustos e o porco de mais de duzentos quilos. Parece que o animal pressentia o seu destino. Na noite anterior ele costumava ficar mais agitado, roncava, andava de um lado para o outro, desentendia-se com os outros animais, os que sobreviveriam àquele campo de concentração, o Auchwitz do Sabugueiro! Normalmente eu acordava com o barulho do réco fugindo dos homens, eram gemidos sofridos, de quem sabe que o fim está próximo. Aquilo deixava-me intranquilo e eu remexia-me na cama, lá em cima no meu quarto, no mirante, por cima do jardim. Depois de alguns minutos os homens conseguiam encurralar o coitado, que era laçado pelas patas e, com grande esforço, imobilizado num enorme banco de madeira, o altar do sacrifício pagão. Era colocado de lado, com as patas e o focinho amarrados, e era segurado por cinco ou seis homens, enquanto o matador, com a sua faca de lâmina afiada e letal, com cerca de vinte e cinco centímetros de aço brilhante, penetrava a garganta do bicho em busca do coração. Naquele momento o porco gemia desesperadamente, o chiado podia ser ouvido por toda a vizinhança e penetrava nos meus ouvidos como súplica de condenado à morte. Eu enterrava a cabeça no travesseiro, tentando em vão abafar os gritos de desespero do moribundo que alimentaria a família pelo resto do ano. Ainda hoje recordo daqueles gritos lancinantes, agudos, afiados como um punhal penetrando a carne. Enquanto o matador fazia o seu trabalho com firmeza e precisão, alheio aos guinchos do animal, a minha tia, com um alguidar, aparava o sangue quente que jorrava da garganta do suíno agonizante. Era preciso mexer bem e misturar um pouco de vinagre para que não azedasse. Dali, daquele sangue fresco, sairia uma das iguarias mais apreciadas da cozinha regional transmontana: o sarrabulho, que era o sangue coagulado, cozido em água, sal e alho, que adquiria uma consistência esponjosa, como se fosse um pulmão, e era servido, regado com azeite de oliva e temperado com pimenta colorau e alho, acompanhado de batatas cozidas, sequinhas, esfarelando-se de tão farinhentas. Descrito assim, o sarrabulho pode parecer um pouco nojento, pode causar repulsa em estômagos sensíveis, mas garanto que, quem o provou, muitos sem saber do que se tratava, lambeu os beiços e repetiu várias vezes.
Lá fora o trabalho prosseguia, agora já com a minha presença. Lembro-me de um procedimento muito curioso, uma técnica caseira e peculiar que servia para “limpar” o porco: os homens, com tochas feitas de palha, incendiavam o pêlo do bicho até que restasse apenas a pele, que era grossa e irregular, e ficava chamuscada e com alguns chumaços de pêlo mais resistentes que haviam resistido ao fogo. Em seguida, e nessa etapa eu já participava ativamente, com muita água vertida de uma mangueira de quintal, e armados de pedras lascadas e lisas, chamadas de seixos, todos nós raspávamos a couraça do animal, deixando a pele, ou melhor, o couro, o mais liso que conseguíamos. Esse trabalho podia demorar um par de horas, durante as quais ouvia histórias que me fascinavam, histórias de matanças de porco, de como alguns conseguiam soltar-se e fugir com a garganta ferida, esguichando sangue para todo lado, ziguezagueando tresloucados, quase decapitados; histórias de costumes de outras regiões, contadas por aqueles homens simples, cheios de tradições, e cuja profissão eu não compreendia muito bem. Terminado o “acabamento”, com o porco já lavado e liso até o limite do possível, começava a tarefa de limpá-lo. As vísceras eram retiradas, coração, rins, estômago, tripas, fígado, enfim, cada parte tinha uma receita deliciosa que seria executada com o requinte e os detalhes passados de geração em geração, em volta da fogueira, no Inverno, à braseira, nos segredos trocados por mães e filhas, através das décadas, dos séculos, pois tudo, no norte de Portugal, era contado em séculos. Voltando à ceva, depois de retirados os miúdos, a cavidade abdominal do bicho era um buraco oco e rosado, com uns sessenta centímetros de extensão por cerca de trinta de profundidade. Ainda lembro aquele cheiro forte de carne fresca, um odor acre que o meu olfato hesitava em aceitar. Feita a limpeza da cavidade abdominal, com as vísceras já acondicionadas no frigorífico à espera das mais saborosas receitas das minhas tias, era preciso colocar o animal na vertical para enrijecer antes de cortá-lo em pedaços para salgá-lo. O processo consistia em içá-lo na viga de madeira do palheiro, preso por uma corda amarrada nas patas traseiras, onde ficaria pendurado por três dias. Nesse período, eu e a minha irmã costumávamos aproximar-nos daquele enorme bicho pendurado de cabeça para baixo, tentando ficar o mais perto que a nossa coragem permitia, para ver qual de nós conseguia tocá-lo. Quase sempre era a minha irmã que o fazia, pois eu nunca tive uma relação muito tranquila com defuntos, fossem eles animais ou pessoas. Evidentemente isso só acontecia durante o dia, pois de noite nós ficávamos bem longe do palheiro e de seu funesto hóspede. Muitas vezes eu tinha pesadelos só de lembrar as cenas do dia. Rememorava a sangria, aquele animal com as tripas vertendo da barriga, a figura fantasmagórica da fera pendurada na corda, com os olhos arregalados como que a acusar-nos de cúmplices de toda aquela bestialidade. Enfim, eram noites mal dormidas que só tinham fim quando, depois de alguns dias, esquecíamos tudo ao saborear os petiscos fumegantes e apetitosos que aquele porco, com o seu sacrifício, nos proporcionava.
Depois de três dias, cirurgicamente esquartejado, dividido em presuntos (as nádegas e pernas traseiras), pás (as clavículas e pernas dianteiras), rabo, pés, orelhas, cabeça – que o meu avô cozinhava com paciência e depois passava horas deliciado, sorvendo osso por osso, peça por peça –, as costelas e espinha dorsal, enfim, todas as peças daquele espólio eram colocadas numa grande caixa de madeira, com cerca de dois metros de comprimento, por um metro de largura e pouco mais de trinta centímetros de profundidade. Essa estrutura, que ficava a mais de um metro do chão, recebia então o porco esquartejado que era coberto de sal grosso, e ficava a “curar” até que as necessidades do dia-a-dia exigissem a exumação de qualquer das partes. A exceção eram os presuntos, que, depois de algum tempo, eram retirados do sal, untados com uma mistura de azeite, colorau, e outros ingredientes que a senhora Maria Morgada, nossa fiel empregada, e as minhas tias conheciam bem. Depois eram pendurados em cima da lareira, por vários meses, defumando e transformando-se no que era na época motivo de orgulho nacional: o Presunto de Chaves, iguaria que chegou a ser servida com pompa e refinamento na primeira classe dos vôos da Lufthansa, a famosa companhia aérea alemã, como entrada, acompanhada de melão. Hoje, pelo que sei, a falta de providências para dar à iguaria o status de “produto de origem controlada”, o abandono da tradição da matança transmontana e a invasão do presunto industrializado vindo da Espanha, acabaram quase por completo com a mais famosa especialidade da cidade. Ainda se fala com saudade do famoso “Presunto de Chaves”, mas já é tarefa difícil encontrar quem o produza na receita original e com a qualidade que só o método artesanal é capaz de proporcionar. Vamos ficando com o “pata negra” espanhol, que não sendo a mesma coisa, lá vai servindo para matar a saudade. Junto com o presunto, na mesma cozinha regional que mantínhamos no palheiro, ficavam as alheiras, as linguiças, os salpicões de lombo e as sangueiras, embutidos que, por ficarem expostos ao fumo, pendurados em varas por cima da fogueira, eram chamados de “fumeiro”. As alheiras de Chaves, e ainda mais as de Mirandela, pequeno município a cerca de 50 quilómetros, eram outra marca característica da cozinha regional transmontana, cuja fama, assim como a do presunto, correu o mundo e hoje estão à beira o esquecimento. Já não é fácil encontrar essas obras de arte concebidas pelos processos originais. A maioria das vezes temos que nos contentar com imitações industrializadas, ou produções caseiras sem o mesmo esmero e tradição. É pena, mas que eu aproveitei bastante, não posso negar. Acho que a minha geração foi a primeira a contentar-se em apenas comer aquelas delícias, pois nunca soube de algum contemporâneo que seguisse a tradição e tivesse feito alguma matança transmontana nos dias atuais. Aliás, pelos métodos que descrevi nem seria possível, pois hoje, num Portugal controlado pelas normas comunitárias da Europa, essa prática é proibida. No máximo fazem-se matanças a título de exibição, com objectivos turísticos. Nesses poucos casos é necessária a presença de um veterinário e o porco deve ser anestesiado para que se evite o sofrimento. O fumeiro também lá se vai encontrando em algumas “cozinhas regionais” aprovadas pelas rígidas normas européias. Mais das vezes são cozinhas voltadas para o turista, ou seja, fazem fumeiro para “inglês ver” e não para português comer, com o perdão do infame trocadilho. Enfim, não quero entrar no mérito da questão, nem provocar a ira das sociedades defensoras dos animais, mas que essas matanças assépticas não têm o mesmo apelo popular, isso não têm. Independentemente da permissão legal, o facto é que essa tradição secular, para o bem ou para o mal, também foi abandonada à medida em que a minha geração se desligou dos hábitos rurais, procurou educação mais esmerada e se tornou a geração urbana que derrotaria a ditadura e abriria espaço para um Portugal mais aberto ao mundo, mais moderno, mais globalizado e cosmopolita, e, consequentemente, menos arraigado a tradições. Ou seja, um Portugal com liberdade de expressão e leis de primeiro mundo, mas privado das alheiras e do presunto na sua melhor forma! Se foi o caminho mais acertado não sei dizer, mas por certo foi o caminho possível, foi inevitável. De nada adianta tentar travar o curso da história, pois as coisas sempre acontecem, queiramos ou não. Umas vezes por ação, outras por omissão, mas acontecem. Mudanças são inevitáveis, o importante é o modo como as aceitamos e o que conseguimos fazer com elas ou apesar delas.
VIII O contador de histórias
Mas não eram só flores na nossa nova vida. Da boca do meu avô não saiam apenas agrados e brincadeiras. A educação que nos impunha era rígida, formal e levada muito a sério. Hoje eu até entendo que devo agradecer por isso, mas juro que naquele tempo eu não achava piada nenhuma. Entre outros excessos, o meu avô mantinha uma varinha feita de galho de cerejeira, flexível como um chicote, que ficava ali ao lado dele, na mesa de refeições. Era para acertar de raspão nas nossas orelhas quando nos excedíamos nas provocações comuns entre irmãos, ou quando nos recusávamos a comer alguma coisa que ele achava que devíamos. Em suma, era o seu jeito de manter a ordem e impor a sua rígida disciplina, principalmente às refeições. Era só começarem os pontapés por baixo da mesa para ouvirmos o zumbido da varinha de cerejeira, cortando o ar, zunindo em direção às nossas orelhas. Mal dava tempo de inclinar a cabeça para o lado evitando a fisgada. Às vezes sentíamos a dor aguda da carne ferida, ou, quando a esquiva dava certo, o impacto no ombro, que deixava um vergão de lembrança por alguns dias, mas que acabava logo com qualquer tentativa de continuar a briga.
Era um homem de sólidos princípios, educação conservadora e pouco dado a conversa fiada quando as coisas não lhe agradavam. Mas era também um frasista inspirado. Ensináva-nos o comportamento que esperava de nós com bastante didatismo e absoluta franqueza. É claro que a varinha ajudava muito na maldita didática, mas lembro-me bem de que repetia com convicção coisas do tipo: – Calados, meninos bonitos à mesa não falam. – Decretava com firmeza quando começávamos a tagarelar durante as refeições. Se um de nós reclamava que não gostava desta ou daquela comida, ou deixava algum pedaço de lado, meio escondido no prato, dizia com desconcertante pragmatismo: – Quem não gosta come menos. Isso aí no teu prato também se pagou, faz o favor de comer tudinho. – Era com “sentenças” definitivas e sempre na ponta da língua, daquelas que não deixavam margem para dúvidas, que nos educava e mostrava o caminho a seguir, dentro das suas convicções, evidentemente. Só começar a comer depois de que os adultos o fizessem, era outra regra que impunha. Os adultos primeiro, depois as crianças. Jamais levantar da mesa sem a autorização dos adultos era mais uma. Não falar à mesa, não apoiar os cotovelos, usar adequadamente todos os talheres, não levar a faca à boca em nenhuma hipótese, não fazer barulho com os talheres, mastigar de boca fechada, usar o guardanapo sempre antes e depois de levar o copo à boca, enfim, etiqueta e boas maneiras eram preceitos que deviam ser obedecidos cegamente, sem reclamar, mesmo nas frugais refeições do dia-a-dia, que de frugais não tinham nada, pois eram quase sempre constituídas por uma sequência de três pratos. Talvez alguns leitores de hoje achem que aquilo era um exagero, mas posso garantir que aqueles ensinamentos já me foram muito úteis na vida profissional, e, muitas vezes, responsáveis por me livrar de sarilhos no mundo corporativo.
Era realmente um homem incomum, com pouco dinheiro, mas muita classe. Aliás, aquela era uma família incomum. Quem a concebeu deve ter-se livrado da forma, para que nunca pudesse ser copiada. O meu avô era um homem de hábitos simples, porém de gosto refinado, e com uma língua sempre afiada e pronta a desancar os desafetos. Eu não percebia muito bem a situação política de Portugal naquele momento, mas recordo que ele se queixava muito do tal “governo”, a que chamava de “a situação”. Dizia que o governo de Lisboa só se preocupava em ajudar os amigos, os que concordavam com ele, os que sempre diziam “amém”. Reclamava que quem discordasse dos seus projetos, ou que a ele se opusesse, perdia o emprego, era perseguido ou ficava nas repartições, jogado às traças, sem nenhuma perspectiva de promoção ou de melhoria. Isso na melhor das hipóteses, pois os mais impertinentes eram sumariamente encaminhados aos húmidos porões dos presídios portugueses, onde eram obrigados a confessar coisas que não tinham feito, ou a delatar os amigos, sempre persuadidos por impiedosas sessões de tortura que era o método mais utilizado pelos agentes da PIDE, a polícia secreta a serviço da ditadura. O sonho do meu avô sempre foi viver na cidade grande. Tinha paixão por Lisboa e, caso não conseguisse transferir-se para a capital, não se contentava com nada menos que o Porto, o outro grande centro urbano do país, onde achava que teria mais chances de prosperar e criar a família. Passou décadas à espera de uma transferência, uma promoção. Nada. Sempre em vão. E lá se punha a desancar no governo e a tal de “situação”. O facto é que prestou serviço como funcionário público por mais de quarenta anos, sem nunca ter tido um aumento real, ou atendida uma reivindicação. Veio a descobrir anos mais tarde que era considerado “subversivo”, pouco simpático ao regime. Por sorte apenas deixaram o tempo passar, ignorando-o, levando-o ao completo ostracismo e falta de estíao completo desestssar, ignorando-om aumento real, ou atendida uma reivindicaa .he deixava as enormes faces rosadas. utros, semmulo.
O meu avô também dizia dar-se muito bem com os juízes, que o consideravam um pouco acima da média do que era esperado para um oficial de justiça. Dizia isso com certa vaidade, com orgulho até. Contava casos de julgamentos onde os juízes lhe faziam confidências e o tratavam como igual. Evidentemente, isso causava ciúme e desconforto em alguns colegas mais garrilhosos, o que fazia do meu avô, provavelmente, pessoa pouco querida por uns, embora extremamente respeitada pela maioria dos colegas. Como em qualquer repartição ou empresa, ali, no tribunal de Chaves, na década de sessenta, também podiam encontrar-se funcionários competentes e seguros, e a praga dos corruptos, relapsos e bajuladores. Era entre essas duas tribos que o meu avô, ora com a sua arrogância, ora com o seu jeito sedutor, se movimentava e sedimentava uma carreira apenas discreta. Sempre colocou a culpa de tudo no governo, e eu fui criado assim, num ambiente de oposição, de crítica, de opiniões fortes e definitivas, sem meias- palavras. Esse cenário, por certo, deve ter contribuído para a minha formação política, embora de forma involuntária que fosse. Talvez explique muitas das atitudes que tomei na adolescência e até na vida adulta. Vivíamos, como disse, uma ditadura feroz, onde não só não era permitido expressar opiniões, mas, mais do que isso, era muito perigoso ter opiniões. Era sempre tudo muito velado, as conversas aconteciam entre quatro paredes, desconfiava-se de amigos e vizinhos. De alguma forma, porém, esse clima ajudou a formar a minha personalidade, despertando uma vocação que mais tarde me levaria a ser líder estudantil, e que ainda hoje é responsável pelo meu gosto pelas questões políticas e pelo desejo, nunca realizado, de fazer da política uma profissão.
Lembro-me de muitas histórias que ele contava lá da rotina do tribunal. Como oficial de justiça tinha acesso aos julgamentos e gostava de acompanhar os casos mais polémicos. Além de amigo de juízes e procuradores, frequentemente cabia-lhe a ele ir buscar os réus à cadeia, levá-los de volta ou acompanhá-los nas audiências. Dessa convivência surgiam muitas histórias engraçadas, que ele contava em casa, após o jantar, normalmente com os netos no colo e um copo do tinto na mão. Era a nossa televisão, o nosso sarau de variedades, a nossa janela para o mundo, a bisavó da Internet. Quase sempre eram histórias banais, de pequenos vigaristas ou estelionatários, brigas de família, querelas por divisão de terras, enfim, quase nunca casos graves. Assassinatos, estupros e outros crimes pesados, felizmente, estavam longe da rotina criminal da nossa cidade. De vez em quando algum homicídio, quase sempre crime passional ou por disputa de terras entre vizinhos, mas nunca o suficiente para criar um clima de violência, insegurança ou sequer apreensão entre os moradores. Ainda não se trancavam as portas, e os automóveis, muitas vezes, ficavam na rua com as chaves na ignição. Na maior parte do tempo a cadeia pública ficava com as celas sem inquilinos. A falta de criminosos, ou de crimes hediondos, emprestava ao nosso sistema judicial certa aura de romantismo. Os criminosos locais eram até caricatos, gente comum apanhada em alguma trapaça, alguma escorregadela. Havia os “carteiristas”, capazes de roubar com requintes de ilusionismo a carteira de qualquer desavisado. Eram os bons malandros, os falsificadores cujas histórias atraíam até a simpatia do público. Os julgamentos eram sempre muito concorridos, o plenário do tribunal ficava abarrotado de curiosos. Os debates entre acusação e defesa eram comentados nas mesas dos cafés, à lareira durante o jantar ou nas rodas de conversa. E não era preciso que fosse algum crime importante. Na falta do que fazer, o tribunal era uma boa fonte de assuntos para uma cidade isolada no nordeste de um país parado no tempo, fechado a qualquer tentativa de avanço ou progresso.
Um dia, terminado o jantar, o meu avô puxou-me para cima de seu joelho esquerdo, acomodou a minha irmã na perna direita e perguntou: – Vós sabeis o que se faz na lavoura lá para os fins de Setembro?– Perante nossa expressão de incerteza, aproveitou alguns segundos de expectativa e continuou: – Então o que é que nós colhemos aqui no quintal em Setembro, ó Rui, mais ou menos na época dos teus anos? Provocou, já demonstrando certa decepção com a nossa ignorância. De repente deu-me uma luz e eu percebi onde ele queria chegar: – Colhem-se as uvas avô, fazemos a vindima – respondi, feliz, como se fosse um teste de conhecimentos na TV, sem perceber ainda aonde aquilo nos levaria. O meu avô continuou: – Pois muito bem, colhemos as uvas, e o que fazemos com elas depois? Continuou, enquanto nos provocava com cócegas nas axilas. – Fazemos vinho vô! – respondeu a minha irmã batendo palminhas como se tivesse acertado na lotaria. – Pois fazemos vinho, sim senhor, pisamos as uvas lá no lagar, e a natureza lá faz o resto, não é verdade?– Nós continuávamos tentando seguir o raciocínio sem ter a mínima ideia da razão daquela conversa científica e etílica depois do jantar. Foi então que ele começou a contar a história do dia: a polícia havia descoberto um pequeno comerciante, dono de uma tasca de beira de estrada, que vinha vendendo vinho falsificado já havia algum tempo. Segundo as investigações ele usava vários produtos químicos e produzia um vinho pesado, escuro e turvo, que vendia aos passantes, muitas vezes já entupidos de vinho verdadeiro e com poucas condições de perceber a diferença. Era o que se chamava na região de vinho a martelo. Parece que alguém passou mal, foi hospitalizado e a coisa toda, sem trocadilhos, azedou. Lá foi a polícia buscar o falsário, levando-o perante o juiz. O meu avô começou a contar a história do início do julgamento, entre risos e certo ar de admiração. Confesso que naquele momento eu não achei muito engraçado, creio que não estava em idade de perceber a fina ironia do episódio, mas, para agradar ao velho, demos muitas e boas risadas do sujeito que, segundo o relato do meu avô, assim dialogou com o juiz:
– Ora bem, segundo os autos, o réu é acusado de falsificação. – declarou o juiz, medindo o homem de cima a baixo sobre os óculos de aro dourado que lhe davam um ar grave, muito conveniente para um magistrado, diga-se de passagem. – Isso de réu eu não percebo nada senhor meritíssimo, os polícias trouxeram-me aqui assim sem mais nem menos, mas eu nem sei o que se passa! respondeu o homem, tentando parecer sincero – Está bem, está bem, deixe-se lá de tretas que o assunto é sério. Oficial, faz favor de proceder ao juramento.– Nesse instante o meu avô ficou de pé em frente ao acusado e fez a pergunta de praxe: – O senhor jura dizer a verdade e nada mais que a verdade, em nome de Deus?– Nós adorávamos aquelas histórias de tribunal e olhávamos para o meu avô com ar de encantamento, concentrados: – Ó senhor Carvalho não me leve a mal, mas não conheço esse Homem! – respondeu com ar sério o sujeito, referindo-se ao em nome de Deus! Já dava para ver o tamanho da maçada e o rumo que as coisas iriam tomar. Mal disfarçando o riso, o meu avô olhou para o juiz, que fez um sinal de assentimento e prosseguiu o interrogatório mesmo sem o juramento. – Pois muito bem, dizem os autos que o senhor é acusado de vender vinho falsificado, o que é um ilicito muito grave. Também diz aqui que já fazia isso há muitos anos, que já prejudicou muita gente e que só foi apanhado porque alguém passou mal depois de consumir a tal mistura que o senhor vendia como vinho tinto. O réu confirma isso? Perguntou o magistrado dando início à audiência. – O réu eu não sei senhor meritíssimo, mas eu, Manoel Joaquim de Oliveira, mais conhecido por Manel Martelo, penso que estão a exagerar um bocadinho. Afinal, a única coisa que faço é batizar o vinho pro deixar menos perigoso, senhor juiz! defendeu-se o falsário, na tentativa de encontrar uma justificativa para o crime. – Mas que conversa! Então o vinho fica menos perigoso e quem o bebe vai para o hospital? Como é que explica isso? –perguntou o juiz, com impaciência. – Ó meritíssimo, se calhar o indivíduo foi pro hospital porque não sabia beber! Há pessoas tão fraquinhas que não aguentam um copo de um bom tinto – argumentou o meliante. – Ó senhor Manoel, deixe-se lá de brincadeiras senão mando prendê-lo. Colabore ou a situação vai ficar pior. Devo lembrá-lo que o senhor está perante um tribunal – advertiu o magistrado com irritação. – Pois sim senhor, meritíssimo, faz favor de desculpar, é que eu não percebo nada destas coisas da Lei.
– Isso eu já tinha notado, senhor Manoel, já tinha notado, mas enfim, comporte-se senão mando recolhê-lo à cadeia para ver se aprende a ter modos. – Após breve pausa, durante a qual o juiz folheou algumas páginas do processo como se procurasse alguma evidência, tirou os óculos com a mão esquerda, levou uma das hastes à boca enquanto tamborilava com a clássica caneta Parker 51 em cima do delgado processo pousado no tampo de couro da pesada mesa. Vendo que a tinta escorria pelo bico dourado manchando a capa do documento, recolocou os óculos e enxugou a tinta derramada com um elegante mata-borrão com o símbolo da justiça gravado na madeira que cobria a parte superior do apetrecho. Feito isso, colocou a tampa da caneta e abandonou-a ao lado do processo. Apoiando os cotovelos na escrivaninha, entrelaçou os dedos, colocou as mãos por baixo do queixo servindo de suporte, inclinou-se levemente para a frente, franziu as sobrancelhas e disse em voz baixa, quase como se estivesse a falar para si mesmo: – Depois de dar uma vista d’olhos nos autos, confesso que estou curioso com uma coisa!
– Pois diga lá meritíssimo, estou aqui para ajudar – disse o homem, com interesse.
– Então diga-me lá como é que se faz o tal vinho a martelo? Qual é a técnica que o senhor usa para fabricar o produto? O vinho é feito de quê? – perguntou o juiz, apurando os ouvidos, como se os preparasse para ouvir uma confissão. – O vinho é feito de quê, senhor juiz? Ora vamos lá ver – disse o homem coçando a nuca como se buscasse as melhores palavras para a difícil questão. – Há muitas maneiras de fazer vinho senhor meritíssimo, há vários produtos, mistura-se daqui e dali, acrescentam-se uns pós, metem-se lá umas ervas, deixa-se tudo a ferver, enfim, há muitas maneiras de fazer o vinho, mas o senhor doutor juiz sabe o que mais me deixa pasmado? perguntou o homem, num tom grave e sério. – Nem imagino, mas já agora, acho que me vai dizer… – respondeu o juiz com, aparente curiosidade e chegando-se mais à frente na imponente poltrona de encosto alto. Segundo o meu avô, nesse momento, o homem deu dois passos à frente, chegou-se mais perto da mesa de despachos do magistrado, olhou para trás furtivamente, como a certificar-se de que ninguém o ouviria, e com ar de quem confessa um segredo inconfessável, levou a mão ao lado da boca em forma de concha, e sussurrou com autêntico ar de espanto:
– O que mais me espanta, senhor meritíssimo, é que ouvi dizer que até há por aí uns sujeitos que fazem vinho com uvas! É verdade sim senhore, vinho com uvas senhor juiz! Mas que grande desperdício meritíssimo. – Nesse instante, ainda incrédulo com a desfaçatez do vigarista, o juiz olhou em volta procurando apoio, balançou a cabeça entre as mãos com os olhos postos nas folhas esmaecidas do processo que tinha na mesa, e, sem conseguir controlar-se por mais tempo, soltou uma sonora gargalhada que contagiou todo o plenário. A audiência, independentemente de seu resultado jurídico, havia terminado em incontroláveis risadas. Foi com difuculdade que a ordem foi reestabelecida. Regressado o silêncio à sala de audiências, o juiz aplicou uma multa ao falsário e deu o caso por encerrado. Eu e a minha irmã, claro, ríamos só para fazer a vontade do meu avô, pois não tínhamos percebido grande coisa, mas enfim, tudo era motivo para ficar ali, no colinho aconchegante do avô, como se fôssemos uma família normal.
Noutra ocasião contava o meu avô que receberam no tribunal a visita de um antigo hóspede da cadeia local. Era um homem franzino, com grandes orelhas, fala mansa, nariz aquilino e olhos espertos, rasgados e pequenos. Parecia uma ave de rapina, era pura astúcia, envolvia a todos com a sua conversa macia e sedutora. Era especialista em bater carteiras e relógios, os de bolso, que naquela época ainda havia muitos. O homem era de uma habilidade rara, mão leve como o pensamento, dedos ligeiros como lebre. Por mais habilidade que tivesse, entretanto, por vezes não conseguia safar-se das garras da Lei, e, por causa de algum deslize, e, a maioria das vezes, por denúncia de invejosos, dizia ele, era levado à barra do tribunal. De tanto comparecer, acabou por ficar conhecido, criando laços, sentindo-se em casa. Na essência, dizia o meu avô, era um bom homem. Honrado, como honrado deve ser todo bom ladrão (perceberam a ironia?), fiel aos amigos, nunca delatava os seus cúmplices e nunca havia usado de violência em nenhum dos milhares de delitos que cometera. Atuava sempre em ambientes ruidosos e de grande fluxo de pessoas, como estações de combóio, feiras e festas populares. Invariavelmente, aproximava-se da vítima e surrupiava-lhe a carteira ou o relógio sem que esta desse pela falta. Usava vários truques, como cúmplices que faziam a vítima tropeçar, outros que a distraíam na conversa enquanto ele dava conta do recado, enfim, era uma verdadeira arte e por isso ele era conhecido como “o artista”. Certo dia, depois de um longo período de ausência, dizia-se que estava recuperado e de vida nova, o meu avô foi dar com ele em animada conversa com alguns funcionários do tribunal. Havia passado lá para buscar uma certidão qualquer, um documento de que estava a precisar para levar a vida adiante, coisas da burocracia. Vendo o meu avô à distância, afastou-se do grupo e chamou: – Senhor Carvalho, oh senhor Carvalho, então que tal? –
– Ora viva senhor “artista”, então que bons ventos o trazem? – respondeu o meu avô, indo na sua direção. Nesse momento o juiz, velho conhecido de tantas condenações, aproximou-se e juntou-se à animada conversa que se iniciava. O “artista” contava que estava agora casado pela terceira vez, que havia abandonado o crime e que trabalhava como engraxador no café Mucaba,em Vila Nova de Gaia. Não ganhava tão bem quanto nos tempos do crime, mas tinha uma vida mais sossegada, mais tranquila, voltada para a nova família. Aos 58 anos até pensava em ter outro filho. O meu avô e o juiz ouviam incrédulos e divertiam-se fazendo-o relembrar antigos golpes, furtos engenhosos, passagens engraçadas da vida pregressa que o homem havia vivido até há poucos anos atrás. O coitado fazia-se de morto, dizia que aquilo era exagero, que o povo gostava de aumentar as coisas, que não era bem assim, e coisa e tal. A conversa continuava na base da provocação e lá pelas tantas o juiz diz ao pobre homem:
– Ouça lá, oh senhor Baptista – este era o nome verdadeiro do “artista”, constava dos autos que o juiz tantas vezes fora obrigado a ler, por isso sabia de cor e salteado. – O senhor era mesmo bom com essa coisa de roubar as carteiras, homem! Diga-me lá como é que fazia isso, como é que conseguia surrupiar a carteira sem a vítima dar conta?
– Oh senhor doutor, isso era folclore, as coisas não eram bem assim, se eu fosse tão bom como dizem, eu não tinha vindo tantas vezes pra cá para o tribunal, e nós não estávamos agora aqui à conversa, não acha? – argumentou o homem, tentando evitar o assunto.
– Bem, isso depende senhor Baptista, se considerarmos que o senhor foi apanhado meia dúzia de vezes. Mas que deve ter roubado mais de mil carteiras, sem falar nos relógios, até que não é um desempenho nada mau, não lhe parece? – respondeu o juiz, sorrindo maliciosamente e buscando a concordância do meu avô.
– Homessa senhor doutor, não cheguei nem perto dos mil furtos, quem me dera… quer dizer… Não foi bem assim.
– Oh “artista”, deixe-se lá de modéstia que isto não são horas para arrependimentos. Então? Diga-nos lá como fazia aquilo, deve haver algum truque, algum segredo… – atiçou o meu avô, colocando mais lenha na fogueira e tentando apanhar o homem pela vaidade que todo criminoso tem em relação às suas habilidades. Nesse momento, já impaciente, o juiz propôs: – Senhor Baptista, faça-me um favor, assim como se fosse um acto de despedida, mostre-nos lá um dos seus truques, por exemplo, o senhor seria capaz de roubar a minha carteira agora sem eu dar conta? – provocou o homem das leis.
– Oh senhor juiz, nem pense nisso, há anos que não pratico, estou enferrujado, nem que eu quisesse, assim, aqui, de repente, eu não conseguiria. Essas coisas precisam de muita prática e eu estou parado há anos… – desculpou-se o pobre coitado.
– Ah mas isso não se esquece assim do dia pra noite, sempre fica a experiência, é como um vício, é como andar de bicicleta! – acrescentou o meu avô, na tentativa de conseguir uma demonstração das habilidades do “artista”.
– Nada disso senhor Carvalho, é preciso praticar todos os dias, e há a questão do tempo, da oportunidade, essas coisas não são assim quando se quer, é preciso esperar a altura certa, isso é quase uma arte! – Perante o ar contrariado do juiz e do meu avô, o homem apelou para a pressa e disse repentinamente: – Além disso, eu não tenho tempo para essa demonstração agora, para falar a verdade já estou atrasado, a minha patroa esfola-me se não chegar a casa a horas… E por falar nisso, o senhor era capaz de fazer o favor de me dizer as horas…– No momento em que o magistrado levou a mão ao bolso do colete para sacar o relógio de ouro, herança de família, que deveria lá estar, preso com uma corrente de 18 quilates, ao apalpar o pequeno buraco do lado esquerdo do colete, ficou pálido ao perceber que o objecto havia desaparecido. Evaporou-se como num passe de mágica. Naquela fração de segundo entre, a decepção e o espanto, os dois perceberam que um sorriso maroto aflorava nos lábios do “artista”, ao mesmo tempo em que, estendendo a mão na direcção do juiz, lhe exibia um belíssimo relógio de ouro e arrematava a conversa: – Aqui está doutor, eu parei com isso há muito tempo, agora sou um homem honesto e não quero ficar com o seu relógio de família! – O homem soltou uma gostosa gargalhada, no que foi imitado pelos dois interlocutores, que se olhavam incrédulos, dando palmadas nas costas um do outro enquanto apreciavam o derradeiro truque de um verdadeiro artista. Despediram-se cordialmente, e, enquanto a imagem do homem se perdia no fundo da imponente escadaria de granito cinzento, o magistrado colocou a mão no ombro do meu avô e disse, provocador: – Oh Carvalho, por via das dúvidas é melhor você ver se a sua carteira ainda está consigo! – Deu mais uma risada e saiu em direcção à porta do gabinete, deixando o meu avô preocupado, apalpando o bolso do casaco. Por sorte, tudo estava lá. O relógio e carteira ainda eram sua propriedade. Parece que o “artista” estava mesmo regenerado. Mas que grande figura, pensou o meu avô enquanto colocava o chapéu de feltro e tomava o caminho da Rua da Ponte, em direção à Madalena e ao aconchego da sua lareira.
Estas eram algumas das histórias que ele contava em casa enquanto saboreava um petisco preparado por ele mesmo, com cada um dos netos ocupando um joelho. Há muitas outras, mas aí seria preciso escrever um livro só com elas, e, para isso, faltam-me talento, disposição e memória. O que é preciso dizer é que pouco tempo depois, sem mais nem menos, as histórias cessaram. O grande contador de causos, sem aviso prévio, resolveu deixar-nos e foi encantar outros lugares com os seus pitorescos relatos.
Lembro-me como se fosse hoje. Era um domingo de muito calor, eu voltava da missa onde ia obrigado pela minha avó, e subia os quinze degraus de pedra que levavam do quintal ao jardim. O ranger do pesado portão de ferro que separava a escada do quintal deve ter alertado a minha irmã, que veio ao meu encontro. Eu galgava os degraus dois a dois, aos pulos, olhando para o chão preocupado em não tropeçar e partir os queixos no perpianho. O choro ardido da minha irmã chamou a minha atenção. Parei a correria mais ou menos no meio da escada, olhei para cima e, pela expressão sofrida de Cristina eu dei conta que havia algo errado, muito errado. Sem me dar tempo de recuperar o fôlego, ela disparou a dolorida flechada:
– O vozinho morreu. – Assim, de chofre, sem mais nem menos, como se falasse de um gato ou da tartaruga de estimação! “O vozinho morreu”, foi o que eu ouvi naquela manhã ensolarada de domingo. Como? Morreu como? Quem autorizou a morte dele? Como ele podia ter-se atrevido, depois de nos encantar, a nos deixar sem maiores explicações? Não. Havia algo errado. Deus devia-me uma explicação e era bom que tivesse uma bem convincente, ou as consequências seriam terríveis. Fiquei muito abalado, desorientado, era a primeira vez que lidava com a morte de alguém tão próximo. Perdi o chão. Sentei-me na escada e chorei.
Tudo tinha começado poucas semanas antes, quando o meu avô sentiu dores no abdómen. Nada grave, teria dito o médico. Depois de alguns exames constatou-se que era um inofensivo quisto sebáceo na virilha, coisa sem importância, sem gravidade, mas que teria que ser removido através de uma cirurgia relativamente simples. O meu avô, que era um homem sem grandes convicções religiosas, tinha pavor de médicos, hospitais e doenças. Estava mais habituado a lidar com a doença grave da minha avó do que com as suas próprias e “pouco importantes” mazelas. Aos sessenta e seis anos era um homem saudável, forte como um touro barrosão. No momento em que soube que seria submetido a uma cirurgia, mais parecia uma criança lamurienta. Não queria submeter-se à operação, ficou rabugento, barafustava com o médico e com a família. Depois de muita saliva, e com a providencial ajuda do sermão que ouviu do médico, lá se conformou e concordou em ser internado. A operação foi um sucesso. O impaciente paciente ocupava um quarto particular na fachada frontal do Hospital da Misericórdia, bem ao lado da Igreja Matriz. Segundo o médico, ele estava bem, mas deveria ficar em recuperação por alguns dias. Não sou especialista em assuntos médicos, é óbvio, mas acredito que, naquele tempo, não havia as técnicas e os medicamentos hoje disponíveis, e, mesmo uma cirurgia sem grande complexidade exigia cuidados que hoje podem parecer exagerados. O que sei é que o meu avô levava muito a sério as recomendações médicas para permanecer em repouso. Tinha medo, dizia ele, que os pontos estourassem e precisasse ser cosido outra vez, possibilidade que o aterrorizava. Teimoso como todo transmontano, e depois de alguns dias de molho, ignorou as recomendações médicas para iniciar alguns movimentos, dar alguns passos pelo quarto. Protelou enquanto pôde, e permaneceu deitado. Só se convenceu da necessidade de sair da cama depois de o doutor, preocupado com a imobilidade do paciente, lhe deu um “recado” firme e deixou claro que o assunto era sério e era preciso seguir à risca as suas ordens. Depois de algum ensaio, lá se levantou e foi até à sacada do quarto, que dava para a porta principal da igreja, para ver a saída dos noivos de um barulhento casamento. Depois de apenas alguns minutos, enquanto permanecia em pé, sentiu-se mal e teve que voltar para a cama. A minha tia chamou a enfermeira, que chamou a equipa médica, e levaram-no para os cuidados intensivos. Era o primeiro dos ataques mortais que o derrotariam. Não houve tempo para nada. Segundo os médicos, a longa permanência sem atividade, cerca de dez dias, formou um coágulo que acabou entupindo uma das artérias. Sucumbiu ao terceiro infarto do miocárdio em pouco mais de dez minutos. Aquele homenzarrão forte e saudável, exímio contador de histórias, de temperamento controverso e atitudes contraditórias, cuja vida tinha sido pautada pelo respeito às Leis, pela probidade e pelas incoerências, aquele homem ao mesmo tempo santo e pecador, egoísta e generoso, rude e gentil, capaz de demonstrar assustadora frieza para logo desmanchar-se num choro infantil, aquele gigante que atormentava os meus sonhos de criança e que depois me fazia dormir com canções de embalar, tinha partido deste mundo sem ter sido, sequer, completamente compreendido. Foi um choque, uma comoção. Foi uma estupidez do destino, uma morte sem sentido num momento que fazia todo sentido. O contador de histórias estava mudo para sempre, e eu, sem saber o que pensar. Só sei que estávamos no dia 4 de Agosto de 1968 e o dia estava lindo até então. Era um domingo, e eu nunca mais gostei dos domingos. Quanto à morte, tenho perguntado a mim mesmo se alguma faz sentido! Não tive resposta, acho que vou ter que ver por mim mesmo quando chegar a hora. Mas que tarde, não tenho pressa nenhuma. Mesmo sem simpatizar muito com eles, ainda sou capaz de suportar muitos domingos de sol.
IX Anos rebeldes
Tinha dez anos quando fui matriculado no ensino secundário. Havia duas opções: a escola técnica, mais voltada para aqueles que pretendiam estabilizar-se com alguma profissão de nível médio ou técnico, e o liceu, para onde iam os que aspiravam a uma carreira académica na universidade. O meu currículo escolar fazia crer que eu tinha uma profícua carreira académica. Por isso o liceu foi a escolha óbvia. O prédio do Fernão de Magalhães era imponente para quem vinha da modesta escola da Lapa, onde frequentei o ensino primário como melhor aluno da classe. Ainda hoje, quando encontro o professor Amílcar, que, cansado da vida ingrata de ensinar a garotos reguilas as primeiras letras, foi trabalhar para um banco, eu recordo da minha passagem por aquele velho casarão do bairro da Lapa. Era uma escola pública, como as outras que havia em diferentes locais da cidade. Não ficava longe das “Monteiras”, que era particular e dirigida por duas rigorosas irmãs do mesmo sobrenome. Teoricamente, os ricos iam estudar nas “Monteiras”, enquanto os pobres iam para as escolas públicas, como a da Lapa, a da Estação, a do Caneiro, a de Santo Amaro e outras. Mas era apenas teoricamente, pois na realidade não era bem assim. Havia algumas crianças de origem humilde na escola particular e outras de família abastada matriculadas na Lapa. Para ser sincero, acho que naquele tempo e numa cidade como Chaves, as fronteiras entre as classes sociais, principalmente dentro do abrangente espectro da chamada classe média, eram muito ténues e não havia espaço para grandes divisões ou segmentação. Pelo menos nós não as percebíamos, e os nossos pais, alguns, é que se esforçavam para manter as diferenças, cultivá-las, inventá-las, mais por teimosia que por convicção, diga-se. Num ambiente tão provinciano e burguês, onde as famílias, por mais que se esforçassem para mostrar o contrário, a maioria das vezes tinham a mesma origem, o mesmo DNA social, era até divertido ver como o “roto falava mal do esfarrapado”! Valha-nos Deus, como diria a minha avó, éramos capazes de não cumprimentar o vizinho só para fazermos de conta que a cidade era grande e as pessoas não se conheciam! Resumindo: a verdade é que éramos todos parolos! Uns eram parolos com mais dinheiro, outros com menos, mas, ainda assim, parolos até à raiz dos cabelos untados com brilhantina barata. Só agora, com a experiência de ter percorrido mais da metade do mundo, e com muitas perguntas sem resposta, me dei conta daquela nossa condição. Nada como a observação de outros povos, outras culturas, a exposição a novas idéias, para nos mostrar o quanto somos ignorantes e limitados. É o conhecimento acumulado e a vivência que nos traz a humildade e a tolerância. A inteligência também ajuda muito. É mais fácil um camelo entrar no reino dos céus do que encontrar um asno tolerante e humilde. A arrogância, normalmente, é o último recurso dos imbecis, e quase sempre esconde um recalcado sentimento de inferioridade. Pronto, cá estou outra vez a entrar na seara dos psicólogos sem querer! Desconfio que devia ter seguido carreira na área, mas vá lá, nunca fui muito bom em seguir vocações, contentei-me sempre com o que os outros sonhavam pra mim, infelizmente. Hoje chega a ser divertido constatar, mas, aos vinte anos, eu tinha todas as respostas, aos trinta já tinha algumas dúvidas, e, a partir dos quarenta, faltavam-me até as perguntas! Se preferirem ver as coisas por outro ângulo, basta dizer que, até os quinze anos, os mais velhos eram a minha referência, pois eu achava que sabiam de tudo. Dos quinze aos vinte e cinco, como num passe de mágica, eles ficaram ignorantes e passaram a não saber de nada, nenhuma resposta vinda deles me contentava. Às tantas, numa reviravolta que só quem é pai é capaz de perceber, aproximamo-nos dos trinta anos a uma velocidade muito maior do que gostaríamos, e damos conta de que os mais velhos, em geral, e os pais em particular, antes ignorantes e atrasados, estavam cobertos de razão e sempre foram o último reduto da sabedoria, a nossa reserva moral, além de excelentes conselheiros. É pena que só percebemos isso tarde demais, quando já cometemos erros dos quais nos arrependeremos pelo resto das nossas vidas. Mas acho que é assim mesmo que deve ser. O grande charme da vida é apreciar a lenta agonia da ignorância, esperar que a maturidade nos permita, ainda que de leve, algum conhecimento, o equilíbrio e a sabedoria. Interpretar a experiência, não passar pela vida como espectadores ou coadjuvantes, mas como atores e roteiristas das nossas próprias cenas, é que nos fazem seres humanos melhores, ou, pelo menos, mais tolerantes. O grande segredo da paz de espírito e do equilíbrio que leva a ela, no meu entendimento, está numa frase feita, muito batida, muito usada, mas talvez pouco levada a sério. Por isso mesmo, apesar da minha aversão a frases feitas, pelo menos àquelas que não foram feitas por mim, vou permitir-me reproduzir aqui a que considero a “pedra filosofal” da existência humana, a grande lição que faz com que, a partir dos cinquenta, sejamos mais serenos, menos impetuosos, embora mais ávidos por conhecimento. Quase todo mundo já a leu em algum lugar, mas vale a pena repetir. Ela diz mais ou menos assim: “É preciso ter serenidade para aceitar as coisas que não podemos mudar, ter coragem para mudar as que podemos, e sabedoria para distinguir entre as duas!”. Assim mesmo, simples e direta, como simples e direta deveria ser a vida. Parece fácil, mas é só olhar ao redor, ou melhor, olhar para dentro de si mesmo para perceber que é mais fácil falar do que fazer. Enfim, talvez esteja aí mais um desafio que precisamos enfrentar, na tentativa de dar um pouco de sentido ao que temos dificuldade em aceitar.
Ao longo das minhas andanças pelo mundo, nos contactos que pude ter com outras culturas, na diversidade de temperamentos e personalidades que meus mais de trinta anos de trabalho no turismo me permitiram conhecer, cansei de ouvir pessoas amarguradas, infelizes, tentando realizar os seus sonhos através do coração de outra pessoa, peregrinando de relação em relação em busca da “alma gêmea”, da “cara metade”. Pobres coitados. Isso é um grande engodo. A não ser que um dia despertem, essas pessoas vão continuar sozinhas e infelizes, pois buscam nos outros o que deveriam buscar dentro de si! Culpam os outros por limitações que estão dentro deles mesmos. Delegam aos outros tarefas importantes demais para serem executadas por terceiros. Na maioria das vezes eles nem percebem, mas cometem uma falta gravíssima, é quase como derrubar o adversário dentro da área aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo quando o jogo está zero a zero. Os brasileiros, apaixonados por futebol, costumam dizer que o penalty, de tão importante, devia ser batido pelo presidente do clube, e não pelo atacante! Eu costumo dizer o seguinte a essas pessoas que buscam encontrar nos outros as razões da sua própria realização: felicidade e orgasmo não se terceirizam, são responsabilidade de cada um! (esta sim, é minha!) Quem assim não pensa, que ao menos esteja preparado para assumir as consequências da sua ingenuidade. A verdade é que parece sempre mais fácil culpar os outros pela nossa incapacidade de encontrar o melhor caminho, do que enfrentar a sentença incómoda da nossa consciência. Mas é uma tentativa tão inútil quanto inócua tentar enganar tão severo tribunal, escamoteando as nossas responsabilidades. Para onde quer que viajemos lá estará a consciência para nos apontar o dedo acusatório. Seja qual for a desculpa que inventemos, ela sempre estará lá para nos desmascarar. O pior de tudo é que quase sempre o faz com admirável e inoportuna ironia. Vá-se acostumando: viver é um acto que envolve riscos, riscos que cobram uma factura maior aos pobres de espírito, aqueles que preferem repetir o que os outros dizem, a pensar pelos seus próprios meios. Tentar trafulhar as regras desse jogo onde entramos compulsoriamente pode resultar em expulsão. E levar cartão vermelho da vida não é coisa de pouca monta! Significa ser condenado a viver à margem de si mesmo, actuar apenas como reserva, ficar no banco, à espera de nova oportunidade para construir as próprias jogadas, para montar a táctica de jogo que leve à vitória. É mais ou menos como aceitar a derrota antes mesmo de iniciado o jogo oficial. Mas já que falamos em “frases feitas”, e como não pretendo ganhar o Nobel de literatura, permitam-me mais uma pérola do senso comum, com a esperança de ajudar os menos favorecidos intelectualmente, e a certeza do escárnio dos ilustres privilegiados, mas vá lá, sempre fui boquirroto, não é agora que vou mudar, ou não seria eu! Pois então vamos a isto: Como ninguém foge de si mesmo, o tribunal mais rigoroso dos homens de bem é o que funciona, ininterruptamente, dentro das suas cabeças. Dos homens de bem, já que os outros nem sabem o que é consciência, ficou claro? Pronto, está aí, paradoxalmente, o sentido da grande aventura de viver e toda a beleza da busca da felicidade! Aliás, nem de busca se trata, pois é preciso perceber que a própria felicidade não é um destino, mas uma viagem! Curtam-na a cada quilómetro do caminho, pois as surpresas estarão à vossa espera em cada esquina, e são elas que fazem a vida valer a pena. Só não se esqueçam do orgasmo diário, que a carne é fraca! O meu é inegociável, jamais o terceirizo, a não ser nas raras oportunidades em que encontro mãos mais habilidosas do que as minhas, que de burro não tenho nada!
Mas falava eu de escolas, da primária e da secundária. Acho que nunca fui um aluno brilhante. Bom… pensando bem, fui, sim, um aluno brilhante. Pelo menos até que interesses mais mundanos me desviassem a atenção dos estudos, e determinassem muito mais do que aquilo que eu seria no futuro, aquilo que eu não seria. No período em que frequentei o Jardim Escola, dos quatro aos sete anos, era uma criança bastante focada, sagaz até, interessada em aprender o que quer que houvesse para ser ensinado. Era também bastante determinado. Teimoso, talvez, como as más línguas preferiam classificar-me. Era aplicado e bastante intuitivo, como bem perceberam algumas professoras. Enfim, era esperto o suficiente para chamar a atenção dos mestres e, mesmo involuntariamente, para ser o interlocutor e representante preferido da classe. Alguns vislumbravam em mim um líder nato, mas eu não me deixava impressionar. Afinal, Hitler também havia sido líder, e olha só no que deu! Eu contentava-me em sintetizar a opinião dos colegas e levá-la ao conhecimento dos professores, bastava-me agir como advogado de defesa da nobre causa da rebeldia dos outros miúdos, porta-voz das angústias alheias, ou seja, um verdadeiro kamikaze, aqueles pilotos japoneses da Segunda Grande Guerra, suicidas e fanáticos! Eu era fanático pela verdade e pelo que achasse justo. Não era um líder, era um atrevido, mas quem sabia a diferença? O importante é que, com isso, eu já era popular e querido, e já apresentava sintomas de uma atitude transgressora que iria causar-me muitos problemas e alguns hematomas. Devia ter sido político, mas ainda não sabia que Portugal seria o habitat natural dos políticos que, ao invés de governar o país, governam-se muito bem. Não servem Portugal, mas servem-se dele. Enfim, talvez eu não fosse tão esperto como meus mestres supunham, mas provavelmente foi melhor assim, digo eu… vá!
O que é certo é que cheguei à escola da Lapa já alfabetizado e isso permitiu-me algumas regalias. Aprendia as lições com facilidade e, não tardou a aparecer a oportunidade que revelaria uma das minhas principais vocações: lecionar. O professor Amílcar, abnegado e incansável, dava aulas a três classes simultaneamente. Era tarefa insana controlar várias dezenas de fedelhos barulhentos, alguns ignorantes como portas. Percebendo que eu assimilava as lições com facilidade, incentivou-me a ajudá-lo na tarefa de alfabetizar alguns colegas mais lerdos. Assim, quando eu estava na terceira classe, já dava algumas aulas à primeira e segunda classes, e assim por diante, ajudando o professor sempre que isso era possível. Essas ajudas eram quase sempre em disciplinas como leitura, escrita, ditado e história, e nunca nos ardilosos mistérios da matemática ou aritmética, que sempre me pareceram mais impenetráveis que cabeça de comunista. Esta condição de aluno e “professor assistente” criou algumas situações bizarras. Em pouco tempo passei pela experiência de ajudar a alfabetizar alguns colegas um ou dois anos mais novos, rapazes que, mais tarde, já na adolescência, se tornaram grandes amigos, protagonistas de histórias inesquecíveis. Talvez eles mesmos não se lembrem disso, mas, se não estou enganado, e Deus permita que não esteja, ou estarei a cometer aqui uma grande gafe pela qual, desde já, peço desculpas, afinal, tendo escolhido o género do romance autobiográfico, posso dar-me ao luxo (muito conveniente, diga-se) de lançar mão da ficção para dar mais consistência e lirismo à narrativa (bela desculpa para a fraca memória, sim senhor!). Mas quero crer que ajudei amigos queridos como o Hélder do quiosque, o Luís Aguiar e alguns outros que a vida levou por caminhos que desconheço. O curioso é que, no caso do Luís Aguiar o futuro iria revelar, com alguma ironia, que devo ter feito um bom trabalho, pois ele acabou por terminar o secundário muito antes que eu! Mas isso é outra história e as razões desse descompasso serão descritas mais adiante. Mais tarde, já fora de Chaves, o Luís acabou por formar-se em engenharia e, da última vez que o vi, dirigia uma das grandes indústrias locais. Falamos poucas vezes nos últimos anos, mas tenho dele boas lembranças. A nossa amizade venceu tempo e distância. Chegámos a encontrar-nos algumas vezes para jantar, nos períodos em que eu passava férias na cidade. Nunca falámos do curioso processo de alfabetização do senhor engenheiro, mas tenho saudades da escola da Lapa sempre que o vejo. Já com o Hélder a história foi um pouco diferente. Não sei por que razão ou circunstância, mas parece que, seguindo o meu péssimo exemplo, estudar nunca foi a sua grande prioridade. Não sei se ele se arrepende tanto quanto eu dessa irresponsabilidade adolescente. A julgar pela aparente prosperidade, parece que, ao contrário de mim, os estudos não lhe fazem lá muita falta! Eu não tive a mesma sorte. Se pudesse voltar atrás teria dado ouvidos aos meus professores e seguido os estudos com a mesma aplicação e entusiasmo com que segui os instintos. Hoje entendo que cada fase tem o seu tempo, mas que nada substitui uma boa formação. Experiência de vida pode ser importante, o conhecimento está aí fora à espera para ser adquirido, mas possuir boa formação académica facilita muito o caminho para uma realização pessoal e profissional mais consistente e duradoura. Se há uma coisa da qual me arrependo, é de não ter dado a devida atenção aos estudos enquanto ainda tinha tempo e disposição para isso. Mas não carrego a culpa sozinho. Preciso deixar claro que, embora assuma a responsabilidade pela displicência com que encarei a vida escolar, não há como negar que a ausência da mão firme de um pai mais enérgico e com menos dramas de consciência para me levar de volta ao caminho do estudo, contribuiu muito para a interrupção prematura da minha carreira académica. Enfim, na efervescência daqueles tempos de adolescente rebelde isso não parecia tão importante. Hoje, na aparente serenidade dos cinquenta e poucos anos, embora já tenha a exata percepção do erro que cometi, falta-me a disposição e o entusiasmo para corrigi-lo. Novamente parafraseando o meu avô contador de histórias, lembro-me de um ditado que ele repetia sempre que eu questionava a relação conflituosa entre adultos e adolescentes: “Se os novos soubessem e os velhos pudessem, não haveria nada que não se fizesse.” Sábias palavras. Se é verdade que podemos perceber certo preconceito nesse raciocínio simplista, não deixa de ser verdade também que todo o preconceito, na sua essência, revela e carrega algum tipo de conceito! Está bem, preciso admitir: não resisto ao jogo de palavras, elas têm sonoridade e vida própria. Têm um ritmo que as torna fascinantes e irresistíveis para um músico amador como eu. Sou fascinado pela delicadeza dos meios tons presentes em toda a frase de efeito. Afinal, encontro música em tudo. A minha memória é auditiva, o meu mundo é comandado por sons. Sempre soube que, se não conseguisse ser um bom músico, pelo menos seria um excelente ouvinte. E é isso que sou. Foi isso que me tornei, um devorador compulsivo de sons. Por isso gosto de brincar com as palavras, dissecá-las, agrupá-las de várias e diferentes maneiras, invertê-las, emprestar-lhe novos significados, enfim, usá-las até que minha curiosidade se esgote. Afinal não será essa a grande alegria de escrever? Mas por falar em ritmo, sons e melodias, é interessante perceber que algumas construções melódicas, por exemplo, eu não ouço – de de tão fascinantes que são, eu alimento-me delas, devoro-as, visto-as. Um solo de David Gilmour, Eric Clapton ou Mark Knopfer, por exemplo, não pode ser apenas ouvido, tem que ser decifrado, saboreado, percebido, dissecado, enfim, lapidado pelos sentidos até perceber que uma guitarra é capaz de falar com a mesma eloquência dos bons oradores! Sou assim mesmo, exagerado e contido, ousado e tímido, prepotente e inseguro, contraditório como a vida! Peço desculpas aos puristas por mais esse pecado, prometo cometê-lo muitas outras vezes. Já que falamos em ditados, e começo a achar que a vida interpreta-se melhor através deles, cá vai mais um que, irónicamente, de tão usado, caiu em desuso. Hoje pertence mais ao anedotário e ao folclore do que ao pragmatismo empírico: “Olha pro que eu digo, não olhes pro que eu faço.” De algum modo, e, infelizmente, absolutamente defasado no tempo, estou aprendendo a repensar o valor dos ensinamentos que os meus mestres, a duras penas, tentavam que eu assimilasse nos anos em que a minha ingenuidade me fazia supor que sabia de tudo. Hoje, depois de inutilmente tentar achar um meio termo entre a esperança e a decepção, começo a perceber o filósofo quando diz “só sei que nada sei!” Mas agora chega de ditados e citações, pois, para quem já disse aqui que não gosta de frases feitas, acho que já passei do limite. Mas saiba o leitor que sou assim mesmo. Quero o direito de dar o dito pelo não dito. Permito-me a liberdade de errar e rir dos meus erros. Ser contraditório está na essência do ser humano. Bem, se não estiver na essência do ser humano, pelo menos está na minha essência, e até que alguém prove que não sou humano, vale o que está escrito. Uma coisa é importante esclarecer: contraditório sim, incoerente jamais. Pensem na diferença, é tênue, mas existe. Ela é a minha derradeira linha de defesa, embora haja quem diga que a coerência é o refúgio dos teimosos. Arre! Já chega de filosofia barata, não acham?
Voltemos aos factos. Os anos de escola da Lapa foram muito proveitosos. Fiz grandes amizades, aprendi o valor da solidariedade, tive uma tumultuada convivência com as normas disciplinares, atitude que me custou algumas palmadas, muitas advertências e vários castigos. A história era sempre a mesma: quando achava estar perante uma injustiça não conseguia manter a boca fechada e saía em defesa do pretenso inocente. Pronto. Estava armada a confusão e eu sempre acabava por levar a pior. Maldita língua, parecia que tinha vontade própria, tal era o ímpeto com que desatava a falar coisas que eu nem sabia que sabia. E para manter a minha coerência com o contraditório, bendita língua, que tantas vezes conseguiu livrar-me de sarilhos, tal era a destreza que demonstrava na defesa das minhas convicções, e até da falta delas. De algum modo eu sempre conseguia convencer os outros de que valia a pena acreditar em mim. Convenhamos que é uma perigosa habilidade para um sentimental contumaz. A possibilidade de agir como manipulador é bastante tentadora! Mas foi na subtileza da luta entre a coragem do silêncio e a necessidade de expressar livremente o pensamento, que pautei boa parte das minhas ações, boas e más. Por toda a vida tentei equilibrar-me entre o constrangimento imposto pelo silêncio, que quase sempre gera uma intimidade desconfortável entre estranhos, e o impulso quase patológico de argumentar até o limite do razoável. Na verdade, falar muito costuma ser a principal defesa dos tímidos, já que, ao contrário do silêncio, que é um convite para que os outros penetrem nossa alma, uma porta entreaberta esperando ser escancarada a qualquer momento, um ato de renúncia, o falador, com a sua língua sempre solta, mantém os curiosos entretidos na trabalhosa tarefa de interpretar o que diz, e, se for habilidoso, no que deixa de dizer, forçando eventuais invasores de alma a uma distância segura das suas mais inconfessáveis verdades, dos seus temores mais profundos, fazendo-os acreditar que nem temores possuí, que é pura confiança e coragem. Para ser sincero consigo, leitor, devo admitir que só agora, à medida em que escrevo estas linhas, é que me dou conta do quanto a minha aversão ao silêncio, pelo menos quando na companhia de estranhos, pode ter influído na minha história de vida. Sempre que me envolvo em discussões acho que faço o que tem que ser feito. Porém, não é raro que passado o calor da disputa, seja tomado por uma tristeza inexplicável, uma melancolia perturbadora, um sentimento de culpa que me revira o estômago e me obriga a procurar meios de voltar atrás, de reparar o meu erro. Isso mesmo, o meu erro, mesmo que eu tenha convencido a outra pessoa de que a razão estava comigo, ainda assim acho que foi um erro! Estranho guerreiro o que não consegue saborear a vitória. Sempre saio das discussões com a certeza de que deveria ter sido mais comedido, deveria ter imposto um limite bem menos elástico para os meus argumentos. O que é pior: sempre deixo a arena não com o legítimo sentimento do dever cumprido, com o sabor adocicado da vitória incontestável, mas com o travo amargo da sensação de ter sido derrotado por mim mesmo, com o sentimento nada nobre da auto-indulgência. Esse sentimento, por mais que pareça legítimo e libertador, é na verdade a expressão da mais perversa das arrogâncias, a arrogância de se acreditar melhor que os outros, e, por isso mesmo, forçado a atenuar-lhes a dor da derrota. O que me conforta, entretanto, é perceber que a humildade voluntária, exibida ostensivamente como qualidade, é na verdade a soberba pedindo aplausos, a arrogância em busca de aprovação, o Cavalo de Tróia da petulância. Sei que já usei neste texto definição parecida para a chamada “falsa modéstia”, mas considero esse comportamento tão pernicioso, tão aviltante, que prefiro reiterar o que penso dele, a deixar que a minha indignação passe em branco. O mundo seria muito melhor sem os falsos humildes. Posto isto, e com relação ao facto de ser muito falador, sou obrigado a concluir que é melhor pecar por excesso do que por omissão. Por isso desculpem-me, mas vou continuar a falar muito, provavelmente a falar demais, até que encontre uma fórmula justa para resolver a questão. Costumo dizer que tudo que consegui na vida, de bom e de mau, deve-se à capacidade de verbalizar com reconhecida competência tudo que me passa pela cabeça. E olha que não é pouca coisa, pois sempre fui uma pessoa muito mais de pontos de interrogação do que de pontos finais. Mesmo atropelado pela era digital, ainda acho que há coisas que não se explicam numa folha de Excel. Há coisas que exigem, pelo menos, um par de páginas de Word! (Acho que vou pedir à Microsoft para patrocinar este livro. Preparo uma proposta em Power Point e envio-a lá para o Vale do Silício. Que tal?)
O que importa é que aqueles anos de aprendizagem no ensino primário e secundário foram responsáveis por boa parte do que sou hoje. Talvez seja melhor brincar mais uma vez com as palavras e refazer a frase: foram responsáveis pela parte boa do que sou hoje! Ainda não descobri se isso é positivo ou negativo, mas sei que é verdade. O julgamento deve ficar por conta dos que fizeram parte da minha história, mas antes que seja tarde devo avisar: eles também são responsáveis por boa parte do que sou, assim que, podemos dizer, somos cúmplices no crime de viver uma vida de emoções, boas e más, mas, ainda assim, emoções verdadeiras, daquelas que revelam o avesso do avesso e nos fazem sentir que somos cada vez mais iguais nas nossas diferenças.
Humm!… Acho que isto foi só mais uma frase de efeito. Ou a minha mania de brincar com as palavras para ver se consigo fazer literatura. Mas agora chega de reflexões de algibeira e vamos voltar à narrativa, e desta vez prometo que estou a falar a sério. Então vamos a isto.
Passada a fase da escola da Lapa lá fui eu para o tradicional Liceu de Fernão de Magalhães, nome oficial do Liceu Nacional de Chaves, como sabem, escola pública do ensino secundário, igual a dezenas de outras espalhadas por todas as províncias portuguesas. Como gosto de detalhes e de saber a raiz das coisas, permitam-me um pouco de história, já que, se há uma coisa de que Portugal tem que se orgulhar, é do seu passado glorioso e dos nomes ilustres que o fizeram. O Liceu tem este nome em homenagem ao navegador português, nascido em 1480 aqui para o Norte (e onde mais poderia ter nascido para o gajo fazer o que fez? Alfacinha é que não podia ser, claro). O que se sabe é que em 20 de Setembro de 1519, a serviço do Rei espanhol Carlos V, por desavenças com o monarca português D. Manuel, iniciou a primeira viagem de circum-navegação, quer dizer, uma volta ao mundo como se comprasse um bilhete da TAP, mas sem direito às espreitadelas nas hospedeiras de bordo. Bem, se calhar não foi assim tão simples! O facto é que fez-se ao mar no porto de Sanlúcar de Barrameda, na Espanha, a bordo da nau Trinidad, na companhia de mais quatro naves, num total de 250 malucos. Alcançaria a Baía da Guanabara em 13 de Dezembro, seguindo até à foz do Rio Prata, e desembocando no Pacífico em Março de 1521, num arquipélago a que chamou de São Lázaro, rebatizado posteriormente de Filipinas em homenagem a Filipe II de Espanha. Será que já eram os políticos com a mania da autopromoção e do fisiologismo? Se hoje dão os próprios nomes às pontes e viadutos, naquela altura não faziam por menos – baptizavam ilhas, cidades, e até países. Enfim, há coisas que nunca mudam. O nosso navegador, entretanto, ali veio a morrer em combate naquele mesmo ano, abatido com três flechas por nativos que não aceitavam placidamente a sua autoridade. O seu companheiro de aventura, o espanhol Sebastian D’Elcano, depois de muitos percalços, terminou a viagem aportando em Sanlúcar a 5 de Setembro de 1521, com apenas 18 dos 250 homens que haviam partido. Isto dá- nos uma ideia da ousadia e competência dos portugueses. Ousadia e competência que nos levou a fincar a bandeira das quinas nos quatro cantos do mundo e seus arredores. A julgar pelos governantes que elegemos actualmente, algo me diz que a ousadia e competência ficaram lá pelos idos do século XVI…
Em todo o caso, tendo por patrono um homem com uma história destas, aquele Liceu só podia mesmo ser palco de muitas e boas lutas, como veremos adiante. Ali conheci outro mundo. Os mais de dez anos que passei entre aqueles muros foram testemunha do que me aconteceu de melhor. Sinto saudades imensas e não há viagem de férias em que não passeie por aqueles velhos corredores, em busca de vestígios de um Rui que reconheço cada vez menos quando me olho ao espelho. Sou capaz de passar horas a olhar para aquelas paredes. Lembro-me de todas as salas onde tive aula, de histórias engraçadas… e outras nem tanto. Fico ali, como se meditasse, a olhar para um passado que, de tão presente, sou capaz de ouvir! Caminho pelos corredores como se procurasse por mim! É como uma penitência que cumpro sem ter sido condenado, como se aquelas paredes pudessem fazer de mim uma pessoa melhor. Ah!… o que eu não daria para voltar a abrigar-me nelas!
O prédio, um antigo convento encravado no centro da cidade, no outrora florido Largo das Freiras, se não chegava a ser sumptuoso, o que nem seria conveniente para uma escola pública de um país pobre e atrasado, tinha, pelo menos, certa dignidade. O edifício principal formava um quadrado de dois pavimentos, desenhando um pátio interior para o qual davam todas as janelas, projetadas em elegantes arcos, e que iluminavam generosamente os espaçosos corredores. A fachada principal abria-se para as Freiras num pórtico em “V” com o nome da escola esculpido em alto relevo no granito. A lateral, onde funcionava uma das entradas dos alunos, que se fazia através de um enorme portão de ferro pintado de verde, alinhava-se com o traçado da Rua de Santo António, a principal da cidade, subindo em direcção ao curioso Jardim do Bacalhau, de belo traçado, apesar do nome pouco promissor. O terceiro lado do quadrado acompanhava uma ruazita estreita pavimentada em paralelepípedo, que subia até à Lapa, passando ao lado da antiga capelinha cuja santa padroeira dava nome ao lugar. A parte traseira do conjunto arquitectónico que formava o Liceu estava separada por um muro de cerca de dois metros de altura, do próprio Largo da Lapa, uma praça com chão de terra batida que se estendia do Liceu até às velhas muralhas do Forte de S. Francisco, cenário da derrota do general Junot, do exército de Napoleão Bonaparte, quando da segunda invasão francesa na tentativa de conquistar o trono português pelas armas. Mas aquelas velhas muralhas não haviam presenciado apenas atos de heroísmo. Longe disso. Foram também testemunha das brincadeiras da minha infância, quando ali travávamos sangrentas batalhas imaginárias, com as nossas toscas espadas de pau, disputando a atenção de princesas encantadas. É bem verdade que alguns anos depois, já no vigor da minha adolescência, a penumbra que ali se formava ao entardecer, protegida pelos dois imponentes canhões que sobraram das invasões napoleónicas do século XIX, e acentuada pela privacidade proporcionada pela sombra dos frondosos plátanos, foi testemunha de brincadeiras bem menos inocentes, embora bem mais interessantes. Ainda bem que nem imponentes canhões nem frondosas árvores têm o dom de falar, ou alguns pais teriam que rever os seus conceitos sobre a inocência juvenil dos anos 60 do século passado. É melhor deixar assim. Para ser fiel ao meu jeito contraditório, vou citar mais um ditado popular: “O que os olhos não vêem, o coração não sente!”
Nos três primeiros anos de Liceu tudo correu dentro da mais perfeita normalidade, se é que havia alguma coisa normal num país subjugado por uma ditadura fascista, onde o governo se achava no direito de controlar até os pensamentos! Eram anos duros, frios, crus. O lado bom é que eu ainda não sabia disso. Uma das vantagens (?) de se nascer numa ditadura, onde a liberdade de imprensa e de expressão são conceitos tão abstratos como democracia e cidadania, é que podemos crescer longe da demagogia dos políticos, achando que é normal não ter opinião, não contestar regras, enfim, viver de forma quase intuitiva! Onde está a vantagem?, perguntarão alguns. Bom, não se pode sentir falta de algo que não se conhece, que nunca se vivenciou! Dizem que assim a vida fica mais fácil. Eu acho que isso está mais para anedota de gosto duvidoso do que para conceito político, mas quem sou eu para discutir política com os doutos e regiamente pagos representantes do povo?
Mas dizia eu que os três primeiros anos foram normais. Referia-me ao desempenho escolar. Em 1966, aos onze anos, entrei para o primeiro ano do ensino secundário, e até que chegasse ao quarto ano, não encontrei grandes dificuldades. Se não era o aluno exemplar do ensino primário, também não deixava a desejar. Sempre conseguia notas suficientes para passar de ano, e até me destacava em algumas disciplinas, como Português, História e Geografia. Mas as aulas de Português eram as minhas preferidas. O gosto pelas palavras e pela interpretação de textos já se fazia sentir. Aos 14 anos cursava o quarto ano e as coisas começaram a complicar-se, a fugir ao controlo. De um lado o meu súbito interesse pelo sexo oposto começou a disputar espaço com os estudos, entendendo-se aqui “estudos” como a simples presença nas aulas! Do outro lado, o ambiente familiar desajustado despertava em mim um espírito revoltoso e contestador que eu achava já ter aprendido a sufocar, e que não era bem visto num ambiente escolar conservador, profundamente contaminado pelo hermetismo estéril de um sistema educacional baseado no autoritarismo fascista e seus dogmas. Tinha problemas com a disciplina vertical imposta pelos professores, e não deixa de ser verdade que também tinha problemas com o facto de ter que acordar cedo, coisa hereditária, suponho. Ao abusar das faltas acabei por reprovar duas vezes, o que viria a comprometer irremediavelmente o meu calendário escolar, trazendo consequências desastrosas. Mas ia levando a vida aos solavancos. Sob o olhar complacente do meu pai e o desdém mal disfarçado das minhas tias, ia interpretando o roteiro que o destino havia escrito pra mim. Não posso eximir-me de culpa. Nem quero nem vou. Assumo toda a responsabilidade pelos meus fracassos. O relato das condições e circunstâncias em que eles aconteceram serve mais como cânfora para aliviar a dor da minha consciência, do que como desculpa. Não quero aplausos nem piedade, quero esvaziar a minha angústia despejando as minhas frustrações em si, leitor. Por isso, venha comigo nesta viagem sem GPS, ou abandone o veículo agora enquanto é tempo! Depois não se queixe, não diga que não avisei. Este livro é uma montanha russa, um bólido desgovernado, sem direcção e às vezes sem sentido, como se fosse uma enxurrada de pensamentos expelidos em sucessivas convulsões da minha alma, uma terapia que faço na tentativa de aliviar o peso no troço final desta viagem esquizofrênica a que chamamos vida. Esta conversa está a ficar tediosa, pois quando resolvo filosofar sou um chato. Se, ainda assim, insistir em vir comigo, caro leitor, sugiro que façamos uma pausa no drama e tentemos um pouco de romance. Vou mudar de assunto e falar de coisas mais amenas. Acredite, vai ser melhor assim, falaremos do Liceu mais adiante. Por enquanto aproveite a folga e relaxe. Já agora, desarme o espírito e modere as críticas. Afinal, você também já foi adolescente e quis escrever um livro. Ou não? Ah, pois é!…
X A primeira grande paixão
Ainda não tinha completado onze anos quando a vi pela primeira vez. Mal podia acreditar em tamanha formosura numa criatura só! Margarida, a Guida para os amigos, era uma daquelas miúdas cuja beleza chegava a constranger, daquelas que dói só de olhar! Rapariga alta, esguia, de longos cabelos ondulados, olhos de amêndoa, boca fina e misteriosa, sorriso sempre aberto, iluminado e encantador. Tinha vindo de Lisboa com os pais, vivia num primeiro andar de esquina, ali perto da estação do Texas, na bifurcação da Rua do Estádio, atrás do Largo do Monumento. Quando os nossos olhares se cruzaram fiquei tão hipnotizado que só muitos segundos depois notei que havia dois rapazotes com ela. Eu estava no Jardim Público, o nosso oásis na margem esquerda do Tâmega, entretido numa das traquinices de que mais gostávamos: irritar os casais de namorados que ali se refugiavam com suas mãos atrevidas em busca de privacidade. Naquela tarde, como em muitas outras, estava com o Tóquim Carneiro, um grande amigo de aventuras, daqueles amigos eternos, que compreendemos só na troca de olhares. Embora ele tivesse um problema na fala que lhe prejudicava a dicção, e, por issso, fosse alvo constante de preconceituosas brincadeiras, isso nunca atrapalhou a nossa amizade, e nos entendíamos muito bem. Como disse, nem precisávamos falar, até porque ele não era lá muito falador, o que é bastante compreensível. Fazíamos parte da malta da Madalena, formado por mais meia dúzia de gandulos. Gostávamos de espreitar os casais naqueles longos abraços que protegiam beijos molhados e mãos lascivas em busca de quase sempre tímidos decotes, ou seja, no famoso rouço. Quando queríamos ser inconvenientes, e quase sempre queríamos, atirávamos pequenos seixos na direcção do casal, escondidos atrás dos troncos dos frondosos plátanos. Tão logo os coitados mudassem de lugar, começávamos tudo outra vez, jogando pedras ou areia, até que eles, contrariados e com o tesão recolhido, desistissem e fossem embora. Nessa altura comemorávamos como se fosse uma vitória do Chaves contra o Vila Real ou o Bairro Latino. Eu sei, éramos cruéis, éramos uns empata fodas, como se diz popularmente. Mas atire a primeira pedra (sem trocadilhos) quem não foi um adolescente cruel! Convenhamos, se tivéssemos bom senso não seríamos adolescentes, mas adultos, e mesmo assim, raros.
Naquela tarde estávamos entretidos com outra de nossas brincadeiras de mau gosto. O cenário era o passeio junto ao portão principal do belo jardim, em frente ao Chaves, a mercearia do avô do Rui Chaves, outro malandrote de marca maior (o Rui e não o avô, coitado!). Estávamos ali logo à entrada, a meia dúzia de metros do portão, e nossa brincadeira consistia no seguinte. Agarrávamos um paralelepípedo ou outra pedra qualquer de mais ou menos um quilo, colocávamos a dita cuja no chão, bem no meio do passeio, e depois cobríamos a armadilha com uma caixa de sapatos vazia, dessas comuns, de papelão. Pronto, estava armada a cilada. Aquilo parecia apenas uma inofensiva caixa de papelão, vazia, abandonada ali no meio do passeio. Nós ficávamos escondidos do lado de dentro do muro do jardim, observando as reações dos incautos. Alguns, desconfiados, olhavam-na com desdém, desviavam-se e seguiam o seu caminho. Outros, porém, achando tratar-se de uma caixa de sapatos caída da bagagem de alguém, que poderia ainda conter o calçado dentro, baixavam-se para, decepcionados, constatar que o recheio não passava de uma pedra sem valor. Com esses não nos divertíamos. Queríamos muito mais que isso. Contrariados, lá íamos refazer a armadilha, à espera da próxima vítima. O nosso intuito, e a nossa sádica esperança, era apanhar algum miúdo mais afoito, daqueles das aldeias com aspirações a craque de futebol, que não resistisse à tentação de ver aquela caixa ali à sua frente, e, tomando alguns passos de distância, disparasse um remate certeiro bem no meio do que imaginava ser uma caixa vazia. Tudo bem, eu sei. Aquilo era quase criminoso, mas, de alguma forma, naquela época, não nos parecia nada demais. Pelo que eu e o Tóquim não cansávamos de montar as armadilhas. É claro que os desgraçados contorciam-se de dor, e alguns, creio eu, até tiveram mesmo alguma fractura nos dedos do pé, mas nada que arruinasse a pouco provável carreira futebolística. Mas essa preocupação passava longe de nós, que ríamos acintosamente, aumentando ainda mais o constrangimento das vítimas. Vamos fazer o quê? Eu nunca disse que éramos perfeitos, apenas que éramos adolescentes numa cidade sem grandes oportunidades de lazer. Penso que só quando atingimos a maturidade somos capazes de compreender como os adolescentes podem ser cruéis. É tarde demais, e só nos resta expiar os pecados de então, confessando-os placidamente, como faço aqui. O maior paradoxo, entretanto, está no facto de que, nem mesmo assim nos arrependemos dos pecados então cometidos. Ao contrário, tudo que queríamos era poder voltar no tempo e pecar repetidamente, com redobrado e cruel prazer. Quem é que me entende? Ninguém? Bem, talvez Freud explique!
Naquela tarde cinzenta e até então monótona ainda riamos da expressão de espanto e dor do último incauto quando me apercebi daquela miúda belíssima a entrar pelo portão da Rua Cândido Sotto Mayor. Caminhava, falante e faceira, pela alameda de terra batida que ladeia o canal adornado por arcos de flores coloridas, e, virando à esquerda lá mais à frente, encaminhou-se para a saída lateral que dava acesso à reta do Caneiro. Só momentos depois reparei nos rapazes que a acompanhavam. Um era baixo, um pouco acima do peso, cabelo escuro e liso, escorrido em cima das orelhas e com uma poupa ao estilo Alain Delon. Parecia inquieto, mas tinha ar de bom-serás, como todo gorducho que se preza. O outro era mais alto, loiro como trigo maduro, cabelo liso de corte redondo a cobrir as orelhas. Parecia um príncipe dinamarquês, não fosse pelo nariz adunco que denunciava a sua origem transmontana. Este era mais arisco, o seu olhar era astuto e parecia nervoso. Eu já os tinha visto algumas vezes pela cidade, mas nunca nos tínhamos falado. Conversavam entre si, riam, provocavam-se e ladeavam a miúda que parecia divertir-se com a escolta dos dois pagens improvisados. Sem me aperceber aproximei-me, seguindo-os a uma distância pouco discreta. Tóquim, sempre pronto para uma nova aventura, acompanhou-me, curioso e fascinado pela beleza da rapariga, e, não posso negar, pela possibilidade daquilo tudo acabar em zaragata, coisa que ele até apreciava, dada a altura privilegiada e a robustez dos punhos. Percorremos toda a reta até o cruzamento do Raio X, já quase na saída da cidade. Virámos à direita em direcção à Ponte Nova, atravessámos as Caldas subindo em direcção à Rua do Poço, e, sempre vigiados pelos olhares desconfiados dos dois miúdos e a atenção falsamente discreta da rapariga, cruzámos a Rua Direita e descemos a Ladeira da Polícia em direcção ao Largo das Freiras, em frente ao Liceu. Como aquela estranha perseguição não tivesse fim, os rapazes, cada vez mais enervados, subiram a ladeira ao lado do quartel dos bombeiros, onde hoje funciona a bela Biblioteca Municipal, em direção à Lapa, ali pertinho dos dois canhões desativados do Forte de S. Francisco. Sem hesitar um minuto sequer, mas também sem nenhum plano estabelecido, seguimos o grupo até o topo da ladeira, que parecia o final do percurso. Nesse momento, cansado da nossa insistência, o baixinho (são sempre os piores!), desafiador, veio tirar satisfações: “Então que é que se passa? Por que é que andas atrás de nós?” – perguntou asperamente, dirigindo-se a mim. A princípio estranhei aquele tom de voz. Não achava que o rapaz fosse capaz de atitude tão destemida. Além disso o timbre da voz não combinava com a figura, facto que fez com a pergunta soasse de maneira estranha, quase uma bofetada. Isso parecia mais coisa do outro, o qual, no entanto, permanecia firme ao lado da rapariga, observando o diálogo à distância. Eu não tive medo, estava bem protegido, Tóquim era bem mais alto que todos nós, forte como um touro barrosão, e bom de briga. “Se calhar é proibido passear pela cidade?” – perguntei, fazendo-me de desentendido. – “Proibido não será, mas no mesmo caminho que nós, sempre a seguir-nos?” Como não tinha nenhum argumento razoável, disse-lhe, em tom de provocação: – “Quem vos mandou andar na companhia da miúda mais bonita da cidade?” Com 11 anos ainda tinha a franqueza dos ingénuos, pois hoje jamais diria algo assim, ou não, sei lá. O rosto dele demonstrava impaciência e já um pouco alterado, respondeu desafiador: “Vê lá se te calas, que a miúda é nossa namorada e tu não tens nada com isso, percebes?” Pensando não ter entendido bem, perguntei com incredulidade: – “Nossa namorada? Nossa de quem? Namorada dos dois?”.
– “Oh pá, e o que é que tu tens a ver com isso? Nossa namorada sim senhor, namora uma semana com cada um, por quê? É proibido?” – disparou, já furioso com a minha insolência. Resolvi dar o cheque mate na conversa e, sem medir as consequências respondi: – “Proibido se calhar nem é, mas então talvez haja lugar pra mais um! Podes reservar uma semana pra mim, pá?”. Olhei para trás, rindo, procurando o apoio do Tóquim. Divertia-me com aquele diálogo improvável. Nesse instante ouvi o grito do meu amigo: – “Cuidado Rui…”. Quando me virei percebi que o gordinho vinha na minha direcção com o rosto vermelho de raiva e os punhos cerrados, ameaçador. Franzino como eu era, não confiava muito na capacidade de encarar a fera de igual para igual e resolvi improvisar. Desviei-me da investida, olhei ao redor, agarrei na maior pedra que estava ao alcance da mão e atirei-a na direcção da cabeça do infeliz. O resultado não podia ser outro. O rapaz, atingido de raspanço, gemia de dor e dizia cinco asneiras por segundo, surpreendido pela minha reacção. Um pequeno filete de sangue escorria viscoso da sua testa, e o amigo loiro, a exemplo do Tóquim, lançou-se na nossa direcção, evitando que aquilo tivesse um final pior. Depois de alguns empurrões e muitas ordinarices, ouvimos a voz da miúda que gritava:
– “Parai já com isso, bolas. Que parvoice! Vamos conversar e ficar amigos, senão vou-me embora e não passo mais cartão a nenhum de vós, estais a ouvir?”. Aquilo soou como uma ordem. Ficámos estáticos, olhando uns para os outros, sem saber o que dizer. Depois de alguns minutos de uma conversa quase surreal, onde cada um argumentava como podia para ganhar a simpatia da rapariga, mas já sem ânimo para confrontos, fomos tomados por uma súbita onda de solidariedade, afinidade até, e saímos de lá abraçados, como amigos de longa data! Alguns dias depois, em semanas intercaladas, comecei a namorar com a Guida, a miúda mais desejada da cidade, formando um profano triunvirato com aqueles dois. A paixão era tão intensa, tão ardente e tão inexplicável, que lá nos arranjamos os quatro, e namoramos por vários meses alternando a semana de cada um. O melhor de tudo, no entanto, não foi a descoberta da primeira paixão, nem como esse estado d’alma nos faz experimentar situações surreais. Isso tudo passou e muitas outras paixões se seguiriam. Nem todas seriam suscitadas por uma beleza ímpar como a da Guida, embora parte dessa beleza toda possa ser explicada pela novidade que aquele sentimento representava para mim, e até pela maneira inesperada com que ateou fogo ao meu coração e com que desassossegava as minhas noites mal dormidas. De qualquer forma, estava escrito que eu, nada palerma, manteria um gosto especial por mulheres muito bonitas e desejadas. Afinal, tinha começado em grande estilo. O que de mais importante aconteceu ali, entretanto, foi o nascimento de uma amizade que, ao contrário das paixões, atravessou os anos, permaneceu imune aos problemas, às armadilhas que a vida nos estendeu, ao endurecimento dos nossos corações, à redução dos nossos sonhos a pó, e, sincera e segura de si, apesar do início tumultuado, perdura até aos dias de hoje, passadas mais de quatro décadas. Dali em diante, Rui Jorge de Abreu Pereira de Carvalho, Hernâni José Fortes de Castro Lopo (o arrufadinho) e Luís António Gonçalves Costa (o príncipe dinamarquês), formariam um trio que se tornaria famoso na cidade. Éramos inseparáveis e nunca mais deixaríamos de ser amigos. Passaríamos a dividir muito mais que a primeira namorada, dividiríamos também os melhores anos de nossas vidas. António Joaquim Álvares Carneiro, o Tóquim, também foi protagonista de muitas outras aventuras e era companheiro inseparável, além de vizinho. Gostávamos de andar juntos, principalmente depois que descobrimos que já éramos capazes de guiar os carros dos nossos pais. A frota era composta pelo Fiat 1500 Cabriolet do meu pai, um belíssimo descapotável vermelho com design do estúdio Pininfarina, e que era único na região, o Ford Taunus 17m do pai do Tóquim, o Volkswagen 1600 TL do Costa e o Austin Mini que o pai do Hernâni havia ganho numa rifa do Desportivo de Chaves. Fizemos tantas com esses carros que precisaria escrever outro livro só com essas histórias.
Depois de vir para o Brasil perdi contacto com o Hernâni. Soube que se mudou para Braga com os pais, e que seguiu uma das suas vocações: foi um piloto de corrida de relativo sucesso, tendo sido campeão nacional por duas vezes na década de 90. Consegui acompanhar parte da sua história nos últimos trinta anos pelo relato de alguns conhecidos e através de pesquisas na Internet, mas fiquei sem vê-lo por exatos vinte e cinco anos, e isso só aumentou a saudade que tinha daquela época. Em 2009, através da Internet, consegui finalmente encontrá-lo, e o Natal e a Passagem d’Ano que passámos juntos, só serviu para consolidar a amizade iniciada de forma tão pouco ortodoxa. Nas minhas viagens de férias encontro o Costa com frequência. Conseguimos manter contacto pela Internet e conheço bem a sua casa e a família. Sua mulher, Lena, é amiga da minha irmã. O príncipe dinamarquês da década de 60 é hoje um respeitado professor de Educação Física ainda em forma no amadurecer dos cinquenta e poucos anos. Ainda bem que não foi com ele que tive que lutar naquela tarde engraçada no Largo da Lapa. Quis o sábio destino que eu enfrentasse o atarracado Hernâni. Tóquim emigrou para a Venezuela ainda na década de 70. Estive com ele em Chaves, em 1985, durante umas curtas férias, quando relembramos muitas histórias. Recentemente retomamos contato através da Internet, essa ferramenta tão poderosa, aliada imprescindível dos amigos que vivem espalhados por esse mundo de Deus!
Quem sabe ainda teremos outras histórias para contar, antes que o tipo lá de cima nos convoque a prestar contas das maldades que nos divertiam debaixo dos plátanos frondosos do Jardim Público de Chaves. Quem sabe?…
XI Será que Freud explica?
Desde que, aos sete anos, atravessei aquela ponte a caminho da casa do meu avô, e apesar do inesperado carinho com que fui recebido por todos, nunca mais tive paz interior. Aquela travessia, ao romper abruptamente a minha infância, também partiu algo dentro de mim, algum mecanismo emocional, alguma ligação com o que havia de melhor em mim, com a minha pureza e ingenuidade. Aquela travessia emancipou-me, foi meu pecado original, eu havia sido expulso do paraíso e era preciso pagar meus pecados. Não consegui desenvolver as habilidades necessárias para manter laços afetivos estáveis, duradouros, saudáveis. Não que eu tenha me tornado um monstro seco de emoções, longe disso. Choro em qualquer cena de filme ou novela que carregue o mínimo de emoção, e raramente consigo ouvir uma música de que goste sem que as lágrimas inundem as minhas faces. Sou um sentimental, um emotivo, mas alguma coisa se perdeu nesse trajecto. As minhas emoções são inexplicáveis, afloram nos momentos mais inapropriados e manifestam-se, por vezes, de maneira dissimulada, ora travestidas de fraqueza, ora embrulhadas num ceticismo corrosivo, oscilando entre parâmetros que não consigo decifrar nem controlar. Aquela ponte continua a separar dois lados dentro de mim, e toda vez que a atravesso, mesmo nos dias actuais, sinto um arrepio na espinha que me deixa desorientado e inseguro. Amo a Ponte Romana, mas tenho com ela uma relação ambígua de dor e prazer. Olho-a de forma incestuosa, como a uma irmã que tivesse engolido parte do que fui sem me dar explicações ou motivos. Talvez por isso mesmo ela seja tão importante para mim, tão bela e inescrutável, impávida e serena em sua nobre tarefa de testemunhar a história, e as histórias de quem por ela passa. Deixemo-la por ora em sua milenar instrospecção e voltemos à Rua do Sabugueiro dos idos anos 60 do século passado.
Na nova morada eu já enfrentava problemas de relacionamento com as minhas tias, as irmãs do meu pai, que me criavam como podiam, ou como sabiam. Pra mim era muito pouco, eu precisava mais, muito mais. Reconheço que se esforçavam, mas, mal conseguiam ter consciência dos próprios problemas que enfrentavam nas suas vidas medíocres e infelizes. Tendo como valor incontestável a obediência cega ao pai, eram filhas dedicadas a satisfazer as necessidades e caprichos do senhor Carvalho, e a cuidar de tudo que a doença da minha avó Arminda exigia. Era uma existência sem perspectivas, solitária, amargurada, sem nenhum contacto com a maioria dos prazeres que fazem a vida valer a pena. Com interesses voltados quase que exclusivamente para o trabalho, a religião e a família, valores fanaticamente cultivados pela minha avó, sobrava pouco tempo para elas mesmas, para cuidar da própria felicidade, dos prazeres mais mundanos. O resultado disso era uma exagerada rispidez, uma constante amargura que não combinava com o clima descontraído e alegre desejado por duas crianças. Nós caímos na vida delas sem aviso. Chegámos, instalámo-nos e começámos a virar tudo do avesso. Entrámos como um vendaval nas vidas meticulosamente planeadas das tias, arrasando tudo que encontrávamos pelo caminho. O resultado só podia mesmo ser um clima conflituoso, de tensão permanente, de confronto. Foram tempos difíceis, eram brigas e mais brigas, gritos, ordens, discussões, palavras atiradas sem pensar, mágoas e frustrações descarregadas em cima de duas crianças cuja única culpa, até então, tinha sido a de nascer no meio de uma família dividida, com os laços (mal) tecidos por conceitos morais extremamente conservadores, que se negava a aceitar que o tempo tudo muda, que os valores morais mudam, se afrouxam, e que é preciso saber seguir em frente. Enfim, fui atirado no meio de uma família que insistia em viver presa a um passado de glórias que não conseguia reviver, uma gente saudosista e roída por preconceitos que usava como medida moral ou princípios de vida. Aos poucos, sem que se dessem conta, e por mais que tenham tido sempre boas intenções, adotaram para nós um padrão de educação, uma forma de convívio, que nem eu nem a minha irmã estávamos preparados para aceitar. Aquilo não era lugar para crianças e todos sabiam disso. As de fora, nossas amigas, eram proibidas de entrar, e nós, apenas tolerados, algo inevitável, um fardo pesado que era preciso carregar como penitência. Esse sentimento ficava muito claro, apesar das constantes tentativas de camuflar o incómodo. Foi um choque de culturas, um buraco negro de onde não poderíamos sair incólumes. O carinho físico era escasso e nunca incentivado, os ataques à honra da minha mãe eram sempre o primeiro argumento em todas as discussões. As previsões de fracasso sobre o meu futuro eram usadas como incentivo para me fazer mudar. Fazendo uso de uma leitura invertida dos princípios que regem a motivação, a minha tia costumava dizer, sempre que eu fazia alguma, ainda que fosse algo normal para uma criança da minha idade:
– Tu nunca vais ser nada na vida, rapaz. Com esse génio que tens, vais ser sempre um borra-botas, ninguém vai ser capaz de te aturar, és um caso perdido. Ou, então, quando a minha pretensa falta era mais grave, e às vezes era mesmo, que de santo eu também não tinha nada, ela desferia o golpe fatal, aquele que acabava com qualquer discussão, a única coisa que me deixava sem resposta: – Ó rapaz, tu és tão mau, mas tão mau, que nem a tua mãe te quis. É por isso que se foi embora para o Brasil e deixou-te aqui conosco. Se fosses muito bom ela tinha-te levado com ela. Se nem a tua mãe te quis, já vês que não és lá grande coisa! Pura covardia. Não é preciso ser terapeuta para perceber que esse tipo de argumento, hoje eu reconheço, usado com a intenção nobre de educar-me, de corrigir-me, era devastador para uma personalidade ainda em formação. Durante muitos anos alimentei um sentimento confuso com relação à minha mãe, e uma grande mágoa pela minha tia. A ponta mais visível desse iceberg de recalques é um insaciável complexo de rejeição que tem reduzido minha vida a uma busca constante por aprovação. Uma via crucis insuportável, um colar de frustrações que até agora não consegui conter. Só muito tempo depois, já na meia idade, com os meus próprios filhos criados, já castigado pela vida adulta fora da terra natal, é que fui capaz de perdoá-la. Perdoar talvez seja um termo inadequado, seria mais apropriado dizer que a maturidade fez-me entender os seus motivos, compreender as circunstâncias, olhar o passado na perspectiva do passado, e não à luz do que sei hoje. De certa forma, e apenas de certa forma, devo muito a essa tia, que sempre me criou como um filho que nunca teve, que dedicou boa parte da sua vida a fazer por mim o que achava ser correcto – ainda que não fosse –, lançando mão de métodos que nada tinham de ortodoxos! A culpa não foi dela totalmente. Não podia ensinar-me o que não sabia, passar-me experiências que nunca viveu, dar-me o carinho que não conheceu, confortar-me com palavras que nunca ouviu. Não posso culpá-la por não ter sido capaz de oferecer-me o amor que nunca teve, pelo menos não da maneira como eu precisava que ela o demonstrasse. O que é mais triste, é que ela talvez nunca tenha percebido isso, talvez continue a achar que me deu tudo que me negou. Não a culpo. No fundo tenho pena dela por saber que ainda há pessoas que passam pela vida presas a valores há muito descartados por quem resolveu ser feliz por seu próprio esforço ou morrer tentando. Sinto tristeza pelas pessoas que, tentando precaver-se para o futuro, desperdiçam o presente, vivendo de um passado que já não podem mudar. Abrir mão de sonhar é o pior castigo que alguém pode impor-se. É melhor deixar que a vida, por seu próprio curso, se encarregue de nos decepcionar. Por certo ela não precisa da nossa ajuda voluntária nessa tarefa. Mas enquanto ainda mantemos essa habilidade, a de sonhar, e, acima de tudo, a de lutar para transformar sonhos em realidade, ainda nos distinguimos dos animais. É isso que nos aproxima de Deus, se é que há algum Deus em algum lugar, que se preocupe com os nossos sonhos.
O que é certo é que todos esses anos na casa dos meus avós, educado por duas tias solteiras, sempre divididas entre o desejo de serem felizes e a obrigação de agradarem aos pais, acabou por moldar definitivamente o meu caráter, a minha forma de ver a vida, de me relacionar com as pessoas e com o mundo. São marcas que ficaram e que determinaram o que sou hoje. Não me orgulho nada, mas é preciso saber enfrentar os nossos fantasmas. Deixei muita gente pelo caminho – três casamentos desfeitos e dezenas de relacionamentos inacabados, ou encerrados prematuramente. Enfim, se Freud explica eu não sei, mas que aqueles diabos do passado ainda infernizam as minhas noites, isso não posso negar. A minha dificuldade em estabelecer relacionamentos duradouros já se transformou em folclore. A minha aparente indiferença com as relações familiares é notória e incomoda muita gente, inclusive a família. Freud pode até explicar, mas eu confesso: não tenho explicação. Posso dizer apenas que sinto propensão para me proteger (sim, de me proteger, me resguardar de seus males) dos laços familiares, da proximidade diária da família. Não sinto essa necessidade. Pelo contrário, a proximidade incomoda-me. Por isso crio um círculo à minha volta que mantém a família a certa distância, a uma distância segura. Não sei se segura para eles ou para mim, mas é assim que o meu mundo funciona. Não sou autista, mas criei um mundinho só meu. Na minha cabeça raramente deixo alguém entrar. Já no meu coração, esse é de domínio público, pertence a quem tiver carinho e atenção para oferecer-me. Sempre tive a sensação de que estou mais protegido quando estou sozinho, quando não dependo de ninguém e quando ninguém depende de mim. Mesmo assim consegui gerar três filhos, três ex-esposas e dezenas de ex-amigos espalhados pelos quatro cantos do mundo. Entretanto, quanto mais avança a idade mais eu procuro ficar isolado de tudo e todos. A única proximidade que anseio é a menos provável – a dos amigos de infância, a do meu passado, como se isso pudesse amenizar o futuro que tanto me assusta. Por enquanto, estar sozinho é a minha condição natural, o laboratório onde desenvolvo e trato as minhas neuras. Não me esforço muito para cultivar amizades, mas, ao mesmo tempo, não suporto que não gostem de mim. Faço qualquer coisa para agradar aos outros, evito a palavra não, e procuro fazer o que esperam de mim. Mas sabe Deus a que preço! Na verdade, só quando estou sozinho, principalmente quando escrevo o que me incomoda, quando me viro do avesso e encaro o labirinto esquizofrénico dos meus pensamentos mais íntimos, é que encontro alguma paz, algum sossego, alguma dúvida que traga um pouco de sentido para tantas certezas, algum sentido para os meus paradoxos. Eis aí mais um, encontrar paz num labirinto de incertezas! Não sei se sou um prato cheio para os terapeutas, nunca lhes dei uma chance honesta de tentar compreender-me. Teimava em sonegar-lhes importantes informações, negava-lhes, com cruel prazer, confesso, o acesso aos porões que teimavam em invadir, mas sei que há algo de muito triste em mim, alguma coisa está fora da ordem natural. O problema é que também sei que há algo de muito correto, muita alegria de viver. Então sobrevém a pergunta inevitável: não será isso que é ser humano? Não seremos todos um conjunto formidável de contradições, de paradoxos? Uma montanha de dúvidas a proteger um vale de certezas? Não é essa, exatamente, a maravilha de ser gente? Abrigar sob o mesmo tecto, esconder na mesma cabeça, ao mesmo tempo, o médico e o monstro, a bela e a fera, o bem e o mal? Será que não há semelhanças nesses dois extremos? Não seria a nossa engenharia interior um círculo, onde início e fim, por mais antagónicos que possam parecer, não só partem do mesmo ponto, mas se completam e são a essência e a razão da própria forma? Será que não somos todos o resultado da eterna luta entre o bem e o mal, luta que travamos diariamente dentro de nós, naqueles cantos escuros onde teimamos em ir de vez em quando, só para provarmos que ainda somos capazes de encontrar alguma batalha que valha a pena vencer? Para nos convencermos que ainda podemos ser o herói que sempre vence o mal? Não seremos todos actores de uma farsa encenada com a intenção de levar os outros a pensar que somos melhores do que aparentamos? Um jogo de espelhos? Um livro de ilusões? Não estaremos todos a sufocar o grito que diz que ainda valemos o risco de ser amados por alguém? Ou isso é prerrogativa dos infelizes? Dos castigados pela perversa dúvida de não saber distinguir entre o que somos e o que gostaríamos de ser? Não creio que consiga uma resposta fácil e lógica, nem mesmo sendo paciente dos pacientes terapeutas. Por isso deixei de frequentar os seus consultórios, pois achei que pagava demasiado caro para usufruir dos cinquenta minutos semanais do confortável divã. Acho que vou morrer com essa dúvida, mas trabalho diariamente para destruí-la, não há trégua. No meio de toda essa baderna mental posso sentir o sabor de uma reconfortante certeza: não sou o único a ter mais perguntas que respostas, pelo menos entre os que já passaram dos 50, mas mantêm o saudável hábito de questionar-se. Mais uma vez com a palavra os psicólogos, os terapeutas, os mecânicos da mente humana, os discípulos de Freud e Jung. Pode ser que eles expliquem. Eu desisto, estou cansado de fingir que sou feliz. Preciso, desesperadamente, encontrar um sentido para a vida, ainda que para isso tenha que abrir mão de algumas certezas que trago lá da infância! Pensando bem, quase posso dizer que descobri mais sentido nas dúvidas do que nas certezas, mas isso pode mudar num segundo, pois faz parte da experiência diária de interpretar minha cabeça, da incrível aventura de viver dentro de mim. Na falta de melhor lugar para seguir lutando, contento-me com este. Que remédio!…
Apesar dessa inescapável fatalidade, ou exatamente por causa dela, ao longo da adolescência e da juventude mergulhei diariamente no meu inferno particular, encarei uma realidade cuja compreensão e sentido me eram negados e só consegui construir um adolescente indisciplinado, inquieto, angustiado e inseguro. Esse adolescente resultou num adulto sempre em busca de algo que não pode ter. À espera de um futuro que já aconteceu, que já se foi. O adulto, já gasto pela luta insana de anos a fio, lá vai conseguindo manter-se tão lúcido quanto possível. Incrédulo, mais cético que nunca, mas corajoso o suficiente para conviver com os seus medos, adaptar-se às suas frustrações, viver do passado como se dele dependesse o final da sua história. Já o adolescente rebelde, esse não tinha cabedal para suportar as angústias. Esmoreceu, deixou-se levar pelas circunstâncias e esqueceu-se de ser jovem enquanto procurava os culpados por sua vida torta, improvisada. A ansiedade passou a ser a sua companheira inseparável. Fustigado pelas dúvidas e inseguranças começou a faltar às aulas sem motivo aparente. Tornou-se preguiçoso e com pouca motivação para estudar. Junte-se a isso uma habilidade crescente com as palavras, uma língua destravada, uma tendência quase incontrolável pela defesa dos mais fracos, da justiça (ou do que ele achava que era justo), e uma avidez por conhecimento, por respostas, por tudo que pudesse explicar o inexplicável, e teremos uma bomba emocional com potencial para causar estragos imensuráveis. Como era ao mesmo tempo gerador e veículo dessa carga, fica evidente que o maior prejuízo foi dele, foi meu. Num cenário provinciano, conservador, com professores pouco habituados a ter a autoridade contestada, com o poder concentrado na mão de poucos, como só uma boa e sombria ditadura é capaz de proporcionar, fica fácil perceber a razão de tantas expulsões, faltas de castigo e notas más. O resultado é que precisei de três anos para fazer o quarto ano do Liceu, o que fez com que a maior parte dos meus amigos, vindos comigo desde a escola da Lapa, fossem ficando distantes, dando prosseguimento normal às suas carreiras estudantis e às suas vidas, enquanto eu desperdiçava a minha. Alguns já se aproximavam do término do curso liceal, pensavam em universidade, em deixar a cidade, e eu, repetente e reincidente, tornava-me um veterano rodeado de calouros que continuavam a descer das aldeias próximas em busca do sonho de uma vida melhor na cidade. Para ter essa vida era preciso estudar, toda a gente sabia disso, menos eu, claro, que, contando com a cumplicidade da frágil autoridade do meu pai, que sempre esteve pouco à vontade no papel de educador, fui vendo o tempo passar pela janela da vida, enquanto achava que a juventude seria eterna e o acaso tudo me daria, um dia. Afinal eu era especial, tão especial que não dei conta de que o tempo passava e eu não era capaz de encontrar um caminho que me levasse ao futuro. Resumindo: especial na minha mediocridade. Mas era preciso continuar, pois todo medíocre é teimoso como uma mula. Comigo não foi diferente, e tive que achar um meio de empregar a energia que me sobrava na cabeça em favor de alguma coisa útil.
Aos poucos, pela habilidade de convencer os outros, e pela experiência adquirida como veterano, acabei por transformar-me em porta voz da classe, em representante informal dos colegas. Tudo era ainda muito incipiente, muito intuitivo, pois as restrições impostas pelo regime não permitiam constituir associações de estudantes, diretórios académicos, reivindicações de qualquer tipo, assembléias ou reuniões. Também era verdade que não sentíamos falta e não lutávamos por isso. Afinal, todos esses termos eram desconhecidos para nós. Até o dia 25 de Abril de 1974, quando estourou a Revolução dos Cravos, eu pouco sabia de palavras como democracia, fascismo, comunismo ou luta de classes. Éramos o que se podia chamar de politicamente analfabetos, como convinha ao governo de Lisboa. Povo inculto é mais fácil de domar, basta dar-lhes pão e circo, como já sabiam os imperadores romanos há mais de dois mil anos. Um ou outro, de vez em quando, aparecia com alguma palavra proibida, mais por tê-la ouvido falar em casa, às escondidas, do que por compreender o seu verdadeiro sentido. É que alguns tinham a sorte de descender de famílias que ainda esboçavam alguma resistência ao regime, quase sempre de forma sorrateira, em conversas à lareira, na proteção da intimidade de um lar ainda livre da modernidade das escutas telefónicas. Aliás, telefone em casa era coisa rara, um luxo de que poucos podiam usufruir. Nós, por conta da atividade de taxista do meu pai, já tínhamos o nosso, instalado na praça de táxis do arrabalde, dentro de uma simpática casota de lata que lembrava uma casa de cachorro em miniatura, e que tinha a função de proteger o aparelho das intempéries e dos amigos do alheio. Lembro-me bem que o número, na altura com apenas três algarismos, era o 424, que ainda hoje, com alguns acréscimos da modernidade, ainda é o mesmo que existe no apartamento da família em Chaves. Havia uma extensão em casa que permitia que falássemos à borla com o aparelho da praça de táxis mediante o acionamento de uma manivela. Era por esse método que a minha mãe chamava o meu pai para as refeições nos anos em que moramos juntos, como uma família normal. Era engraçado, mas funcionava. Refiro-me ao telefone e não à família, claro, que essa nunca funcionou muito bem, como já sabem.
Em relação ao vocabulário político eu tinha alguma sorte, se é que podemos chamar de sorte a implicância do meu avô com o regime de Salazar, implicância que o condenou ao desterro numa repartição pública de terceira categoria por mais de quatro décadas, como já mencionei. Tanto o meu avô paterno quanto o meu pai, mais por pragmatismo do que por convicção política, discordavam de Salazar, e, frequentemente, faziam veladas críticas durante as refeições, sempre com muito cuidado e com poucas palavras. Mas, enfim, pelo menos eu aprendia alguma coisa, ouvia aqui e ali algumas insinuações, comentários furtivos, antigas histórias de injustiças presenciadas pelo meu avô nas salas do tribunal, enfim, peças que eu juntava e que me ajudavam a formar o mosaico ainda intuitivo do meu futuro pensamento democrático. Bom para mim, nem tanto para os autoritários professores. Essa exposição à discussão de ideias mais arejadas, mesmo que no seio de uma família extremamente conservadora, essa incipiente consciência política que fui construindo, contribuía muito para alimentar o meu inconformismo com o sistema de gestão escolar imposto pelo reitor e pelos professores, ou melhor, imposto pela ordem natural das coisas. Ministério da Educação e directrizes de governo ainda eram pura abstração pra mim. Assim é que tinha que ser e ninguém achava necessário mudar. Vivíamos na era do “manda quem pode e obedece quem tem juízo”, lema que sempre me causou ânsia de vómito, tal era a reviravolta que sentia na boca do estômago sempre que alguma criatura infeliz lançava mão desse argumento para justificar ordens estapafúrdias, ou exercer a autoridade de forma arbitrária. Sempre achei que só se refugiava numa frase como essa quem estava completamente sem argumentos. Pra mim fazia muito mais sentido dizer: “Manda quem sabe e obedece quem reconhece o valor da experiência dos outros!” Por causa desse tipo de filosofia eu ainda seria expulso muitas outras vezes, algumas delas anos mais tarde, já adulto, demitido de empresas onde chefes inseguros insistiam em permanecer ancorados naquele tempo de tristes recordações. Só agora, na idade madura, consegui liberdade para utilizar com os meus subordinados a frase na sua forma mais adequada. Não gosto de dar ordens, gosto de ser respeitado e obedecido naturalmente, pelo reconhecimento da minha experiência, e nunca pela autoridade conferida pelo meu cargo. Antes tarde do que nunca! Mas que às vezes lidamos com subordinados tão mediocremente subordinados que nos dá vontade de recorrer àquela frase, lá isso também é verdade.
Lembro-me de uma manhã, durante uma aula, em que o professor falava sobre autoridade, responsabilidade, obediência e outras coisas mais. Era uma aula de Matemática, disciplina lecionada pelo temido Engenheiro Luís Gonzaga, homem alto e esguio, com nariz pronunciado e cara de poucos amigos. Professor muito reto, severo, de poucas palavras e quase nenhum sorriso. Embora amigo da minha família, era o terror dos alunos. A paciência, todos sabiam, não era a sua principal virtude, e os acessos de raiva, normalmente acompanhados por um bom puxão de orelhas e duas ou três asneiras, eram mais frequentes do que gostaríamos. A minha turma, naquele ano, tinha aulas numa sala que era também o Museu de Ciências Naturais da escola. Ficava no primeiro andar, à direita de quem subia as escadas, e dava para o Largo das Freiras, através da fachada principal do Liceu. Na verdade nada se via, pois com pé direito duplo, as janelas ficavam a uma altura de mais de quatro metros, lá em cima, junto do tecto. Por ser a sala mais alta do prédio, havia ali uma sonoridade especial. As palavras faziam eco, tudo que se dizia naquela sala parecia amplificado e isso ajudava a deixar as coisas mais solenes, mais pesadas, com um sentido mais sério. Em volta das carteiras, junto às paredes, havia armários de vidro com esqueletos, caveiras, animais embalsamados, minerais, enfim, as peças que compunham o acervo do improvisado museu, e que emprestavam ao ambiente um ar de filme trash, uma aura de morbidez. A morte espreitava-nos por todos os armários e montras e a atmosfera carregada assustava até algumas professoras mais sensíveis, como a Dra. Maria Amélia Claro, coitada, que admitiam não gostar nada de lecionar naquele clima. Achávamos, em nossa inesgotável arrogância adolescente, que era mais por medo da nossa turma de indisciplinados, do que pela decoração esdrúxula da sala. Enfim, o facto é que, para o bem e para o mal, o 4º H, com perdão do infame trocadilho, fez escola!
Pela grande quantidade de alunos na classe, e pela falta de espaço em outras salas mais adequadas, a nossa turma assistia ali a todas as aulas. Era a turma dos repetentes, os matulões, os gandulos, e o facto de estarmos numa sala sem visão para a rua, de certa forma, já era uma espécie de castigo, um estigma, uma marca. Éramos feras enjauladas e sempre prontas a saltar em cima de quem desafiasse a nossa ignorância. Boa parte dos professores, principalmente professoras, temia o famigerado 4º H, de tristes (e felizes, depende de que lado seja feita a análise) memórias. Mas isso não chegava a ser um problema para o ríspido Dr. Luís Gonzaga. Acho que ele encarava até com certo prazer a tarefa de domar aquelas feras de meia tigela. Mas voltemos à história. Não me lembro exatamente dos detalhes, mas creio que o sisudo professor, a propósito de repreender a intervenção infeliz de um dos alunos, tentava mostrar à classe que o sucesso na vida e na escola estava sempre calcado na disciplina, na obediência aos pais e professores, na observância de regras claras e inflexíveis. Resumindo a ópera, nada mais era do que a apologia da ordem e da hierarquia a qualquer preço, preceitos defendidos em qualquer regime totalitário, seja num governo, numa escola secundária ou na família. Enfim, devíamos obediência cega aos professores e ao reitor, pois eram estes que mandavam na escola por direito. Mandavam nas nossas vidas e podiam fazer delas o que bem entendessem, sem que por isso tivessem que prestar contas a alguém. Pelo menos era essa a impressão que tínhamos, e isso era o bastante. Às tantas algum mecanismo se acionou dentro da minha cabeça. O meu sangue aquecia, as minhas têmporas palpitavam e os meus dedos ficaram crispados. Não sei se tive um ataque de coragem ou de maluquice, mas, sem que pudesse conter-me, como se outro falasse por mim, ouvi com espanto as minhas próprias palavras, as quais, ajudadas pela acústica peculiar do local, soaram mais firmes e desafiadoras do que seria recomendável naquelas circunstâncias: – Sotor, se calhar não devia ser assim. Se somos nós que pagamos as propinas, acho que devíamos ter o direito de mandar um bocadinho, e não ficar aqui só a receber ordens de toda a gente! Sabia que os meus colegas concordavam comigo, já tínhamos falado disso algumas vezes nas conversas do recreio sempre que algum professor exagerava na imposição da disciplina, mas as expressões de espanto e incredulidade que pude perceber num rápido olhar de soslaio na direção de alguns, deu-me a certeza de que talvez isso não fosse de grande ajuda naquele momento, e que eu não deveria esperar nenhuma manifestação de solidariedade. Mais uma vez, eu estava sozinho, havia reincorporado o D. Quixote idealista e solitário, misto de herói e fantoche. Travesti-me de cristão atirado aos leões para gáudio da multidão sedenta de sangue novo. O professor, claro, parecia não ter gostado nada do meu raciocínio lógico. Com o rosto crispado, as sobrancelhas erguidas e a caneta Parker em riste feito lança de guerreiro medieval, avançou da minha direcção e disse num tom de quem não admite réplica: – Meu rebeldezinho de merda. Como é que te atreves a dizer uma asneira dessas? Se eu não tivesse respeito pela tua família levavas era um tabefe no focinho! Ora faça o favor de se retirar da sala que isto aqui não é lugar de malandros como tu. Anda, põe-te na alheta, já, antes que eu perca a cabeça e te arraste pelas orelhas. Como podem perceber, eram palavras que nem mesmo eu, ainda mais na inexperiência dos meus 16 ou 17 anos, conseguia rebater. Era rebelde e contestador, mas não era idiota, sabia o momento de tirar a equipa de campo. Deixei a sala de cabeça baixa, com o rabinho entre as pernas e o orgulho ferido. Mas o que mais doía era saber as consequências daquele meu acesso repentino de democracia. Pelas regras vigentes, o aluno só podia ter duas faltas de castigo, como se chamavam as expulsões, pois, na terceira, a expulsão era definitiva e perdia-se o ano lectivo. No meu caso aquela já era a segunda falta naquele ano, ou seja, eu estava dependurado à beira do precipício. Mais uma resposta impulsiva, mais um desentendimento com professor ou colega dentro da sala, mais um arroubo liberal e o ano estava perdido. Pior: como já era a terceira vez que eu frequentava o quarto ano, teria que procurar um colégio particular, pois não poderia matricular-me novamente no Liceu. Três reprovações consecutivas no mesmo ano, e tudo estava acabado. A situação era grave, eu precisava encontrar uma forma de calar o D. Quixote dentro de mim, ou teria muita coisa para explicar ao Sr. Waldemar Carvalho, que já andava ressabiado com as minhas extravagâncias e ameaçava tomar uma atitude mais drástica, como colocar-me num colégio interno ou, humilhação das humilhações para um futuro garanhão como eu, matricular-me num seminário para seguir a carreira de sacerdote! Não sei se as ameaças eram a sério. Ele, assim como eu, sabia que eu não duraria um mês dentro de um seminário, e não havia dinheiro para pagar um colégio particular. Em todo caso, era melhor eu emendar-me, pois não gostava nada de confrontar o meu pai. Sabia que aquela calma era só aparente e que um evento daquela natureza podia fazer emergir a fera que ele procurava conter dentro dos limites da sua cabeça. Aquela situação precisava de atenção especial, eu teria que andar na linha por uns tempos. A boa notícia é que faltavam poucos meses para o fim do ano lectivo, e desta vez eu estava conseguindo notas suficientes para, finalmente, passar para o quinto ano, que era o último daquele ciclo. Depois disso, havia o sexto e o sétimo, e o acesso à universidade. Eu sabia de tudo isso, só não sabia que o D. Quixote ainda tinha muitos moinhos de vento para derrotar.
Episódios como este eram muito frequentes. Nunca fui de levar desaforo para casa, e não digo isso com orgulho, mas com a inquietação de quem já se arrependeu muitas vezes por palavras ditas sem pensar. Há certo charme nas pessoas espontâneas, impulsivas, autênticas, mas esse charme raramente leva a bons resultados práticos. Desde que me dei conta de que era bom com as palavras, que persigo sem sucesso o segredo para mantê-las sob controlo. Algumas pessoas nunca chegarão a entender o quanto uma frase fora de hora pode ferir, pode causar estragos. Criaturas felizes essas! A verdadeira arte da comunicação está em saber a hora de fechar a boca. Pode parecer uma ironia, mas qualquer bom comunicador sabe o valor incalculável do silêncio. Conheço muitas pessoas interessantes que se fazem notar não pelo que dizem mas que pelo que deixam de dizer. Mas eu não sou assim, não adianta forçar a natureza. Costumo dizer que venho com um defeito de fábrica, falta-me um filtro entre o cérebro e a boca, o que faz com que, mais frequentemente do que seria prudente, eu fale sem grandes precauções aquilo que penso. Agindo assim ganhei inimigos, mas também fiz muitas amizades. Entrei em lutas desnecessárias, mas também consegui o respeito e a admiração de muita gente, de gente que me importava, que fez a diferença. Acho que o meu charme está justamente em ser ao mesmo tempo educado e gentil, e não ter papas na língua, chegando muito perto da agressividade. Sou assim. Não me pergunte que eu respondo, não peça a minha opinião se não quiser ouvi-la. Nunca tive muito equilíbrio, por isso odeio ficar em cima do muro, tenho medo de cair. Sou ao mesmo tempo racional e passional, sou de extremos, nada que é morno me agrada e, por isso mesmo, o sentimento que mais me causa repulsa é a indiferença. Ame ou odeie, mas não fique indiferente. Erre com o sim ou com o não, mas não tente acertar com o talvez! Aprenda com a decisão errada, mas não ensine com a omissão. Posso ficar indeciso entre o preto e o branco, mas jamais terei dificuldade em descartar o cinzento. Não gosto de pendências – se tenho que resolver, vamos logo a isso. Dizem que há coisas que devem ser feitas com calma, sem pressa. Pode ser, mas, com excepção do sexo, não me lembro de nenhuma outra. E olha que o sexo com pressa, por vezes, pode até ser muito aprazível, depende muito de com a mulher de quem você está envolvido e a que distância o marido está de ti!
Brincadeiras à parte, uma das coisas que aprendi desde cedo, ainda nos bancos da escola, foi que a sinceridade é uma arma perigosa quando usada sem critério. É quase sempre tarde demais quando percebemos que não há forma de vida civilizada sem o imprescindível recurso da hipocrisia. Chamemos de mentira do bem, ou mentira inocente, se preferirem, mas, ainda assim, mentira e hipocrisia. Honrando a minha queda por D. Quixote, que é recorrente, tenho que confessar que sempre busquei uma forma de provar que a dor causada pela sinceridade é infinitamente mais branda do que a causada pela hipocrisia. Esta corrói a auto-estima, suborna o bom senso e corrompe a inteligência, enquanto aquela fere apenas o inútil excesso de orgulho, arranha de leve a vaidade e derrota a soberba. Convenhamos que é um bom negócio, uma decisão fácil de tomar em favor da siceridade. Não percebo por que as pessoas teimam em não fazer a escolha mais óbvia. É uma barganha, todos teriam a ganhar! Bem, talvez as boas maneiras perdessem um pouco da sua aura, é verdade, mas não me digam que nunca sonharam com um mundo habitado apenas por super-sinceros, como aquele personagem da televisão brasileira tão brilhantemente interpretado por Luis Fernando Guimarães, conhecem? Seria uma maravilha poder ser-se autêntico sempre. No elevador, por exemplo, o vizinho entra e cumprimenta:
– “Bom dia!”
– “Bom dia porquê? Estou atrasado pra caraças, vou ter que ouvir sermão do meu chefe, tenho duas facturas pra pagar e o saldo no banco está negativo, a minha mulher põe-me os cornos com o personal trainer, e você ainda acha que o dia vai ser bom?” – Digam lá se nunca tiveram vontade de responder assim. É claro que o pobre do vizinho não ia gostar nada da prosa, mas que era engraçado, lá isso era. Mas, enfim, como precisamos da mentira para sobreviver, é melhor saber contá-la, tornar-se mestre na arte da dissimulação para fazer sucesso no amor e nos negócios. Esta é a receita de um velho amigo meu. Discuti com ele durante anos a fio, mas com o tempo acabei por concordar com a frieza dessa lógica. Não há que tirar nem por, se você souber mentir, dissimular, falar as coisas certas na hora certa para as pessoas certas, fará muito mais sucesso do que se estiver distraído a tentar mudar o mundo com as suas verdades, munido apenas da sinceridade ou da nobreza de propósitos. Pense nisso antes de decidir contar à sua mulher que você se está a pôr noutra. Ou vice-versa…
XII O despertar do Santo do pau oco!
Aquele ano foi relativamente tranquilo no Liceu de Chaves. A cidade seguia o seu ritmo arrastado, sem grandes sobressaltos. Sobressaltado estava eu que sempre tive a sensação de não caber nela, de que ela era muito pequena para os meus sonhos. Vivia desassossegado, inquieto, procurando respostas para as minhas angústias nas velhas muralhas da cidade transformadas por mim em confidentes. O certo é que havia alguma coisa naquela cidade que me fascinava, me atraía, e isso ocorre até hoje. Mas nunca consegui decifrar exatamente o que era, o que isso significava ou como poderia usar essa sensação a meu favor, ou a favor da cidade. Comecei a sentir-me incomodado, dividido entre uma família em que não conseguia encaixar-me e uma cidade que não se encaixava em mim por ser pequena demais. Era uma situação estranha, que tinha tudo para não ter um final feliz. Para piorar eu achava as pessoas esquisitas, cheias de preconceitos. Mesmo os mais jovens gostavam de repetir tudo que os mais velhos lhes diziam, sem fazer nenhum esforço para pensar por si próprios. Aquilo deixava-me confuso, desconcertado. O meu raciocínio lógico dizia-me que as pessoas mais velhas tinham mais experiência e, por isso, muito a ensinar. Mas o facto era que, na maioria das vezes, o que elas tentavam ensinar-me não fazia nenhum sentido pra mim, e só contribuía para acelerar o turbilhão de ideias que me tirava a paz sempre que parava para reflectir. No início achei que tudo aquilo passaria com o tempo, que acabaria por ajustar-me, por vestir o figurino que haviam criado pra mim. Acabaria representando bem o papel que me haviam atribuído. Afinal, todos pareciam fazer isso e eram felizes assim, por que não eu? Não podia ser tão diferente de todos os outros. Eu sei que todo o ser humano se julga único e especial, e eu não era excepção. Mas a vida ensina-nos que depois de muitas desilusões somos cada vez mais parecidos uns com os outros, além de patéticos na nossa ignorância, somos também irmãos em nossa semelhança. Não é à toa que a Igreja diz que somos todos filhos de Deus. Mas se somos mesmo filhos de Deus, depois de algumas centenas de pecados, devemos ser irmãos gémeos, com os mesmos defeitos congénitos, sabe-se lá!…
Por falar em Igreja, é bom lembrar que a religião era um caso à parte na minha desarticulada família, e merece alguns comentários. Como quase toda a gente da minha geração, devo à formação religiosa muito do que sou hoje. Mas não se comece a tirar conclusões precipitadas. Foram os erros que presenciei na Igreja que fizeram com que me tornasse um ser humano melhor, provavelmente só para ser melhor que eles, os padres, que, supostamente, deveriam ajudar na minha formação como cristão temente a Deus. Eu sei que é sempre um assunto espinhoso, um caminho cheio de curvas sinuosas e escorregadias, um terreno minado, mas não posso privar o leitor de factos que ajudaram a formar a minha personalidade e meu pensamento crítico. Os leitores mais fervorosos, impregnados que estarão com a infinita bondade católica, saberão perdoar-me, quanto mais não seja para amolecerem os juízes do julgamento final e garantirem um lugar privilegiado para suas almas, como se isso não fosse, por si só, jogo sujo. Os laicos saberão compreender-me e até concordarão com meus argumentos, ou seja, posso desabafar à vontade, pois estarei a salvo. Inferno por inferno, não tenho medo pois já vivo nele há muito tempo. Vamos a isto.
Já disse que a minha avó materna, Arminda, foi a pessoa mais santa que conheci. Muito mais santa do que todas aquelas imagens horríveis de barro e pau que via na missa de domingo. Generosa, meiga, sensível, carinhosa, conciliadora, sempre pronta a dar ao próximo o melhor de si. Acho que ela acreditava sinceramente nos ensinamentos da Igreja e sonhava que um dia todos seríamos tão bons quanto ela, que viveríamos para sempre felizes no paraíso, ao lado de Deus. Pobre senhora, onde ela estiver deve estar decepcionada, mas enfim, que Deus a tenha, pois é o único que a merece. Criatura que frequentava a igreja regularmente, e considerava a falta à missa de domingo como um pecado mortal, é claro que desde cedo me obrigou a frequentar a catequese e a assumir algumas tarefas no serviço religioso dominical. No começo era uma séca do caraças! Mas, depois, até me divertia muito. Junto com mais dois ou três colegas, entre eles o Tóquim, do qual já falei aqui, tínhamos acesso à sacristia, ajudávamos o padre Meireles a paramentar-se (vestir-se para a missa, para quem não sabe), e auxiliávamos na condução dos rituais da celebração que ainda era feita em latim. Aos domingos lá íamos nós para a belíssima Igreja da Madalena, que, coincidentemente, ficava em frente ao comércio e à casa do Tóquim. A missa era às onze horas e nós tínhamos que chegar antes das dez, para subir ao campanário e tocar os sinos para chamar os fiéis para o culto. Conforme a hora se aproximava havia um toque diferente, e coordenar o movimento dos badalos dos três sinos pode parecer fácil, mas tinha lá a sua arte. Subíamos a imensa escadaria em caracol até o topo da torre, de onde se avistava boa parte da cidade. Para passar o tempo levávamos revistas eróticas que algum primo mais velho nos emprestava. Alguns mais ingénuos poderão perguntar: Mas… revistas eróticas na igreja? Sim, revistas eróticas na igreja tinham lá a sua lógica. Afinal, pensávamos, haveria lugar menos suspeito para que nos entregássemos a prazeres que julgávamos proibidos? Ali se pecava e ali se conseguia a absolvição! Nada mais prático, nada mais desconcertantemente lógico, nada mais estarrecedoramente desprovido de pudor, como convinha a autênticos pré-adolescentes. Dependendo do conteúdo da revista, e do interesse ou reações que ele despertava em nós, o toque do sino, cujo badalo era acionado pelas cordas que segurávamos, acelerava e saía do ritmo. Os fiéis achavam que era falta de jeito, pouca prática, mas nós sabíamos que era o coração (?) inundado de entusiasmo pelas imagens pornográficas daquelas páginas despudoradas. Está bem, vou confessar: se calhar era a dificuldade em coordenar os movimentos da mão que segurava a corda, com os movimentos da outra, que segurava o… ou melhor, que estava entretida naquela famosa e renhida luta dos cinco contra um, se é que me entendem! Aquilo, para nós, era o máximo da transgressão, e por certo era mesmo. Só confesso isso por saber que a minha querida avó não vai saber desta grave ofensa, pois já partiu para juntar-se aos seus santos.
Sentíamo-nos verdadeiros facínoras, desafiando a moral ensinada pelas nossas famílias, enxovalhando os ensinamentos da Santa Madre Igreja bem ali, no seu âmago. Éramos uma flexa cravada no seu coração, uma das cinco chagas de Cristo na Cruz, uma traição digna de tragédia grega. Éramos uns desavergonhados, isso sim. Mas essa mistura de desafio terrestre e divino dava-nos uma sensação de grandeza, de coragem, um poder a que não tínhamos direito, mas que ninguém nos podia usurpar. Aquela sensação de prazer e medo, tudo à mistura, garantia a adrenalina que precisávamos para enfrentar a falta do que fazer. Mas enfim, o importante é que, excitados ou relaxados, lá dávamos conta do recado e a missa ficava sempre cheia, em boa parte, graças ao toque dos nossos três sinos. Mal imaginavam as beatas que nós, além dos sinos, tocávamos ao mesmo tempo outro instrumento menos nobre. Mas isso é só mais um detalhe, como diria o poeta. A verdade seja dita: muito mais que entregar-nos ao prazer proibido e solitário no campanário, gostávamos mesmo era de inventar algumas brincadeiras que hoje parecem inocentes, mas que na época assumiam contornos da mais pura ousadia e temeridade.
Certo dia resolvemos arreliar as beatas que iam à igreja diariamente e atrapalhavam as nossas sessões de viola na sacristia, com muito rock, vinho tinto da missa (sangue de Cristo, dizia o padre Meireles na celebração) e hóstias – antes da consagração, claro. Era para nós uma verdadeira comezaina, um banquete indescritível. As velhotas, no entanto, teimavam em aparecer no meio da tarde, sempre com a desculpa de rezar pelo falecido, ou à procura do padre (que era um bonitão, arrasador de corações). Percebendo o pouco caso que fazíamos do recinto sagrado, ameaçavam denunciar-nos ao sacerdote, sem falar no pior: acusar-nos ao próprio Cristo, exigindo punição exemplar para os nossos pecados. Como se fosse preciso avisar o Criador de alguma coisa! Afinal Ele não era omnipresente? Não tinha um olho em tudo que se passava cá em baixo com os seus filhos? Aquilo era muito estranho, ou o padre superestimava os poderes de Deus, ou as velhas estavam a gozar-nos. Além disso, acreditava eu, Deus devia ter coisas mais importantes do que nossas impertinentes brincadeiras para se ocupar. Enfim, pelo sim pelo não lá nos confessávamos de vez em quando para sermos autorizados a pecar novamente, sem culpa e sem remorso. Quanto às velhotas, coitadas, resolvemos implicar com elas só para passarmos o tempo.
A entrada da igreja, como convinha a um templo daquela natureza e importância, era solene e escura. Uma pesada porta de madeira, com mais de três metros de altura, separava o pequeno hall da rua de paralelepípedo que ia da esquina do Lourenço até o Parque de Campismo. Curiosamente, no passeio em frente à igreja havia, pelo menos, três ou quatro tascas, sempre frequentadas por bêbados, desocupados ou as duas coisas numa só. Era bem apropriado, novamente o pecado ficava porta com porta com a virtude, ou, como no filme clássico de Billy Wilder, aquele de 1955 em que Marilyn Monroe aparece na cena antológica do vestido branco esvoaçante: o pecado mora ao lado! Assim era no bairro da Madalena, o pecado também morava ao lado da Igreja, e, às vezes, dentro dela.
Estas contradições faziam-me pensar que talvez nem tudo na Bíblia devesse ser levado a sério. No fundo achava tudo bastante irónico, mas contentava-me em observar essas subtilezas e nunca comentava abertamente com ninguém. Achava que talvez só eu as percebesse e que me tomariam por lunático se as compartilhasse. Enfim, provavelmente coisas da minha cabeça desmiolada. Eu era um ímpio que arderia eternamente no fogo do inferno, mas enquanto ninguém acendia as labaredas, era preciso aproveitar, e foi o que fiz.
Mas voltando à igreja, atravessando-se a imponente porta pintada de verde havia o tal hall, separado da nave central do templo por duas portas de vai-vem, em madeira entalhada, decoradas na parte superior com vitrais, que coavam a já fraca luminusidade do templo. De cada lado desse pequeno vestíbulo havia uma pia de granito onde era colocada a água benta. As pessoas entravam, e, na penumbra, dirigiam-se a uma das pias, mergulhavam a ponta dos dedos naquela água sagrada e faziam o sinal da cruz compenetradamente, fazendo uma pequena vénia ao cruzar o corredor central, a caminho de um dos muitos bancos corridos de madeira onde, ajoelhadas, ficavam horas murmurando palavras ininteligíveis. Pois foi ali que resolvemos atacar. Um belo dia, sorrateiramente, substituímos a água benta por tinta vermelha. Escondidos na escadaria que dava acesso ao campanário, sufocávamos o riso ao ver aquelas compenetradas senhoras com a testa, os lábios e as bochechas pintadas de um vermelho que parecia sangue. Pareciam verdadeiros mártires expiando as suas faltas, embora apenas vítimas de meia dúzia de fedelhos mal educados que não hesitavam em debochar de tudo que lhes parecesse sério demais. Mas a melhor parte estava por vir. Horas depois, na saída, já à luz do sol que escaldava o estreito passeio de cimento, era muito engraçado ver a cara de espanto das velhas senhoras ao descobrirem-se marcadas com tão misteriosos sinais. Algumas, na visão delirante que turva a mente de todo o fanático, achavam que era coisa divina, que haviam sido escolhidas por Deus para alguma missão secreta e sagrada. Não sabiam bem o quê nem pra quê, mas já se achavam especiais só por terem sido escolhidas. Santo Deus, quanta ignorância! Mas com isso nós é que nos sentíamos mais e mais importantes, já que, de certa forma, éramos capazes de nos fazer passar por deuses, de influenciar respeitosas senhoras, de tocar as suas almas como se fôssemos importantes e superiores.
Outra ocasião, na época da Quaresma, quando tínhamos novena diariamente, montámos um plano para amarrar as pontas dos xales das devotas velhinhas. Como o leitor bem sabe, no interior de Portugal, principalmente no Norte, as viúvas costumam ficar de luto por toda a vida. Nunca soube se era em sinal de respeito ao falecido, ou se por se acharem feias demais para encontrarem um novo pretendente, mas enfim, era assim que era e não nos compete ficar aqui a fazer ilações de natureza profana num momento tão vetusto da narrativa. O que lembro é que as viúvas transmontanas vestiam apenas roupas pretas e cobriam-se dos pés à cabeça com os seus xales de lã, cujas pequenas franjas caem até perto da parte anterior dos joelhos, formando um grande triângulo nas costas, a partir dos ombros. Combinámos que cada um se ajoelharia numa fileira atrás das beatas, e, sem que elas percebessem, amarraria as franjas de umas às outras com pequenos nós. No final do serviço religioso, quando o pároco se despede, toda a gente se levanta, faz o sinal da cruz e se encaminha para a saída. Só então elas perceberiam que estavam presas umas às outras através das pontas atadas dos xales. Foi uma barafunda, um puxa daqui, estica dali. Houve até discussão e princípio de zaragata. Não fosse a intervenção do padre Meireles em pessoa, acho que algumas teriam chegado a vias de facto. Era divertido ver aquelas senhoras de preto, com os seus véus de tule ou renda, alvoroçadas sem saber o que fazer ou o que pensar. Ficavam desnorteadas, sempre dispostas a acreditar que algo sobrenatural se passava ali. As mais devotas diziam que aquilo tudo era desígnio de Deus. Outras, mais aflitas e com culpa no cartório, temiam ser coisa do diabo. Sempre achei que há certas crueldades que só as crianças são capazes de fazer. As nossas brincadeiras com as beatas da Madalena, com certeza, estão entre elas. Que Deus nos perdoe se tiver tempo e disposição. Estes eram os gandulos da Madalena, como o lado de cima da cidade nos conhecia.
Mas por falar em perdão divino, uma das tarefas que mais me impressionava era ajudar à missa na hora da comunhão. Aquelas pessoas todas em fila, com ar de santas, olhos semi-serrados a caminho do cálice sagrado, em frente ao qual, de boca escancarada, recebiam a hóstia abençoada que lhes daria a absolvição. Hipocritamente, como eu viria a descobrir depois, absolvição que a maior parte deles entendia como uma licença para pecar outra vez, num círculo vicioso e virtuoso que garantia lucros na terra e impunidade no céu. Mas ali ficava eu, protegido pela batina vermelha com renda branca de ajudante de sacristão, a segurar a bandeja dourada por baixo do queixo do devoto, como se estivesse a aparar a baba, enquanto o sacerdote, também com ar solene, pronunciava as palavras bíblicas: “O corpo de Cristo”, e, antes de esticar a língua para receber a hóstia, o ex-pecador, já a pensar no próximo pecado, respondia, contrito: “Amén”, como se aquela palavra fosse mágica, fosse um salvo-conduto para continuar a trair a esposa, a mentir aos filhos, a roubar nos impostos ou a falar mal da vida dos outros. Como se aquele “Amen” fosse uma espécie de abracadabra que abriria as portas do paraíso, onde todos viviam felizes e livres de pecados e impostos. Eu achava tudo aquilo muito esquisito. Procurava ficar sério, pois já ensaiava para tornar-me um bom actor, mas aquela hipocrisia quase sempre fazia aflorar nos meus lábios um sorriso impregnado de ironia e ceticismo. Para disfarçar aquela incómoda sensação procurava concentrar-me na arte da observação. Daquela posição privilegiada, apanhando as pessoas em situação tão frágil quanto patética, não deixava de prestar atenção às maltratadas bocas que desfilavam, sem pudor, a dois palmos dos meus incrédulos olhos de miúdo reguila. A falta de dentes era comum, e o mau hálito era, por vezes, insuportável. Acho que foi ali que eu decidi que nunca seria dentista. Arre, só se fosse por penitência para fazer daquelas bocas fétidas um meio de vida. Era preciso ter muita fé para achar que aquele trabalho de ajudante de padre melhoraria a minha vida. Mas eu fazia aquilo por respeito à minha avó, que fazia tanto gosto em ver o neto bem encaminhado nas obrigações religiosas dominicais. Sempre que podia ela ensinava-me os principais segredos da beatitude. Lembro-me que sempre dizia: “Só podes comungar depois de te confessares, senão vais arder no fogo do Inferno”. Belo argumento para quem já não simpatizava muito com o calor! Em seguida ensinava: “Quando o senhor padre te oferecer a hóstia leva-a com a língua ao céu da boca, mas sem lhe tocar com os dentes, pois aquilo é o corpo de Cristo, é sagrado, não se lhe pode tocar”. Valha-me Deus, e eu que adorava mastigar aquelas hóstias branquinhas durante as nossas reuniões nas tardes preguiçosas de Verão. Tudo bem, ainda não tinham sido benzidas, era diferente, e, por isso mesmo, eu achava que estava perdoado. Na dúvida, evitava comungar, até mesmo porque, ao confessar-me, das duas uma: ou mentia, e a confissão perderia o seu sentido, ou seria obrigado a falar dos nossos concertos eróticos no alto do campanário nas manhãs ensolaradas de domingo. Cedo aprendi que até com Deus se pode negociar. Que o digam os fiéis que pagam as bulas na quaresma para poderem fugir do jejum, ora pois! Pra mim não sei o que era pior, se correr o risco de ir para o Inferno, fugindo à confissão, ou perder a chance de continuar a pecar deliciosamente, autorizado por Deus após a absolvição. Essas dúvidas, essa incapacidade para decidir o melhor caminho entre o que a minha avó e os padres ensinavam, e o que eu era capaz de perceber da observação da vida real, foi sempre o fio condutor que levou à construção (ou desconstrução) das minhas convicções religiosas. O golpe de misericórdia, entretanto, coube aos próprios padres. Um deles, que por respeito à decência vou omitir o nome, era um homem especialmente severo, de rígida moral, parecia sentir prazer em assustar-nos com a ameaça do castigo divino, inexorável como a morte. Tratando-se de sexo, ou sexualidade, então, era radical, feroz até. Nunca prevaricava, ao menor deslize era capaz de garantir-nos a danação eterna. Imaginem o choque quando descobrimos que ele era amante de uma professora do Liceu, que ainda por cima era casada! O meu mundo caiu. O que restava da minha religiosidade desmoronou, as minhas crenças esvaíram-se no ar, esfarelaram-se. Foi um milagre ao contrário, um ato de fé às avessas! De repente, de um dia para o outro, confirmei o quanto o mundo era hipócrita e o quanto eram inúteis os sacrifícios que fazíamos em nome de uma religião e de uma moral que exalavam o cheiro agridoce da decomposição. Foi nessa época que comecei a dar mais consistência ao meu pensamento lógico, passei a valorizar mais a minha opinião, as observações que fazia do mundo à minha volta, o conhecimento empírico. Enfim, passei a ter mais simpatia pelo pragmatismo do viver um dia atrás do outro da melhor maneira, do que pelo dogmatismo de acreditar numa vida eterna no paraíso que não sabia onde ficava. Se o paraíso estivesse cheio de pessoas como os padres, alguns professores, os ditadores e muitos dos adultos que eu conhecia, então eu, com certeza, não fazia a menor questão de ir pra lá. Pronto, era simples assim, comecei a ensaiar o meu próprio caminho. A Igreja, com os seus pecados e mentiras, afastou-me da Igreja. A religião, com seus dogmas, seus mistérios, sua infalibilidade e soberba, apagou a religiosidade com que fui criado. Se Deus era nosso Pai e os sacerdotes os seus representantes na Terra, eu comecei a achar que Ele não sabia escolher representantes à altura da missão que deviam desempenhar. Daí em diante, se Ele era o meu pai, decidi que falaria directamente com ele, sem intermediários e sempre que quisesse, em qualquer lugar, como um filho deve falar com o seu pai. De certa forma, foi uma libertação, um verdadeiro e salutar encontro com a minha intuição. A partir daquele momento as minhas batalhas internas seriam encaradas sob uma nova perspectiva. Não havia mais zona cinzenta, hesitações ou dualidades. Passei a ver o mundo em cores vivas, mas também a saber vislumbrar por trás da luz, a interpretar a penumbra, ou melhor, a projetar um foco de luz sobre ela, de modo a desmascará-la, a trazê-la para a minha zona de conforto, onde o sim é sim e o não é não, onde a vida pode ser vista através do espectro das sete cores do arco-íris. Comecei a achar que precisava construir a minha própria estrada, trilhar o meu próprio caminho. E assim o fiz. Ainda hoje não posso dizer se consegui, mas posso, por certo, garantir que vale a pena tentar.
É sempre difícil avaliar o verdadeiro impacto das nossas escolhas juvenis, mas que aquela revelação me levou a um novo patamar em relação à percepção que tinha da vida e da religiosidade que me era imposta, isso não posso negar. Ao decidir eliminar os intermediários na minha relação com Deus, trouxe não só qualidade a essa relação, mas também um pouco do pragmatismo que parecia faltar ao Todo-Poderoso. O mecanismo era relativamente simples, e por isso mesmo, pragmático e conveniente. Funcionava assim: ou falava direto com Deus, usando palavras, pensamentos ou actos, ou permaneceria em silêncio e Ele que usasse dos seus poderes infinitos para perceber o que se passava na minha alma e se comunicasse comigo, se achasse necessário. Acho que Ele tinha coisas mais importantes a fazer, pois nunca se dirigiu a mim directamente, mas também não posso dizer que me abandonou. Ou seja, deu empate nessa relação, aparentemente temos um acordo: eu não lhe dou muitos aborrecimentos e Ele mantém-me como beneficiário da sua apólice colectiva de seguro. Até agora não há do que reclamar, as duas partes cumprem o combinado e permanecemos longe de atritos. De vez em quando até entro na casa d’Ele só para provar que não guardo ressentimentos. Benzo-me, ajoelho-me a um canto e falo com Ele de filho para Pai, a pedir conselhos ou protecção. Como podem ver, e apesar do que dizem as más línguas, não sou ateu, até porque, se o fosse, a minha mulher tinha que ser atua, e isso eu não recomendo.
Com estas idas e vindas desenhava-se ali o projeto de uma personalidade baseada na independência em relação aos valores religiosos e morais, e contida pelos limites do rigor lógico, características normalmente encontradas nas pessoas inteligentes ou desajustadas, quem sabe, em ambos os casos… Tudo bem, vamos admitir que alguns especialistas chamem isso de arrogância, e que essas características, que são fruto do cruzamento da minha timidez com a minha inquietude, na verdade sempre foram uma grande fonte de transtornos a complicar a minha vida. Até hoje, passadas mais de cinco décadas, os meus melhores amigos não sabem dizer se sou tímido ou prepotente. Talvez as duas coisas, embora eu tenha a certeza da veracidade da primeira e prefira chamar a segunda de convicção de propósitos. Mas… vá lá, posso fazer uma concessão aos críticos e aceitar que sim, que frequentemente faço uma gestão temerária dos meus pensamentos. Pronto, é o máximo que posso conceder sem correr o risco de comprometer a minha tímida arrogância. Mas, já agora, permitam-me propor um exercício de relativa complexidade mental, que já mencionei lá mais acima, mas que pode ter passado despercebido naquele contexto, e que, pela importância da sua interpretação, vale a pena ser reapresentado ao julgamento do paciente leitor: não acham que a humildade voluntária, aquela que alguns escolhem exibir como artifício para agradar aos outros, é, na verdade, a arrogância a pedir aprovação? A prepotência em busca de aceitação e apoio? Pensem nisso, mas pensem de espírito desarmado, pois o assunto é controverso e explosivo, exige moderação.
O importante é que daquele dia em diante eu mudei o meu status de ser humano. Deixei de utilizar os serviços dos padres e bispos com suas rezas decoradas e cheias de palavras difíceis, deixei de lado o respeito pelos santos e arcanjos com as suas múltiplas especialidades e milagres, e abri um canal direto de comunicação com “o tipo lá de cima”, que todos diziam ser o meu pai. A minha vida simplificou-se, os dogmas da Igreja, que ainda hoje não compreendo nem aceito totalmente, deixaram de pesar sobre os meus ombros como a cruz do nazareno, e o pensamento lógico (sempre ele) passou a comandar, também, a minha relação com Deus. Rezar passou a ser algo bem mais prosaico, uma simples conversa de filho para pai, com a vantagem de que o pai nem tem direito a réplica, o que torna a conversa muito mais confortável e se traduz numa vantagem competitiva importantíssima. Ele só ouve, nunca me questiona, não dá sermões, não oferece conselhos, apenas fica ali (não sei bem aonde, mas dizem que em todo lugar ao mesmo tempo), a ouvir pacientemente as minhas queixas, os meus desabafos, como se fosse um muro das lamentações particular, impávido e sereno como convém a um Deus, talvez uma oportuna abstração que atende perfeitamente ao propósito de perpetuar as minhas dúvidas, não sem antes tentar subornar a minha consciência. No mínimo, os terapeutas tinham perdido um potencial cliente. Pronto, esta era a minha essência católica, resultado condensado dos meus dias de igreja da Madalena, fruto apodrecido pela observação dos exemplos dos padres que cruzaram o meu caminho. Não era grande coisa, mas era eu. Era assim que me sentia melhor e, não raras vezes, obtinha alguma paz nas conversas diretas com um Deus que ficava a cada dia mais humano, mais próximo, mais fácil de compreender, e, por isso mesmo, mais fácil de respeitar. Acho que fiz um bom acordo. A Igreja perdeu um auxiliar, mas Deus conseguiu manter-me no seu rebanho e eu deixei de implicar com Ele. De vez em quando temos as nossas diferenças, mas depois de uma boa conversa (ou monólogo, já que Ele nunca fala comigo) a gente acaba por se entender e tudo volta ao normal. Para ser sincero preciso dizer que continuo a ter mais perguntas do que respostas, e que Ele persiste na divina tarefa de tomar conta do mundo, de conduzir o seu rebanho por caminhos que nem sempre eu aceito seguir. Enfim, se é verdade o que dizia a minha avó, não tardará para que eu seja chamado a encontrar-me com Ele, e, finalmente, descobrir se as nossas conversas tinham realmente algum sentido. Não estou seguro, mas estou pronto. Algum dia terei que enfrentar os meus medos sem a protecção de uma consciência contorcionista. Enfrentá-los de peito aberto, de coração rasgado, colocando ao léu as chagas de uma existência infeliz. Algum dia poderei conferir se fui uma pessoa tímida ou prepotente. Não vai ser fácil, mas será inevitável e nunca tive muito jeito para contestar o inevitável. Que seja o que terá que ser. Afinal, diante da imponência de Deus todo poderoso, até os mais prepotentes e arrogantes não passam de humildes amadores. Que venha o juízo final, talvez ele, afinal, me traga algum juízo.
XIII O líder estudantil
Vamos retomar agora a minha vida escolar no Liceu de Chaves. A verdade é que, de alguma forma, lá consegui passar do 4º Ano e matricular-me no 5º, aquele que daria acesso à última etapa do ensino secundário da época, o 6º e o 7º, séries nas quais já se podia escolher uma área específica do conhecimento que fosse mais adequada à vocação de cada estudante. Àquela altura eu já tinha descoberto que não tinha muito futuro na Matemática, na Física e nas Ciências Naturais. Sentia-me muito mais à vontade interpretando o encadeamento das letras que formavam palavras, que construíam frases que decifravam o mundo e levavam a infinitas possibilidades. A palavra era uma arma que podia ser esgrimida para o bem e para o mal, e essa característica conferia-lhe um poder surpreendente, absoluto, tentador. História, Geografia, Línguas e Filosofia também me interessavam bastante e era óbvio que eu precisava livrar-me logo do maldito e temido 5º Ano – que só terminava depois de um rigoroso exame prestado em prova escrita e em sabatina oral – para dedicar-me à área que me atraía cada vez mais: Letras. Mas, com um pouco de aplicação e a ajuda espontânea de alguns professores consegui passar sem grandes dificuldades pelo obstáculo do 5º Ano . Na secção de Letras até fui dispensado do exame devido à alta média obtida nas provas (exercícios, assim eram chamadas na altura) bimestrais ao longo do ano lectivo. Para ser aprovado na secção de Ciências contei com a tal ajuda de alguns professores, que, reconhecendo a minha vocação para Letras e a inutilidade de torturar o meu cérebro prosador com equações, teoremas e logaritmos, resolveram ser generosos na atribuição das suas notas, de forma a garantir-me a média mínima necessária para passar de ano, dando-me assim a chance de dedicar-me às matérias que mais me atraiam. Não é que me “fizeram o jeito” não, que isso não era bem visto! Chamo àquela atitude sensata de alguns professores de “pragmatismo pedagógico”. Pronto, significa quase a mesma coisa, mas fica mais pomposo e deve agradar àqueles que participaram desse “arranjo” e que, eventualmente, venham a ler este livro. Almas boas como Dona Mizinha e o Arquitecto Inácio Souto, entre outros. Talvez, por fim, acabem por concluir que tinham razão ao ajudar-me a passar no 5ºAno, abrindo caminho para a carreira literária que sempre achei que teria, mas ainda não tive. Não me chateio, Saramago também começou tarde e chegou onde chegou. Não pretendo chegar tão longe, mas se conseguir publicar este livro já terei cumprido minha missão. O certo é que no ano seguinte, finalmente, pude matricular-me no 6º Ano, onde havia, naquela época, obrigação de frequentar as aulas em, pelo menos, seis disciplinas. Optei por: Português, Francês, Inglês, História, Introdução à Política e Filosofia/Psicologia. Agora sim, eu estudava o que me interessava e tudo deveria passar a ser mais fácil, mais natural. Mas não seria bem assim, como eu perceberia pouco depois, mas tarde demais.
Não vamos esquecer que naquela época, início dos anos 70, Portugal ainda estava atolado no lamaçal da ditadura, era um território fechado, voltado para si mesmo, comandado com burocrática habilidade pelo Professor Marcelo Caetano, que herdara o comando do país do ditador António Salazar, morto em 1970 na sequencia de uma queda. É claro que eu não sabia nada disso, com exceção do nome do primeiro-ministro, claro, que isso era obrigação escolar. Política era um terreno inexplorado para mim. Muito mais que isso, era um terreno inexistente, ou nem era terreno nenhum, tal era nossa ignorância. Por vezes ouvia algum comentário em casa, como já disse antes, em linguagem meio cifrada, palavras soltas, sem grande significado para mim. Isso não impedia, entretanto, que eu já demonstrasse certa inclinação para a polémica. Pouco a pouco, e como também já mencionei, dentro do Liceu de Chaves, fui sendo transformado em líder, em porta-voz daqueles com maiores dificuldades para expressar-se. Não era uma coisa consciente, um plano elaborado para obter alguma notoriedade, mas, talvez por ser mais velho que os companheiros de turma, pela minha facilidade para falar em público, e pelo meu temperamento impulsivo, capaz de enfrentar sem medo professores, colegas mais velhos, enfim, por estar sempre disposto a enfrentar mais uma batalha, o facto é que fui adquirindo facilidade para me tornar interlocutor nos assuntos mais espinhosos, e, aos poucos, acabei transformado em líder estudantil, em defensor dos fracos e oprimidos, valha-me Deus! A Associação de Estudantes, órgão que deveria representar os alunos junto à direcção da escola, era um arremedo do que deveria ser. Amordaçada pela falta de liberdade e presa a costumes e estatutos que tolhiam os seus direitos, não passava de uma comissão para organizar eventos, festas e atividades, sempre dizendo Amén às propostas da reitoria. O reitor mandava e todos obedeciam. Era assim na escola, era assim na cidade, era assim no país. Manda quem está no poder, ainda que imposto e não eleito. Nada ameaçava a autoridade dos professores nem a palavra final do reitor. Apesar disso, aqui e ali começavam a aparecer algumas insubordinações. Ou era o excesso de disciplina usado como método pedagógico por alguns professores, ou eram as regras que separavam os rapazes das raparigas por recintos diferentes, ou a arbitrariedade gratuita e boçal dos contínuos. Aos poucos os portugueses começavam a mostrar-se cansados de não poder tomar parte nas decisões que afetavam as suas vidas. Como sabem sociólogos, antropólogos e historiadores, esse é um sentimento que costuma ser perigoso para quem detém ilegitimamente o poder, ou para quem dele se apropria em benefício próprio ou de um grupo.
Lembro-me que uma vez, no início de 1973, enquanto cursava o 4º Ano pela terceira vez, soubemos que os alunos de um liceu do distrito de Coimbra tinham tido a audácia de decretar greve geral para reivindicar alguma coisa que nem me lembro o que era. Aquilo abriu para mim novas perspectivas. Achei de uma bravura, de uma ousadia, de uma justiça que não se poderia ignorar tal facto. Não resistimos e, no dia seguinte, decretámos uma greve geral em “acto de solidariedade com nossos colegas”lá de baixo. Foi uma coisa espantosa. Em poucos dias mais de duas dezenas de liceus pelo país afora estavam em greve. Fiquei entusiasmado, comecei a perceber a nossa força. Tínhamos feito a primeira greve da escola, mesmo sem ter uma razão concreta para a paralisação. Causámos muitos transtornos. A direcção da escola não poderia tolerar aquela atitude. Houve pressão para voltarmos imediatamente às aulas, houve ameaças, houve traidores, houve de tudo. O ponto alto foi a manifestação que conseguimos fazer no largo em frente ao prédio do Liceu, que terminou com o arremesso de ovos e tomates na direcção dos professores e do reitor que, perplexos e aturdidos com a nossa ousadia, presenciavam tudo sem poder acreditar no que os seus olhos viam. Lá estavam meus fiéis escudeiros, amigos como Hernâni, Costa, Tóquim, Irineu, Hélder e muitos outros. Depois de alguma tensão e de vários tomates atirados à porta principal (dizem até que o próprio reitor chegou a ser atingido, mas nunca conseguimos confirmar tal coisa, o que foi pena, pois até seria engraçado ver um banana atingido por um tomate!), a polícia local acabou por intervir e nós, dever cumprido e alma lavada, retirámo-nos para evitar represálias maiores. Assim, quase por acaso, eu tinha ajudado a liderar a primeira greve geral do Liceu de Chaves. E sabem o que foi melhor? Eu gostei. Daí em diante nunca mais fui o mesmo. Para falar a verdade, nem o Liceu foi mais o mesmo. Aliás, o próprio país mudaria radicalmente pouco tempo depois. O estilo mais conciliador de Marcelo Caetano como primeiro-ministro já deixava antever a distensão que o regime sofreria em breve. O governo já estava maduro, só faltava cair de podre. Era uma questão de tempo.
XIV Orgulhosamente sós!
Lembro-me como se fosse hoje. Aquela quinta-feira de Abril, uma manhã cinzenta e húmida, deu-me as boas vindas tão logo pus o nariz fora da porta. Soprava um vento inquieto vindo ali dos lados da Espanha, parecia uma manhã vulgar, nada fazia prever que seria uma das mais belas manhãs da história de Portugal. Mas estas coisas são assim mesmo, manhãs gloriosas não costumam ser anunciadas por trombetas, geralmente só são notadas muitos dias depois, às vezes anos, ou décadas, e é isso o que as torna ainda mais gloriosas. Demoramos muito a perceber que um dia comum pode transformar-se em jornada inesquecível. Tudo depende dos factos, e às vezes das versões, que nele tomaram lugar. Nada me fazia crer que aquela manhã mudaria não só a minha vida medíocre, mas, principalmente, as vidas medíocres de milhares de portugueses. A depender do ponto de vista, ela também transformaria algumas vidas superlativas em mera existência sem sentido, condenaria milhares a viver num limbo, à margem de tudo e de todos, escondendo-se como malfeitores, procurando entender o que tinha acontecido com a vida nababesca que até então lhes sorria em cada esquina daquele país! Um país injusto, espremido entre seu passado de glórias e seu futuro de incertezas, mas que ainda era um paraíso para alguns, embora as custas do inferno de muitos. Mas isso eu ainda não percebia, eu tinha prova no Liceu e acordei cedo. Quando cheguei ao Largo das Freiras, sempre ele, os passeios em frente ao Liceu estavam mais movimentados do que o costume. Só tinha aula no segundo tempo, por isso dirigia-me ao Bar Aurora para dar mais uma espreitadela nos livros. Nos poucos metros que separam a esquina do Lopes da porta do Aurora, dei conta que pequenos grupos de homens, com suas roupas escuras de início de primavera, e cabelos brancos espreitando por baixo dos chapéus e bonés que os protegiam da humidade de Abril, conversavam alvoroçados. Na verdade mais pareciam cochichar, mas estavam alvoroçados, sim. Chegavam-se aos ouvidos uns dos outros, com a palma da mão em forma de concha, como se estivessem a trocar segredos. Olhavam para trás, desconfiados, como se pudessem ser punidos pelo que estavam a dizer ou ouvir. Achei a cena um pouco insólita, mas não havia tempo para averiguações. Aquilo pouco me importava, eram adultos falando mal da vida de alguém, como de costume. Mas eu era curioso e não consegui resistir muito tempo. Havia mais gente do que seria habitual num dia comum, e o facto que mais despertou a minha atenção é que dei conta pouco depois que todos se reuniam à volta de um rádio de pilhas, parecendo prestar muita atenção ao que ouviam. Não era dia de jogo, e nem que fosse, não havia futebol naquele horário, por isso fiquei intrigado e aproximei-me.
Os grupos foram se juntando, formaram-se rodas de conversa, gestos exagerados faziam estranhas parábolas no ar. Fui chegando perto, ouvindo aqui e ali, tentando perceber o que despertava o interesse de tanta gente. Depois de alguns minutos consegui ouvir o relato da novidade: tinha havido um golpe de Estado. Pensei comigo mesmo, que diabo será isso? É bom ou é mau? Continuei à procura de informações nas várias rodas de conversa até que me dei conta de que algo muito grande e muito importante tinha, de facto, acontecido. A primeira coisa estranha que notei foi que as pessoas falavam muito de palavras que eu só tinha ouvido às escondidas, em conversas sussurradas no ouvido, num livro ou outro que me tinha caído nas mãos. Eram coisas como comunismo, fascismo, democracia, liberdade de expressão, enfim, termos que soavam um pouco desconexos para mim, mas com os quais eu lá ia montando o painel que me levaria à compreensão geral dos factos. Às tantas um dos homens, usando o dedo indicador para cobrir a boca e o nariz no sentido vertical, pediu silencio e levou o rádio de pilha ao ouvido. Todos se acercaram e o volume foi aumentado. Lembro-me de ter olhado o relógio, eram exatamente 08h45 e reproduzo a seguir o que ouvimos no rádio que sintonizava a Emissora Nacional, de propriedade do Estado:
As Forças Armadas iniciaram uma série de ações com vista à libertação do País do regime que há longo tempo o domina. Nos seus comunicados, as Forças Armadas têm apelado para a não intervenção das forças policiais, com o objetivo de se evitar derramamento de sangue. Embora este desejo se mantenha firme, não se hesitará em responder, decidida e implacavelmente, a qualquer oposição que venha a manifestar-se. Consciente de que interpreta os verdadeiros sentimentos da Nação, o Movimento das Forças Armadas prosseguirá na sua ação libertadora e pede à população que se mantenha calma e que recolha às suas residências. Viva Portugal!
Naquele momento não tinha como avaliar a importância das palavras que ouvia, mas, mesmo assim, senti que uma grande mudança estava a acontecer com o país. Estremeci, puxei a gola do casaco para as orelhas, respirei fundo e tive a estranha percepção de que a minha vida também mudaria a partir daquele dia. Não estava enganado.
Para quem não viveu aqueles tempos difíceis, e, principalmente, para melhorar a compreensão de quem não é português, acredito ser importante entender em que contexto aconteceu a Revolução de 25 de Abril de 1974, que ficou conhecida mundialmente como a Revolução dos Cravos, e, quais as condições que levaram Portugal àquela situação. Já tive oportunidade de mencionar repetidamente que o país vivia num regime extremamente fechado há mais de quatro décadas, desde que o Dr. António de Oliveira Salazar assumiu o Ministério das Finanças com a concordância dos militares, na sequência do golpe de 28 de Maio de 1926. Foi então implementado no país um regime autoritário, de inspiração indisfarçadamente fascista. Salazar, professor de Direito da Universidade de Coimbra desde 1917, embora filho de um casal de pequenos proprietários de terras do interior, gente humilde sem grandes sonhos, já era, àquela altura, um intelectual respeitado no seu meio, e com uma personalidade bem peculiar. Eleito deputado pelo Centro Católico em 1921, ficou apenas um dia no Parlamento e renunciou. Para aceitar o cargo de Ministro das Finanças impôs aos militares uma condição: só ele poderia autorizar despesas. Com a Economia num caos, os militares aceitaram as condições. E Salazar, com sabedoria e mão firme, obteve o primeiro superavit orçamental logo no primeiro ano de governo, no exercício de 1929/1930. Os Estados Unidos passavam pela experiência catastrófica do crash da bolsa de New York, que daria início à chamada Grande Depressão. O mundo, assustado, previa dias terríveis para a economia, e Salazar, paradoxalmente, apresentava um desempenho surpreendente no saneamento das finanças portuguesas. Com essa performance foi capaz de cativar a simpatia e o respeito da ditadura militar. Em apenas dois anos no governo, já era considerado a peça mais importante do regime. Em 1932 assumiu a chefia do Conselho de Ministros, cargo que só deixaria quando acometido de um derrame cerebral em 1968.
Com a aprovação da Constituição de 1933, que proibia uma série de liberdades, recusava a individualidade e a luta de classes, o regime recrudesceu. Estava criado o Estado Novo, e Salazar passou a controlar o país de forma absolutamente pessoal e intransigente. O declínio do ditador só aconteceria, como já disse acima, em 1968, em consequência de uma queda que deixou como sequela algumas lesões cerebrais. Em decorrência do acidente foi declarado incapaz e substituído pelo seu discípulo, Professor Marcelo Caetano, o qual, permitindo um pouco mais de abertura política, embora sem grandes arroubos de liberdade, governou o país até que a Revolução de Abril de 74 o tirou do poder, exilando-o no Brasil. É importante salientar que enquanto durou o Estado Novo, Portugal sempre foi considerado uma ditadura, quer aos olhos da fraca e amedrontada oposição, quer pelos analistas internacionais, e até mesmo pelos dirigentes do regime. Se é verdade que existiam eleições, como é comum em falsas democracias, estas sempre eram contestadas pelos opositores. O governo era acusado de fraude eleitoral a cada pleito, e o respeito dos mais elementares princípios da imparcialidade era descaradamente ignorado. O Estado Novo, a exemplo de todas as outras ditaduras, também tinha a sua polícia política. Era a PIDE – Polícia Internacional de Defesa do Estado, que, no governo de Marcelo Caetano, numa outra atitude típica de quem precisa mascarar a ditadura, trocou de nome para chamar-se DGS – Direção Geral de Segurança. Ou seja, mudavam-se as moscas, mas a merda era a mesma! Qualquer que fosse a denominação, essa polícia perseguia implacavelmente os opositores (ou quem eles considerassem opositor, já que a definição do termo era bastante elástica na época), que frequentemente desapareciam nos desvãos da ditadura, acusados sem provas, ou detidos sem nenhuma acusação concreta, muitas vezes fruto de denúncias de vizinhos mal intencionados ou inimigos nos negócios. Vivia-se um tempo de desconfiança, de medo, de mordaça. Os portugueses tinham medo até do pensamento, e viam um agente da Pide em cada rosto desconhecido, em cada esquina sombreada pelo cair da noite. Sendo um povo atrasado e com pouco ou nenhum acesso à informação (isso convinha ao regime) a maior parte das pessoas humildes nem se dava conta de que vivia numa ditadura que prendia e matava inocentes, que cerceava as liberdades mais fundamentais. De certa forma, e com mais frequência no norte do país, sempre a região mais atrasada, o regime era apoiado e a vida parecia normal. Infelizmente só parecia. O que viria a desestabilizar o regime de Salazar, curiosamente, seria uma questão que sempre lhe foi cara: a manutenção territorial das províncias ultramarinas de Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné, todas na chamada África portuguesa, às quais Salazar se negava a conceder o menor sopro de autonomia ou liberdade. Mesmo quando criticado pelo resto do mundo ocidental, no qual o colonialismo já havia sido enterrado há alguns anos, e confrontado com o isolamento em que Portugal se encontrava, Salazar, teimoso como todo déspota, respondia solene: “Estamos orgulhosamente sós”.
Negava-se a permitir qualquer avanço no sentido de uma saída negociada, uma solução política para a questão das províncias ultramarinas. A essa altura, com a eclosão de movimentos de libertação nas principais colónias, Portugal consumia 45 por cento de seu orçamento no sustento de um conflito armado que não tinha como vencer. Milhares de jovens portugueses morriam a cada ano em confrontos com a guerrilha em Angola, Moçambique e, principalmente, na Guiné. Aqueles que não concordavam com a guerra tornavam-se emigrantes ilegais em países como Alemanha, França e Suíça, promovendo um êxodo que deixou o país à míngua, com quase só crianças, mulheres e velhos. Por mais que a Pide tentasse coibir esse fluxo de emigrantes, perseguindo, prendendo, torturando, o facto é que o movimento só aumentava e a escassez de braços na lavoura era uma preocupação real. Cada vez mais a população se mostrava descontente com essa situação.
Apesar de ver essa política contestada nos fóruns internacionais, como a ONU, o regime resolveu optar por uma atitude de força que culminou, como mostrámos antes, com a necessidade de defender militarmente as colónias contra os movimentos de independência e libertação alimentados agora pela tensão de forças da Guerra Fria entre os Estados Unidos da América e a União Soviética. Se de um lado os americanos fingiam concordar com o regime português pelo receio de ver emergir Estados comunistas na África portuguesa, do outro, os russos treinavam e armavam os grupos rebeldes na tentativa de expandir o seu domínio comunista e marcar pontos em cima do inimigo ocidental. Completando este cenário caótico podia observar-se que o regime mantinha também uma política industrial baseada no corporativismo, na qual alguns poucos grupos portugueses, pertencentes a meia dúzia de famílias da elite industrial e financeira, detinham o monopólio, tornando-se avessos à concorrência de mercado, perdendo competitividade e ocupando o último lugar, no último vagão do combóio da história económica europeia que começava a trilhar novos e promissores caminhos assentados no respeito às liberdades individuais, aos direitos civis e a novas conquistas trabalhistas, coisas que Portugal estava longe de oferecer aos seus cidadãos. Como consequência dessa visão míope, como resultado dessa estreiteza de raciocínio, o país foi empobrecendo, tanto do ponto de vista económico como do ponto de vista intelectual. A falta de um estadista com visão estratégica, a falta de um bom plano de desenvolvimento integrado com os vizinhos europeus e os parceiros ocidentais, refletia-se em cada rua do país, em cada esquina de cada vila ou aldeia. O povo era triste, melancólico, sem esperança. Mais português do que nunca. Ordeiros como rebanho de ovelhas, os portugueses pareciam conformar-se com o seu destino, que parecia apenas a letra de mais um fado triste, mais uns acordes chorosos da pungente guitarra portuguesa. Felizmente não era assim que todos pensavam. A maioria dos opositores, exilados em países próximos, articulava-se, mantinha conversas, organizava-se e esperava uma oportunidade para promover uma reviravolta e derrubar o regime. As conversas com alguns comandantes militares descontentes com a guerra nas colónias eram cada vez mais frequentes, e, finalmente, após algumas tentativas frustradas, o mês de Abril de 1974 permitiu a chance há tanto esperada. Estava montado o cenário que veria o fim do regime de Salazar. Estavam criadas as condições que permitiriam que o sol voltasse a brilhar em Portugal. Os capitães de Abril vinham aí. Mas a maior parte de nós, em Chaves, ainda não sabia de nada. Continuávamos sentados à margem da vida, a ver a banda passar. Tínhamos pão e circo, e como bons cristãos romanos, isso era tudo que precisávamos.
XV A Revolução dos Cravos – Enfim, o sol brilhou!
Em Março de 1974, o primeiro-ministro Marcelo Caetano, empenhado, sem grandes convicções, é verdade, em distender lenta e gradualmente a ditadura, viu-se forçado pelos velhos ideólogos do regime a demitir o general António de Spínola e os seus simpatizantes dentro das Forças Armadas, quando este tentava dar novas perspectivas ao curso da política colonial portuguesa, que estava levando o país ao endividamento e ao colapso financeiro. Nesse momento, reveladas as divisões existentes no seio da elite dirigente, o MFA – Movimento das Forças Armadas, corrente secreta formada por militares à esquerda do regime, decide levar adiante um Golpe de Estado. O movimento nasceu secretamente em 1973, fruto do descontentamento de alguns oficiais do Exército, numa primeira fase unicamente preocupados com questões salariais e de carreira militar. A primeira reunião clandestina de capitães aconteceu na colónia africana da Guiné, em 21 de Agosto de 1973. Uma outra reunião, ocorrida em 9 de Setembro de 1973, no Monte Sobral (Alcáçovas-Alentejo), deu origem formal ao Movimento das Forças Armadas. No dia 5 de Março de 1974 foi aprovado o primeiro documento do movimento: “Os Militares, as Forças Armadas e a Nação“. Este documento começou a circular clandestinamente e causou alvoroço na tropa. Logo depois aconteceu a demissão dos generais Spínola e Costa Gomes (este natural de Chaves) dos cargos de vice-chefe e Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas. Oficialmente, a explicação dada pelo governo para estas demissões foi a recusa dos oficiais em participar de uma cerimónia de apoio ao regime. No entanto, a verdadeira causa da exoneração foi o facto de Spínola ter escrito, com a anuência de Costa Gomes, o livro “Portugal e o Futuro“, no qual, pela primeira vez, uma alta patente defendia a necessidade de uma solução política para os levantes separatistas nas colónias, abrindo mão da solução militar defendida pelo regime de Caetano. Constrangidos, pressionados e com o orgulho ferido, os militares, numa terceira reunião ocorrida em 24 de Março, decidem pelo derrube do regime pela força. Estava aberto o caminho que levaria à queda da ditadura.
Na quarta-feira, 24 de Abril de 1974, um grupo de militares comandados pelo Major Otelo Saraiva de Carvalho instalou secretamente um posto de comando do movimento golpista no quartel da Pontinha, em Lisboa. Às 22h55m, a estação de rádio dos Emissores Associados de Lisboa, num programa de Luís Filipe Costa, transmitiu a canção ”E depois do Adeus”, da autoria de Paulo de Carvalho. Era o primeiro sinal combinado pelos golpistas, e que deu início à tomada de posições da primeira fase da insurreição. O segundo sinal foi dado às 0h20m, já na madrugada de 25 de Abril, quando o programa Limite, apresentado pelo poeta e jornalista moçambicano Leite de Vasconcelos, e transmitido pela Rádio Clube Português, levou ao ar uma canção de Zeca Afonso, até então censurada pelo regime, e que tinha o nome de “Grândola Vila Morena”, homenageando uma pequena vila do Alentejo. A letra proibida dizia assim:
Grândola Vila Morena,
Terra da fraternidade,
O povo é quem mais ordena,
Dentro de ti, ó cidade
Em cada esquina um amigo,
Em cada rosto, igualdade,
Grândola Vila morena,
Terra da fraternidade
Era a senha que confirmava o golpe e marcava o início das operações militares. O movimento teve a colaboração de vários regimentos militares que passaram a desenvolver ações coordenadas em todo o país. Ao Norte, uma força do CICA 1 liderada pelo Tenente-Coronel Carlos de Azeredo tomou o Quartel-General da Região Militar do Porto. Esta acção estratégica foi apoiada por forças vindas de Lamego. Forças do Batalhão de Caçadores 9 – BC9, de Viana do Castelo, desceram até os arredores da cidade do Porto e tomaram o Aeroporto de Pedras Rubras, outro alvo estratégico na logística do golpe. Forças do CIOE tomaram simultaneamente a Rádio Televisão Portuguesa – RTP, e o Rádio Clube Português – RCP, também no Porto. Quando tudo parecia correr bem, sem nenhuma resistência, o regime reagiu. O ministro da Defesa ordenou às forças sediadas em Braga, poucos quilómetros ao norte, para avançarem sobre o Porto. Para espanto do ministro, as ordens não foram obedecidas, pois aqueles militares também já tinham aderido ao movimento revolucionário. Um grande passo tinha sido dado, o Norte, que por sua tradição de conservadorismo de direita era sempre uma fonte de preocupações e dúvidas, estava garantido ao lado dos golpistas. Na capital, Lisboa, os capitães tomaram os pontos vitais da cidade.
A partir das três horas da manhã do dia 25 (operacionalmente conhecida como Hora H) começaram os movimentos das forças em direção aos objectivos estratégicos. Assim, vão caindo nas mãos dos revoltosos os centros nevrálgicos da eventual capacidade de reacção do regime, até ali, sem qualquer esboço de resistência. Para ser absolutamente verdadeiro, é preciso dizer que houve sim resistência, embora de forma tresloucada e irresponsável. Só poderia mesmo vir de onde veio. Quando os soldados cercaram a sede da temida polícia política, a Pide, na Rua António Maria Cardoso, alguns agentes, numa tentativa inútil de mudar o curso dos acontecimentos, fizeram disparos na direção de um grupo de manifestantes, matando quatro pessoas. Foi a nota triste de um dia que seria de glória completa, e foram as únicas vítimas fatais da revolução. Não será apenas coincidência que a única e desvairada reação tenha partido daqueles que, com força bruta, com truculência e sem nenhum respeito pela vida do cidadão comum, sempre estiveram ao lado dos ideólogos do regime, dando-lhes protecção e garantindo a sua permanência por tantos anos no comando de um país que, a cada ano, dava mais as costas ao seu passado de glória e teimava em não aceitar o futuro possível. Mas de pouco adiantou a desesperada reação, logo em seguida caíram nas mãos dos rebeldes, quase simultaneamente: rádio e televisão, meios essenciais de comunicação, o Quartel Geral de Lisboa, o Aeroporto Internacional e o Banco de Portugal. Também foram bloqueadas algumas vias de acesso à capital, e aqueles que vinham de barco desde o outro lado do Rio Tejo, moradores de Cacilhas, Almada, Barreiro e Montijo, tiveram que voltar para as suas casas sem perceber completamente o que se passava.
A cidade ia despertando, e através do rádio notava-se que algo muito importante estava acontecendo. Pelo Rádio Clube Português, Luís Felipe Costa leu o comunicado do MFA no qual se explicava a finalidade da acção em andamento. Era o mesmo comunicado que ouvi naquela manhã cinzenta de Abril, ao vivo e em directo no Largo das Feiras, a caminho do Liceu, onde, em poucos minutos, eu deveria prestar uma prova de História (que ironia!). É claro que as notícias se espalharam como rastilho de pólvora, e eu não só não tive prova, como as aulas foram suspensas até que pudéssemos tomar pé da situação e avaliar o que de facto acontecera. Ali, a mais de 400 quilómetros da capital, tudo que queríamos era ficar com as orelhas espetadas no rádio, e os olhos postos na televisão – isso, claro, para aqueles poucos que lhe tinham acesso. Os comunicados do MFA sucediam-se em intervalos mais ou menos regulares. Sempre de forma solene, os locutores liam aqueles textos sisudos que para nós soavam como música. Música erudita, claro, já que gostávamos do som, mas ainda não entendíamos muito bem a construção melódica. De volta à minha casa no bairro da Madalena, liguei o velho rádio alemão Grundig, a tempo de ouvir uma voz grave e metálica que informava:
“Na sequência das acções desencadeadas na madrugada de hoje com o objectivo de derrubar o regime que há longo tempo oprime o País, as Forças Armadas informam que de norte a sul dominam a situação e que em breve chegará a hora da libertação. Reafirma-se o desejo veemente de evitar derramamento de sangue, mas, igualmente se reafirma a decisão inabalável de responder, decidida e implacavelmente, a qualquer oposição que as forças militarizadas e policiais pretendam oferecer. Recomenda-se de novo à população que se mantenha calma e nas suas residências para evitar incidentes desagradáveis cuja responsabilidade caberá às poucas forças que se opõem ao Movimento. Chama-se a atenção de todos os estabelecimentos comerciais de que devem encerrar imediatamente as suas portas, colaborando desta forma com o Movimento das Forças Armadas, de modo a evitar problemas desnecessários e inúteis. Caso esta determinação não seja acatada será forçoso decretar o recolher obrigatório. Ciente de que interpreta fielmente os verdadeiros sentimentos da Nação, o Movimento das Forças Armadas prosseguirá inabalavelmente a missão que a sua consciência de portugueses e militares exige. Viva Portugal!!”. [RC1]
Aos poucos eu ia tentando compreender a importância dos factos daquela manhã. Mesmo sem perceber, estava a ser politizado de forma intensiva. Parecia que se tinha rompido um dique dentro de mim, e que, livres desse obstáculo, as minhas parcas noções de justiça, liberdade e democracia, haviam sido subitamente multiplicadas, ampliadas, elevadas a uma dimensão nunca antes imaginada.
Mas vamos voltar ao palco dos acontecimentos. Os estrategas da acção militar pareciam acreditar que bastaria controlar os meios de comunicação para que a população aguardasse tranquila o derrube do regime fascista. Ao longo de todo o dia 25 os curtos, mas sucessivos comunicados do MFA à população, davam conta do sucesso do golpe e da relativa tranquilidade com que as operações militares iam sendo implementadas. De forma bem pragmática, entretanto, alguns comunicados convocavam médicos e enfermeiros aos hospitais, embora esperando sempre para que a sua ajuda não fosse necessária. O objectivo declarado era garantir o apoio do povo e evitar que tumultos acabassem por resultar em derramamento de sangue desnecessário. Com esta estratégia o MFA conseguiu mobilizar a população cada vez mais em seu favor. Com crescente entusiasmo, o povo foi saindo às ruas, legitimando os objectivos políticos do movimento. Era tudo que os militares queriam. Estava tudo a correr dentro do previsto. Nas ruas, entretanto, e em que pese a aparente serenidade, o clima ainda era de apreensão e incredulidade. A população, ainda desconfiada pelo fracasso da tentativa de golpe sufocada pelo regime um mês atrás na cidade de Caldas da Rainha, no centro do país, temia envolver-se em mais uma tentativa desastrosa e inútil. Havia, porém, quem defendesse a ideia de que o levantamento do Regimento de Infantaria 5, das Caldas da Rainha, tinha fracassado como parte da estratégia para levar a efeito o golpe de Abril. A intenção teria sido a de dispersar a atenção das forças leais ao regime, fazendo-as acreditar que os focos rebeldes haviam sido neutralizados. Por esta perspectiva, o fracasso das Caldas foi premeditado e serviu apenas como balão de ensaio. Mas a população, na dúvida, preferiu esperar para ver.
Eram momentos de indecisão e o povo ainda não sabia bem que atitude tomar. O remédio era continuar com os olhos postos na televisão e os ouvidos colados ao rádio. A esta altura coube ao efetivo da Escola Prática de Cavalaria, que partiu de Santarém, um pouco ao norte de Lisboa, o papel mais importante: a ocupação do Terreiro do Paço, praça central de Lisboa que concentrava grande parte dos ministérios e repartições públicas. Os militares da Cavalaria de Santarém eram comandados pelo então capitão Salgueiro Maia. O Terreiro do Paço foi ocupado nas primeiras horas da manhã, praticamente sem resistência. Em seguida, Salgueiro Maia deslocou parte dos seus homens para o Quartel do Carmo, onde se encontrava o presidente do Conselho, Marcelo Caetano, e alguns outros membros do governo. Perante as circunstâncias, os responsáveis pelo governo prestes a ser deposto estavam hesitantes, procuravam ainda entender o que havia acontecido, onde haviam errado. O regime vai agonizando sem que um só homem precise morrer para defendê-lo. Cai como um castelo de areia, sem que um único tiro fosse disparado em sua defesa, estatela-se no chão do pátio daquele quartel sem que ninguém o ampare. Após algumas horas de negociação Marcelo Caetano rende-se, fazendo, contudo, a exigência de só entregar o poder ao General António de Spínola, que na verdade nem fazia parte do MFA, embora não lhe opusesse resistência. A exigência, segundo o deposto chefe do governo, era para que o “poder não caísse na rua”. Era, na verdade, uma derradeira demonstração da arrogância de um regime que, mesmo nos estertores, já não era capaz de ver a realidade. Na verdade, o poder já estava na rua há várias horas, pois os militares avançavam protegidos pela multidão que se aglomerava em volta das viaturas blindadas, os Chaimites V200, fabricados em Portugal pela empresa Luso-Brasileira Bravia, usados pela Escola Prática de Artilharia de Lisboa (EPCL), e pela marinha com a denominação de Armada 90. A esta altura os populares já marchavam ombro a ombro com os soldados pelas ruas da capital. Coincidentemente, foi num Chaimite da EPCL que o Presidente do Conselho de Ministros, Marcelo Caetano, foi conduzido do quartel do Carmo até o aeroporto que o levaria ao exílio.
Regressando à cena da transferência de poder no Quartel do Carmo, o general Spínola, como sempre cheio de pragmatismo, mostrou-se pronto a assumir as suas responsabilidades, desde que isso significasse evitar o derramamento de sangue. O Largo do Carmo estava cercado de tropas e de povo. Dão-se vivas a Portugal e ao exército. Há euforia, entusiasmo, emoção. Soldados e povo abraçam-se emocionados, alguns choram, outros entoam o Hino Nacional, aplaudem, provam que mesmo depois de quase 50 anos de ditadura e seus horrores, ainda há alegria em Portugal. Sem se saber exatamente como, um cravo vermelho surge no cano de uma metralhadora G3. Era uma imagem forte, reveladora, emblemática, que ficaria marcada para sempre na história de Portugal. Há várias versões para o facto, mas acredita-se que teria sido iniciativa de uma florista contratada para entregar os cravos para a inauguração de um hotel nas redondezas. Ela teria presenteado um soldado com a bela flor, e que este a colocou no cano da sua espingarda. O gesto foi imitado por outros militares e, em poucos minutos, a florista podia ser vista distribuindo os cravos entre os soldados. Aquelas flores de vermelho-sangue estavam cheias de simbolismo. Passavam a mensagem de que a revolução se pretendia pacífica, sem a necessidade de disparos. Dos canos das armas, ao invés de balas, deveriam sair esperança, alegria e entusiasmo para seguir adiante e colocar o país no caminho do seu futuro. Era o que o cravo, flor muito comum em Portugal, pretendia representar ao posar para as fotos dependurado no cano do fuzil. A imagem foi tão forte, tão poética, que o levante de 25 de Abril passou para a história como a Revolução dos Cravos.
Nesse meio-tempo, dentro do quartel do Carmo, Marcelo Caetano, já destituído mas ainda assim tratado com dignidade, acertou a sua partida para a Ilha da Madeira, para onde seguiria horas depois, e de lá tomaria o rumo do exílio no Brasil.
Presenciei assim o enterro de um passado que não era motivo de orgulho, mas que passou a dar lugar a um presente glorioso que apontava para um futuro de esperança e fé. A Revolução triunfou. O regime salazarista, enfim, ruiu, caiu abandonado e só, exaurido pela falta do oxigénio da legitimidade, foi traído pela falta de esperança nas ideias dos seus mentores. Portugal estava livre, e foi assim que eu me senti também, como há muito tempo não sentia. A lição que tirei deste episódio pode ser um clichê, mas é impossível ignorá-la: Ninguém segura o curso da história. Em poucas horas o povo estava nas ruas no país inteiro, misturava-se com a tropa, festejava a liberdade, dava vivas a Portugal.
Boa parte dos planos do MFA, em tão pouco tempo, já estava muito perto da sua conclusão. Como testemunha ocular destes momentos posso afirmar que foram as horas mais emocionantes de toda a minha vida. É indescritível a sensação de um despertar destas dimensões. É como nascer de novo, mas com a consciência exata do próprio nascimento. É como presenciar o próprio parto estando do lado de fora do útero materno, enfim, é um amontoado de emoções, uma descarga de adrenalina que nos leva a um estado tal de efusão, que os limites do corpo são insuficientes para conter a alegria. Nessa hora sentimos vontade de gritar, de abraçar, de gesticular, enfim, qualquer coisa que seja exagerada é bem vinda. É tempo de exacerbar emoções.
Era tarde demais quando o regime acordou. O sol, finalmente, brilhava de novo em Portugal. No dia seguinte formava-se a Junta de Salvação Nacional, constituída por militares que iniciariam um governo de transição. Esse governo tinha como tarefa principal garantir que os ideais do MFA fossem seguidos. Os princípios básicos dessa doutrina podiam resumir-se no famoso programa dos três “D”: Democratizar, Descolonizar e Desenvolver. Parece pouco à luz dos dias de hoje, mas era um assombro pensar em coisas assim naquele tempo. As primeiras medidas da Junta Revolucionária foram a imediata extinção da PIDE/DGS e da censura. Foram legalizados os sindicatos e os partidos. Já no dia 26 foram libertados os presos políticos das prisões de Caxias e de Peniche, também na região de Lisboa. A saída dos presos foi transmitida em directo pela RTP, a televisão estatal e única existente no país até então. Líderes políticos exilados, como Mário Soares e Álvaro Cunhal começaram a chegar ao país nos dias que se seguiram, e no 1º de Maio de 1974, depois de muitos anos de repressão e censura, nós, portugueses, pudemos enfim comemorar nas ruas o feriado do Dia do Trabalhador. Reuniram-se no centro de Lisboa mais de um milhão de manifestantes, número impressionante, quando se lembra que o país tinha pouco mais de nove milhões de habitantes.
Mas toda a festa tem a sua ressaca, e com a Revolução dos Cravos não foi diferente. O país atravessou um período bastante conturbado nos dois anos seguintes. Tão conturbado e com tanta barafunda que foi nessa época, em Setembro de 1976, que eu desisti de tudo e embarquei para o Brasil. Mas a seu tempo falarei mais sobre essa decisão que mudaria a minha vida. Aqueles dois anos foram marcados por renhidas lutas políticas entre esquerda e direita, ou o que alguns achavam que era esquerda e direita, já que ninguém sabia bem ao certo, dependendo da situação, distinguir uma da outra. Amigos delatavam amigos, vizinhos tomavam posições diferentes e engalfinhavam-se em discussões intermináveis. Irmãos brigavam entre si pelas escolhas políticas de cada um. Havia perseguições aos antigos colaboradores do regime ou àqueles que, pretensamente, haviam colaborado, voluntariamente ou não. Empresas foram nacionalizadas, invadidas, levadas à falência pela luta entre sindicatos. Pessoas foram forçadas ao exílio por conta da sua simpatia pelo regime anterior, ou, simplesmente, por discordarem dos rumos que o país estava a tomar.
Um ano depois da Revolução, em 25 de Abril de 1975, foram realizadas as primeiras eleições livres do país para a Assembleia Constituinte. O Partido Socialista (PS) levou a melhor. Esta Assembleia elaborou a nova Carta Constitucional, escrita com fortes cores socialistas. O documento estabelecia uma democracia parlamentar, bem ao estilo ocidental. A nova Constituição foi aprovada em 1976 com ampla maioria, tendo apenas o voto contra do CDS – Centro Democrático Social, considerado um partido alinhado à direita do espectro político. A guerra nas colónias foi encerrada com a negociação da independência de todas elas num curto espaço de tempo. Timor-Leste, uma pocessão portuguesa na Indonésia também declarou a sua independência. O Império vinha abaixo, e as fissuras causadas na sociedade portuguesa pelo processo de descolonização conduzido no açodamento da onda revolucionária, ainda demorariam muito a fechar.
A verdade é que os factos de 25 de Abril de 1974, apesar de históricos e libertadores, nunca foram unanimidade entre o povo português. Uma coisa parece clara: da maneira que estava não era possível continuar por muito tempo. A ruptura do regime autoritário, de uma forma ou de outra, era necessária e urgente. O país isolava-se cada vez mais do contexto das nações mais progressistas. Se por um lado é verdade que, mesmo assim, Portugal foi membro fundador da OTAN e da OCDE, o que demonstrava certa conexão com os interesses ocidentais, por outro, o isolamento do país, forçado pela mão pesada do regime “Marcelista”, e, principalmente a teimosia em permanecer numa guerra inútil e perdulária, asfixiavam a economia do país, empobrecendo-o e conduzindo-o por um caminho perigoso e sem volta. O custo era demasiado alto e as consequências não tardariam a revelar-se insuportáveis. Ninguém duvida, portanto, que o 25 de Abril permitiu grandes avanços político-sociais. Isso é positivo e por si só já justificaria o 25 de Abril. Foi uma tomada de consciência que nunca poderá ser esquecida e cujos benefícios não poderão ser colocados em dúvida. Entretanto, para conseguirmos chegar a alguma conclusão prática sobre se a revolução trouxe mais vantagens ou prejuízos, é preciso saber equilibrar-se entre a frustração do PCP – Partido Comunista Português, com o facto de que muitos dos princípios que nortearam a revolução foram posteriormente abandonados ou deturpados, e a percepção dos que estavam mais à direita, de que, principalmente a nacionalização do sistema financeiro e de grandes conglomerados industriais, contribuiu muito para abalar uma economia já demasiadamente combalida, e que isso foi determinante para conduzir o país ao caos que se seguiu. Principalmente entre os mais velhos, que viviam na época a ilusão da estabilidade proporcionada pelo Salazarismo, a sensação de que “antes era melhor” teima em permanecer nas suas lembranças rançosas, e é presença frequente nas cada vez mais despolitizadas rodas de conversa nos cafés. Entre as pessoas mais esclarecidas, entretanto, ou as que se entrincheiraram nos extremos do arco político desenhado a partir de então, são igualmente comuns as discussões e a falta de tolerância. Ou seja, a revolução de 1974 ainda hoje divide os portugueses. Há feridas não cicatrizadas, chagas que teimam em sangrar.
Pessoalmente, e de um modo geral, depois de ter vivido os últimos 34 anos a uma distância que permite uma visão menos apaixonada, mais crítica, quem sabe menos parcial, acredito que houve erros sim, mas que eles não são, de forma alguma, suficientes para colocar em dúvida os benefícios e a herança positiva da Revolução. Mas vamos devagar com o andor. Penso que deveríamos ter tratado com mais cuidado do processo de descolonização. Foi um erro lamentável retirar as tropas dos territórios em conflito, às pressas, no calor da revolta, deixando ao deus-dará os milhares de portugueses que lá viviam, trabalhavam e criavam suas famílias. Teria sido necessário avaliar que a colonização portuguesa, ao contrário da de outras potências ocidentais, caracterizava-se pela miscigenação. Colonos portugueses, se por um lado exploravam os negros africanos e os maltratavam, por outro casavam-se com as nativas, incorporavam-se à vida das colónias, davam origem a uma nova sociedade, muito mais pluralista e tolerante, em certos aspectos, pelo menos. Havia que saber proteger os bens dos portugueses que para lá se haviam deslocado a convite dos sucessivos governos colonialistas. Havia direitos a respeitar de lado a lado. Ao optar por uma descolonização imediata, com a retirada repentina e incondicional das tropas, o governo revolucionário patrocinou barbáries, causou a desgraça de milhares de famílias honestas que foram obrigadas a deixar as províncias africanas com a roupa do corpo, temendo pela integridade física.
Soube de histórias fantásticas, horrendas, sofridas, desesperadoras. Histórias de gente que deixou tudo para trás e voltou a Portugal sem eira nem beira, nem família nem perspectivas. Não custava nada esperar um pouco, negociar a independência em bases mais realistas, reconhecendo o valor daqueles que para lá tinham ido para ganhar a vida trabalhando duro, de forma honesta. O meu tio Zeca, por exemplo, irmão mais novo do meu pai, morava em Nova Lisboa, no sudoeste de Angola, havia mais de duas décadas. Era funcionário público, responsável pelo Registo Civil na cidade. Casado com uma professora que conhecera lá mesmo, tiveram dois filhos, o Rui e a Paula, ambos nascidos e criados em Angola. Tinham uma vida confortável, uma boa casa, um carro novo e algum dinheiro no banco. De repente, de uma hora para a outra, viram-se na contingência de ter que entrar no primeiro navio que conseguiram, com as crianças amedrontadas, ameaçadas pela milícia que, àquela altura, se achava dona de tudo e de todos, sem respeitar mulheres, crianças, propriedade privada, direitos, deveres, nada. O meu tio conseguiu embarcar com duas malas de roupa e uma de dinheiro, que percebeu mais tarde, só servia para acender uma fogueira, pois tinha perdido o valor. Chegado a Chaves nessa situação teve que contar com a solidariedade dos pais, meus avós, que acolheram a família toda no casarão onde morávamos, na Madalena. Ali ficaram alguns anos tentando refazer as suas vidas, enfrentando sempre o preconceito dos “locais”. Naquele tempo, ser “retornado”, o nome que se dava àqueles que, tendo deixado as colónias, voltaram a viver em Portugal, era um título que não dignificava ninguém. Eram vistos com desconfiança por nós, que nunca havíamos deixado o país, e como estorvo pelo governo revolucionário, que tinha a obrigação moral e jurídica de cuidar daquele contingente de desesperados, de desvalidos, de órfãos da revolução. Nós temíamos que eles disputassem os já escassos empregos. Invejávamos a ajuda oficial de todo tipo que recebiam do governo, mas ignorávamos, convenientemente e com certa dose de sofisma, todo o sofrimento por que foram obrigados a passar. Disfarçávamos a inveja que sentíamos por estar diante de pessoas que tiveram, um dia lá atrás, coragem para deixar um país que nos maltratava, uma nação que aviltava a nossa dignidade. Enfim, projectávamos neles toda a nossa raiva pela incapacidade de buscar novos caminhos, de encontrar soluções. Num certo sentido éramos apenas pessoas limitadas, sentindo-se ameaçadas por forças que não podíamos compreender nem controlar. Só queríamos um pouco de estabilidade e a oportunidade de continuar a levar as nossas vidas insossas, mas não sabíamos o que fazer com aquele sentimento de frustração pelo resultado das escolhas que fizemos, ou, o que é pior, pela falta delas. Quase sempre por ignorância, acabávamos por descontar tudo nos nossos parentes “retornados”, que, àquela altura, tinham problemas como nós e precisavam de nossa compreensão e não do nosso preconceito e estupidez.
Mas nem tudo era tão simples como agora me parece. A situação do país deteriorava-se e as melhores cabeças iam embora, em busca de outros horizontes, enquanto ainda podiam vislumbrar horizontes no meio daquela baderna. Não quero dizer com isto que a minha vinda para o Brasil se deveu ao facto de eu estar entre “as melhores cabeças”. Longe de mim tal presunção. Mesmo com clara tendência para o egocentrismo, nem mesmo eu me atreveria a pensar algo assim. Mas a minha cabeça, mesmo sem estar entre as melhores, estava mudando, aprendendo coisas novas a uma velocidade vertiginosa, amadurecendo com muito mais rapidez do que se poderia esperar para uma época e um local com sérias limitações, capaz de moer na desilusão qualquer sonho mais ousado. Era um tempo confuso, onde verdades e mentiras cabiam dentro do mesmo conceito, confundindo-se umas com as outras e transformando versões em factos e factos em mentiras. Tudo mudava todos os dias, numa velocidade que não conseguíamos acompanhar. Para se ter uma ideia, eu que vinha da mais completa ignorância política, pus-me a devorar livros tão áridos como “O Manifesto Comunista” e “O Capital”, de Karl Marx, cujos ensinamentos, na época, soavam como música aos meus ouvidos. Li com devoção quase fanática os programas dos principais partidos políticos que disputavam o emergente mercado de militantes da época, e acabei por ver-me filiado a um tal MRPP-ML – Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado, Marxista, Leninista! Pelo menos eu tentei compreender a lógica comunista, se é que havia alguma. Mas não tardei a desconfiar de que tudo aquilo não passava de um amontoado de palavras de ordem, de conceitos envelhecidos e desmentidos pelos factos históricos. No máximo, ingénuas utopias. Os regimes comunistas, com suas promessas de um mundo sem desigualdades e com oportunidades iguais para todos, até então só haviam produzido ditaduras de esquerda, assassinatos em massa e uma casta de burocratas privilegiados que se aproveitavam do partido para exercer os seus sonhos desvairados de poder absoluto, subjugando o povo, desestimulando a criatividade e o empreendedorismo, e levando a desilusão, a infelicidade e a ignorância ao povo que prometiam defender e desenvolver. Para mim isso era igual ou pior do que o que sabíamos dos regimes fascistas. Comecei a dar conta de que qualquer ditadura é aviltante para o ser humano, sonega-nos o direito à cidadania plena, anula a legítima ambição de progresso individual baseado na meritocracia, em favor de um pseudo bem estar coletivo que nunca acontece. Para mim já era o bastante. De direita ou de esquerda, ditadura, se há, sou contra. Já mais consciente das opções políticas que havia, fui-me deslocando cada vez mais para o centro do arco político, percebendo que para que se caminhe no rumo do desenvolvimento, é preciso não radicalizar, é preciso buscar a conciliação. Apenas alguns meses depois saí do país em direção ao exílio voluntário no Brasil com a carteirinha de filiação no PPD – Partido Popular Democrático, que, pouco depois, em Outubro de 1976, adotaria a designação de PSD – Partido Social Democrata. Filiei-me a convite do Pimentel Sarmento, conhecido por Zé Ceroulas, jovem taxista na época, e, até onde sei, ativista político desde então. Quando me entregou a carteira de filiado, assim como quem entrega um troféu, pude ver um brilho em seu olhar, difícil de descrever. Se ele vislumbrava algum futuro político para um adolescente rebelde como eu, talvez jamais venha a saber, mas que o gosto pela política perdura até hoje, isso não posso negar. Depois de mais de três décadas longe, ainda guardo com carinho a carteira de filiado, datada daqueles tempos revolucionários. É uma lembrança do tempo em que ainda tinha disposição para lutar por um mundo melhor. Hoje não ligo muito para partidos políticos, pois estão cada vez mais parecidos. O arco político, de tão vergado, transformou-se num círculo, onde a incompetência de um dá sequência à desfaçatez do outro, e, juntos, nossos políticos, com verdadeiro destemor e completo desprezo pelos direitos de quem os elegeu, devotam-se com afinco à nada nobre tarefa de decepcionar os cidadãos, e atolam-se, irremediável e continuamente, no lamaçal da corrupção. Não quero mais saber de partidos, quero as minhas convicções por inteiro, intactas, tal qual as tinha por ocasião da Revolução dos Cravos. Mas isso já é pedir demais. O tempo, a vida, a experiência e o exercício de viver, reduzem as nossas ilusões a pó, transformam ideais em utopias, e deixam-nos céticos, amargos e cínicos. Ainda gosto muito de viver, mas quando olho no espelho já não vejo aquele brilho que me dava a certeza de um dia fazer a diferença. Hoje, amassado pelas desilusões, sou apenas uma imitação barata do que gostaria de ter sido. Sou um genérico.
O amigo leitor há-de perdoar-me, mas eu sou dado a estas divagações, estes desvios, estes desabafos de consciência. Afinal para que serve um livro autobiográfico se não reflectir, não apenas o pensamento do autor, mas o processo através do qual esse pensamento se constrói? Mas voltando à narrativa, serviu o episódio da minha gincana ideológica para mostrar em que velocidade as coisas andavam no período pós-revolução. Quanto à minha saída da agitada cena política portuguesa apenas dois anos e meio após a Revolução de Abril, é preciso esclarecer que vim para o Brasil quase por acaso. Por um lado, havia a falta de opções num tempo conturbado pela luta política exacerbada por anos de ignorância e de jejum, e pelas burrices defendidas em nome das regras de uma democracia que não éramos capazes de aprender. Isso resultou no pior dos cenários para um jovem de apenas 21 anos: a falta de perspectivas e a negação de um futuro plausível, no qual fosse possível, ao menos, continuar a sonhar com dias melhores. Confesso que ao deixar Portugal, no dia 28 de Setembro de 1976, apenas uma semana depois de completar o meu vigésimo primeiro aniversário, ainda não sabia o que gostaria de ser quando crescesse. Tudo estaria bem, se, àquela altura, a minha inquietude intelectual, a minha avidez por conhecimentos e experiências, não me dissessem que eu já era crescido o bastante para ter um futuro melhor. Mas também deixei o meu país por razões pessoais, sem grandes reflexões, com a razão entorpecida pelo veneno da paixão, um pouco no calor de alguns acontecimentos que relatarei mais à frente. Foi uma sucessão de factos que veremos a seu tempo, um conjunto de detalhes que, ao avolumarem-se na minha cabeça fervente de pós-adolescente, determinaram decisões das quais me arrependeria depois. Não fui eu que fui para o Brasil. Foi a vida que me empurrou para lá. Eu só não soube como dizer-lhe não!
XVI Do acordeão Scandalli ao primeiro conjunto
O meu pai sempre gostou muito de música. Quando viajávamos assobiava sem parar as canções de que mais gostava. Tinha jeito para a coisa, não posso negar. Pelo menos no assobio era bastante afinado. Quero acreditar que sempre quis tocar algum instrumento, mas nunca teve coragem de começar nem de mo dizer. Por isso, sou eu que concluo. Como sempre acontece nesses casos, os pais tentam compensar suas frustrações realizando através dos filhos os seus sonhos interrompidos. É curioso também como os sonhos de um pai podem transformar-se no pesadelo dos filhos! Mas não exageremos, não foi tão assim tão mau. Aos nove anos, em 1964, comecei a ter aulas com o saudoso maestro Carlos Emídio Pereira, ali no velho casarão do Largo Tenente Ferreira da Silva, no topo da Rua de Santa Maria, onde alguns anos depois viveria dias inesquecíveis.
O instrumento que o meu pai mais gostava de ouvir era o acordeão, um equipamento complicado e pesado, que exigia muita dedicação e estudo. Executar as melodias com a mão direita no teclado ao mesmo tempo em que era preciso desenhar os acordes do contrabaixo nos pequenos botões pressionados pelos dedos da mão esquerda, sem esquecer de abrir e fechar o fole, cuja produção de ar resultava na delicada sonoridade do instrumento, era tarefa complicada e ingrata. Principalmente para uma criança. Ao mesmo tempo era preciso interpretar a partitura, e, para isso, obrigatório encarar as chatíssimas aulas teóricas de solfejo. Entre uma clave de Fá, e uma sequência de Breves, Semi-Breves, Mínimas, Colcheias e Semi-Fusas, muitas lágrimas escapavam dos meus olhos, pois aquilo tudo era uma tortura. Mas lá ia eu, (contrariado, mas vou, como dizia Solnado) a caminho do meu suplício semanal. Vontade de pai da década de 60 não se discutia. Não é que eu não gostasse de música, muito pelo contrário, ela sempre foi tão importante para mim como o ar que meus pulmões recebem. Não se tratava disso. O erro do meu pai foi não perceber que me impunha o instrumento que ele gostava, e não eu. Naquela época associávamos muito o acordeão à música folclórica portuguesa, aos corridinhos e viras, muito em voga nas vozes e na arte do Conjunto Maria Albertina, que eu, como pré-adolescente, abominava. Considerávamos aquilo tudo uma parolice, arte brega apenas para o gosto pouco refinado de aldeãos e parolos. Afinal éramos jovens, modernos, sabíamos tudo. Já naquele tempo gostávamos mais de Rock, de baladas, de Pop do que da chamada “música ligeira portuguesa”. Fado, então, nem pensar. Gostar de corridinhos do Algarve e de música folclórica era tão mal visto como levar a mãe à matiné de sábado no cinema, ou seja, um despropósito! Os nossos conhecimentos musicais eram muito limitados pelas dificuldades impostas pela ditadura. As influências que vinham de fora eram quase sempre adaptadas pela censura. Mesmo assim não podíamos esquecer que, mesmo contra a vontade de Salazar e seus eficientes auxiliares, começavam a despontar grupos como os The Beatles, os The Rolling Stones, Elvis Presley e outros grandes do Rock genuíno. Talvez se o meu pai me tivesse encaminhado para aulas de piano eu tivesse dado mais atenção à vocação musical. Mas também pode ser que, ao ter essa possibilidade negada, o mundo tenha ficado livre de um péssimo pianista! Não sei, e a esta altura isso também pouca diferença faz. Apesar do Agostinho Gomes, de quem falarei mais adiante, ser de opinião de que eu daria um excelente músico se tivesse seguido carreira, ainda tenho cá pra mim que o mundo não teria grande coisa a ganhar com a minha arte. Mas não vamos aqui perder tempo com julgamentos baseados em hipóteses ou suposições. Não segui carreira, fui até onde foi possível, e, se hoje não sou um grande músico, posso garantir que sou, sem a menor dúvida, um excelente ouvinte. É quanto me basta, por ora.
Voltando às aulas de música, não sei bem por que razão, algum tempo depois, meu pai transferiu-me para o ilustre Professor José Firmino de Morais Soares. Diziam que era o melhor, eu acho que era, pelo menos, um dos dois melhores, já que só havia ele e o maestro Pereira naquele tempo. Pronto, questão fechada, livro-me de entrar em polémicas e ainda conservo a amizade que sempre tive com os filhos do falecido maestro, alguns deles, meus colegas de “carreira musical”. Mas vamos aos factos. Lá fui a contragosto para as aulas do Zé Firmino, tido como professor exigente e de pouca paciência. Lembro-me que havia uma sequência de músicas a aprender, que ia da mais simples para a mais difícil, e que eram numeradas de 1 a 30, salvo erro. Não lembro agora qual era a mais simples, a primeira do reportório, mas lembro que a número 30 era a temida “As Czardas”, composta em 1904 pelo napolitano Vittorio Monti, violinista e regente morto em 1922. Era uma peça de complicada execução, com um desenho melódico sinuoso, que demandava agilidade, de uma beleza ímpar, que até hoje me faz arrepiar. A segunda parte da música, mais acelerada, exigia que os meus dedos se entrelaçassem num balé improvável, que nunca consegui executar. Sempre que posso deixar de lado o trauma causado pela incapacidade de coordenar cérebro e dedos naquelas aulas, ainda me deixo deliciar com os acordes impetuosos, de alma guitana, pela irresistível sedução dessa composição maravilhosa. Enfim, deixemos os detalhes sórdidos de lado e vamos ao que interessa. As aulas de música incomodavam-me, eram um suplício, principalmente a parte do carago do solfejo. Logo descobri que não adiantava nada contrariar o meu pai. Era ele que estava ali a aprender a tocar e não eu. Era o sonho dele que buscava realizar e não o meu. Quando isso acontece, não há argumento razoável que resulte. É preciso encontrar alternativas até que um surto de discernimento atinja quem sonha por nós.
Cedo descobri que tinha uma habilidade que muitos cobiçavam, e que me dava uma vantagem competitiva que eu, até então, desconhecia ou desprezava. O meu cérebro tinha uma facilidade incrível para gravar sons. A minha memória era absolutamente auditiva. Nos estudos, por exemplo, eu só conseguia decorar o que precisava se repetisse as coisas em voz alta. Números, palavras, teoremas, conceitos, factos, tudo era mais facilmente decorado quando os pronunciava, repetidamente, em voz alta. Na música não era diferente, e esse foi um detalhe que passou a fazer toda a diferença. Depois de algum tempo comecei a desenvolver um método para me safar nas aulas do Professor Zé Firmino. A coisa funcionava assim: eu chegava lá, ia para a sala de ensaios, que era um apêndice estreito e comprido da sala principal, quase um corredor, juntava-me aos que já lá estavam, e praticava a lição correspondente, aguardando a minha vez de apresentar-me no salão principal na presença do professor. Como se pode imaginar, a sala de ensaios era uma confusão de sons, melodias, ruídos e asneiras. Notem que os alunos ali presentes, embora nunca mais de dois ou três, estavam em estágios diferentes do aprendizado, o que significava que a música ensaiada por um, era diferente da música do outro. Por exemplo, eu estava na música (lição) número 6, com a qual teria que me apresentar, poucos minutos depois, ao professor. Podia acontecer, e acontecia de facto, que um dos meus colegas ali presente, estivesse a ensaiar a música número 8, ou 4, enfim, uma música mais adiantada ou mais atrasada que a minha, e não havia ali auscultadores individuais. Pois bem, como eu havia percebido que era mais fácil tocar de ouvido do que interpretar a partitura que o professor nos dava, passei a chegar um bocadinho mais cedo às aulas, encontrava um colega que estivesse mais adiantado, e pedia-lhe para interpretar a música que eu teria que apresentar minutos depois. Feito isso, decorava a melodia e passava a ensaiar de ouvido, tateando as teclas em busca dos sons que correspondiam às notas corretas mostradas na partitura. Pode parecer complicado, mas para quem tem alguma noção de teoria musical, ou para aqueles que, como eu, têm a sorte de poder contar com um ouvido musical privilegiado, fica fácil entender o processo e como eu fui levando as aulas na malandragem.
Certo dia cheguei ao ensaio com a música número 18 para aprender. Não me lembro bem qual era, mas lembro que era um pasodoble, talvez de António Carrillos ou M. Peralta, não sei ao certo. Para quem não sabe, o pasodoble é um estilo musical e uma dança surgida no século XVI, de origem espanhola, executado no compasso de 2/4 ou 6/8, tocado em touradas ou desfiles militares, parecido com uma marcha. É cadenciado, mas tem certa complexidade. Naquela música, porém, uma passagem específica do segundo trecho fazia-me tropeçar nas teclas e não havia meio do meu ouvido encontrar a sonoridade correta. Chegou a minha vez, fui chamado à sala principal, tomei o meu lugar na desconfortável cadeira, com a maldita partitura cheia de garatujas indecifráveis à minha frente. José Firmino era uma figura estranha. Magro como uma vara de pesca e careca como um abutre, chamava a atenção pelos óculos de lentes esverdeadas e grossas como vidro de fundo de garrafa, que faziam com que os seus olhos parecessem sempre espremidos. Como sempre, estava sentado à minha direita num banquinho esquisito, e inclinava-se levemente para a frente, em direção à pequena estante musical, apontando com a sua batuta de mogno para o temido livro de solfejo que ele havia colocado em cima da partitura. Abrindo uma das páginas ao acaso com mal disfarçada impaciência, e olhando por cima dos óculos redondos, disse-me com enfado:
– Anda lá Carvalhinho, daqui do princípio, da primeira clave. Anda lá: dóooo, mi, sol, siiiiii, assim, vamos lá, compasso quaternário, anda lá rapaz… Gaguejando de insegurança eu lá ia cantando as notas a muito custo, marcando o compasso quaternário com a mão, num movimento que descia verticalmente até à borda da mesa, depois com a mão deslocando-se numa curva de 90 graus até mais ou menos à altura do coração, para logo em seguida ir no sentido oposto até bem perto do professor, para finalmente subir até à altura da minha testa, de onde voltava na vertical até a borda da mesa. Era um movimento cadenciado, em quatro tempos (por isso era compasso quaternário), que era executado em sincronia com a cantilena de cada nota da pauta de solfejo. Acho que se um dia o Agostinho Gomes, hoje Doutor em Música, ler este livro, vai gostar tanto desta passagem que vamos dar muitas gargalhadas, de preferência à volta de umas alheiras com grelos no Aprígio. Enfim, retomemos a história. Os movimentos eram repetidos até que toda a pauta fosse lida. Às vezes eu tropeçava numa nota mais renitente, tomava um leve cascudo do professor, e voltava ao suplício da cantilena decorada. Após alguns minutos que mais pareciam horas, Zé Firmino guardava o livro de solfejo, abria a partitura da música a ser apresentada e preparava-se para ouvir a execução. Só nesse momento eu agarrava o pequeno acordeão alemão da marca Honner, ajeitava-o contra o peito, abria a presilha que destravava o fole, e mostrava o meu talento conforme a partitura exigia. Bom, pelo menos era isso que o professor acreditava, mas não era bem o que acontecia. A partir daquele momento, já menos ansioso, confiante no meu bom ouvido, eu passava a tocar a melodia previamente decorada, fazendo de conta que lia a partitura aberta à minha frente e que o professor apontava com a sua batuta, deslizando com ligeireza entre dós, sis, sustenidos e bemóis, respeitando pausas de semínimas e colcheias, exigindo agilidade nas fusas e semifusas, enfim, era um balé lindo e coordenado, não fosse pelo detalhe de que eu não percebia nada daquilo. O resultado sonoro, entretanto, era bem razoável, o meu ouvido raramente me traía e eu lá ia dando conta do recado. Era uma fraude, mas, convenhamos, era uma fraude bem afinada e melodiosa. O som saía quase naturalmente, enfeitava o ar, enchia os ouvidos, espalhava-se pela sala como o cheiro doce das giestas do Brunheiro. Eram momentos de ternura e exaltação, eu sentia que poderia abraçar o mundo com aquele som, que nada era impossível, que um dia me apresentaria num teatro qualquer, em alguma capital europeia, para milhares de pessoas que me aplaudiriam de pé, extasiadas. Estava tudo planeado na minha cabeça, só ainda não sabia, no meu sonho, como me livraria do maldito acordeão. Calma aí pessoal, afinal o que custa sonhar? É bem verdade que a apresentação no teatro com milhares de pessoas numa capital européia nunca aconteceu, mas que nos apresentámos várias vezes no então famoso e imponente Cine-Teatro de Chaves, para mais de 500 pessoas, lá isso eu garanto. E sabem o que foi mais importante? As pessoas, extasiadas, nos aplaudiam de pé! Está bem, está bem, algum desmancha prazeres vai dizer que a maioria dos espectadores era composta por pais, irmãos, amigos e parentes dos pequenos músicos, e que aplaudiriam entusiasmadamente mesmo que não conseguíssemos entoar uma só nota corretamente. Eu sei, mas isso é apenas um detalhe, e detalhes, como todos sabem, só passam a ter importância na nossa vida quando já somos maliciosos o suficiente para dar-lhes a devida atenção, ora, pois!
Tudo corria muito bem, eu lá ia conseguindo enganar o professor, até que naquela tarde do fatídico pasodoble, atravessou-se no meu caminho uma “décima aumentada”! Era um desaforado acorde que parecia exigir que a minha mão tivesse oito dedos, e fez-me engasgar os dedos de forma humilhante, ao teimar em não soar conforme estava escrito na partitura. Isso na avaliação rigorosa do professor, claro.
– É uma décima aumentada rapaz, é uma décima aumentada. Que diabo estás a ler aqui? Não vês? Aqui, depois do lá sustenido, tens que me dar uma décima aumentada, rapaz! – dizia um impaciente José Firmino já muito próximo da cólera. – Anda lá, de cima, do princípio, do fá maior, a ver se agora dás conta do recado. Concentra-te Carvalho, concentra-te! – Comecei a entrar em pânico, a minha fraude estava quase desmascarada, eu precisava fazer alguma coisa. Maldito acorde, por que é que eu não ensaiei mais aquela passagem? E como se fazia aquele sonzeco meio distorcido, quase como se um acorde fosse deslizando para cima do outro, que dava a sonoridade que a partitura exigia e o professor teimava em querer ouvir? Eu recomeçava a executar a música do princípio, apurando o ouvido, tentando driblar aquele acidente geográfico em forma de acorde musical. Não havia maneira, parecia uma daquelas provas de hipismo em que o conjunto segue bem harmonioso, até que no quinto ou sexto obstáculo, o cavalo refuga, derruba o cavaleiro e nega-se a transpor a barreira. Por mais que se tente, quando chega naquele ponto, a montaria empaca e não há meio de continuar a prova. A solução é desistir e preparar-se para o próximo torneio. Mas não foi assim que aconteceu. Não haveria próximo torneio para mim. A minha aversão pela mentira era bem capaz de trair-me, quando testado sob pressão. O meu apreço pela sinceridade, ou a incapacidade de manter a língua dentro da boca, como diriam meus detratores, fez com que eu não resistisse, e ao fim da quarta ou quinta tentativa, com o professor já com os ralos cabelos em desalinho e a ponto de perder as estribeiras, confessei, em estado de esgotamento:
– Professor, eu não leio a partitura, eu toco só de ouvido.
– Como é que é rapaz? Tu fazes o quê? Que raio de conversa é essa?
– Professor, eu peço aos colegas para tocarem as músicas, decoro as melodias, e depois venho aqui, toco de ouvido e faço de conta que leio a partitura, mas essa música é muito difícil, essa eu ainda não consegui decorar.
– Estás a dizer-me que chegaste até à música 18, um pasodoble de António Carrillos, sem saber ler o carago da partitura? Sim senhor, mas que grande impostor me saíste, sim senhor… Ora essa!?
– Professor, eu já lhe ia contar, mas tive medo que…
– Não precisas explicar mais nada, podes ir embora e volta na semana que vem com a partitura na ponta da língua. – Saí com o rabinho entre as pernas, meio sem saber se ele tinha ficado aborrecido ou entusiasmado. Fiquei inseguro, e quando assim fico, a minha tendência é fazer merda. Resolvi desistir, já estava mesmo na hora de parar com aquele sofrimento. Eu não gostava mesmo da porra do acordeão! A partir daquele dia nunca mais lá pus os pés. O meu pai, àquela altura entusiasmado com o filho artista, já tinha comprado um enorme Scandalli, de fabrico italiano, de 120 baixos (até hoje a melhor marca de acordeões do mundo). Era um trambolho de mais de 15 quilos, que, quando era colocado no meu peito, só se podiam ver os meus pés e a minha cabeça. Mas era o melhor equipamento que se podia comprar na época, lá isso era. O problema é que o senhor Waldemar Carvalho achava que eu frequentava as aulas de música regularmente, mas eu nem passava por perto. No dia do vencimento da mensalidade lá foi o meu pai acertar a contabilidade com o professor. Soube depois que o diálogo terá sido, mais coisa menos coisa, o seguinte:
– Então senhor Professor, como é que anda o meu rapaz? Tem jeito pra coisa ou não tem?
– Oh senhor Waldemar, jeito ele tem. Aliás, acho que tem até jeito demais. O problema é que eu não lhe ponho a vista em cima há mais de um mês!
– Ora essa, senhor Professor, mas então o que é que ele anda a fazer? Onde será que esse miúdo se mete?
– Isso eu não sei, senhor Waldemar, mas este mês o senhor não precisa pagar-me nada, pois ele não veio cá nenhum dia.
– Mas que grande patife! Esse rapaz vai ver-se comigo, vou tirar essa história a limpo ainda hoje. Mas diga-me, senhor Professor, acha que vale a pena insistir nas aulas?
– Meu caro Waldemar, deixe-me dizer-lhe uma coisa: há muitos anos que ensino música, já cá tive centenas de miúdos, uns com mais jeito, outros com menos, mas não me lembro de ver um aluno com o ouvido musical do seu rapaz. Aquilo, se quisesse, ia longe. Bastava que estivesse disposto a estudar um bocadinho, a esforçar-se mais, e podia ser um músico acima da média…
– Homessa! O miúdo leva mesmo jeito pra coisa, então?
– Leva sim Waldemar, mas essas coisas não se podem forçar, ele tem que querer, tem que ter vontade de aprender ou não vai adiantar nada. Bem, converse lá com ele, chame-o a piquete e vamos lá ver o que acontece. – Não sei o que o meu pai pensou ao ouvir aquilo do professor mais exigente que aquela cidade já teve, mas um pouquinho de orgulho, com certeza, misturou-se à decepção de saber que o filhinho querido tinha feito mais uma. Quando cheguei a casa levei uma ensaboadela tão grande que perdi a vontade de me defender. Não argumentei, nem mesmo quando o meu pai me perguntou o que eu queria da vida. Ora, o que eu queria da vida? Queria tudo, tudo a que tivesse direito, não me contentaria com menos. Mas as aulas de acordeão, decididamente, eu não queria. Nunca mais falámos no assunto, nunca mais fui às aulas de música. O mundo tinha perdido um grande artista, a minha carreira musical tinha acabado antes que eu completasse onze anos. Era o que eu pensava, era assim que me sentia, era o que todos pensavam. Mas o destino é muito mais ardiloso do que podemos imaginar, e o imponderável pode acontecer. Talvez eu nunca viesse a ser um grande músico, mas, como veremos mais adiante, a minha carreira artística estava longe de terminar. Na verdade ela nem tinha começado. Nos anos que se seguiram, tanto eu como o meu pai desistimos daquela história de ser músico. Acho que ele ficou decepcionado comigo pela minha constante ausência das aulas, e eu fiquei decepcionado com a música por perceber que ela estava umbilicalmente ligada ao torturante solfejo. De certa forma nos entendemos, não houve necessidade de sermões ou de desculpas. O Scandalli de 120 baixos retornou à caixa preta de couro, com o seu forro de veludo vermelho, enterrado como se fosse um cãozinho de estimação, amado, mas ainda assim, um cão.
XVII O Addox Club
Lá por meados de 1972, com 16 para 17 anos, o interesse pela música voltou a aflorar, desta vez de forma mais consciente, ou mais espontânea, não sei bem, mas foi diferente. A vontade vinha de dentro para fora, imposta pelos meus sentidos e não pelo meu pai. À tardinha, eu e um grupo de amigos costumávamos reunir-nos num baixo que ficava ao pé da casa do Jime, o Jaime Jorge da Rocha Rodrigues, irmão mais novo do Beto (que veio fazer a vida no Brasil muito antes de mim), e do Bibi, sujeito carismático que frequentava o círculo de amizade dos meus primos mais velhos, Heldinho e Zé Mendes, amigos e professores dedicados de tantas e nem sempre inocentes brincadeiras. O baixo era um cubículo de mais ou menos três metros de comprido por dois de largura, ou nem isso. Era uma espécie de depósito das tralhas velhas do quiosque do Zeca, que ficava alguns metros acima, no Largo do Arrabalde. O Zeca do Quiosque, como todos o conheciam, e de quem já falei aqui, era amigo do meu pai, e o seu filho Hélder era meu amigo desde os tempos de escola da Lapa, lembram-se? Quase todas as tardes nos reuníamos naquele pequeno quartinho, cuja porta, de latão cinzento e vidro verde, opaco, era baixa a ponto de exigir que nos abaixássemos para passar por ela. Lá dentro, algum material de escritório abandonado, caixas de papelão, revistas velhas, um gira-discos com reprodutor de cassetes, e muito pó. A turma era variável, mas, com mais assiduidade, lá se encontravam, além de mim, claro, o Hélder, o Jime, o Alexandre Mesquita, Quim Barrigas e alguns outros menos assíduos. É claro que, depois de tantos anos, não me lembro de todos, pelo que peço desculpas aos omitidos, pois sei que vão ficar aborrecidos comigo por tê-los esquecido. Mas acreditem que não foi por mal, apenas por falta de memória. O Paulo Ribeiro e algumas amigas, das quais falarei a seu tempo, apareciam por lá de vez em quando, e o mesmo acontecia com o Edgar, o Chinha. Como podem ver, era só malta fixe! Todos tínhamos grande interesse por música, Rock de preferência. Costumávamos levar discos para nos actualizarmos, discutir tendências, e, por vezes, fumar um cigarrito escondido enquanto tentávamos apalpar as mamas de alguma rapariguita mais dada a essas liberdades, o que era raro e motivo de efusivas comemorações colectivas.
Chamávamos o esconderijo carinhosamente de Clube Addox. Acho que era um nome qualquer que tínhamos visto num cartaz de propaganda guardado lá dentro, no meio das miudezas vendidas no quiosque do pai do Hélder. Não sabíamos o que significava nem o que era, mas gostámos do nome, soava bem, era pomposo, tinha ritmo, estilo, era o nosso clube secreto. O Paulo Ribeiro, que foi sempre um especialista em tendências e um difusor de moda, era a nossa enciclopédia musical. Acho até que seria preciso escrever outro livro só para contar o quanto aprendíamos com ele. Mesmo que nem sempre eu concordasse com os seus refinados gostos, pois o meu ouvido foi sempre mais comercial, o facto é que foi através dele que conheci nomes que ajudaram a consolidar o meu gosto musical, e que exerceram uma influência determinante na minha vida, principalmente na formação do meu ecletismo musical, ampliando muito o meu universo sonoro. Eram conjuntos como Pink Floyd, Uriah Heep, Black Sabath, Genesis e Yes, quase óbvios aos olhos de hoje, mas também nomes menos conhecidos como Triunvirat, Focus, Van Der Gaff Generator e outros, originais de países como Holanda e Alemanha, mas que constituíam a vanguarda da cena musical europeia da época. O que mais marcou a minha alma, e que venero até hoje, pois nunca sai do meu Ipod, é o fabuloso Solution com o inigualável LP Cordon Bleu. A bateria tocada com precisão cirúrgica, o baixo sempre com desenhos sinuosos dos acordes, o teclado a encher o ambiente como um colchão de espuma macio e envolvente, os vocais sincronizados como coro de igreja, a mistura perfeita entre Pop, Rock, Jazz e clássico, enfim, ainda hoje esse conjunto é para mim uma verdadeira enciclopédia da melhor música produzida ao longo das últimas cinco décadas.
Nunca é demais lembrar que Chaves era uma cidade com pouco mais de 10.000 habitantes, esquecida na província mais atrasada de um país isolado por quase 50 anos de ditadura. Por aí já se pode avaliar o vanguardismo do Paulo Ribeiro que, apesar de todas as dificuldades, conseguia manter-se actualizado com o que se produzia de mais moderno e refinado no cenário musical europeu. Não será mera coincidência que até hoje, vivendo em Paris há vários anos, o Paulo ainda dedique parte de seu tempo à música, e nos brinde com coletâneas e mixagens inspiradíssimas, que nos envia por email regularmente. No caso dos conjuntos da nossa preferência é preciso entender que vivíamos uma época de renovação. Fazia-se a transição do Rock clássico para o progressivo, cujo maior expoente era o Pink Floyd, até hoje, a minha banda preferida junto com a alemã Solution. O caso do Uriah Heep, entretanto, também merece uma referência especial. Apesar de não serem tão conhecidos como Pink Floyd ou Deep Purple, com quem chegaram a ser comparados, tiveram influência fundamental na nossa formação musical. Eu os reverencio como a melhor banda de Hard Rock de todos os tempos. Conseguiam, ao mesmo tempo, compor temas de uma vitalidade impressionante, verdadeiros hinos do heavy metal, e músicas de uma sensibilidade desconcertante, quase românticas. Sempre com batida forte, vocais harmoniosos e acordes melodiosos, tiveram na voz belíssima de seu líder, David Byron, o seu maior destaque. O grupo formou-se em dezembro de 1969, em Londres, pouco depois que o produtor Gerry Brown convidou o teclista Ken Hensley para deixar o The Gods e juntar-se a um grupo de sucesso chamado Spice. Pouco tempo depois mudariam o nome para Uriah Heep, numa referência directa ao personagem criado por Charles Dickens no seu romance David Copperfield. Uriah era o maior vilão do romance, manipulador, ambicioso e cínico. A sua falsa humildade disfarçava a enorme cobiça e os transtornos físicos e psicológicos que carregava desde a infância. Com calculada ironia, o grupo de roqueiros adoptou esse nome e passou a impor-se no cenário musical europeu a partir de seu primeiro álbum, “Very’eavy very’umble”, que já era uma referência directa ao carácter do personagem do romance de Dickens. Com influências do Rock progressivo que despontava na época, do Hard Rock, do Jazz, do Heavy Metal e até do Country, o grupo apresentava composições de beleza impressionante, com vocais maravilhosos, arranjos perfeitos e batida alucinante, alternadas com momentos de puro lirismo, como se pode observar em “July morning”, de 1971*[JBC2] , tema com duração de 10m32s, por exemplo. Easy livin, Tears in my eyes e Sunrise são outros êxitos inesquecíveis. A primeira formação do conjunto, em 1969, era composta por David Byron, nos vocais, Mick Box, na guitarra, Ken Hensley, nos teclados, Paul Newton, no baixo, e Alex Napier na bateria. Nós começámos a conhecer a banda a partir do seu terceiro álbum, “Look at yourself”, lançado em 1971, quando o baterista já era Ian Clark. Mas foi a partir de 1972, já com o fabuloso Lee Kerslake na bateria, que decidimos incluir os maiores êxitos da banda no nosso repertório das tardes do Addox Club. O álbum desse ano, “Demons and Wizards”, deu-nos a certeza de estar diante de uma banda que faria história. Curiosamente, o enorme sucesso de July Morning fez até com que se transformasse em tema de uma tradição hippie na Bulgária. Jovens e adultos de todo o país deslocam-se para as praias do Mar Negro, sempre na madrugada de 30 de Junho para o primeiro de Julho, para observar os primeiro raios do sol de Verão, no mês de férias que se inicia. Para mim, tratando-se de Rock pesado, essa música retrata o que de melhor uma banda de Rock pode fazer, misturando trechos de pura histeria musical com solos estridentes e bateria alucinante, com os acordes de um teclado surpreendente, pacificador, extraídos de um tradicional Hamond com caixa de madeira, sempre marcando a linha melódica harmoniosa, quase romântica, a juntar-se aos vocais magistrais de Byron, acompanhados de um backing vocal de fazer inveja a muitos corais gospel. Foi a música que sempre tive mais prazer em executar, e que, até hoje, não consigo ouvir sem me emocionar até às lágrimas. A banda existe até hoje, embora com outra formação. Do grupo original, de 1969, o único que ainda permanece é o guitarrista Mick Box. Byron faleceu em 28 de Fevereiro de 1985, aos 38 anos, vítima de epilepsia e complicações no fígado, e, com ele, foi-se também parte da história desse grupo incrível, tantas vezes esquecido por quem gosta de Rock de primeira. Bom, perdoem-me por ter abandonado mais uma vez a narrativa. Espero que não se importem. Afinal, um bocadinho de cultura musical não fará mal aos jovens que eu espero que leiam este livro um dia. Vá lá, perdoem-me a falta de humildade, mas, esta, a humildade, nunca foi dote meu, como a esta altura já sabem.
Voltando à nossa história, para desgosto da rapaziada, o Paulo não frequentava o Addox Club tão assiduamente quanto gostaríamos, pois mantinha o seu próprio “clube”, numa sala que ficava por cima da ourivesaria do pai, no número 47 da Rua Direita. Chamavam o lugar de “Club Les Esquellets” e era frequentado por uma malta diferente. Éramos todos conhecidos, claro, mas não havia o mesmo nível de afinidade, excepto no caso do próprio Paulo, que era muito ligado a nós, principalmente a mim e ao Jime, e também ao Jorge de Jesus, um cromo que conseguia pronunciar três asneiras por segundo, e que também aparecia lá no “Les Esquellets” da Rua Direita. Enfim, embora amigos, cada um tinha a sua tribo e não havia conflitos com isso. Respeitávamos o espaço do outro e tudo corria bem. Pelo que sei, com leves diferenças, as nossas brincadeiras principais naqueles clubes apertados e cheios de fumo consistiam em tocar uma música no gira-discos e fazer a dobragem do conjunto, improvisando os instrumentos como nos era possível: a velha máquina de escrever Remington, por exemplo, era o meu teclado; os dois cabos de vassoura arremedavam a guitarra solo do Mesquita e o baixo do Jime (ou vice-versa, pois o som era o mesmo!); baldes de limpeza e outras tralhas que produzissem sons metálicos eram a bateria do Hélder , e o microfone do gravador de cassetes servia de ferramenta para o vocalista, que tanto podia ser o Chinha, como o Carlos Pimentel, o “Belo”. O Edgar (Chinha) era um caso à parte. Figura desengonçada, com mais de 1,80 ainda na adolescência, magro como um pau de virar tripas, nariz adunco e queixo saliente, de bruxo, tinha o cabelo preto e liso, como se fosse índio sul-americano, que lhe cobria as orelhas, dando-lhe um ar blasé, de ídolo pop misturado com bailarino flamenco. Como se não bastasse, fingia que cantava fazendo piruetas e contorcionismo, deixando as raparigas animadíssimas e a nós roídos de inveja. Era outro cromo, um fenómeno que se foi pra França e nunca mais soube dele. É pena. Gostava de o ver relembrar aquelas tardes, agora, no amadurecer da meia idade. Acho que foi também no Addox Club que o ex-galã e hoje professor e fadista Carlos Pimentel teve suas primeiras experiências vocais. Mas desse vamos falar mais adiante, valha-me Deus! Era uma maravilha, como se vê! Imitávamos os trejeitos de uma verdadeira banda de Rock, aumentávamos o volume a ponto de levarmos algumas chamadas dos pais do Jime que tinham o azar de viver dois andares acima, soltávamos as baforadas do cigarro mata ratos Kentucky, que comprávamos avulso no primeiro tasco que encontrávamos, e, acima de tudo, sonhávamos com palcos iluminados, multidões de fãs, apresentações brilhantes, fama, fortuna e glória. Éramos putos, tudo era permitido e os sonhos ainda eram possíveis.
As tardes lá passavam, o reportório ia ficando sofisticado e estávamos até a fazer algum sucesso entre os amigos. Principalmente entre as amigas, que era o que nos importava. Uma vez por outra alguns de nós lá engatavam alguma e conseguiam, com muita cautela e estratégia, levá-las às escondidas para o apertado espaço da borga vespertina. Se alguém visse a miúda a entrar naquele lugar, pronto, era mais uma reputação que se destruía pela ação das más línguas sempre em impiedoso plantão, e isso é que não faltava em Chaves. Lá dentro, entretanto, não tínhamos esse tipo de preocupação. Entre um beijo roubado aqui e um furtivo apalpar de mamas ali, lá íamos sonhando com a carreira de astros do Rock. Não me recordo ao certo de quem foi a ideia maluca, mas um belo dia, depois de mais um show de absoluto sucesso, onde descascámos os cabos de vassoura, rachámos alguns baldes e entortámos a velha Remington, alguém ponderou que já estávamos prontos para ter um conjunto a sério, com instrumentos reais, ensaios reais e músicas reais. Confesso, era realidade demais para mim e assustei-me, mas ninguém deu conta, ou fizeram de conta que não se importavam com esse detalhe. Jovem não tem tempo para medos e não se intimida facilmente com coisas como realidade, responsabilidade, ponderação, lógica ou bom senso. Na juventude isso são só detalhes que podemos controlar facilmente. Com a capacidade de sonhar que só génios ou ingénuos possuem, fomos em frente com o nosso delírio. Teríamos o nosso conjunto de verdade. No dia seguinte (como éramos ligeiros naquela idade!) alguém veio com a notícia de que havia um sujeito, um pequeno comerciante de Valpaços, que já havia patrocinado um conjunto de malucos como nós. O seu nome era Mourão. E tinha o equipamento completo, sem faltar nada. Dizia-se que se dispunha a alugar a parafernália para quem quisesse pagar o que ele pedia. Hoje, com o peso da maturidade a comprometer-me a capacidade de sonhar, mal posso acreditar que fossemos tão ingénuos ou tão malucos, mas o facto é que lá fizemos contacto com o referido Mourão. E como não sabíamos que aquela empreitada era impossível de realizar, fechámos o negócio, forçando a realidade a adaptar-se ao nosso sonho. Assim de simples.
A coisa foi mais ou menos desta maneira: o equipamento consistia num órgão italiano Farfisa, numa guitarra solo Fender, numa bateria Yamaha e num baixo também Fender. Amplificadores, colunas de som e sistema de vozes eram de segunda linha. Não era de todo ruim, estávamos até bem servidos, principalmente se levarmos em conta que nenhum de nós sabia tocar merda nenhuma. Eu tive umas aulitas de acordeão, como devem lembrar-se, e os outros, ou aprenderam viola na persistência, em casa, ou estavam munidos apenas da boa vontade e do optimismo característico dos que desconhecem os perigos da vida real. Enfim, a verdade é que sendo eu o mais velho do grupo, fui encarregado de assinar as letras promissórias referentes à tenebrosa transação.
O Mourão era um homem esquisito, portador de uma ligeira deficiência física, resultado de alguma doença congénita. Mas a sua debilidade física em nada lhe diminuia a argúcia para os negócios. Pensávamos até que, para fazer vincar a sua destreza de negociante, e para nos impressionar, se dava ares de mafioso. Era um sujeito atarracado, que andava com o corpo ligeiramente curvado e inclinado para a esquerda. Os seus dedos eram crispados. Estendia a mão flácida em forma de concha e mal conseguia cumprimentar as pessoas. O seu rosto não era totalmente simétrico, a boca inclinava-se-lhe ligeiramente para a direita e possuia olhos pequenos e esbugalhados. E era acometido de constantes e embaraçosos tiques faciais que tornavam impossível uma troca de olhares que durasse mais do que milésimos de segundo. O seu proeminente nariz, com a ponta fina a projectar-se na direção do queixo magro, completava o protótipo que o mais primário preconceito ditaria estarmos na presença de um tipo com uma cara com o qual não se deve fazer negócios. E a coisa agravava-se com a voz pouco nítida que emitia, entrecortada e distorcida como um disco de vinil de 78 rotações tocado em 33. Era muito difícil perceber o que dizia. Mas o que dizia era com tanta convicção que nós, embriagados pelo sonho de sermos astros do Rock, nem dávamos importância a esse detalhe. Por tudo isso, o nosso futuro empresário, em determinadas alturas, era comparado por entre alguns de nós como uma figura sinistra saída de um filme de terror dos mais rascas. Contudo, não era má pessoa. Os seus defeitos físicos não podiam pesar na nossa avaliação. Onde estava escrito que não se deve fazer negócios com pessoas que não encarnam propriamente a beleza humana? Ele, como empresário e comerciante, apenas aproveitou a oportunidade de ganhar uns contos de reis com uns pirralhos capazes de apostar as cuecas por um sonho juvenil. E olhem que digo as cuecas para não dizer o próprio rabo, pois todos ali éramos muito machos e não ia ficar muito escorreito eu ficar para aqui a dizer que éramos capazes de dar o rabo para ter nosso conjunto, percebem? O que é certo é que, com a sua conversa, e ajudado pela dificuldade que tínhamos em perceber exactamente o que nos dizia, só saímos duma importante reunião que tivemos depois de eu assinar um contrato que dizia que deveríamos pagar 12 letras de dois contos cada uma. Não sei a quanto isso corresponderia nos dias atuais, mas posso dizer que, se não era uma grande fortuna, era muito mais do que poderíamos pagar tocando num conjunto fictício, com uma agenda de shows inexistente. Só mesmo malucos como nós para aceitar uma coisa dessas. Mas aceitámos, e eu, menor de idade, fiquei, no negócio, como fiador dos nossos sonhos. Entretanto, para ser fiel à verdade, é preciso que eu esclareça um pequeno detalhe de cariz jurídico: ao assinar as letras, sendo menor de idade, o que, só por si, as tornaria nulas, ainda tive o cuidado de as datar como aceites em 30 de Fevereiro! Isso mesmo, 30 de Fevereiro, o que as tornava definitivamente sem efeito perante a Lei. Não é que eu não confiasse na nossa capacidade de pagar, não, nada disso. Mas, como dizem, o seguro morreu de velho e eu aproveitei para exercer ali o pouco que ainda restava da minha longínqua descendência judaica, não fosse o diabo tecê-las! Nada mau para quem não tinha onde cair morto e ainda vivia da esmola de um pai que tinha uma conveniente dificuldade em meter a mão ao bolso. Aliás, meter a mão ele metia, mas para tirá-la de lá com algum dinheiro, isso era uma dificuldade que me consumia preciosas horas dominicais e muita paciência!
Hoje eu tenho inveja daquele Rui capaz de ousadias como aquela, de fazer planos para ter sucesso na vida. Isso não nego. Feito o contrato, precisávamos de um lugar mais apropriado para começar os ensaios. Afinal, apesar de termos conseguido alguns meses de carência para começar a pagar a dívida, era preciso montar um reportório variado, e, o mais importante, fechar alguns contratos para actuações, o que nos garantiria o dinheiro necessário para cumprir os pagamentos combinados. Com sorte, quem sabe, talvez até sobrassem alguns trocos pra nós. Com sorte, muita sorte.
Mais ou menos naquela época soubemos da existência de um velho casarão, na Rua do Correio Velho, onde funcionava uma entidade chamada Centro de Juventude. Sinceramente não me lembro bem como aquela estrutura funcionava, mas sei que as despesas de manutenção deviam ser pagas pela Câmara, e que o espaço era uma espécie de centro cultural, onde havia ensaios de teatro, artes e outras actividades parecidas. Bem a calhar, o local servia como uma luva nos nossos planos. Depois de alguns arranjos feitos sei lá por quem, o certo é que nos mudámos com bagagens e sonhos para o dito casarão. Era um prédio antigo, com três pisos, com a fachada pintada de branco, janelas amplas e emolduradas por um recorte em alto relevo debruado em granito. No rés-do-chão eram protegidas por grades trabalhadas em ferro pintado de verde. A rua era estreita, com não mais que uns três metros de um passeio ao outro, e em paralelepípedo, como eram, e ainda são, todas as ruas do pitoresco centro histórico de Chaves. Ainda no rés-do-chão havia três grandes portas de madeira verde, e uma velha caixa do correio, pintada no vermelho característico dos postos de correio do mundo todo, e que dava certo charme ao edifício. Na verdade ali havia funcionado, por muitos anos, a sede dos correios, até que se mudou para o novo prédio no Largo das Freiras, ao lado do Aurora, bem em frente ao Liceu. No primeiro andar a fachada tinha cinco grandes janelas, com uma gradezinha decorativa na extremidade inferior, imitando pequenos avarandados. No terceiro e último piso, onde instalámos o nosso quartel-general, havia uma varanda de grades verdes, em toda a extensão do edifício, cujo acesso se fazia por cinco grandes portas de madeira. O local era antigo, mas tinha estilo, e o mais importante: não pagávamos nada, era tudo à borla. As nossas tardes de Addox Club tinham sido transferidas para a nova direcção. Estávamos alçando vôos bem mais altos, e arriscando tombos igualmente maiores, mas nada disso importava. Estávamos felizes, empolgados, aproveitando cada segundo das nossas vidas como jamais voltaríamos a fazer. Para que pudéssemos seguir em frente com os nossos planos, no entanto, faltava escolher um nome para a banda. Afinal, já éramos quase profissionais, estávamos em busca de contratos para actuações, era preciso um nome. E tinha que ser depressa, como tudo o que fazíamos.
XVIII The book is on the table
Sempre gostei muito de criar nomes, marcas, slogans. Acho que devia ter sido publicitário, mas como não consegui, dois dos meus filhos fizeram isso por mim e escolheram essa profissão, coitados!
Pus-me a pensar num nome que fosse do agrado de todos, mas eu tinha alguns pré-requisitos. Queria um nome em português. Apesar de gostarmos de música estrangeira, não me agradava a ideia de dar nomes gringos ao nosso conjunto. Éramos patriotas, e eu, pessoalmente, já tinha um gosto especial pela nossa língua. Gostava de ler e de escrever e queria um nome nacional. Tinha que ser inédito, sonoro, forte, que não fosse preciso pronunciar duas vezes para ser entendido. Os publicitários diriam que estou a descrever as características de uma boa marca comercial, e era isso que eu buscava. Mas queria também algo que estivesse relacionado com a música, e, principalmente, que nos conectasse com aqueles tempos de erupção criativa, aquela época de grandes bandas, de um som que nunca mais pôde ser imitado. Não era tarefa fácil, mas eu sabia muito bem o que queria, e não hesitaria em lançar mão da minha habilidade para fazer com que os outros aceitassem as minhas opiniões. Eu era bom nisso, em convencer os outros, podem acreditar. Mas também não era raro que os outros aceitassem a minha opinião por falta de argumentos melhores, foda-se, o resultado era o mesmo. Uma bela tarde eu estava entretido a ler uma revista de música enquanto esperava que a malta chegasse. Lia uma matéria sobre o aniversário do famoso Festival de Woodstock, aquele que reuniu grandes nomes da música entre 15 e 17 de Agosto de 1969, numa fazenda de Bethel, em New York, e que foi projetado para receber 50.000 pessoas, mas ao qual compareceram mais de 400.000, o que transformou o evento numa enorme baderna, com muito sexo, drogas e Rock’n Roll. Para que os mais novos ou desinformados possam ter uma ideia da importância do festival basta olhar alguns dos nomes que lá se apresentaram: Carlos Santana, Joe Cocker, Janis Joplin, Joan Baez, Ritchie Havens, Grateful Dead, Creedence Clearwater Revival, The Who, Ten Years After, Blood Sweat & Tears, e o lendário Jimmy Hendrix, entre muitos outros.
Estava eu a ler aquela matéria, entretido com algumas curiosidades do evento, quando percebi que o texto acabava, e logo abaixo, no rodapé da página, estava escrito, entre parêntesis: “Continua na página 12”. Doido para continuar a leitura folheei apressadamente a revista até à página 12, que começava com o seguinte cabeçalho: “Woodstock – (Conclusão)”. Pois muito bem. Cabe aqui explicar que meus conhecimentos de inglês iam pouco além do mundialmente famoso “The book is on the table”, e que, apesar de tentarmos cantar em inglês, usávamos um idioma inventado, decorado pela sonoridade das palavras, por aproximação, sem fazermos a menor ideia do que significavam as letras. Pelo menos a maioria de nós. Talvez o Paulo Ribeiro, com sua cultura musical acima da média, percebesse alguma coisa, não sei, mas nós, éramos como papagaios. A coisa era mais ou menos neste nível: se a letra original fosse “all my sorrow, said tomorrow”, nós não tínhamos dúvidas e cantávamos “ómai sórro, sétomórro” sem ter a mínima ideia do que cantávamos! Dito isto posso agora explicar que a palavra “conclusão”, citada acima, era usada naquela matéria, no título, no sentido óbvio de “continuação”, ou “finalização da matéria iniciada algumas páginas atrás”. Naquele dia, não sei bem por que, isso para mim não estava nada óbvio e eu fiz uma grande confusão. Com o meu inglês “afiadíssimo”, interpretei que o termo “conclusão”, pela sua posição no título, era a tradução literal de Woodstock. Pronto, perfeito. Tinha encontrado o nome do conjunto. Haveria alguma coisa mais forte, mais sonora, mais ligada à música e aos nossos valores, do que o festival de Woodstock? Nem pensar! Como eu insistia em não aceitar um nome em inglês para a banda, nada mais adequado do que dar-lhe um nome imponente e lendário como Woodstock, mas na língua pátria, ou seja, em bom português: “Conclusão”. Maravilha! Não havia o que discutir. Esperei que a malta chegasse e anunciei solene e orgulhosamente que já tinha escolhido o nome do conjunto: seria o Conclusão. Não me lembro se algum deles discordou depois de ouvir a minha impressionante aula de inglês, mas se o fez, eu não ouvi, e como era eu que tinha assinado as letras do contrato, dei a mim mesmo o direito de tomar algumas liberdades. Nunca pensei que o nome da minha primeira banda pudesse ser o resultado de um folclórico erro de tradução, de um escorregão homérico, de uma ignorância constrangedora. Mas que o nome ficou lindo, lá isso ficou, e nós, irresponsáveis e felizes, finalmente começámos a ensaiar o reportório que nos levaria à glória tão sonhada, ao estrelato, à fama e à fortuna. Ou não. Como diz o cego: a ver vamos!
XIX As tardes no Centro de Juventude
Por aqueles dias, preocupado com a minha inexperiência musical, buscava uma forma de aprender a tocar teclados sem precisar enfrentar, de novo, as malditas aulas de solfejo. Eu tinha algumas noções de teoria musical, trazidas ainda do tempo dos professores Pereira e José Firmino. Conhecia a escala do teclado pela sua semelhança com o acordeão. Sabia ler as notas, embora com alguma dificuldade, o que não me permitia tocar com partitura. Quem veio em meu socorro foi o Irineu, que me lembrou que no Liceu, lá no anfiteatro, uma sala em declive com largas janelas voltadas para a Rua de Santo António, e onde tínhamos aulas de canto coral, havia um velho órgão de foles, mecânico, de madeira, já um pouco desafinado por tantos maus tratos. Achei que a situação exigia um esforço especial da minha parte, afinal, tinha assinado algumas polpudas letras promissórias e era melhor eu levar a coisa a sério antes que a realidade batesse à minha porta na forma de um oficial de justiça. Passei a internar-me naquele anfiteatro, sozinho, todas as tardes depois das aulas. Consegui autorização do Liceu para frequentar o espaço em horário especial, e lá passava as tardes às voltas com aquelas velhas teclas amareladas, movimentando os pedais em sentido cruzado, de forma a que o ar, ventilado para dentro da caixa de madeira do órgão, fizesse soar as notas ainda envergonhadas que eu era capaz de produzir com a minha (pouca) habilidade. Em algumas semanas eu já acompanhava razoavelmente alguns dos sucessos com que pretendíamos compor o reportório do Conclusão. Não podiam faltar o “Something” e o “Yesterday” dos Beatles, o “Smoke on the water” do Deep Purple e, claro, o “July morning” do Uriah Heep, entre outros. Aos poucos, ainda hesitante e errando muito, mas com uma vontade enorme de acertar, lá fui ganhando a confiança das teclas e dos colegas de conjunto. Em pouco tempo descobri-me líder do Conclusão. A história ensina-nos que a principal razão das desavenças nas bandas de Rock é a disputa pela liderança, os choques frequentes entre egos muitas vezes maiores do que o talento, a comburente fogueira de vaidades. Conosco o clima era pacífico. Por alguma razão os meus amigos aceitavam a minha liderança e as coisas corriam às mil maravilhas, sem grandes sobressaltos. A verdade é que os nossos laços eram muito fortes e bem estruturados, daquele tipo de conexão que só se faz antes dos 20 anos de idade. Alguns daqueles miúdos, como já contei aqui, tinham sido alfabetizados com a minha ajuda nos velhos tempos de escola da Lapa, nas aulas austeras do professor Amílcar. Acho que havia respeito, admiração e afinidade emocional muito bem resolvidas entre nós. São coisas das quais sinto muita falta hoje, perdido no meio de uma rotina alucinante e cujos contactos são mais virtuais que reais, fazendo com que as novas amizades, por vezes, não durem mais do que trovoadas de Verão, enquanto as antigas vão se acomodando nos escaninhos da memória já preguiçosa.
Mas lá continuava a praticar no velho órgão de foles do Liceu, aprimorava-me na execução das músicas que mais gostava, e, ao mesmo tempo, ia engatando firme um namoro com uma colega de escola, que ninguém é de ferro! O facto de, com a mudança dos ensaios lá para o Centro de Juventude, termos conseguido um excelente lugar para namorar longe dos olhos curiosos das alcoviteiras de um meio pequeno como Chaves, era tentador e dava mais sustentação a um namoro que, não fosse isso, corria o risco de morrer por falta de oportunidades. Agora as coisas podiam ser diferentes. Era uma maravilha, levávamos as gaijas para o ensaio, e, antes de nos dedicarmos à música propriamente dita, tentávamos dedilhar instrumentos bem mais sensíveis e interessantes. Era bom, juntávamos o útil ao agradável como soe dizer-se. Nessa época comecei a namorar a Telma Rodrigues, filha da Dra. Mariazinha, a minha professora de História, e do Dr. Rodrigues, médico da minha família. Podem imaginar o tamanho do embaraço? Outros casais se formaram. O Paulo Ribeiro, que agora frequentava os ensaios diariamente, namorava a Jú, filha do Dr. Júlio Montalvão Machado, famoso oftalmologista, de família tradicional na cidade. O Herlander, outro amigo desse tempo, namorava às escondidas a Carla, irmã da Telma, que tinha apenas 12 ou 13 anos, apesar do seu corpo e a sua personalidade aparentarem bem mais que isso. O Hélder e o Jime também tinham os seus namoricos, mas não me recordo bem qual era a moça da vez, já que esses dois, sempre com ar de galãs de filme noir, variavam muito as suas companhias. Pode ser que o Hélder já namorasse a Dulce, uma loira de olhos verdes e de corpo escultural que, mais tarde, passaria também pelas minhas mãos, no bom sentido, claro. O meu namoro com a Telma já durava um bom tempo para nossos padrões, talvez meia dúzia de meses. Embora enfrentasse alguma resistência por parte da família, que não gostava muito de ver a filha querida envolvida com um singelo filho de taxista, a verdade é que era uma resistência muito mais simbólica, inconsciente, do que propriamente uma oposição ao relacionamento. Talvez implicassem mais com a pouca idade da filha do que propriamente com a seriedade do relacionamento. Preferiam encarar a coisa como amizade entre colegas de escola, não havia grande motivo para preocupação. No fundo, tanto a D. Mariazinha como o Dr. Rodrigues tinham um profundo apreço pela minha família, e o meu pai até lhes prestava serviços regularmente, sendo considerado mais como amigo do que como motorista de táxi. O respeito sincero pela minha família, que embora sem fortuna, era de boa cepa, tinha berço e origem tradicional na cidade, também contribuía para que fechassem os olhos para o nosso namorico, que julgavam inocente. A própria D. Mariazinha, considerada uma professora rígida, austera na atribuição das notas, sempre me tratava com carinho, muitas vezes ajudava-me mais do que eu merecia. No rescaldo dos atribulados acontecimentos do 25 de Abril, inclusive, para que eu passasse no difícil 5º Ano no Liceu, foi de grande ajuda a nota alta que me deu, com indisfarçável condescendência. Eu não era mau aluno em História, mas ela, reconhecendo as minhas limitações em outras disciplinas que podiam comprometer a minha progressão escolar, soube oferecer-me a sua generosidade, elevando a média das minhas notas, tornando possível a passagem para o ano seguinte. Nessa época, para ser justo, também pude contar com o mesmo tipo de ajuda por parte do arquitecto Inácio Souto, meu professor de Desenho, e pai da minha primeira namorada, a Manela Souto, ainda nos tenros e inocentes anos da infância na Rua da Ponte. As coisas eram assim. Toda a gente se conhecia, o roto falava do esfarrapado, mas, no fim, todos se entendiam e lá se ia vivendo, sem grandes perspectivas e sem grandes sonhos, é verdade, mas, em compensação, sem grandes sobressaltos também. Era uma existência medíocre, podem dizer alguns, mas isso só seria possível avaliar se tivéssemos tido a oportunidade de conhecer coisa melhor, e esse não foi o caso.
Telma era uma rapariga mais interessante que bonita. Inteligente, bem humorada, carinhosa e ciumenta. E que mulher não é, dirão alguns? É preciso perceber o contexto para se poder avaliar corretamente essa característica intrinsecamente feminina. Numa cidade pequena da província todos se conhecem pelo nome ou pela família. Arroubos apaixonados ou exibições de carinho em público não são bem vistos. Havia poucos homens interessantes, a maioria eram rapazes oriundos do meio rural, sem nenhum refinamento, sem o traquejo necessário para encantar uma mulher da cidade. Isso fazia de nós, rapazes educados da cidade, produto escasso. Não tínhamos dificuldade em arranjar namorada, embora, às vezes, nos esquecêssemos de avisar a própria de que estávamos a namorar com ela! E ter namorada tampouco significava ter direito a intimidades que fossem muito além do disfarçado rouço no jardim do Tabolado, ou nos bailaricos na garagem de algum amigo. De qualquer forma éramos mais disputados do que os labregos das aldeias, e havia muitos, e costumávamos tirar proveito dessa vantagem com uma crueldade que só o ser humano é capaz de demonstrar. Nunca é demais lembrar que éramos adolescentes ainda desprovidos do pesar da consciência, sábia companheira do bom senso. Depois que nos transformamos em músicos, alcançando alguma notoriedade local, as coisas pioraram, ou melhoraram, depende do ponto de vista! O assédio era maior, as oportunidades sucediam-se, e a testosterona ficou mais difícil de conter dentro da carcela. Em determinados momentos a petulância era a nossa bússola, e a soberba o nosso refúgio. Coitadas das namoradas. Deixavam-se levar pelo sonho do amor eterno e apaixonado, mas não faziam mais do que servir de alimento para a nossa desaforada vaidade. Mas no geral o meu namoro corria bem. Não estávamos apaixonados, já havíamos ultrapassado essa fase possessiva e ardilosa, mas gostávamos da companhia um do outro e aproveitávamos cada momento. Telma, embora de baixa estatura e levemente acima do peso, tinha pernas bem torneadas e um farto par de seios acolhedores e macios que perturbavam o meu sono umas dez vezes por semana! O seu apetite por carinho era uma tentação constante, e ela sabia como elevar a minha temperatura a níveis perigosos. Mas o sexo não era nosso objectivo declarado. Estava lá, sempre presente, mas era mais um troféu a ser conquistado com o tempo, com estratégia e paciência, do que uma meta urgente e inadiável como nos dias de hoje. Entre uns beijitos aqui e uns apalpões ali, lá íamos controlando nossa libido, e mantendo o desejo sufocado dentro das calças. Para prazeres mais intensos e proibidos, como quase toda a gente naquela fase, recorríamos, com uma frequência quase compulsiva, à velha e tradicional segóvia, e olha que não me refiro à cidade espanhola, percebes? O cenário em que normalmente namorávamos também não permitia grandes ousadias, era preciso, portanto, encontrar alternativas.
Normalmente gastávamos o tempo livre em longas conversas no banco da praça, de mãos dadas e lábios emprestados. Também dávamos furtivos passeios pelo Jardim do Tabolado, junto à margem direita do Tâmega, ou pelo Jardim Público, no correr da margem esquerda, no bairro da Madalena, ambos já citados aqui em outras oportunidades. Eram lugares um pouco mais escondidos e cheios de cantinhos discretos, onde podíamos dar mais liberdade às mãos ligeiras, e consolar as bocas sôfregas de tesão. Fora isso, um baile ou outro na garagem de alguém, numa tarde de sábado ou domingo, onde, no máximo, as miúdas consentiam em deixar-nos sentir o volume das mamas, por cima do sutiã, claro. O que fosse além disso era motivo para comemorar e rendia horas e horas daquelas conversas que só os adolescentes sabem ter. Homens maduros não se entregam a esse jogo da verdade, preferem contar aos amigos detalhes excitantes de aventuras sexuais que nunca tiveram. Ai valha-me Deus!
A garagem do Hernâni Castro Lopo, ali no prédio próximo à Praça do Brasil, era o nosso local preferido e muitas coisas aconteceram ali pela primeira vez. Mas eram coisas inocentes, carinhos mais ousados, mas inofensivos, enfim, um aprendizado de que mais tarde, muito mais tarde, todos sentiríamos saudades. Nesses antigos bailes de garagem, assim como naqueles que passámos a fazer amiúde na privacidade proporcionada pelo Centro de Juventude, usávamos pequenos truques para obter prazeres mais prolongados e menos permitidos. A primeira providência, para evitar problemas futuros em casa, era envolver a piroca com um lenço, daqueles de assoar o nariz. Isso dava mais volume, o que, na nossa ingénua imaginação juvenil, agradava às raparigas fazendo-nos parecer mais másculos, e evitava que fluídos inevitáveis vazassem para as cuecas, denunciando às nossas mães, quando da lavagem da roupa íntima, os nossos prazeres proibidos, os nossos orgasmos não consumados, embora insistentemente perseguidos. Outro pequeno artifício de que lançávamos mão, era gravar as músicas lentas (e só queríamos músicas lentas, claro) repetidas vezes, colando o final de uma no princípio da outra, de forma a resultar numa seleção de slows (era assim que se chamavam as músicas lentas) que nos permitia ficar agarrados às miúdas por mais de quinze ou vinte minutos sem intervalo. Para isso, claro, era fundamental usar o gravador de cassetes e não o gira-discos. Vez por outra, naquele silêncio comprometedor que acompanhava as nossas selecções de slow, ouvia-se, aqui e ali, entre um acorde de Paul McCartney e um falsete de Andy Gibb, um gemido incontido, fruto de algum avanço de mão mais atrevido, sutiã adentro. Aquilo era um incentivo para que os outros se aventurassem com carinhos cada vez mais ousados, não raras vezes provocando aquele farfalhar de roupa, aquele som de respiração ofegante, entrecortada, próxima do limite. Protegidos pelo escuro daquela sala dançávamos lentamente, tentando levar a rapariga até à parede mais próxima, onde seria mais fácil conseguir o mel que nossa boca buscava ao debulhar aquele corpo jovem e firme. Com o anteparo da parede a facilitar-nos o movimento de vai-vem, aquilo era o mais perto que conseguíamos chegar do sexo de verdade. Era um regalo, era bem melhor do que o sexo insosso e fácil de hoje, isso eu posso garantir. Para nós era suficiente. Afinal, aos 17 anos de uma época bem mais romântica do que a de hoje, estávamos a fazer aquilo que mais gostávamos: transgredir. Não demoraríamos a descobrir que existiam prazeres bem mais intensos ao nosso alcance. A nossa inocência estava cada vez mais perto do fim, mas o importante é que ainda não sabíamos disso. Aliás, nem que éramos inocentes. Para os padrões em que tínhamos sido educados, achávamos que nosso comportamento era o de verdadeiros libidinosos pecadores. Ai como era bom!
Naquelas tardes do Centro de Juventude aprendemos muito, e não foi só música. Arrisco-me a dizer que alguns de nós aprenderam a ser gente entre aquelas velhas paredes. Principalmente com a ajuda dos sacos-cama ou sacos de dormir que levámos para lá depois de algumas semanas. Uma das salas ficou a parecer um acampamento militar, com os pequenos colchões alinhados lado a lado. Quando estávamos a ensaiar para ser homens, no escuro, perdíamos a noção de espaço e o quarto ficava pequeno, permitindo o encontro de pernas, algumas cotoveladas involuntárias e infindáveis gargalhadas. No fim, tudo acabava em brincadeira, e, para tranquilidade das mães das meninas, o sexo grupal, tantas vezes insinuado, nunca passou de remota fantasia. Hoje divirto-me a pensar que boa parte daquelas miúdas atrevidas já são avós cheias de responsabilidades. É mais uma vez o tempo a esmigalhar-nos os sonhos.
XX O Conclusão – Primeiro Conjunto.
Os ensaios prosseguiam em ritmo acelerado nas instalações do Centro de Juventude. Eram tardes movimentadas, cheias de novas emoções, muito tabaco, disputas por acordes, letras, volume dos instrumentos e reportório. Carlos Pimentel, amigo de longa data, com aspecto de milongueiro argentino e uma bela voz com propensão para o vibrato à italiana, juntou-se a nós e assumiu os vocais. Era preciso profissionalizar e achámos melhor ter conosco um aspirante a astro da música, alguém com boa estampa, presença de palco, disponibilidade, e, é claro, que tivesse algumas qualidades vocais. Não poderíamos fazer escolha melhor. Com Carlos Pimentel passámos a contar com performances quase acrobáticas no palco, além das deliciosas piruetas vocais. Tínhamos descoberto mais um talento adormecido. O nosso reportório, por uma questão de sobrevivência num mercado extremamente conservador, ia do Pink Floyd ao Malhão, passando por composições espanholas, Rock tradicional, Bossa Nova, Tango, baladas, enfim, tocava-se o que o público queria ouvir. Mas tínhamos, claro, nossas preferências, as músicas que sentíamos prazer em tocar. Curiosamente, elas nunca eram as que o público gostava de ouvir, e isso trouxe alguns dissabores. Uma das peças de resistência do nosso restrito cardápio musical era um tema espanhol chamado “Donde Vás Chiquilla”, composto por E. Lara e gravado por muita gente de todas as épocas, como o Grupo Samurai, Los Honorables, e outros. A canção era melosa, piegas até, mas com um desenho melódico fácil e uma letra açucarada que agradava em cheio aos corações ingenuamente apaixonados daqueles tempos. Numa tradução aproximada, os seus primeiros versos diziam assim:
Onde vais menina,
Onde queres ir,
Fica aqui comigo,
Eu te farei feliz,
Onde vais menina,
Que é de noite já,
Dorme em meus braços,
Amanhã irás…
O refrão, mais meloso ainda, era assim:
Eu te direi que te quero,
Que necessito o teu amor,
E que desejo o teu corpo,
Teus beijos e teu calor.
Já dava para perceber que na voz de um melodramático como o Carlos Belo, a coisa ia dar o que falar. No palco, ao interpretar esta música, o Pimentel semicerrava os olhos, fazia beicinho, caras e bocas. No refrão apoiava-se num dos joelhos, e, em tom de súplica, encarando nos olhos a primeira catraia que se aproximasse do palco, disparava o refrão (agora no original): “yo te diré que te quiero, que necesito tu amor, y que deseo tu cuerpo, tus besos y tu calor”. Era um show, uma apoteose, um acontecimento. Lágrimas para todo lado, aplausos, e gritinhos frenéticos. Nós, fazendo muito esforço para não rir, olhávamos uns para os outros com ar de “digo eu vá, sei pouco” e atacávamos no backing vocal. Só mesmo vendo a cena para avaliar o terremoto emocional que aquilo causava nas raparigas mais românticas, a derreter-se na frente do palco, sonhando acordadas, em êxtase, com noites eróticas ao lado do nosso vocalista galã! Ele não se fazia de rogado, cumpria o seu papel a rigor, gostava daquilo, entregava-se, curtia os seus quinze minutos de fama com toda a propriedade e classe.
O nosso primeiro contrato de verdade foi num baile de finalistas do curso técnico da Escola Comercial e Industrial de Chaves, o que era uma tremenda responsabilidade. Mas tudo correu dentro do esperado: tocámos mal e não agradámos a ninguém, nem a nós! Nada a declarar. Entretanto, a segunda apresentação que fizemos algumas semanas depois, essa sim, foi um sucesso que merece ser contado.
Fomos contratados para tocar na festa de Águas Frias. Como sabem é uma aldeia antiga, habitada por gente generosa, que gosta de receber bem, e que se orgulha de seu passado histórico. Apesar de ser apenas um pequeno aglomerado rural, na época com menos de mil habitantes, já tinha importância histórica pela existência do Castelo de Monforte nas suas cercanias. Enfim, embora a poucos quilómetros de Chaves, a sua população, naquela época, cuidava das lides domésticas, dedicava-se à lavoura de subsistência e, uma vez por ano, no Verão, como até hoje se faz, festejava alegremente o seu santo padroeiro, o São Pedro, com uma festa que era esperada por todos com ansiedade.
Naquele ano, 1973, salvo erro, fomos contratados para abrilhantar o arraial, ao lado da banda de Rebordondo, Vila Verde, Loivos ou mesmo “Os Pardais”, de Chaves, não estou bem certo, mas devia ser uma destas. É oportuno explicar aos mais novos que as festas típicas de Trás-os-Montes, os famosos arraiais, sempre aconteciam num sábado à noite, mais ou menos das 22h00 às 04h00. A festa continuava na tarde do domingo, entre as 15h00 e as 22h00. Havia fogos de artifício, barracas, procissões, muita comida, muita poeira, alguns namoricos e bastante bebida, que ninguém é de ferro! Tradicionalmente eram contratadas duas atrações musicais: uma banda de música e um conjunto musical. A primeira, obviamente, era mais para os adultos, para os mais velhos, tocava pasodobles, valsas, marchinhas, enfim, música para dançar agarrado, e outras mais espevitadas que faziam toda a gente rodopiar e levantar poeira. Claro que isso dava muita sede, e tudo era desculpa para mais um copo do tinto ou, como era dia de festa, uma cerbeijola. Ora pois! Já o conjunto, com o seu reportório mais moderno, interpretando músicas em inglês e espanhol, era mais apreciado pelos jovens e para eles tocava. Isso não significava que não tivéssemos que interpretar temas regionais, músicas do cancioneiro popular português, enfim, canções de que não gostávamos tanto, mas que agradavam à maioria. Era preciso levar em conta também, na escolha dos temas, que eram os mais velhos que pagavam a conta, que assinavam o contrato. Um bom desempenho este ano, podia significar contrato assinado para a festa do ano seguinte. Resumindo, era preciso agradar a gregos e troianos com a mesma competência, ou, no nosso caso, com a mesma sorte, se preferirem. Pena que ainda não sabíamos disso, pois estratégias de marketing e atuação de mercado orientada para o cliente eram conceitos ainda muito longe de nossa compreensão.
Naquele ano, como a aldeia era quase um subúrbio da cidade, achámos que o público aceitaria melhor algumas músicas mais de vanguarda, como Pink Floyd ou Uriah Heep, que eram as que mais gostávamos de tocar. A noite de sábado correu dentro da normalidade. Tocámos música variada, procurámos equilibrar entre temas agitados e lentos, estabelecemos uma razoável comunicação com a audiência jovem, sem,