Rui   Carvalho  { Vox Comunicação & Marketing}

CRÔNICAS

CRISE DE IDENTIDADE!

by on mai.19, 2011, under CRÔNICAS

Afinal, eu trabalho em quê?

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 Sempre que me perguntam o que eu faço na vida fico aflito. Não sei como responder. Engulo em seco tentando ganhar tempo, na tentativa de achar um nome adequado à minha profissão. Não que seja difícil o que faço! Não é fácil é encontrar um termo único e completo que o defina e todo mundo entenda! Ser engenheiro, advogado, jornalista, médico, administrador e tantas outras profissões existentes no amplo espectro das atividades regulares que conhecemos é muito mais fácil. Mas no meu caso a coisa complica.

Lembro-me que isso não é de agora. Quando meu filho era criança e ainda morava comigo, queixava-se de não saber responder aos amigos que lhe perguntavam o que o pai fazia. Minha filha, bem mais tarde, já adolescente, sentia a mesma dificuldade. Imaginem vocês se ela respondesse a verdade. “Mari, o que o seu pai faz?”. “Meu pai é executivo de convention bureau”. Pimba, assim de chofre, sem preparo nem nada. O que acham que acontecia? É claro que a amiguinha entenderia apenas a parte do “executivo” e ficaria com a falsa idéia de que eu ocupava um cargo importante numa multinacional qualquer. Foi sempre um transtorno explicar às pessoas a minha profissão, pois sempre que tento sou obrigado a dar uma palestra antes que a pessoa entenda exatamente em quê ocupo meu dia a dia. Já menti um pouco para não ter que explicar muito. Tentei de tudo para facilitar a vida dos outros e não criar constrangimentos. Como, no fundo, trabalho com comunicação, mantenho um site e escrevo artigos, resolvi dizer que era jornalista. Não adiantou, sempre perguntavam em qual jornal ou revista eu escrevia ou para qual TV eu fazia reportagens. Como também trabalho com marketing de destinos e institucional, às vezes tentava um “sou marketeiro”, ou “executivo de marketing”. Não adiantava nada, logo vinha a pergunta: “e você trabalha em qual agência?”. Coisa chata isso! Pensando bem, achei que era melhor dizer que trabalhava com promoção turística, o que também é verdade. A pergunta do interlocutor então era: “em qual operadora você trabalha? Vende pacotes, é?”. Chega. Cansei. É muito chato ficar falando por cinco minutos para explicar uma coisa tão simples. Sou executivo de convention e visitors bureau, que são entidades privadas sem fins lucrativos que se dedicam ao desenvolvimento econômico e social dos destinos que defendem, atuando na captação e apoio a eventos, e fazendo a promoção da infra-estrutura e dos atrativos turísticos. Pronto, aqui está a palestra de novo! Sacaram a ironia? Não há saída.

Esta ainda é uma área pouco conhecida do grande público e que causa confusão até entre muitos profissionais do turismo. A verdade é que os conventions nem são entidades do turismo, pois atuam como ferramentas de marketing e promoção. O ideal é que o executivo de convention seja um bom comunicador, um relações públicas, alguém com habilidade para estabelecer alianças entre concorrentes, fazer articulações em nome de uma cidade ou região com o objetivo de aumentar o fluxo de visitantes (levar mais pessoas para lá), o que se faz atraindo eventos e turistas. O importante é entender que o turismo é o meio e não o fim, pois com o aumento do número de visitantes a cidade movimenta a economia, impactando dezenas de pequenas atividades e promovendo o desenvolvimento econômico e social, gerando emprego e renda para a população. Este, sim, é o objetivo final do que fazemos. O turismo, a captação de eventos e a promoção dos atrativos são a ferramenta, o meio que utilizamos para alcançar o fim. Mas como explicar isso a alguém numa só palavra? Qual a profissão que se encaixa perfeitamente no que fazemos? Sinceramente, até agora não descobri e continuo sofrendo sempre que alguém me pergunta o que faço na vida.

Meus filhos já desistiram de tentar explicar e respondem apenas com um genérico, mas eficiente “meu pai mexe com turismo”. Pronto, resolveram o problema deles, mas o meu continua, incomoda, atrapalha muito um virginiano como eu, que gosta de tudo no lugar certo e devidamente etiquetado. Eu sei, provavelmente estou exagerando! Sou assim, gosto de extremos, sou dado a exageros mesmo. Mas como precisava dar uma resposta concreta e rápida às pessoas que sentam ao meu lado no avião nas constantes viagens que faço, lembrei-me de juntar o útil ao agradável. Já escrevi um livro profissional, sobre convention bureaux e outro, um romance autobiográfico, em que descrevo os meus primeiros vinte e um anos de vida. Nenhum deles ainda publicado, mas, enfim, escritos e divulgados no meu blog, e o que é mais importante, aprovados por quem já leu. Desde então costumo responder que sou escritor. É charmoso, é solene, e deixa as mulheres mais dispostas ao diálogo, facilitando muito as coisas, se é que me entendem! Assim mesmo, logo depois dos olhares de admiração e curiosidade, não escapo nunca da terrível pergunta: “e que livros você já publicou?”. Caramba, mas nem assim eu tenho sossego? Não me deixo abater pelas dificuldades. Tenho a resposta pronta: “meu anjo, quem publica é editor, eu disse que era escritor, ou seja, eu escrevo!”. Pronto, fatura liquidada. Uma gargalhada sincera ou um franco sorriso costumam ser a resposta mais comum que recebo perante argumento tão definitivo. Dou o endereço do site, convido a ler meus textos e a conversa segue sem problemas, muito facilitada pela aura de romântico que todo escritor parece ter para as mulheres que sonham em ter sua vida descrita num folhetim. Ao final, entretanto, quando fico sozinho, não consigo furtar-me à inconveniência de minha consciência absolutamente pragmática de virginiano que insiste em perguntar: “Porra, afinal tu faz o quê da vida, hein?”. Desisto. Vou dormir.

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RECEITA DE FRANGO COM UÍSQUE

by on mai.06, 2011, under CRÔNICAS

           Não faça esta receita na frente das crianças! 

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Ingredientes:

  •  01 garrafa de uísque (do bom, claro)
  • 01 frango (ou melhor, franga!) de boa procedência com aproximadamente 2 Kg
  • Sal, pimenta, cheiro verde e nozes moídas a gosto
  • 350 ml de azeite extra virgem

 Modo de Preparo:

Regue o frango com meio copo americano de uísque e deixe descansar por cinco minutos numa assadeira. Aproveite e beba você um uísque sem gelo. Em seguida tempere o frango com o sal, pimenta e cheiro verde a gosto. Massageie o dito cujo com o azeite virgem até que fique completamente untado. Depois, envolva-o em papel alumínio e deixe descansar por 5 mais minutos. Aproveite e tome outro uísque só com uma pedrinha de gelo, para acalmar.

Pré aqueça o forno a 180 graus por 10 minutos. Sirva-se de outra boa dose de uísque caubói enquanto aguarda. Use as nozes como tira gosto. Seu, e não do frango! Se os pedacinhos das nozes incomodarem no meio dos dentes, não use fio dental, tome outro uísque, desta vez bochechando antes de engolir.

Coloque o frango numa assadeira grande, untada com manteiga de garrafa. Lave as mãos e sirva-se de mais duas doses de uísque, mas é melhor fazer isso sentado. Olhe para o painel do fogão, procure achar o botão do forno e axuste o terbostato na marca de 3, que fica entre o 4 e o 2. Se não achar, tome mais um gole do uísque que ela aparece fácil.

Depois de uns vinch binutos bote o galináceo para assassinar, digu: assar. Derrube mais uma dose de uísque (na sua goela, claro). Depois de meia hora, espreite bela abertura do vorno e gontrole a assadura da ave. Tente zentar na geladeira, servir-se de ouuuuuuutra dose sarada de uísque.

Cozer? Costurar? Cozinhar, sei lá, voda-se o vrango. Deixaaaaaá o vilho da buta do pato no vorno por umas 4 horas e termine o garaio da garrafa. Tente retirar a bosta do vrango do vorno sem guemar a mão, garaio! Mande mais uma boa dose de uísque para dentro, de você, claro. Tente tirar novamente o sacana do vrango do vorno, já que na primeira tentativa daaaaão deeeuuuuu.

Begue o vrango que caiu no garaio do jão e goloque-o numa pandeja ou qualquer outro borra, bois avinal você nem gossssta muuuiito desssaaa bosssstaaaa besmo, falou? Hic..hic…

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SER OU NÃO SER?

by on mai.06, 2011, under CRÔNICAS

Crônica de Rui Carvalho escrita em 2007

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Responda rápido: o que te incomoda mais? Ter dúvidas ou falta de certezas? É melhor morrer ou perder a vida? Você prefere decidir errado ou adiar a decisão indefinidamente? Magoar quem você gosta ou se magoar?

Pois é, nossa cabeça coloca-nos perante dilemas que nem sempre conseguimos avaliar com isenção. Talvez nem sejam dilemas, afinal. Mas ainda que disfarçadas de coisas simples são questões primordiais para nosso equilíbrio diário. A maneira como nosso caráter foi forjado, lá na infância, tem muito a revelar sobre nossos processos de decisão. Raciocínios tortuosos, enviesados, por vezes, disfarçam falhas de caráter ou desvios de personalidade quase imperceptíveis, mas eles estão lá, à espreita, apenas aguardando uma oportunidade para atazanar nossa vida. Nosso cérebro é mestre em criar armadilhas para nos confundir.

O problema é que estamos falando do nosso cérebro e não do cérebro de outra pessoa! Isso pode significar que nós mesmos armamos estratagemas para nos testar a toda a hora. O curioso é que raramente passamos nos testes, embora, freqüentemente, falsifiquemos os resultados para amenizar nossas dores de consciência. Vai entender!

Ainda assim há pessoas que teimam em se enganar, ou melhor, em tentar enganar seus cérebros, esquecendo o óbvio: o cérebro é que está no comando da gente e não a gente no comando dele! Daí resulta que de nada adianta refugiar-se na elasticidade da consciência para iludir o pensamento. Na verdade, com perdão da frase feita, ninguém é capaz de fugir de si mesmo. Muitas vezes tentamos, mas tudo que conseguimos é provocar mais dúvidas ou incertezas, avanços e retrocessos, no máximo, ziguezagues estonteantes. É mais ou menos como regime para emagrecer. No início todos parecem milagrosos, prometem maravilhas, mas, com o tempo, revelam-se inúteis, decepcionantes ilusões. Na maior parte das vezes, tudo que causam é o famigerado efeito sanfona, emagrecemos para logo em seguida recuperarmos todo peso que perdemos, num vai e vem que só inferniza nossa auto-estima! O problema maior é que, para manter as aparências (sem trocadilhos) começamos a comer escondidos, começamos a disfarçar. Isso pode funcionar para consumo externo, como jogo de cena, mas nosso cérebro não se ilude com isso. Continuamos a fugir de nós mesmos, a esconder-nos de nossos próprios julgamentos nos desvãos da consciência. Sem que a gente perceba começamos a flertar com o pior tipo de mentiroso, o que mente para si mesmo! É como consumir drogas pesadas, aumenta-se a dose a cada vez que se tem um problema. Logo depois, na ausência de problemas reais, a gente passa a inventar problemas para justificar o consumo da droga e o aumento da dose, num círculo vicioso macabro e impossível de romper sem ajuda.

Com aquele que mente para si mesmo, tentando iludir o cérebro, acontece algo similar. De tanto repetir a mentira para si mesmo, ela acaba virando verdade, acaba-se acreditando nela, mistura-se realidade com ficção, incorporam-se meias verdades como princípios de vida, trocamos os fatos pelas versões, as quais, de tão repetidas, viram fatos! A partir daí estruturamos nossas ações em bases falsas, e, claro, tomamos decisões equivocadas, ou pior, deixamos de tomá-las e ficamos paralisados, presos na teia que tecemos ao não encarar os problemas de frente, ao não sabermos lidar com nossas fraquezas!

Não sou psicólogo de formação, o que escrevo aqui é fruto de minha observação do dia a dia, é conhecimento empírico, mas desafio qualquer um que tenha vivido mais de trinta anos a me desmentir. Parece fácil, dito assim, o problema não parece exigir mais que um pouco de bom senso e alguma reflexão, mas não se iludam: romper esse círculo é tarefa das mais árduas, é coisa para profissional, pode demorar anos de terapia e, mesmo assim, não haverá garantia de resultado definitivo. O centro da questão é que quem mente para si mesmo acredita que está falando (ou pensando) a verdade! Desta forma convence-se que não está mentindo de fato! É um mentiroso involuntário, daí a alta periculosidade desse comportamento. As pessoas ao redor passam a ser apenas motivos para repetir as trapaças à exaustão. Nada mais importa a não ser manter, a qualquer custo, uma aura de coerência, dar razão à mentira vestindo-a com roupa de nossa verdade, de verdade relativa, como se os fatos aceitassem relatividade! Como dizia Lênin, “os fatos são teimosos”. E assim, transformando fatos em versões, justifica-se a mentira, fechando-se o círculo novamente. Para quem gosta de armadilhas está aí um prato cheio. Cheio de sofrimento, de altos e baixos, de comportamento errático, de idas e vindas, de dúvidas ou falta de certezas, de falso conformismo, de ser ou não ser!

Mas será que somente a terapia pode ajudar essas pessoas? Acho que não. Também baseado na experiência de vida, não tenho medo de afirmar que pessoas assim precisam sim de ajuda, mas ela pode vir de outro lado e ser de outra natureza. Essas pessoas precisam sentir-se em um ambiente onde possam ser elas mesmas, sem reservas, sem pudores, sem máscaras, sem meias verdades, sem falso moralismo, sem regras rígidas, sem cobranças hipócritas. Ambiente difícil de encontrar, reconheço. Essas pessoas precisam ser compreendidas e incentivadas a enfrentar seus medos, suas neuras, suas dúvidas, seus momentos de “ser ou não ser”! Elas precisam conseguir derrubar seus próprios mitos, romper com aquele mundo ardiloso e movediço em que decidiram (ou precisaram) entrar. Precisam deixar a zona de conforto proporcionada pelas mentiras travestidas de verdades relativas, e achar uma saída honrosa, que não as avilte ainda mais. E isso nunca se faz sozinho. Elas precisam ser amadas! Mas não pode ser um amor qualquer. Tem que ser um amor incondicional, maduro, libertário, altruísta como deveria ser todo o amor. Tem que ser um amor sincero, que lhes sirva de espelho, de modelo, que as inspire. Não pode ser um amor cobrado, que quer troco, que sufoca, que dá medo, que envolva perdas ou ganhos. É preciso encontrar um amor desprendido, amigo, de todas as horas, que eleve e não deprima, enfim, um amor especial, exagerado, superlativo e real.

Ufa! Está dado o recado. Quem souber de algum amor assim solto por aí, é só enviar as informações para meu e-mail, ok? Porém, antes que você pense que esse amor não existe de fato, que é impossível encontrá-lo, deixe-me repetir uma frase que gosto muito: “o difícil é o que pode ser conseguido agora, já. O impossível, bom, esse apenas demora um pouco mais!”! Você acredita?

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