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QUANDO NÃO ESTÁS…
by Rui Carvalho on nov.07, 2011, under CRÔNICAS
QUANDO NÃO ESTÁS…
Quando não estás o tempo não passa, arrasta-se por intermináveis segundos, anda ao contrário, chega a parar. É então que vem o que não quero sentir, mas sinto.
Quando não estás é que faço o malfeito, que tenho medo do que procuro, do que faço pra fazer passar o tempo. Tua ausência revela o meu pior, o contraditório, o obscuro, o que sou sem querer ser, o que não quero, mas preciso.
Quando não estás mato o tempo e a dignidade, amo quem devia odiar, entrego-me a quem vier, desperdiço-me com quem não merece minha presença, faço um leilão invertido de minhas horas vazias. Quem menos der, leva.
Quando não estás busco coisas que não quero. Não as teria ao teu lado, pois ao teu lado não há tempo senão para estar contigo, e respirar. Entre o estar contigo e o sem ti é que me perco em devaneios, é que me procuro nas esquinas da imensa solidão azul. Vejo o breu nas nuvens brancas, e clarões na multidão onde me encontro só.
Quando não estás nada faz sentido. Tudo acontece devagar, o que posso me aborrece, o que preciso não tenho. Sem ti o mundo não tem cores nem valores, é mera abstração que teima em misturar-se entre a ansiedade e a angústia da espera. Só ao teu lado me sinto vivo, tudo posso e nada quero além de ti! É contigo que o tempo voa, que o vento canta e as aves falam. É só contigo que preciso estar, que posso ser, que dou conta de existir.
Quando não estás também não estou, sequer posso dizer que sou, quando não estás!
CRISE DE IDENTIDADE!
by Rui Carvalho on mai.19, 2011, under CRÔNICAS
Afinal, eu trabalho em quê?
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Sempre que me perguntam o que eu faço na vida fico aflito. Não sei como responder. Engulo em seco tentando ganhar tempo, na tentativa de achar um nome adequado à minha profissão. Não que seja difícil o que faço! Não é fácil é encontrar um termo único e completo que o defina e todo mundo entenda! Ser engenheiro, advogado, jornalista, médico, administrador e tantas outras profissões existentes no amplo espectro das atividades regulares que conhecemos é muito mais fácil. Mas no meu caso a coisa complica.
Lembro-me que isso não é de agora. Quando meu filho era criança e ainda morava comigo, queixava-se de não saber responder aos amigos que lhe perguntavam o que o pai fazia. Minha filha, bem mais tarde, já adolescente, sentia a mesma dificuldade. Imaginem vocês se ela respondesse a verdade. “Mari, o que o seu pai faz?”. “Meu pai é executivo de convention bureau”. Pimba, assim de chofre, sem preparo nem nada. O que acham que acontecia? É claro que a amiguinha entenderia apenas a parte do “executivo” e ficaria com a falsa idéia de que eu ocupava um cargo importante numa multinacional qualquer. Foi sempre um transtorno explicar às pessoas a minha profissão, pois sempre que tento sou obrigado a dar uma palestra antes que a pessoa entenda exatamente em quê ocupo meu dia a dia. Já menti um pouco para não ter que explicar muito. Tentei de tudo para facilitar a vida dos outros e não criar constrangimentos. Como, no fundo, trabalho com comunicação, mantenho um site e escrevo artigos, resolvi dizer que era jornalista. Não adiantou, sempre perguntavam em qual jornal ou revista eu escrevia ou para qual TV eu fazia reportagens. Como também trabalho com marketing de destinos e institucional, às vezes tentava um “sou marketeiro”, ou “executivo de marketing”. Não adiantava nada, logo vinha a pergunta: “e você trabalha em qual agência?”. Coisa chata isso! Pensando bem, achei que era melhor dizer que trabalhava com promoção turística, o que também é verdade. A pergunta do interlocutor então era: “em qual operadora você trabalha? Vende pacotes, é?”. Chega. Cansei. É muito chato ficar falando por cinco minutos para explicar uma coisa tão simples. Sou executivo de convention e visitors bureau, que são entidades privadas sem fins lucrativos que se dedicam ao desenvolvimento econômico e social dos destinos que defendem, atuando na captação e apoio a eventos, e fazendo a promoção da infra-estrutura e dos atrativos turísticos. Pronto, aqui está a palestra de novo! Sacaram a ironia? Não há saída.
Esta ainda é uma área pouco conhecida do grande público e que causa confusão até entre muitos profissionais do turismo. A verdade é que os conventions nem são entidades do turismo, pois atuam como ferramentas de marketing e promoção. O ideal é que o executivo de convention seja um bom comunicador, um relações públicas, alguém com habilidade para estabelecer alianças entre concorrentes, fazer articulações em nome de uma cidade ou região com o objetivo de aumentar o fluxo de visitantes (levar mais pessoas para lá), o que se faz atraindo eventos e turistas. O importante é entender que o turismo é o meio e não o fim, pois com o aumento do número de visitantes a cidade movimenta a economia, impactando dezenas de pequenas atividades e promovendo o desenvolvimento econômico e social, gerando emprego e renda para a população. Este, sim, é o objetivo final do que fazemos. O turismo, a captação de eventos e a promoção dos atrativos são a ferramenta, o meio que utilizamos para alcançar o fim. Mas como explicar isso a alguém numa só palavra? Qual a profissão que se encaixa perfeitamente no que fazemos? Sinceramente, até agora não descobri e continuo sofrendo sempre que alguém me pergunta o que faço na vida.
Meus filhos já desistiram de tentar explicar e respondem apenas com um genérico, mas eficiente “meu pai mexe com turismo”. Pronto, resolveram o problema deles, mas o meu continua, incomoda, atrapalha muito um virginiano como eu, que gosta de tudo no lugar certo e devidamente etiquetado. Eu sei, provavelmente estou exagerando! Sou assim, gosto de extremos, sou dado a exageros mesmo. Mas como precisava dar uma resposta concreta e rápida às pessoas que sentam ao meu lado no avião nas constantes viagens que faço, lembrei-me de juntar o útil ao agradável. Já escrevi um livro profissional, sobre convention bureaux e outro, um romance autobiográfico, em que descrevo os meus primeiros vinte e um anos de vida. Nenhum deles ainda publicado, mas, enfim, escritos e divulgados no meu blog, e o que é mais importante, aprovados por quem já leu. Desde então costumo responder que sou escritor. É charmoso, é solene, e deixa as mulheres mais dispostas ao diálogo, facilitando muito as coisas, se é que me entendem! Assim mesmo, logo depois dos olhares de admiração e curiosidade, não escapo nunca da terrível pergunta: “e que livros você já publicou?”. Caramba, mas nem assim eu tenho sossego? Não me deixo abater pelas dificuldades. Tenho a resposta pronta: “meu anjo, quem publica é editor, eu disse que era escritor, ou seja, eu escrevo!”. Pronto, fatura liquidada. Uma gargalhada sincera ou um franco sorriso costumam ser a resposta mais comum que recebo perante argumento tão definitivo. Dou o endereço do site, convido a ler meus textos e a conversa segue sem problemas, muito facilitada pela aura de romântico que todo escritor parece ter para as mulheres que sonham em ter sua vida descrita num folhetim. Ao final, entretanto, quando fico sozinho, não consigo furtar-me à inconveniência de minha consciência absolutamente pragmática de virginiano que insiste em perguntar: “Porra, afinal tu faz o quê da vida, hein?”. Desisto. Vou dormir.
AS LIÇÕES DA COPA DE 2014
by Rui Carvalho on mai.13, 2011, under ARTIGOS
Muito se tem falado sobre a Copa de 2014, e dos benefícios que o evento trará para o Brasil. As opiniões divergem, mas é quase unânime o sentimento de orgulho de quem vê a realização do torneio como um ato de patriotismo, uma chance para o Brasil brilhar lá fora. Tenho minhas dúvidas. Acredito que o maior benefício de um país como o Brasil ao realizar eventos desse porte, deveria ser o que fica DEPOIS deles, e não o evento em si. Ter a chance de melhorar substancialmente aspectos como a mobilidade urbana, infra-estrutura aeroportuária, estradas, segurança, sistema de atendimento na saúde, parque hoteleiro e todos os impactos positivos que um evento desses proporciona, é oportunidade única e que deve, sim, ser aproveitada ao máximo. Mas não é o que se vê. Só se fala na construção de estádios, como se isso, por si só, garantisse o sucesso do evento. Não se pensa o que se vai fazer com alguns estádios depois da Copa! Por certo vão virar elefantes brancos em meio à paisagem cinza de nossa miséria. É claro que eles serão construídos a tempo. Licitações apressadas e obras de urgência, entretanto, não nos trazem boas lembranças. Vamos ter muita gente ganhando dinheiro de forma pouco ortodoxa, e, por certo, recursos públicos e posturas éticas terão o mesmo destino: o ralo!
O assunto é sério e a situação é grave. E não me refiro à possibilidade, real, do Brasil passar vergonha perante o mundo, por não conseguir organizar um evento desses dentro dos padrões mínimos. Preocupa-me mais a possibilidade de não aproveitarmos a oportunidade da Copa e da Olimpíada para descontar o atraso nas obras de infra-estrutura de que precisamos tanto. Melhorar de forma definitiva (e não apenas para a Copa) o sistema de transporte público, os hospitais, os aeroportos, os portos, as estradas, a segurança e a qualidade da mão de obra, ainda seria o melhor resultado para o Brasil, independentemente do que nossa seleção possa fazer em campo. Desentupir os gargalos que impedem o nosso desenvolvimento seria o troféu mais importante. Mas desconfio que estamos a ponto de perder de goleada mais uma vez! É pena.
