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AS LIÇÕES DA COPA 2014
by Rui Carvalho on jan.25, 2012, under ARTIGOS
Muito se tem falado sobre a Copa de 2014, e dos benefícios que o evento trará para o Brasil. As opiniões divergem, mas é quase unânime o sentimento de orgulho de quem vê a realização do torneio como um ato de patriotismo, uma chance para o Brasil brilhar lá fora. Tenho minhas dúvidas. Acredito que o maior benefício de um país como o Brasil ao realizar eventos desse porte, deveria ser o que fica DEPOIS deles, e não o evento em si. Ter a chance de melhorar substancialmente aspectos como a mobilidade urbana, infra-estrutura aeroportuária, estradas, segurança, sistema de atendimento na saúde, parque hoteleiro e todos os impactos positivos que um evento desses proporciona, é oportunidade única e que deve, sim, ser aproveitada ao máximo. Mas não é o que se vê. Só se fala na construção de estádios, como se isso, por si só, garantisse o sucesso do evento. Não se pensa o que se vai fazer com alguns estádios depois da Copa! Por certo vão virar elefantes brancos em meio à paisagem cinza de nossa miséria. É claro que eles serão construídos a tempo. Licitações apressadas e obras de urgência, entretanto, não nos trazem boas lembranças. Vamos ter muita gente ganhando dinheiro de forma pouco ortodoxa, e, por certo, recursos públicos e posturas éticas terão o mesmo destino: o ralo!
O assunto é sério e a situação é grave. E não me refiro à possibilidade, real, do Brasil passar vergonha perante o mundo, por não conseguir organizar um evento desses dentro dos padrões mínimos. Preocupa-me mais a possibilidade de não aproveitarmos a oportunidade da Copa e da Olimpíada para descontar o atraso nas obras de infra-estrutura de que precisamos tanto. Melhorar de forma definitiva (e não apenas para a Copa) o sistema de transporte público, os hospitais, os aeroportos, os portos, as estradas, a segurança e a qualidade da mão de obra, ainda seria o melhor resultado para o Brasil, independentemente do que nossa seleção possa fazer em campo. Desentupir os gargalos que impedem o nosso desenvolvimento seria o troféu mais importante. Mas desconfio que estamos a ponto de perder de goleada mais uma vez! É pena.
PÉS NO CHÃO
by Rui Carvalho on dez.18, 2011, under CRÔNICAS
PÉS NO CHÃO
Rui Carvalho – Dezembro de 2011
Há muito não sinto nada, nada que valha a pena,
Só sinto que a estrada, que antes era serena,
É agora a trovoada que acelera o coração,
E como não sinto nada, mal sinto meus pés no chão.
Há muito não sinto nada, nem mulher quando me toca,
Toca o corpo, não a alma, ferve o sangue, mas não me acalma,
Por onde eu ande, vou sem alma, e se não vou, ninguém me nota,
Mulher não me tira o ar, nenhuma me tira do ar,
Mulher não me faz amar, nenhuma me faz querer,
E assim volto ao mesmo lugar, sempre em busca de prazer,
Volto para dentro de mim, onde não gosto de estar,
Consola-me a poesia, a dor dos outros, solidão,
Consola-me a tristeza de não sentir os pés no chão,
Vivo só por distração, por descuido da natureza,
Como se minha opção, fosse viver da certeza,
Da ausência de paixão, da falta de um caminho,
Que devolva os pés ao chão, mesmo seguindo sozinho.
Há muito não sinto nada, há muito ninguém me toca,
E se toca e não sinto, esse nada é um labirinto,
Onde escondo o que não sinto, onde sinto o que escondo,
Onde vou pra me encontrar, mas me perco sem me achar,
Um dia, se Deus quiser, saio desse labirinto,
E poderei então dizer, de verdade como me sinto.
AUTOFAGIA SOCIAL
by Rui Carvalho on dez.10, 2011, under CRÔNICAS
AUTOFAGIA SOCIAL
Rui Carvalho – Dezembro de 2011
Quem é que nunca conviveu com pessoas que se alimentam de sua própria empáfia? Líderes(?) que dependem tanto de aprovação e poder que confundem arrogância com voluntarismo? São autofágicas. Seus egos são tão inflados que não há espaço para as idéias dos outros. Na verdade são pessoas com baixa auto-estima, que precisam estar sempre no centro das atenções, ou sucumbem aos próprios defeitos. É constrangedor observá-las tentando ser notadas, tentando ver sua importância reconhecida. Normalmente esse tipo de pessoa não sossega enquanto não disputar (e ganhar) todos os cargos a que puder concorrer. De síndico do prédio a presidente de entidade de classe, pode-se vê-los a desfilar sua insegurança em reuniões, eventos e discursos. Adoram uma eleição e são capazes de complicadas engenharias corporativas para ganhá-las a qualquer custo, mesmo que o custo seja sacrificar os objetivos da entidade que dizem defender! É o avesso do avesso, ao avesso!
Mas não há como negar que são uma espécie curiosa. Aparentam não querer aparecer, quando na verdade dependem do elogio público como as flores dependem do sol! Sua humildade, meticulosamente calculada, serve apenas como tentativa de obter aprovação para a sua arrogância. É uma espécie de jogo de espelhos, de esconde-esconde, onde nunca nada é o que parece ser. São perigosos, pois como pessoas inseguras costumam castigar implacavelmente quem ousa cruzar-lhes o caminho e atrapalhar seus planos. Vingativos, são capazes de urdir complicadas tramas só para dar o troco numa pequena afronta, ou no que eles acharam que foi uma afronta, e que normalmente não passa de uma opinião contrária. Em sua ânsia de sentir-se poderosos e respeitados costumam enfraquecer as entidades que dirigem e desrespeitar quem se lhes opõe! No fundo são uns pobres coitados, vivem num mundo irreal que criaram para proteger seus medos, suas falhas, seus problemas. Nada haveria de errado se esses seres autofágicos se contentassem com os falsos elogios de que são alvo constante, mas o problema é que sempre querem mais. Passam por cima dos sonhos dos outros como um trator desgovernado. Ignoram os princípios de seus pares sempre que seus escusos fins correm o risco de ser desmascarados.
No Brasil, infelizmente, esses predadores sociais encontram condições ideais de proliferação nos milhares de associações, entidades de classe e ONGs que compõem o mercado do Terceiro Setor. Não é difícil notá-los, estão sempre em busca de vantagens pessoais, embora escondidos atrás de interesses coletivos legítimos. São uma praga, uma ameaça para as causas, já que a única causa que defendem é a própria! Sua influência perniciosa espalha-se como metástase por toda a organização, e só se consegue extirpá-los com muita coragem, muita lucidez e o remédio mais letal: o voto consciente e destemido nos Conselhos Diretivos ou Curadores. Não é que se vê, infelizmente. O corporativismo, a inércia, a acomodação pelo trato social e o pendor brasileiro para a conciliação, elogiável em outros contextos, contribuem para entronizar esses parasitas no poder, criando um círculo vicioso difícil de romper. É pena, pois só quando as entidades e associações forem capazes de defender causas (e não privilégios) é que a sociedade civil terá amadurecido e estará apta a proporcionar plena cidadania a todos. Para isso é preciso combater, neutralizar e desmascarar os pseudo-líderes, os onipresentes nas diretorias e conselhos, os caudilhos profissionais, os que lutam por uma única causa: tirar proveito de tudo e todos para que possam continuar a alimentar sua sede de poder. Sinceramente? Não conheço melhor descrição para complexo de inferioridade, e você?

