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DIREITA OU ESQUERDA? FUJA DESSA ARMADILHA.

O Brasil vive tempos de ódio e intolerância. Verdades e mitos, fatos e versões são vendidos nas redes sociais no mesmo balaio e pelo mesmo preço, como se fossem produtos da mesma espécie, frutos da mesma plantação. Pois bem, não são. Por mais que uma mentira seja repetida, ainda assim, ela continua sendo uma mentira. Uma versão não substitui um fato, por mais que milhões de crentes insistam nela.

O pensador italiano Umberto Eco disse uma vez que a internet era uma coisa maravilhosa, mas que também “deu voz a milhares de imbecis que acham que têm o que dizer”, mesmo que tenham dificuldade em juntar dois mais dois.

O problema é que esses milhares de imbecis não são apenas gente com opinião, são também eleitores e vão escolher o próximo presidente do Brasil. Faz parte do jogo, isso é da democracia e é preciso respeitar.

Mas respeitar a opinião dos outros não significa concordar, assim como concordar com o argumento de alguém não é aprovar tudo que essa pessoa diz ou defende.

Aceitar sem reservas, sem contestação o debate binário a que assistimos na mídia e nas redes, pretensamente travado entre esquerda e direita, é o mesmo que acreditar que só existem duas cores no universo, o preto e o branco, ou o vermelho e o azul, se preferirem. Tratar de forma simplista temas complexos é a melhor maneira de confundir, manipular e iludir. Precisamos entender que o mundo atual não cabe mais nesse conceito hermético de esquerda e direita, onde a primeira representa o bem supremo e a segunda é a encarnação do mal. Nada mais falso e perigoso.  Assim como existem dezenas de nuances coloridas entre o preto e o branco, também há espaço para vida inteligente além da esquerda e da direita. Na verdade, o mundo político é bem mais diversificado e parece inegável que há ideias defensáveis tanto num lado quanto no outro do espectro político. De fato, nem todo o esquerdista é defensor de Stalin, como nem todo conservador aprova as ideias de Hitler. Usar os extremos quase sempre é o primeiro recurso de quem não tem argumentos para fundamentar suas divergências. 

Mesmo quando se fala de esquerda é preciso cuidado para não confundir alhos com bugalhos. A esquerda latino-americana, com seus caudilhos, líderes populistas e manipuladores, gente da estirpe de Hugo Chavez, Evo Morales, Lula da Silva, Nicolás Maduro e os irmãos Castro, guarda pouca semelhança com a esquerda progressista de países europeus, como Portugal, França, Espanha ou Itália. É claro que todos sofrem do mesmo mal, que é a falta de provas de que suas doutrinas são capazes de gerar bem-estar social dentro de economias saudáveis e sustentáveis. Quase todos têm falhado feio nesse teste, mas isso não deve servir de regozijo para a direita que tem se mostrado incapaz de reduzir as desigualdades e de manter o capitalismo dentro de regras mais saudáveis, civilizadas e justas. Líderes socialistas no Brasil, por exemplo, ainda defendem ideias do século 19, enterradas há décadas pelos fatos. O sonho de um Brasil igualitário onde o Estado tudo pode, tudo vê e tudo provê, está mais próximo do absolutismo de uma ditadura do que de um plano realista para melhorar a vida da população. Do outro lado, os devaneios da direita ultraconservadora, que promete endireitar o país à força, dando liberdade à polícia para descer o porrete naquilo e naqueles que ela considera errado, denuncia um pensamento tão retrógado e perigoso que não dá para levar a sério. Não é, deputado Jair Bolsonaro?

Mas então o que nos resta? Rezar? Torcer? Fingir que o problema não existe? Tenho certeza que essa não é a solução, a não ser para os que têm preguiça de pensar, e esses existem aos montes na esquerda e na direita. Todo o político é corrupto, o Brasil não tem jeito, certo? Errado. A única forma de mudar o país é aceitar que a política é o meio pelo qual as sociedades se transformam, para o bem e para o mal. Escolher para que lado vamos é dever de cada um. Há, sim, políticos bem-intencionados, mas eles sozinhos não são capazes de colocar um fim ao circo armado em Brasília e suas ramificações Brasil afora. Não tenho nomes para sugerir, até porque o cenário eleitoral está longe de uma definição. No entanto, a solução não pode ser a abstenção, o voto nulo ou branco, sabem por quê? Porque o sistema eleitoral brasileiro elege o candidato que obtiver a maioria dos votos válidos: sim, eu disse válidos. Por isso, se você não votar, votar em branco ou anular o voto, estará apenas contribuindo para manter o sistema que aí está, garantindo que os mesmos políticos de sempre continuem suas carreiras criminosas. Ora, fazer as coisas da mesma maneira e esperar resultados diferentes, não é só ingenuidade, é burrice. É preciso manter-se bem informado, pesquisar, buscar outras fontes e, principalmente, não acreditar em tudo que se lê na internet.

O Brasil tem uma chance de melhorar, mas para isso é preciso que os eleitores aprendam a separar homens de ideias, líderes de partidos, e evitem a armadilha do debate binário, empobrecido pela intolerância. Uma sugestão é aprender a misturar esquerda e direita. Reconhecer que há vantagens nos dois lados e que há outros lados além dos dois. Identificar os candidatos que apostam em mudanças, de fato e não apenas retóricas ou de fachada, escolher projetos e não pessoas, defender ideias e não nomes, essa parece ser a melhor saída para que iniciemos a construção de um Brasil mais digno. Vai demorar, eu sei, vai doer, muitos ficarão pelo caminho, mas não há alternativa: ou o Brasil muda ou em breve não haverá sequer um Brasil digno de defesa. De forma bem pragmática talvez tenha chegado a hora de, na falta do bom, escolhermos o menos ruim. Não é o ideal, eu sei, mas já seria um bom começo. Nem direita nem esquerda, o Brasil precisa é seguir em frente.

About the Author

Rui CarvalhoSou português, nascido em Chaves em 1955. Vivo no Brasil desde 1976 e trabalhei sempre em turismo e comunicação. Fui apresentador de TV por um tempo, modelo e ator, executivo, professor de vez em quando, enfim, fiz um monte de coisas, mas o que sempre gostei de fazer foi usar da palavra, escrita ou falada, para expressar o que penso, me confessar, provocar e provocar-me. É minha terapia! Já rodei um bocado por aí, morei em São Paulo, Campinas, Macaé, Aracaju, Porto Alegre, Foz do Iguaçu e Porto Seguro, onde ocupei o cargo de superintendente de turismo na secretaria municipal de cultura e turismo, antes de assumir a gerência geral do Hotel Toko Village, um dos quatro melhores hotéis da região. Desde 2016 voltei a São Paulo, onde trabalho como motorista parceiro da Uber por absoluta falta de opção. Conheci o mundo a trabalho, mas é em Portugal onde mais me encontro e me sinto à vontade, e para onde voltarei a partir de 2018. Quando posso faço trabalhos de consultoria e palestras, e, de vez em quando, escrevo neste blog. Sou divorciado, moro com a minha mãe, tenho três filhos, algumas mágoas, um punhado de arrependimentos, um sonho e nenhum cachorro!View all posts by Rui Carvalho →

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