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"Explore o Turismo, e não o Turista!"

GERONTOFOBIA

Por quê, depois dos sessenta anos, ficamos invisíveis para o mercado de trabalho?

Em quarenta anos de carreira no Turismo já fiz um pouco de tudo. Aprendi, ensinei, liderei, fui liderado, trabalhei em algumas das maiores empresas do mercado e em outras sem grande relevância. Em todas fiz o melhor que pude, dei o melhor de mim, mesmo quando não concordava com o que me era determinado fazer, desde que isso não ferisse princípios básicos, claro. Ou seja, cedi, mas nunca me vendi. Mas, como era de esperar, isso teve seu preço!

Mandando a modéstia às favas, quero dizer que nos últimos dezesseis anos trabalhei no segmento de Marketing de Destinos, onde cheguei a desenvolver ações relevantes, que repercutiram nacionalmente e me levaram a palestrar por dezoito estados, a escrever um livro dedicado ao assunto (Convention Bureaux) e a integrar a diretoria nacional da entidade representativa do setor. Ao longo da minha profícua carreira morei em seis estados, fui gerente de hotel (embora por curto período), ocupei cargo relevante no setor público (Secretaria de Cultura e Turismo de Porto Seguro/BA), e fui executivo responsável pelas equipes de promoção turística e captação de eventos de cidades importantes como Campinas, Foz do Iguaçu, Porto Alegre e Aracaju. A trabalho ou a lazer visitei mais de 15 países em dezenas de viagens. Falo inglês e espanhol, além de português, minha língua mãe, e de brasileiro (não resisti!) Apesar disso, estou desempregado há mais de 18 meses. Sabem o que há de errado com o meu currículo? A data de nascimento. Tenho 62 anos, e, para o mercado de trabalho sou invisível!

É claro que nem todos com quem convivi têm a mesma opinião com relação às minhas qualidades e competências. Tendemos a ser benevolentes com nossos defeitos, mas estou longe de ser condescendente. Tenho boa percepção de minhas limitações. Sou humano e, portanto, falível. Vez por outra, contraditório. Apesar de tudo acredito que as qualidades deveriam prevalecer. Aos sessenta e dois sou muito ativo e antenado. Lido bem com tecnologia. Mudanças e desafios não me intimidam. Mantenho-me sempre bem informado, e ainda gozo de boa saúde, (corro sete quilômetros três ou quatro vezes por semana, coisa que muito jovem não consegue fazer), ou seja, falta de energia e disposição não servem de desculpa.

Nos últimos doze meses, para não ficar parado, resolvi dirigir para um aplicativo de transporte individual. Só dirijo à noite, quatro a cinco horas por jornada, e já tenho no currículo quase 5.000 corridas. Em 96% delas obtive avaliação positiva e isso me valeu a entrada num simbólico “clube Vip de motoristas” que garante algumas vantagens, como mais chamadas, e o direcionamento para passageiros igualmente classificados como Vip! No meu canal no Youtube (Verso & Reverso – Rui Carvalho), já conto com mais de 4.200 assinantes (não gosto do termo seguidores, pois não sou celebridade nem guru). Dou conselhos para motoristas menos experientes em assuntos que vão do saber vestir-se, a noções de excelência em atendimento, e faço comentários sobre a empresa, o sistema e o dia a dia. Deste meu observatório privilegiado lido com centenas de passageiros a cada mês, das mais variadas origens, profissões e níveis socioeconômicos. Fico abismado com o conhecimento raso que muitos manifestam em vários assuntos, com a superficialidade com que encaram a vida, e, principalmente, com a facilidade com que preferem soluções simples para problemas complexos, prova de que falham na análise dos fatos, não filtram informações, confundem causa com efeito, e, por consequência, têm mais respostas que perguntas, o que, por si só, já é indício de pouca sabedoria, ora pois!

Não tenho o emprego dos sonhos, eu sei. Sequer considero que tenha um emprego, tanto que continuo buscando recolocação incessantemente, mas ando tão decepcionado que estou considerando deixar o país e começar de novo, apesar da idade (ou por causa dela, não sei).

 Apesar de tudo que disse acima sobre minha experiência e competências, e só o disse para compor o contexto e não por veleidade, saibam que de nada tem adiantado! Não consegui uma entrevista sequer desde que fiquei desempregado. Isso é assustador, mas nos obriga a certa reflexão. Vejamos: o mercado (sempre ele) diz estar carente de profissionais que sejam o equilíbrio perfeito entre experiência e voluntariedade, ou seja, procura uma ilusão, um mito, uma abstração. Dezenas de especialistas, (alguns fazendo coaching com pouco mais de vinte anos de idade, como se tivessem muito a ensinar, orientar e exemplificar! Ou será que pensam que são gurus de autoajuda?), apregoam que os tempos são outros e que é preciso acompanhar a velocidade das mudanças. Concordo. Mas, mais importante que acompanhá-las deveria ser a avaliação de sua relevância para o que realmente interessa e nunca muda: o desafio de superar as expectativas dos clientes e fidelizá-los. Não será porque algo é novo que deve ser obrigatoriamente bom, e essa lógica pode e deve ser aplicada no sentido reverso também.

Há um ditado português que resume muito bem essa dificuldade. Ouvia muito de meu avô: “se os novos SOUBESSEM e os velhos PUDESSEM, não haveria nada que não se fizesse!” Por aí se vê a dificuldade de encontrar características tão distintas no mesmo indivíduo. Não seria melhor, então, equilibrar as equipes escalando para o jogo do mercado uma mistura da experiência dos maduros com a energia dos jovens? Pois é, parece a solução perfeita, e muitas empresas apregoam publicamente essa intenção. Pena que não passe de jogo de cena, ou de uma releitura da velha tática de alinhar o discurso com o que o cliente quer ouvir! O problema real é que seus departamentos de RH parecem ter outra interpretação do que seja essa mistura milagrosa e ideal, e tudo fica como está, como sempre foi. Por essa ótica enviesada pessoas com mais de quarenta só servem como massa de manobra, ou para reforçar as bases do desgastado e envelhecido (que ironia) “politicamente correto”.

Enquanto a intelligentsia corporativa patina nesse atoleiro de contradições, o que mais se vê são “gênios” que dizem trabalhar “com foco no cliente”, como se isso fosse a oitava maravilha do mundo. Esquecem-se, talvez, que melhor seria trabalhar com “o foco DO cliente”, pois só assim se tem a dimensão exata de suas necessidades e a possibilidade, sincera, de trocar de lugar com ele e encontrar a melhor solução. Mas, para isso é preciso um pouco mais que juventude e um vistoso diploma superior! É preciso maturidade, experiência e visão global, não do mercado em si, mas da vida, da complexidade das relações humanas, coisas que, como todos sabem, demoram um pouco mais de tempo para se alcançar. Aliás, aqui está outra ponta do mesmo problema: a formação acadêmica. Há tanta avidez por diplomas num Brasil incapaz de produzir boas notícias no campo da educação, que a sua exigência beira a inconveniência e faz as empresas abrir mão de excelentes colaboradores pela falta do canudo! Com um sistema educacional cuja ineficiência nos coloca na rabeira dos rankings internacionais, sistema de onde os alunos saem sem saber interpretar textos de baixa complexidade mesmo depois de oito anos de estudo, é compreensível que as empresas mantenham a exigência da formação superior, pois sabem que, em muitos casos, esse superior corresponde ao básico e pouco mais!

Esse é outro de meus pecados. Para o mercado, além de velho eu sou inútil por não ter curso superior. Está aí um desafio que não é difícil superar. Para me igualar a muitos candidatos diplomados que conheço, eu precisaria desaprender um bocado, isso mesmo, desaprender! Mesmo sem formação superior sou perfeitamente capaz de voltar a integrar ou coordenar equipes comerciais, de atendimento, de relações com o mercado ou de comunicação, entre outras tarefas para as quais contam mais a experiência, o caráter e a inteligência emocional, do que o que está escrito num pedaço de papel brilhante. Tenho convicção de que ainda tenho muita coisa boa para oferecer ao mercado. Perdi o emprego, mas me esforcei, sempre, para não perder a empregabilidade. E não pensem que sou arrogante por ousar escrever isto! Nada disso. Primeiro porque muito pior que a arrogância é a falsa humildade, pois como diz o filósofo Luiz Felipe Pondé, “a humildade, quando premeditada, não deixa de ser a arrogância pedindo aplausos.” Depois porque arrogância e atitude não são sinônimos. Assim sendo, prefiro o risco de parecer arrogante à segurança de seguir a maioria só por ser maioria. Talvez esteja aí outro de meus grandes defeitos, em tempos de polarização política e do confortável e covarde anonimato das Redes Sociais, eu ainda prefiro dar a cara a tapa, e continuar lutando pelo direito à opinião própria. Não sei se isso me fará voltar ao mercado, mas, por certo, faz com que meu sono seja mais leve, muito mais tranquilo. Por ora é quanto basta, e meus passageiros não têm do que reclamar, pois não virei um ranzinza incorrigível! Muito pelo contrário, conforme mostra meu aplicativo de “Motorista Parceiro”, de cada dez elogios, nove são por excelente atendimento e ótimo papo! Pode não parecer grande coisa, mas é o que temos pra hoje. Pena que o mercado corporativo, em sua miopia pedante, faz questão de fazer de mim e de outros milhares de profissionais maduros, pessoas invisíveis ou mero traço nas estatísticas. Pena mesmo, mas pra quem?

About the Author

Rui Carvalho

Sou português, nascido em Chaves em 1955. Vivo no Brasil desde 1976 e trabalhei sempre em turismo e comunicação. Fui apresentador de TV por um tempo, modelo e ator, executivo, professor de vez em quando, enfim, fiz um monte de coisas, mas o que sempre gostei de fazer foi usar da palavra, escrita ou falada, para expressar o que penso, me confessar, provocar e provocar-me. É minha terapia! Já rodei um bocado por aí, morei em São Paulo, Campinas, Macaé, Aracaju, Porto Alegre, Foz do Iguaçu e Porto Seguro, onde ocupei o cargo de superintendente de turismo na secretaria municipal de cultura e turismo, antes de assumir a gerência geral do Hotel Toko Village, um dos quatro melhores hotéis da região. Desde 2016 voltei a São Paulo, onde trabalho como motorista parceiro da Uber por absoluta falta de opção. Conheci o mundo a trabalho, mas é em Portugal onde mais me encontro e me sinto à vontade, e para onde voltarei a partir de 2018. Quando posso faço trabalhos de consultoria e palestras, e, de vez em quando, escrevo neste blog. Sou divorciado, moro com a minha mãe, tenho três filhos, algumas mágoas, um punhado de arrependimentos, um sonho e nenhum cachorro!

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