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Fidel Castro

FIDEL – Entre a Verdade e o Mito

Morrfidel-castroeu um ícone. Assim a mídia se refere à morte de Fidel Castro ocorrida na semana passada. Mas, afinal, o que é um ícone? Segundo o dicionário, “uma representação de cena ou objeto sagrado, digno de culto”.

Nunca fui muito de cultos, nem de ícones, pois desconfio de tudo que pareça sobrenatural, ou pouco humano. Aceito a condição humana, com seus defeitos e qualidades, ela me basta. Entretanto, algo em torno da figura de Fidel sempre me intrigou. Não entendo a lógica de admirar um homem que tanto mal causou ao seu povo! Eu sei, aqui há controvérsias. Mas há controvérsias porque os admiradores de Fidel insistem em subjugar os fatos, teimam em defender meias verdades. O problema é que como não existe meia grávida, ou meia ética, também não existe meia verdade. As coisas são o que são e como são. Simples assim. Mas, e a qualidade da educação e da saúde pública de Cuba? Isso não conta? Conta sim. É fato que Hitler também fez muita coisa boa pela Alemanha. Exaltá-las, como se sabe, deu no que deu! Salazar foi um excelente administrador das finanças portuguesas enquanto oprimia seu povo e prendia opositores por quase quatro décadas. Perguntem aos perseguidos e seus familiares se as finanças do país eram mais importantes que suas vidas!

Impõe-se deixar de lado a figura mítica do comandante, para olhar de perto sua obra prima, a feroz e cruel ditadura cubana. De outra forma estaremos acendendo uma vela para Deus e outra para o Diabo, e, como se sabe, essa não é uma prática muito honesta. Se não, vejamos: de que adianta elogiar a erradicação do analfabetismo em Cuba, a qualidade da educação, ou ainda a eficiência do sistema público de saúde, se o homem que as proporcionou, enquanto abria escolas e equipava hospitais, mandava fuzilar seus opositores, e prendia todos os que ousavam pensar diferente? Ou será que existe meio assassino? Ou então, vai ver que os admiradores de Fidel, numa concessão indecorosa ao pragmatismo, defendem que os fins justificam os meios, é isso?

Vamos deixar de rodeios. Parte do mundo tem uma ideia muito romantizada de Fidel e sua obra, mas isso não anula o fato de que “el comandante” impôs um regime de tal tirania que obrigou milhares de compatriotas a arriscar a vida para sair de lá! Se a saúde de boa qualidade e a escola para todos fossem suficientes, por que diabos os cubanos iriam querer deixar o país? Essa visão romântica e ingênua que os admiradores de Fidel insistem em cultuar, deve-se, em grande parte, ao desejo infantil de acreditar na luta do anão contra o gigante, do bem contra o mal, de Cuba contra os Estados Unidos! Sim, pois é disso que se trata. A esquerda retrógrada, com saudades do sonho comunista que a realidade enterrou, não perdoam os Estados Unidos por provarem, diariamente, que a democracia e o capitalismo ainda são as ferramentas mais eficientes para proporcionar bem-estar à população. Não são perfeitos, claro, mas ao menos se pode discordar deles sem risco de morrer, ou isso não importa? Ora vamos, camuflar os crimes do regime cubano, não só é intelectualmente desonesto como moralmente condenável. Como se pode, em nome do repúdio aos ímpetos supostamente imperialistas da maior democracia do mundo, admirar e elogiar um tirano que condenou seu povo à pobreza, ao isolamento, ao silêncio e ao monoteísmo ideológico? Que nobreza existe em calar qualquer tipo de oposição à força da bala, e impedir que a população tenha contato com o mundo exterior? Com que tipo de argumento um governante fica quase seis décadas no poder? Como se podem ignorar as selvagerias perpetradas pelo regime cubano em nome da revolução, a morte de milhares de opositores, a revogação da liberdade de expressão e pensamento? Será que todos esses valores fundamentais podem ser “comprados” com uma saúde pública de boa qualidade e escola para todos? No meu entendimento isso tem nome: cinismo.

Em favor de Fidel, diga-se que começou bem. Lutou para derrubar o ditador Fulgencio Batista. Acabou com uma ditadura de direita que explorava seu povo e que havia transformado o país, com a ajuda dos norte-americanos, num enorme e corrupto cassino. Alçado ao poder, entretanto, não tardou a seguir os passos do antecessor. Primeiro, com a desculpa de evitar que os comunistas dominassem o regime (suprema ironia!) tentou aproximar-se dos Estados Unidos. Ignorado pelos gringos, que não identificaram o potencial de seu discurso populista, a saída encontrada foi ceder ao encanto da utopia comunista, e, tornar-se, ele mesmo, um ditador de esquerda. Enquanto a extinta União Soviética, por razões estratégicas, se interessou por financiar sua maluquice, tudo ia bem. Com a derrocada do socialismo, e o consequente derretimento do regime soviético, as coisas ficaram feias e a receita azedou. Mas ainda havia a chance de ganhar o apoio de outro maluco populista, o folclórico Hugo Chavez, que alimentou a Ilha com fartura de petrodólares enquanto pode. Unia-os o ódio aos Estados Unidos e a capacidade de discursar por horas a fio para seus anestesiados simpatizantes. Até Lula flertou com essa pantomima, mas o resultado, como se sabe, não foi dos melhores. Enquanto a ajuda externa camuflava as deficiências do regime, tudo parecia muito bem. Consolidava-se, assim, o mito da nobre luta de David conta Golias! Quando a fonte secou, a tirania do regime foi exposta, e a Ilha ficou à deriva. A economia encolheu-se e o sonho da revolução revelou-se no pesadelo do paredón.

Numa tentativa tosca de embolar o jogo, muitos insistem em destacar que não há fome nem miséria em Cuba! Mas não será miserável o povo que não consegue dizer o que pensa sem colocar em risco a própria vida? Afinal, o que há para comemorar num país cujos cidadãos são reféns do regime ou se arriscam em travessias improvisadas para cair nos braços do “demônio imperialista”? Segundo os ingênuos admiradores de Fidel, a culpa é do embargo imposto pelos Estados Unidos. Ou seja, a truculência, os assassinatos, a falta absoluta de liberdade de ir e vir, o regime de partido único onde não há eleições livres, nada disso importa, nada disso prejudica Cuba, tudo isso é perdoável. O que não se perdoa é o embargo! Jura por Deus? É isso mesmo, gente? Estão defendendo o regime romano do pão e circo, só que, desta vez, sem pão? Parece não haver limites para a hipocrisia, desde que a hipocrisia legitime nossa versão dos fatos, né?

Fidel Castro se foi. E já foi tarde. É certo que pouca coisa mudará em Cuba com a partida do “comandante”, mas isso não significa que sejamos obrigados a engolir essa retórica enviesada, essa moral adaptada, essa adulação da mentira, ou exaltação da meia verdade. Fidel partiu. Talvez possamos, finalmente, apreciar o famoso coquetel de rum com coca cola, a Cuba Libre, desta vez sem aquela inevitável sensação de ironia! O mito morreu, mas sua obra, para o bem (pouco) e para o mal (muito) ficará para sempre na história! Mas nada disso, nem o julgamento histórico, apagará o fato indiscutível de que Fidel massacrou milhares de opositores, subjugou seu povo por décadas, pisoteou os direitos humanos e as liberdades civis. Se o fez enquanto dava saúde e educação de boa qualidade ao seu povo, é irrelevante. Um assassino não é menos criminoso por apresentar, por exemplo, bom comportamento em casa, com a família, ou é?

Só a irresponsabilidade da esquerda saudosista pode justificar tamanha admiração. Perdoem-me se não tenho simpatia por meias verdades ou não suporto o contorcionismo ético. A única coisa que admiro em Fidel, é que, mesmo perante provas irrefutáveis de crimes e maldades, ele tenha encantado tanta gente com sua prosa de amante latino! Haja poder de sedução, hein? A paixão pode ser cega, mas a verdade é teimosa. Não se deve comemorar a morte de ninguém. Que Fidel vá em paz, mas a verdade é que o mundo está um pouco melhor.

About the Author

Rui CarvalhoSou português, nascido em Chaves em 1955. Vivo no Brasil desde 1976 e trabalhei sempre em turismo e comunicação. Fui apresentador de TV por um tempo, modelo e ator, executivo, professor de vez em quando, enfim, fiz um monte de coisas, mas o que sempre gostei de fazer foi usar da palavra, escrita ou falada, para expressar o que penso, me confessar, provocar e provocar-me. É minha terapia! Já rodei um bocado por aí, morei em São Paulo, Campinas, Macaé, Aracaju, Porto Alegre, Foz do Iguaçu e Porto Seguro, onde ocupei o cargo de superintendente de turismo na secretaria municipal de cultura e turismo, antes de assumir a gerência geral do Hotel Toko Village, um dos quatro melhores hotéis da região. Conheci o mundo a trabalho, mas é em Portugal onde mais me encontro e me sinto à vontade. Quando posso faço trabalhos de consultoria e palestras, e, de vez em quando, escrevo neste blog. Sou divorciado, moro sozinho, tenho três filhos, algumas mágoas, um sonho e nenhum cachorro!View all posts by Rui Carvalho →

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