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"Explore o Turismo, e não o Turista!"

DEPOIS DA TEMPESTADE…

A maior democracia do mundo elegeu o fanfarrão Trump. Fato consumado. Não tardaram as previsões apocalípticas. A terceira guerra mundial vem aí; é o fim dos tempos; os EUA vão expulsar todos os estrangeiros; um muro será construído na fronteira com o México! Estes são apenas alguns exemplos do que se leu nas redes sociais e até na imprensa dita séria. Claro, reproduziam as bravatas de um intolerante candidato à presidência dos EUA. Mas são apenas isso, bravatas de um CANDIDATO!

Confesso que não gosto nada do Trump, e não esperava sua vitória na eleição para o cargo público mais importante do mundo, mas, perdoem-me os alarmistas por decepcioná-los, não estou tão assustado como eles! As razões da minha calma são bastante pragmáticas, e basta uma análise serena das democracias ocidentais para entender que, mais do que nunca, é preciso saber separar os fatos das versões. Um bom início seria responder à pergunta: afinal, qual foi o Trump que os americanos elegeram? A metralhadora giratória que atacava tudo e todos na campanha, ou o Donald paz e amor do discurso da vitória? Pois é, antes de tudo precisamos entender que um candidato pode tomar liberdades que um presidente não pode, nem vai. Em campanha tudo se permite, pois é uma guerra pela audiência e pelo voto. Exageros são aceitáveis, desde que façam sentido para a plateia da vez, e sejam o que ela quer ouvir. Bravatas e fanfarronices agradam determinados eleitores, e são a marca registrada da personalidade do disparatado milionário candidato, mas não são toleradas quando quem as profere tem acesso aos códigos que disparam o arsenal atômico mais poderoso do planeta! Expulsar imigrantes, clandestinos ou não, pode pegar bem num discurso proferido em alguma cidadezinha perdida no meio oeste americano, mas talvez não tenha o mesmo efeito nos austeros salões do Congresso Americano. O mesmo ocorre com a construção de muros dividindo países, ou com a intenção de não cumprir acordos internacionais!

Uma das melhores coisas da democracia, e que muitos parecem esquecer, é que o presidente não governa sozinho, não pode tudo. Aliás, um presidente, numa democracia parlamentar, pode muito menos do que se imagina, como bem sabem os brasileiros. O que quero dizer é que talvez os americanos tenham errado ao eleger um tipo estapafúrdio e caricato como Trump, e no meu ponto de vista erraram feio, mas isso não quer dizer que o eleito tenha a intenção de cumprir tudo que ameaçou fazer, ou que, ainda que o quisesse, isso lhe seria permitido! Aceitar essa hipótese é desconhecer o funcionamento das instituições nos países onde prevalece o Estado de Direito. E tem mais: pelo complicado e estranho sistema eleitoral americano, Hilary teve a maioria dos votos populares, embora não tenha conseguido a maioria dos delegados. Isso pode parecer insignificante, mas não é. Nem o povo nem as instituições como o Congresso e a Suprema Corte deixarão que um inescrupuloso como Trump faça o que lhe der na telha depois do dia 20 de janeiro de 2017.

Há, ainda, quem defenda a hipótese de que Trump é um novo Hitler, um cavaleiro do apocalipse, pois, a exemplo do alemão, também ele surgiu em meio a uma enorme crise moral e política, apresentando-se como “salvador da pátria”! Como todos sabemos, o caso alemão deu no que deu. Mas é ingenuidade acreditar que o mundo globalizado de hoje seria capaz de permitir os mesmos erros. Os EUA, por mais que sejam a nação mais poderosa do planeta, não são a única! O atual cenário mundial, com as nações dependendo umas das outras, e com a intrincada teia de relações internacionais, é bem diferente do que se podia observar no início dos anos 30 do século passado. Hoje em dia não há espaço militar nem diplomático para fantasias imperiais e de supremacia como as sonhadas por Hitler. Os EUA, mesmo com todo seu poderio militar e econômico, não teriam condições de enfrentar o resto do mundo civilizado. A contenção ao avanço de uma eventual aventura trumpista, como se pode imaginar, não viria apenas de dentro das fronteiras americanas, mas de toda a comunidade internacional, e neste caso, arrisco dizer que veríamos nações amigas e inimigas dos EUA lutando do mesmo lado! Estaria, assim, inviabilizada qualquer tentativa mais heterodoxa que a mente perturbada do milionário presidente possa acalentar. Por tudo isso eu ouso afirmar que, não estamos contentes, já que as pessoas de bem nada têm a comemorar com a eleição de um destrambelhado para a presidência da maior potência mundial, mas estamos seguros. O mundo, podem acreditar, vai continuar sendo o que sempre foi, um lugar onde a intolerância, a truculência e as ideias mais retrógradas continuarão a confrontar-se com a pluralidade de opiniões, o bom senso e o respeito pelos outros. Umas vezes se perde, outras se ganha, mas não há o que temer. Sejamos sensatos. Tenhamos a serenidade para aceitar que o furacão Trump, como tantos outros que assolam a América e assombram o mundo, sopram, elevam o nível das águas, causam certa destruição, mas no fim, como todos os outros, acabam por passar, dando lugar à calmaria. É assim a roda do tempo, e assim será a roda da política. Nada a temer.

About the Author

Rui CarvalhoSou português, nascido em Chaves em 1955. Vivo no Brasil desde 1976 e trabalhei sempre em turismo e comunicação. Fui apresentador de TV por um tempo, modelo e ator, executivo, professor de vez em quando, enfim, fiz um monte de coisas, mas o que sempre gostei de fazer foi usar da palavra, escrita ou falada, para expressar o que penso, me confessar, provocar e provocar-me. É minha terapia! Já rodei um bocado por aí, morei em São Paulo, Campinas, Macaé, Aracaju, Porto Alegre, Foz do Iguaçu e Porto Seguro, onde ocupei o cargo de superintendente de turismo na secretaria municipal de cultura e turismo, antes de assumir a gerência geral do Hotel Toko Village, um dos quatro melhores hotéis da região. Conheci o mundo a trabalho, mas é em Portugal onde mais me encontro e me sinto à vontade. Quando posso faço trabalhos de consultoria e palestras, e, de vez em quando, escrevo neste blog. Sou divorciado, moro sozinho, tenho três filhos, algumas mágoas, um sonho e nenhum cachorro!View all posts by Rui Carvalho →

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