QUANDO NÃO ESTÁS…
by Rui Carvalho on nov.07, 2011, under CRÔNICAS
QUANDO NÃO ESTÁS…
Quando não estás o tempo não passa, arrasta-se por intermináveis segundos, anda ao contrário, chega a parar. É então que vem o que não quero sentir, mas sinto.
Quando não estás é que faço o malfeito, que tenho medo do que procuro, do que faço pra fazer passar o tempo. Tua ausência revela o meu pior, o contraditório, o obscuro, o que sou sem querer ser, o que não quero, mas preciso.
Quando não estás mato o tempo e a dignidade, amo quem devia odiar, entrego-me a quem vier, desperdiço-me com quem não merece minha presença, faço um leilão invertido de minhas horas vazias. Quem menos der, leva.
Quando não estás busco coisas que não quero. Não as teria ao teu lado, pois ao teu lado não há tempo senão para estar contigo, e respirar. Entre o estar contigo e o sem ti é que me perco em devaneios, é que me procuro nas esquinas da imensa solidão azul. Vejo o breu nas nuvens brancas, e clarões na multidão onde me encontro só.
Quando não estás nada faz sentido. Tudo acontece devagar, o que posso me aborrece, o que preciso não tenho. Sem ti o mundo não tem cores nem valores, é mera abstração que teima em misturar-se entre a ansiedade e a angústia da espera. Só ao teu lado me sinto vivo, tudo posso e nada quero além de ti! É contigo que o tempo voa, que o vento canta e as aves falam. É só contigo que preciso estar, que posso ser, que dou conta de existir.
Quando não estás também não estou, sequer posso dizer que sou, quando não estás!
