Rui   Carvalho  { Vox Comunicação & Marketing}

MEU LIVRO DIGITAL SOBRE MARKETING DE DESTINOS E EVENTOS

by on mar.11, 2010, under MEU LIVRO SOBRE TURISMO

Convention & Visitors Bureaux 

O Grande Negócio do Marketing de Destinos e Eventos

MEU LIVRO SOBRE TURISMO E EVENTOS

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“O Turismo vai ser a bola da vez, vai suprir boa parte das nossas necessidades, vai gerar empregos, divisas e reduzir as desigualdades regionais distribuindo melhor a renda!”

  Pres. Luiz Inácio Lula da Silva em 28.04.2003

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Nota do autor:

 A publicação de um livro com a história dos Convention Bureaux e algumas considerações sobre o Marketing de Destinos, sempre foi uma de minhas metas pessoais. Quase uma obsessão. Com o tempo, e com o desenvolvimento das minhas palestras — já foram mais de 80 em 16 estados brasileiros — colegas, amigos e clientes começaram a cobrar de mim essa tarefa. Percebi que não podia mais adiar, era preciso colocar mãos à obra. Não foi fácil. Sempre tive dificuldade em aceitar as coisas do jeito que elas me são apresentadas. Procurei, ao longo de minha carreira, questionar conceitos, quebrar paradigmas, discutir alternativas, enfim, olhar o mercado e a maneira de fazer as coisas por uma nova perspectiva. Umas vezes deu certo, outras não. Ao longo dessa viagem fiz muitos admiradores, alguns amigos e um punhado de desafetos. Nunca me importei muito com isso. Aprendi que ter idéias próprias tem sempre seu custo, e nunca me neguei a pagá-lo. Toda essa turbulência acabou dando alguns resultados positivos. Ajudei a consolidar alguns conceitos no setor de CVBx, ou melhor, talvez seja mais apropriado dizer, algumas linhas de raciocínio que permitiram estabelecer alguns conceitos, algumas linhas de ação que se tornaram padrão entre os CVBx brasileiros.

             Gosto muito de falar para estudantes. Com o perdão do lugar comum, é como semear em terra virgem, os frutos são quase sempre recompensadores. Ao longo de minha atuação como palestrante tive oportunidade de apresentar minhas idéias em faculdades e instituições de ensino técnico. Em tais ocasiões sempre estimulei o debate, a livre circulação de idéias. Nunca me apresentei com soberba, com aquele ar afetado de quem acha que sabe tudo e está ali fazendo um favor ao permitir que alguns ouvintes absorvam um pouco de todo aquele conhecimento. que sabe das coisas e vai ensinar os Alguns estudantes debateram comigo os temas principais e espero ter contribuído para enriquecer seus conhecimentos. Quando, finalmente, decidi publicar um livro, percebi como é difícil a tarefa sem nenhum tipo de ajuda ou estrutura profissional. Faltam os contatos, falta patrocínio, falta interesse, enfim, faltou tudo menos a vontade de tornar público o que tenho escrito sobre nosso turismo e, principalmente, o que consegui pesquisar sobre nossas entidades, os Convention & Visitors Bureaux.

          Depois de algumas tentativas fracassadas de publicar o trabalho, resolvi disponibilizar o que escrevi no meu site para que todos pudessem ter acesso. Não é o texto completo, mas é o que consegui escrever enquanto ainda tive ânimo para vencer as dificuldades.

         Algumas informações podem estar defasadas, pois os fatos e números do turismo são muito dinâmicos e não há como manter tudo absolutamente atualizado. Porém, entendi que deveria publicar mesmo com alguma defasagem, pois, no geral, acredito que o conteúdo é positivo e inédito em muitos aspectos. Há algumas fotos registrando momentos históricos e, por certo, há afirmações e conceitos questionáveis, por serem fruto de minha interpretação e vivência. Não me incomodo com críticas, elas são necessárias para que melhoremos nosso desempenho.

          Só peço ao leitor que considere a dificuldade de escrever algo sobre um tema ainda pouco levado a sério, onde ainda há relativo desconhecimento, e cujo principal motivador, os CVBx, permanecem mal compreendidos mesmo por quem tem obrigação de conhecê-los a fundo. Por fim, sabemos das dificuldades crônicas de trabalhar com números confiáveis e com estatísticas no Brasil, embora o cenário tenha melhorado muito nos últimos anos. Peço então aos leitores que leiam estas páginas com o espírito desarmado e que saibam perdoar eventuais falhas ou incorreções. No fundo, o que pretendo, é chamar a atenção para esse segmento tão importante que é o Turismo de Negócios, impulsionado pelos pouco conhecidos Convention & Visitors Bureaux. Quero fazer um registro histórico de alguns fatos e de um punhado de pioneiros que têm ajudado a construir a força do turismo brasileiro. Tenho também a pretensão de contribuir para que o segmento seja visto pela perspectiva adequada à sua importância econômica. Aproveito para agradecer a todos quantos colaboraram, direta ou indiretamente, para que este trabalho chegasse até aqui. Aos nominalmente citados o meu agradecimento especial pela contribuição ao meu livro e ao turismo brasileiro, aos que, eventualmente, tenham sido esquecidos, a minha gratidão pela generosidade com que sei que irão perdoar-me. A todos, o meu sincero e profundo respeito.

 Boa leitura.

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Capítulo I

 

O Turismo e suas definições – a bola da vez?

 Se você procurar no dicionário a definição de Turismo, não se espante se encontrar algo do tipo: “turismo é o deslocamento de uma ou mais pessoas, por motivo de lazer, para um local especialmente agradável”. É isso mesmo, por mais prosaico que possa parecer, ainda é assim que o turismo costuma ser entendido pela maioria das pessoas em muitos lugares. Entretanto, e apenas para registro histórico, fique sabendo que a primeira tentativa de definir turismo data de 1911, isso mesmo, do início do século passado, e foi formulada por um sisudo economista austríaco com o pomposo nome de Hermann Schattenhofen! Dizia Herr Hermann que: “Turismo é um conceito capaz de englobar todos os processos, especialmente os econômicos, necessários ao desenvolvimento das atividades de atendimento aos que viajam, compreendendo os serviços desde a chegada até a saída do turista em um determinado destino”.

Achou um pouco confuso? Elaborado demais? Não ligue, o importante é perceber que, já naquele tempo, Schattenhofen fazia questão de frisar que o turismo estava, primordialmente, relacionado à atividade econômica.

Com relação ao uso do termo “turista” de acordo com os motivos da viagem, ainda no início do século passado, outro estudioso do assunto, Schwink, dava a seguinte definição para o turismo: “o turismo é o deslocamento temporário de pessoas do local de sua residência habitual, por qualquer motivo relacionado com o espírito, o corpo ou a profissão.”

Agora olhe com atenção o mundo à sua volta! Não vai ser difícil perceber que, embora muitas coisas tenham mudado desde Schattenhofen, algo permaneceu exatamente no mesmo lugar: o impacto da atividade turística na economia dos principais destinos.

Se você for um pouco mais fundo, também perceberá que hoje as pessoas viajam, cada vez mais, por razões que pouco têm a ver com lazer ou com lindas paisagens! Ou se têm, pelo menos não é essa a única razão para a viagem. Nesse aspecto, e apesar de ser ainda um assunto controverso, aceito mais facilmente a definição de Schwink, que considerava a viagem por motivos profissionais como atividade turística. A discussão está longe de terminar, mas, enquanto o mundo acadêmico debate a questão semântica, nós, profissionais de convention bureaux, preferimos ignorar os motivos da viagem, e concentrar nossos esforços no fato de que, qualquer que seja esse motivo, a cadeia produtiva do turismo será movimentada com benefícios para todos os envolvidos.

Assim, estamos cumprindo o papel que nos cabe de promover o aumento do fluxo de visitantes como forma de alavancar as economias regionais, como veremos mais adiante.

De qualquer maneira, e sem querer encerrar a questão, permitam-me apresentar o que a Organização Mundial de Turismo – OMT, define como atividade turística, apenas para que tenhamos uma espécie de versão oficial que nos libere da perigosa viagem que grande parte dos estudiosos empreenderam ao se embrenharam pelo traiçoeiro labirinto que é a semântica e a discussão conceitual. Afinal, meu primeiro professor de filosofia, descrevia o filósofo como: “um peregrino em busca da verdade sem jamais conseguir alcançá-la ou defini-la!”.

Não sei quanto a você, leitor, mas no que me diz respeito, não tenho a pretensão de tornar-me um peregrino das definições do turismo, prefiro concentrar-me nos seus efeitos mais visíveis e mais práticos. Veja, então, o que diz a OMT:

Turismo é: “o ato de se deslocar do seu local de residência permanente, por motivos de negócios ou prazer, não incluindo os deslocamentos e viagens de rotina para trabalhar ou estudar”.

Enquanto você decide com qual dos especialistas ou definições você se identifica mais, você pode conferir no site do Ministério do Turismo (WWW.turismo.gov.br) quais os principais motivos de viagem dos turistas estrangeiros em visita ao Brasil. Quem sabe isso traz alguma luz à sua decisão e o transforme num peregrino realizado? Relaxe, o bom humor ajuda a digerir os assuntos mais áridos e estimula a imaginação, é só vantagem!

 Nos últimos anos a tendência a viajar mais a negócios ou para participar de eventos acentuou-se, chegando a 55% em muitos destinos brasileiros quando somamos as viagens de trabalho, com as de incentivo e a participação em feiras e congressos. Convenhamos, é uma bela fatia de mercado que muita gente ainda teima em não reconhecer.

 A novidade é que, definitivamente, de uns anos pra cá, a atividade turística vem sendo encarada como dínamo do desenvolvimento econômico, como força geradora de emprego e renda, e até, em alguns países, como principal produto de exportação, caso da Espanha e Portugal, por exemplo, onde o turismo é responsável pela entrada de bilhões de dólares a cada ano. Citei Portugal e Espanha por serem exemplos de países cuja economia apresenta um enorme grau de dependência da atividade turística. A Espanha, por exemplo, figura sempre nos primeiros lugares de qualquer ranking do setor. Mas não há como deixar de notar o impacto econômico do turismo em outros países campeões em entrada de turistas estrangeiros, como a França, os Estados Unidos, a Itália ou o Reino Unido, por exemplo. Nestas nações desenvolvidas, assim como no Brasil nos últimos anos, os números não param de crescer e o revezamento entre os top ten mundiais, acontece sempre entre o mesmo grupo de países, com a recente entrada da China como uma das estrelas mais promissoras, rivalizando com França, Espanha, Estados Unidos e outros ícones mundiais. Não tem problema, um dia também chegaremos lá. Por enquanto, e já não é pouco, contentemo-nos em freqüentar na lista dos dez países que mais sediam eventos internacionais. Não foi fácil chegar lá, mas mais difícil ainda será permanecer nesse grupo de elite que tanto nos orgulha.  

 De qualquer forma, o que se pretende estabelecer aqui, é a tese de que o turismo, como produto gerador de divisas, caminha ombro a ombro com atividades da indústria tradicional que antes reinavam sozinhas. Na pauta de exportações de vários países, o Brasil incluído, e, por conseqüência, na economia mundial, na qual já ocupa lugar destacadíssimo, a atividade turística vem desenvolvendo uma musculatura que os pioneiros estudiosos do assunto não imaginavam nem em seus sonhos mais otimistas! Entretanto, essa onda de riqueza proporcionada pelo turismo não atinge a todos os lugares com a mesma intensidade: há tsunamis e marolinhas. Há continentes que recebem boa parte do fluxo e outros que ainda lutam para viabilizar-se como destinos consolidados.  

 Mas não se iluda. Não estamos falando aqui apenas do turismo representado por grupos que se deslocam por motivos de lazer para lugares agradáveis! Evidentemente, a atividade turística tem muitas formas, e as razões que levam alguém a viajar, como já vimos antes, são tantas quantas são as motivações que impelem o ser humano a buscar melhorar de vida ou a tentar escalar a pirâmide social. Não há como negar que hordas de turistas invadem praias paradisíacas mundo afora, inclusive no Brasil. É certo que motivos religiosos ou de profissão de fé, a busca por novos conhecimentos e cultura, acontecimentos esportivos ou tratamentos de saúde, palestras, seminários e congressos, ou simples reuniões de trabalho, são motivos poderosos que estão na origem de milhões de viagens a cada ano! (como admitia Schwink já em 1929).

Seguindo esse mesmo raciocínio, e até para sermos coerentes com o nosso segmento de atuação, no âmbito dos Convention Bureaux, defendemos uma definição mais adequada à importância que exigimos para a atividade turística dos nossos dias. No primeiro slide das minhas palestras sobre turismo de negócios e eventos, que tenho levado aos quatro cantos deste belo Brasil, proponho a seguinte definição: “o turismo é um conjunto de atividades econômicas, agindo em sinergia para promover o desenvolvimento integrado de um país ou região”.

Que tal? Chique não? Talvez você ache os termos um pouco pedantes, mas se tiver o cuidado de analisar a frase com o espírito desarmado, que é, aliás, como devemos encarar as coisas toda a vez que nos deparamos com conceitos ou idéias aos quais não estamos acostumados, você perceberá que cada palavra está desempenhando um papel fundamental no contexto apresentado.

 Senão vejamos: o turismo é um conjunto de atividades econômicas. O que isso significa na prática? Não é verdade que podemos contar mais de uma dezena de setores envolvidos numa simples viagem de lazer? Por exemplo, o agenciamento da viagem, o transporte, a operadora, o receptivo, a hotelaria, a gastronomia, a vida noturna, as compras, os atrativos turísticos, os táxis, as casas de câmbio, a locação de veículos, e por aí vai! Você percebe que tudo isso precisa interagir para que uma simples viagem se concretize? E não é verdade que todas essas atividades mantêm correlação, formando uma cadeia (econômica) que garante a execução dos serviços?

Agora analisemos a segunda parte da definição proposta: agindo em sinergia para promover o desenvolvimento integrado de um país ou região. O que vem a ser isso? O que se quer dizer com sinergia e desenvolvimento integrado? Continuemos com o raciocínio iniciado no parágrafo anterior: se uma viagem de lazer, por mais simples que seja, precisa envolver mais de uma dezena de atividades, as quais se complementam para a entrega do produto, como fazer isso sem que se estabeleça uma sinergia, uma conjugação de interesses e objetivos, uma sólida parceria entre elas? E como negar que esse conjunto de atividades, ao empregar milhares de profissionais com as mais variadas qualificações, e forçar a circulação de milhões de reais no comércio e serviços locais, seja um excelente instrumento de promoção do desenvolvimento, da geração de empregos e renda, integrando e promovendo, como numa corrente do bem, as economias de regiões inteiras ou países?

Aí está então, na prática, a justificativa para essa definição aparentemente tão solene! Ao entendermos a interatividade do processo turístico, a sua impressionante transversalidade, começamos a perceber a força econômica que o setor possui. Força essa capaz de irradiar seus efeitos por toda a sociedade, multiplicando empregos e distribuindo renda. Já que estamos falando nisso, em empregos e renda, permita-me uma sugestão: se você, leitor, é turismólogo ou está a caminho da graduação, lembre-se que o turismo, por si só, não é uma profissão, mas um gerador de profissões!

É preciso que você entenda essa sutil (?) diferença para que não crie expectativas exageradas com relação ao que pode esperar do mercado de trabalho depois de concluído o curso. A graduação deve ser apenas o início, a base, o alicerce que sustentará o seu desenvolvimento profissional. Se você não for capaz de buscar uma especialização, de identificar suas aptidões, desenvolver suas habilidades específicas e encontrar o seu nicho de mercado, dificilmente conseguirá vencer num ambiente tão competitivo e pulverizado como é a atividade turística. Tenha isso em mente quando pensar em buscar um estágio, uma pós-graduação ou um curso extra curricular.

Ainda assim, antes de se deixar iludir com a perspectiva de freqüentes viagens, belas praias ou experiências inesquecíveis, convém refletir bastante sobre a vantagem de se graduar em turismo e acabar com um belo diploma pendurado na parede com a missão de lhe lembrar o quanto estavam erradas suas convicções!

Não se assuste, eu explico melhor: ao longo de todos estes anos em que venho lecionando matérias ligadas à atividade turística, não deixo de surpreender-me com a quantidade de alunos que, quando perguntados sobre os motivos que os levaram a buscar o turismo como opção profissional, respondem com um desconcertante e perigoso “é porque gosto muito de viajar!”

Cuidado com falsas expectativas, não se deixe iludir por promessas que dificilmente serão cumpridas, não escolha seu curso por influência de amigos ou por modismo! Procure refletir, pesquisar, conversar com profissionais do mercado, fazer comparações, não se incomode se precisar desempenhar o papel de advogado do diabo. Pergunte, questione, mantenha a mente aberta a novas idéias, novos conceitos, opiniões contrárias à sua. Só depois desse expurgo, desse mergulho, você terá chances de escolher um caminho com alguma possibilidade de sucesso!

 Vou propor um desafio imediato: desarme o espírito, não me julgue, apenas raciocine comigo usando todo o pragmatismo que conseguir. Vamos a alguns exemplos: suponha que você quer graduar-se em turismo porque gosta muito de aviões (acredite, por incrível que isso possa parecer, não é difícil achar quem pense assim.) Pois muito bem, se você gosta de aviação e pretende trabalhar numa companhia aérea, por exemplo, perceba que a empresa vai precisar sempre de pilotos, advogados, vendedores, marketeiros, psicólogos, nutricionistas, administradores, enfim, uma porção de profissionais para desempenhar funções variadas em seus múltiplos departamentos, mas, provavelmente, não vai exigir, especificamente, alguém com formação em turismo!

Tudo bem, imagine então que você está cursando turismo porque gosta de agenciamento ou operações e pretende montar uma agência de viagens ou trabalhar numa grande operadora. Já percebeu que essas empresas também garantem emprego para uma série de profissionais (administradores, vendedores, publicitários, advogados, relações públicas, marketeiros), mas não têm necessidade específica, ao menos por enquanto, de contratar turismólogos?

Vamos com calma, antes que você se decepcione e jogue este livro a quilômetros de distância, deixe-me dizer-lhe que não estou fazendo um juízo de valor sobre qualquer curso ou formação acadêmica! Estou tentando demonstrar a maneira como o mercado, bem ou mal, se comporta e o que você vai enfrentar na vida real! Acredite, na busca por uma colocação no mercado, a graduação em turismo não costuma ser diferencial competitivo, mas, no máximo, apenas algo desejável em determinadas situações, quase como um adereço! Repito para não haver equívocos: não estou assumindo uma posição contrária ao bacharel em turismo, mas apenas dando exemplos de como os empresários do setor se comportam na prática!

Resumindo: se você não tem certeza da sua vocação e não definiu seus objetivos com relação à sua futura profissão, talvez seja melhor optar por um curso mais abrangente como marketing, administração ou publicidade. Afinal, de posse de um diploma desses, você sempre terá a oportunidade, caso descubra que o turismo não é a sua praia (com perdão do trocadilho!), de procurar colocação em empresas de outros setores da economia, ou permanecer no turismo, se for esse o seu desejo! Pense nisso antes de seguir modismos ou deixar-se levar por falsas expectativas.

Mas vamos voltar à vaca fria. Afinal, não escrevi este livro apenas para estudantes de turismo, e muito menos para desencorajar alguém a seguir seus sonhos. É evidente que o mercado está amadurecendo, ficando mais profissional e exigente, e a tendência é que pessoas com graduação em turismo ganhem mais espaço em determinadas atividades, principalmente naquelas ligadas ao planejamento turístico e à formulação de políticas, conceitos e padrões de sustentabilidade turística. Os bons profissionais sempre serão procurados e acredito que há um longo caminho a ser desbravado no cenário do turismo brasileiro. Mas mesmo correndo o risco de ser chamado de chato, insistente, vou repetir minha recomendação: cuidado. Não tome decisões apressadas. Não embarque em modismos e não deixe que os outros decidam que tipo de profissional você será! Mas se você já ponderou todos os aspectos, todas as variáveis, e seu coração lhe diz que não há escapatória, que sua realização está no turismo, então meu amigo (a), prepare-se para longas jornadas de trabalho, exaustivas rodadas de negócios, fins de semana longe da família e amigos e muita incompreensão. Como disse alguém com muita propriedade, nunca esqueça que o turismo precisa muito mais de carregadores de piano do que de concertistas!  Mas se mesmo assim você está firme em sua decisão, se é ou foi uma escolha consciente, então seja muito bem vindo a uma atividade que, como piscina em dia de vento, a gente reluta em entrar, mas depois não sai de jeito nenhum!

  

Capítulo II

 Dados e características

 Agora que já temos uma idéia mais abrangente do que é o turismo, que já entendemos o impacto da atividade no funcionamento da cadeia econômica, que já encaramos o setor como instrumento de desenvolvimento econômico e gerador de progresso, estamos prontos para ter contato com alguns dados importantes que envolvem essa fantástica indústria no mundo inteiro!

Começaremos por coisas mais genéricas, sem levar em conta as várias correntes da atividade. Você sabe que o Brasil não é lá muito pródigo em estatísticas e pesquisas, certo? Embora nos últimos anos tenhamos avançado bastante nessa área também. Pois é, no turismo as coisas são um pouco piores! Pelo menos até a data em que iniciamos este trabalho, não era fácil encontrarmos números confiáveis ou atualizados, mas podemos ter uma idéia da importância do setor se olharmos com atenção os dados que nos chegam através da OMT – Organização Mundial de Turismo, e EMBRATUR, duas instituições de grande confiabilidade. Uma rápida pesquisa em seus sites revelam, por exemplo, que países como Argentina, Chile, Estados Unidos, Espanha, Itália, Alemanha, França e Portugal, não necessariamente nesta ordem, são os principais emissores de turistas com destino ao Brasil.

 De onde vêm nossos turistas?

Embora Argentina (pela proximidade e tradição histórica), e Estados Unidos continuem sendo nosso principal mercado, países como Portugal vêm apresentando desempenho crescente, até por conta dos esforços de promoção da EMBRATUR, e, principalmente, faça-se justiça, pelo excelente trabalho desenvolvido pela TAP – a companhia aérea portuguesa, que já tem no mercado brasileiro quase um terço de sua receita mundial. O caso norte-americano, entretanto, está embalado numa situação exemplar. Imagine você se não houvesse nenhuma barreira à entrada do cidadão americano no Brasil. Se não houvesse necessidade de visto consular, obtido ao custo de mais de 100 dólares e com a necessidade, incompreensível para o padrão americano, de ter que ficar algumas horas na fila. Sem contar que não há consulados em cada esquina dos Estados Unidos, o que obriga o cidadão que quer vir gastar os seus dólares no nosso país, gerando empregos e renda, a deslocar-se até uma das cidades americanas que têm consulado brasileiro! Mesmo assim, com o Brasil adotando uma reciprocidade chinfrim e provinciana, disfarçada de defesa da soberania, o americano ainda é o povo que mais nos visita, imagine quando conseguirmos que as autoridades entendam que o turismo não é o fórum adequado para medir forças na política externa, principalmente quando se trata de países que partem de premissas diferentes. A verdade, sem rodeios e por mais que isso possa doer a alguns nacionalistas empedernidos, é que nós precisamos mais dos americanos aqui, do que eles de nós por lá, por isso, fica um tanto quixotesco exigir visto do cidadão americano apenas para aplicar a lei da reciprocidade. O que precisamos é gerar emprego e renda, precisamos que o americano venha gastar seus benditos dólares na nossa economia. Duvido muito que o cidadão de Manhattan ou Los Angeles queira vir clandestinamente para o Brasil, entrando como turista, para disputar  emprego com o nosso pobre assalariado. Só se for pelas regalias oferecidas pelo nosso sistema público de saúde, nossa assistência social exemplar ou a segurança das nossas cidades, mas aí, bom, aí só quem ainda acredita em Papai Noel vai enxergar alguma lógica nisso!

Não deixa de ser curioso, também, perceber que entre os dez primeiros colocados no ranking de maiores emissores, vemos apenas três vizinhos, Argentina, Uruguai e Paraguai. Parceiros importantes como Chile, Colômbia, Peru e Venezuela nem aparecem na tabela. No meu entendimento isso merece uma reflexão. Talvez fosse importante a gente se preocupar em atrair primeiro os vizinhos, para só depois partir em busca dos europeus e asiáticos. Afinal, os dólares dos chilenos são tão bons quanto os dos japoneses ou alemães, com a vantagem de que estão muito mais perto de nós, exigiriam menos investimento em promoção e a eventual diferença de renda em relação aos países mais ricos, poderia ser anulada pelo volume de entradas, turbinado pela proximidade, afinidade cultural e histórica e, consequentemente, custos muito mais baixos. Eduardo Sanovicz, ex-presidente da EMBRATUR, costumava dizer que cartão de crédito é igual em todo o mundo. O cartão do paraguaio, por exemplo, paga os mesmos serviços do cartão do finlandês! Se começarmos por atrair os vizinhos, poderemos incrementar os números de entrada de turistas estrangeiros de maneira jamais pensada! É só olhar os números do turismo europeu e entenderemos facilmente o que se pretende demonstrar aqui. Analise-se qual o percentual de visitantes vindos de países vizinhos que a França (presente com destaque em qualquer ranking mundial em entrada de turistas) recebe anualmente. Faça-se o mesmo com Portugal, Espanha (outro gigante nesse setor) e Itália. Não vai ser difícil constatar que esses países há muito descobriram que é muito mais eficaz investir na atração de seus vizinhos do que tentar buscar mercados mais distantes, que exigem investimentos muito maiores e cujos resultados são menos imediatos. É claro que há a questão da renda per capita que favorece o intercâmbio de turistas entre países do primeiro mundo, ainda mais se forem vizinhos, mas isso não pode nem deve servir de desculpa para a miopia que turvou a visão brasileira ao longo de muitos anos! É só verificar o número de colombianos ou chilenos que viaja ao exterior uma ou mais vezes por ano e descobrir quantos deles têm o Brasil como destino! Está aí mais uma lição de casa que ainda não cumprimos e que urge colocar em dia em ritmo acelerado. Mesmo com as dificuldades ou distorções aqui mencionadas, a evolução dos desembarques de estrangeiros no Brasil não deixa margem para dúvidas: estamos no caminho certo e a política de promoção comercial do Brasil, calcada em produtos que vão do turismo de aventura ao golfe, do turismo cultural ao de feiras e eventos, está provando que não dependemos mais de corpos bronzeados ou de praias paradisíacas para atrair uma boa quantidade de turistas dispostos a gastar com voracidade crescente. A evolução dos números de desembarque de turistas estrangeiros nos últimos anos, embora mostrando leve retração por conta da crise mundial que varreu o planeta em 2008/2009, mostra que encontramos o caminho, basta persistir nele. O número de desembarques de vôos regulares em 2004 já havia superado o resultado obtido nos anos dourados de 97/98, quando condições excepcionais nos fizeram atingir, pela primeira vez, a marca dos 5,0 milhões de visitantes. A nova postura da EMBRATUR, agora dedicada exclusivamente à tarefa de promover o Brasil lá fora, já dá provas de seu acerto. O aumento substancial no número de desembarques de vôos não regulares também é indicativo de que algo está mudando para melhor, muito melhor! Entretanto, se olharmos com mais cuidado os resultados num retrospecto maior, vamos perceber também que há certa tendência para a estagnação. Na verdade, o patamar de cinco milhões pode ser difícil de romper, mas isso tem causas variadas e, algumas já identificadas. Uma delas, por exemplo, é a distância. Como vimos acima, é mais fácil e mais prático atrair os vizinhos, e como não havia essa política bem estruturada e de forma persistente, lá fomos nós atrás de americanos e europeus, esquecendo-nos de que não é fácil nem rápido chegar ao Brasil quando se parte dos principais países emissores. Tampouco é barato. Ultimamente o real ficou valorizado e as moedas estrangeiras, principalmente o dólar americano e o euro, perderam valor frente à nossa moeda. Isso fez com o Brasil, por incrível que possa parecer, ficasse muito caro até para os padrões do turista estrangeiro. Recentemente passei algumas semanas na Europa e percebi como isso pode afetar-nos fortemente. Um café expresso, por exemplo, custa em Portugal 0,60 cêntimos, ou aproximadamente R$ 1,50. Dê uma volta por qualquer shopping brasileiro e veja se encontra algum expresso de boa qualidade por menos de três reais, ou seja, o dobro! Mas isso não é só. A alimentação, item com pouco peso nas despesas de viagem no Brasil, passou a encarecer muito acima da inflação e hoje já é possível alimentar-se em alguns países da Europa por valores menores que no Brasil. Some-se a isso as grandes distâncias domésticas, as dificuldades nos nossos aeroportos, o preço das passagens e as péssimas condições de nossas estradas e perceberemos que nossos variados e espetaculares atrativos turísticos estão ficando cada dia mais inacessíveis, quer por razões econômicas quer logísticas. Dá para prever que, se nenhum fato novo ocorrer, ainda vamos levar um bom tempo para sair da marca dos cinco milhões de passageiros internacionais por ano. Uma alternativa que o mercado e a EMBRATUR já estão buscando, é ir atrás de turistas mais qualificados, ou seja, que gastam mais e impactam mais setores da nossa economia. Se não podemos trazer mais pessoas, precisamos fazer com as que vêm gastem mais ou fiquem mais tempo. Mais uma vez, o setor de eventos tem uma responsabilidade enorme nessa estratégia, pois é o segmento que lida com turistas mais qualificados. É claro que os dois grandes eventos esportivos que se avizinham, a Copa do Mundo de Futebol e a Olimpíada, poderão ajudar a reverter a situação, fazendo com que, se trabalharmos da forma adequada, sejamos capazes de verificar um aumento substancial no número de visitantes estrangeiros. É uma possibilidade, é uma esperança, mas é preciso trabalhar muito e bem. Principalmente, é preciso saber criar condições para que esse aumento não se verifique apenas nos anos em que os eventos ocorrem, mas que eles sejam uma oportunidade de rever conceitos e redefinir estratégias, deixando um legado que possa servir de alavanca para metas mais condizentes com o nosso potencial.

 E como anda o turismo interno?

No front doméstico também há motivos para comemorar. Embora a conjuntura ainda seja complicada e algumas demandas necessitem ajuste, é impossível não perceber que o brasileiro está viajando mais e conhecendo melhor o seu país. Ainda falta trabalhar melhor a questão do transporte aéreo, que é séria e forte inibidora do turismo doméstico num país com dimensões como o nosso. Deslocar-se de avião ainda é muito caro para os padrões da classe média brasileira, mas, é inegável que tem havido muitos e significativos avanços. Está aí o exemplo inquestionável da Azul, uma empresa que ao optar pelo sistema low cost low fare (baixo custo, preço baixo) abocanhou uma fatia significativa do mercado em pouco tempo, firmando-se como uma das melhores empresas aéreas do país, numa prova de que o mercado é viável quando se começa sem vícios e sem passivo. Segundo declararam recentemente seus dirigentes, a empresa pretende acabar 2011 com 12% do mercado, uma fatia considerável quando se percebe que a empresa tem pouco mais de dois anos de existência! Esse desempenho já a coloca na terceira posição no ranking nacional, logo atrás de TAM e GOL que também mostram números saudáveis e continuam a apresentar um desempenho digno de primeiro mundo, ou melhor, de mundo emergente, cujo crescimento é muito mais robusto. É claro que nem tudo é perfeito e o céu de brigadeiro ainda é um sonho distante para alguns players, porém, é preciso entender que o custo das companhias aéreas é formado por variáveis muitas vezes perversas. Há muitas despesas em moeda forte (leasing de aeronaves, peças e operações no exterior) e a maior parte da receita entra em reais, fazendo com que, ao somar-se essa distorção com a alta carga tributária e demais componentes do custo Brasil, a conta não feche nunca! Mas se a situação ainda é delicada para alguns, não há como negar que o mercado evoluiu. Empresas como a Avianca e a Trip, bem como o aumento do número de vôos charteres têm contribuído muito para animar o cenário doméstico e são responsáveis pelos números, cada vez mais promissores, do nosso turismo interno. Há problemas de malha aérea que ainda prejudicam alguns destinos que têm pretensões turísticas, mas não se pode inventar nesse negócio. Não tenhamos ilusões, uma companhia aérea só colocará uma freqüência nova numa rota que ofereça retorno do investimento. A época dos vôos de caráter político, quando interesses públicos determinavam a malha aérea, pouco importando se havia lucro ou prejuízo, já está, felizmente, superada. É preciso entender todos os mecanismos do mercado para evitar a tentação da crítica fácil e superficial. O turismo doméstico não está perfeito, mas está muito melhor do que sempre foi, e o que é mais importante, é que as perspectivas são as melhores, basta que se resolvam alguns gargalos, sendo o principal deles a infra-estrutura aeroportuária, e que se invista no bom senso que tudo ficará mais claro. Os aeroportos brasileiros, sem dúvida, precisam de pesados investimentos, e o tempo urge. Falta de tudo. Faltam terminais de passageiros, faltam pistas e pátios, faltam aeroportos inteiros. A Copa vem aí e a situação é preocupante. Dizem alguns observadores da cena política que a demora em fazer os investimentos deve-se à astúcia (?) de algumas de nossas autoridades com interesses nas grandes construtoras. Quem defende esse raciocínio acredita que a demora em iniciar as obras serviria para que, lá mais na frente, com o governo pressionado pela necessidade de efetuar as obras em regime de emergência, possa flexibilizar as regras licitatórias, dificultando o controle e a fiscalização dos processos, o que resultaria em rios de dinheiro público desviado, uma verdadeira olimpíada de corrupção. Será? Em se tratando de nossa classe política tudo se pode esperar, mas, como otimista profissional, prefiro acreditar que a criatividade brasileira vai acabar por encontrar uma solução que atenda às necessidades do nosso setor de forma mais republicana. Veremos.  

 

Turista Qualificado

Uma das principais vantagens do turismo é o impacto direto que a atividade exerce em vários setores da economia. Para se ter uma idéia melhor dessa vantajosa relação de causa e efeito, basta dizer que, apenas com o turismo de negócios e eventos, mais de 50 atividades diferentes são impactadas. O gasto per capita do turista também é muito importante para que possamos aplicar nossos esforços nos melhores mercados. O importante, entretanto, não é o valor absoluto que o turista gasta, mas a certeza de que o turista de eventos, por razões mais ou menos óbvias, gasta mais do dobro do turista de lazer, deixando evidente qual deverá ser a aposta dos destinos que podem trabalhar esse nicho. Essa diferença é absolutamente compreensível: o turista de eventos costuma utilizar-se de hotéis de categoria superior e gasta mais com extras (compras, programas culturais, gastronomia, etc.). A vantagem é que ele, normalmente, tem as despesas básicas de alimentação, transporte e hospedagem pagas pela empresa ou entidade que representa e, consequentemente, tem mais folga para gastar com outras coisas. Como vantagem adicional podemos citar também que, ao necessitar comprovar as despesas para obter seu ressarcimento, o turista de negócios e eventos tende a exigir sempre a respectiva nota fiscal, contribuindo para evitar a evasão e aumentar a arrecadação de governos e prefeituras. Além disso, pela natureza de sua atividade, costuma gerar impacto econômico em setores que não fazem parte da lista de interesses do turismo de lazer e entretenimento, como fornecedores de serviços especializados para eventos, por exemplo. Não podemos esquecer que eventos também costumam atrair mídia espontânea, dando uma ajuda gratuita na divulgação das cidades onde acontecem. Da mesma forma, e dependendo da característica e especialidade do evento, pode haver transferência de tecnologia, uma vez que se discutem processos, ferramentas e técnicas entre os maiores especialistas do mundo, numa transferência de conhecimento que também resulta em vantagem para o destino receptor.

De qualquer forma, seja qual for o segmento explorado, fica evidente que o turismo, por qualquer ângulo que se encare, é uma atividade fortemente impactante das economias locais.

A disputa pelo turista estrangeiro, de negócios ou lazer, entretanto, é travada num ambiente de muita competição. Os Convention & Visitors Bureaux dedicam boa parte dos recursos que arrecadam à promoção dos seus destinos, justamente na tentativa de levar alguma vantagem nessa batalha. Fator muito importante para que o impacto econômico seja potencializado é o número de dias que o turista permanece entre nós. Esta deve ser outra preocupação, transformada em objetivo, de todos os CVBx na tentativa de aumentar a ocupação hoteleira e o volume de recursos arrecadados pelo país com turistas estrangeiros.

Em se tratando da atração de turistas de eventos, por exemplo, é curioso perceber que a “panelinha” representada pelo eixo Rio-São Paulo, que reinou absoluta por anos a fio, começa a ser desfeita. Nos últimos anos, cidades como Brasília, Curitiba, Campinas, Uberlândia, Porto Alegre e outras, têm figurado com destaque nos rankings que medem a ocorrência de eventos internacionais. É um bom sinal, embora no segmento do turismo de lazer ainda possamos verificar a ditadura dos destinos tradicionais. Os resultados mais recentes, entretanto, mostram que além dos habituais portões de entrada representados pelo Rio de Janeiro e São Paulo, eternos campeões, cidades que têm explorado bem seus recursos e investido em promoção de qualidade, vêm tendo, principalmente nos últimos três anos, resultados bem animadores. É o caso de Salvador, Fortaleza e Búzios, só para citar os exemplos mais conhecidos. Números mais atualizados deverão confirmar essa tendência ascendente, mas é bom ressaltar que, sintomaticamente, essas são cidades que investem muito dinheiro e há muito tempo na promoção de seus atrativos. O exemplo de Salvador é emblemático: há mais de trinta anos a Bahia vem dedicando volumosos recursos à promoção turística e à melhoria da infra-estrutura, e o resultado não podia ser outro.

Mesmo sendo o turismo uma atividade bastante promissora, e tendo o Brasil um forte potencial, dificilmente igualável por outro país, basta uma rápida olhada nos números e dados disponíveis para que se perceba que algo está errado! O peso do Brasil no fluxo turístico mundial, com todas as nossas belezas e potencialidades, ainda é pífio, muito próximo de zero!

 Evidentemente há um trabalho enorme a fazer, e tanto o Ministério do Turismo como a EMBRATUR e seus parceiros, entre eles a Confederação Brasileira de CVBs, vêm fazendo a lição de casa, com resultados animadores embora ainda muito distantes do ideal. Entretanto, nosso desempenho em nível mundial, não deve ser motivo de choro e lamúria, mas um incentivo para que melhoremos nosso trabalho. Afinal, dependendo do ângulo por que se olhe a questão, esse dado pode ser um motivo a mais para encarar os desafios, visto que evidencia o enorme potencial de crescimento do nosso turismo e permite supor que ainda vamos conseguir grandes vitórias. Com investimento bem direcionado e inteligência competitiva, alcançaremos a conseqüente e desejável geração de empregos que só a cadeia produtiva do turismo pode proporcionar.

  Como dissemos antes, ainda apresentamos um resultado muito abaixo das nossas possibilidades, pois apresentamos média anual de 4.8 milhões de desembarques nos últimos dez anos. Entretanto repare que, com exceção dos anos malditos de 2001 e 2002 (ataques terroristas), os índices vinham crescendo de forma paulatina, e em 2005 já conseguimos bater o número do nosso melhor ano (2000). Esse crescimento, entretanto, foi abatido pela crise mundial de 2008, refletindo-se no desempenho pouco animado do ano seguinte, quando voltamos ao patamar de 2004, que é igual à média da década. Tão importante como o número de chegadas, entretanto, é o volume de divisas gastos pelo turista, índice, este sim, que vem batendo recordes sucessivos desde 2003, com exceção, claro de 2009 que reflete os efeitos da crise mundial do ano anterior.

 Dentro do cenário apresentado não podemos dizer que o desempenho brasileiro não deva ser elogiado. A sensação inicial se confirma, ainda há muito a se fazer, mas é inegável que muita coisa acertada tem sido feita. O caminho está aberto, o rumo está apontado, resta segui-lo com persistência, vontade e muito profissionalismo. Planos de curto prazo para o turismo não conheço nenhum, e todas as tentativas que presenciei em mais de três décadas de experiência, não passaram disso mesmo: tentativas!

 Turismo – uma indústria poderosa!

 Nos últimos anos parece que o turismo saiu dos círculos restritos profissionais e virou assunto obrigatório nas rodas de conversa. De repente ganhamos milhares de especialistas, cada um com sua solução mágica e sua fórmula para levar o Brasil ao lugar que pretensamente merece. Na sua maioria são ignorantes bem intencionados. Não há problema, o turismo é mesmo assim, apaixona quem dele se aproxima e faz com que as pessoas saiam por aí recitando números que não conhecem. Mas vamos aos fatos.

 Segundo a OMT – Organização Mundial de Turismo, entre 2000 e 2008 o número de viagens internacionais cresceu 4,2% atingindo naquele ano a cifra de 922 milhões de turistas, que geraram uma renda aproximada de 5 trilhões de dólares (você leu certo, são trilhões mesmo!), mas há números mais interessantes ainda. Ainda segundo a mesma fonte o setor já emprega cerca de 200 milhões de pessoas, com a vantagem adicional de sabermos que há capacidade para gerar, pelo menos, mais 100 milhões!

E chegando aqui, o leitor vai me permitir um convite: procure dados de emprego relativos a outras atividades como indústria automobilística, comércio varejista, etc. De posse desses números, talvez você entenda melhor a força da nossa atividade e o quanto ela pode ser decisiva no desenvolvimento do país e ajudar na diminuição do número de desempregados, deixando as estatísticas menos perversas.

Entretanto, quero propor a você, leitor, outra reflexão que nos permite colocar a discussão na perspectiva mais adequada, principalmente quando se pretende lançar luz sobre a questão do emprego. Refiro-me, por um lado, ao perfil profissional exigido pela maioria das vagas em aberto por todo o país, e por outro, a uma característica intrínseca da atividade.

No primeiro caso, percebe-se claramente que milhares de postos de trabalho não exigem grande qualificação ou especialização, pois estamos falando de copeiras, motoristas, garçons, seguranças, faxineiros, arrumadeiras, ajudantes gerais e auxiliares de todo tipo. Chamo a atenção para o fato de não se pretender aqui desmerecer ninguém, nem diminuir a importância de nenhuma profissão, mas é evidente que custa menos e demanda menos tempo investir na qualificação e contratação de pessoas nesse nível, por mais que eu defenda a necessidade de treinamento constante e intensivo, do que investir na criação de empregos em atividades cujo desempenho depende fundamentalmente de pessoas graduadas, com especialização, doutorado ou formação técnica sofisticada! A par disso, há o fato, não menos importante, de ser muito mais barato investir na criação de postos de trabalho no turismo do que na indústria tradicional, com a vantagem adicional que o turismo, além de promover a aproximação dos povos, o contato entre culturas diferentes, e a paz, ainda é um enorme fator de distribuição de renda, já que, o dinheiro que é obtido num país, cidade ou região, é gasto ou aplicado num local diferente, fazendo com que os capitais empreendam um fluxo que beneficia todo o espectro geográfico envolvido!

Será preciso apresentar mais algum argumento para que todo mundo entenda a importância de adotar a atividade turística como fator estratégico para o desenvolvimento das nações, principalmente as menos favorecidas economicamente? Você quer mais? Pois bem, aqui vai o toque final: o turismo, praticado de forma sustentável e com responsabilidade, não polui nem desagrega, ao contrário, permite o desenvolvimento sustentável dos destinos e promove o bem estar social, aumentando a auto-estima das comunidades. Bom, acho que agora o leque está adequadamente aberto e já pode servir para arejar a cabecinha dos mais céticos!

  Mas voltando ao tema da geração de emprego, ou melhor, da garantia de empregabilidade, é vital perceber que são justamente as pessoas menos qualificadas que sofrem mais os efeitos da falta de oportunidades de trabalho, engrossando as filas e as estatísticas dos laboralmente prejudicados, (não resisti à tentação de colaborar com o manual do politicamente correto!) mais comumente chamados de desempregados.

 Ainda mais perversa do que a do desemprego, é a fila da desesperança! Essa sim, carrega em seu código genético um potencial destrutivo que pode afetar mais de uma geração de brasileiros. Dar a essas pessoas uma chance de viver com dignidade, uma oportunidade de sustentar suas famílias atuando numa atividade para a qual podem ser facilmente preparadas, significa, não só, permitir-lhes o resgate da cidadania, mas também, e principalmente, abrir-lhes a perspectiva de poder construir um futuro melhor para seus filhos, iniciando um círculo virtuoso que pode tirar o Brasil do atraso social em que se encontra.

Acredito que o turismo pode e deve cumprir esse papel social, é preciso que o mercado, e principalmente as autoridades entendam de uma vez que o turismo é capaz de empregar, com pouquíssimo investimento, mão de obra intensiva e com baixa necessidade de qualificação.

Mencionei antes que gostaria de convidar o leitor a refletir sobre algumas características do setor de turismo. A primeira delas foi abordada nas linhas anteriores, já a outra, obriga-nos a um exercício de futurologia que é, ao mesmo tempo, divertido e desafiador. Para entrar nessa brincadeira séria, entretanto, precisamos começar por imaginar algumas situações corriqueiras à luz da frieza tecnológica. Com o nosso dia a dia dominado por termos como downsizing, teambuilding e intermináveis brainstorming (no interior preferimos dizer toró de parpite), não deixa de ser relaxante apontar o olhar para o futuro na tentativa de adivinhar o que vem por aí.

Você pode imaginar, por exemplo, que um dia poderemos ser atendidos na recepção de um hotel por um ridículo robô de olhos esbugalhados e voz metálica, dizendo algo como: — “bem vindo ao Automatic Plaza Hotel. Digite seu código no painel lateral, coloque sua bagagem na esteira superior e aguarde que vamos estar confirmando o seu crédito. Você já pode estar se dirigindo ao seu andar, pois a confirmação vai estar sendo feita via wireless. Se preferir, introduza seu chip internacional de consumo na abertura à esquerda e aprecie nossa água ionizada enquanto espera o processamento de seu pedido! O Automatic Plaza Hotel agradece a sua preferência e reafirma o compromisso de estar superando as suas expectativas. Pressione f4 para estar voltando ao menu anterior, f5 para repetir esta mensagem ou f1 para sair do sistema.”   –

Exageros à parte, o que pretendo defender aqui, é a necessidade de preservar o contato humano, preferencialmente personalizado, que permeia e sustenta toda a atividade turística. Turismo é gente lidando com gente! O turismo só se faz com pessoas que gostam de atender pessoas. Aliás, o prazer de servir e a vocação para satisfazer as necessidades dos outros, são características que devem ser procuradas obstinadamente nos candidatos a trabalhar no setor. Quem não gosta de ser útil, quem não sabe lidar com gente ou não é capaz de entender a complexidade do comportamento humano, e dela extrair o melhor de cada um, deve procurar outra carreira. Nós trabalhamos numa atividade que nos permite levar felicidade às pessoas, devemos tirar daí nossa própria felicidade ou descarregar nossas frustrações de uma maneira não tão criativa, mas muito mais inofensiva, como plantar batatas ou contar arruelas, por exemplo!

Provavelmente minha opinião não é unânime, e isso é bom, pois dizia Nelson Rodrigues (acho que foi ele, se não foi, vale a frase e que me perdoe o autor) que “toda a unanimidade é burra”. Eu acredito que o turismo dificilmente será contaminado pela automação no mesmo nível de outras atividades. Para citar um caso emblemático, olhe-se o exemplo da indústria automobilística.

Na década de 70 uma montadora empregava mais de 50.000 operários para produzir determinada quantidade de automóveis. Passados 30 anos, a mesma montadora produz o triplo de automóveis com menos de um terço dos trabalhadores!

O que houve nesse meio tempo? Será que não vale a pena refletir sobre isso? Perguntem-se quantos metalúrgicos foram substituídos por robôs? Perguntem-se quantas tarefas antes dependentes de atividades quase artesanais foram substituídas por sofisticados softwares?

O resultado não podia ser outro. Mais produtividade, menos postos de trabalho. Especialistas dizem que os postos de trabalho fechados no chão da fábrica foram substituídos por novas funções em laboratórios de pesquisa, em empresas de informática e, por que não, em fábricas de robôs! Mas embora a questão não seja exatamente essa, ainda assim cabe a pergunta: os números são equivalentes? Trata-se apenas de um reposicionamento? Fecha-se aqui, abre-se ali? Pergunte-se a opinião do operário que perdeu o emprego na montadora e teremos uma idéia da complexidade do problema.

Não sou um simplista, sei que essas coisas nunca são exatamente o que parecem, mas não há como deixar de refletir sobre como tudo isso afeta a nossa vida diária. Obviamente tenho certeza de que ninguém pode travar a roda do tempo. Esses ajustes foram necessários, ninguém está aqui para defender o atraso tecnológico, a volta ao tempo do telefone de manivela!

É claro que precisamos adaptar-nos às exigências do novo consumidor. Isso pressupõe avanços, escolhas nem sempre fáceis, a quebra de paradigmas. Nada há de errado nisso e a própria sociedade se encarregará de fazer as adaptações necessárias. Afinal, o ser humano é a máquina mais adaptável que já foi criada! Não há ferramenta mais versátil que o homem! em tempos de “presidenta”, e antes que alguma feminista mais radical exija a minha cabeça como troféu machista, convém esclarecer que deve entender-se aqui “o homem” como a raça humana, combinado? – Todo esse avanço, porém, toda essa revolução que vem acontecendo debaixo dos nossos narizes, no meu entendimento, afeta muito mais os setores tradicionais da indústria, do que a atividade turística. Cenas como a descrita no improvável Automatic Plaza Hotel dificilmente serão vistas no bom e velho turismo!

O que isso quer dizer em termos práticos? No mínimo, que por mais que a tecnologia ocupe espaço crescente em nossa rotina, o turismo deverá ser uma das poucas atividades de alto impacto econômico que poderão apresentar crescimento consistente na sua força de trabalho. Como disse antes, nossa principal característica é o emprego de mão de obra intensiva, com baixa qualificação e pouco automatizada.

Pode não ser uma constatação muito edificante, mas com o devido respeito aos teóricos puristas, é bom lembrar que contra fatos não há argumentos. O pragmatismo costuma demolir sem dó o idealismo edificado quase sempre em cima de falsas premissas, por isso, é recomendo cuidado até na hora de sonhar.

Se o emprego de mão de obra pouco qualificada incomoda os mais elitistas, precisamos ter a humildade de entender que, sendo o Brasil um país onde o nível educacional, de tão rasteiro, compromete o crescimento sustentável de boa parte da economia, é preciso ter discernimento para encarar estrategicamente um setor capaz de absorver milhões de indivíduos que hoje se deparam com a possibilidade mais que concreta de desembarcar num mercado de trabalho que lhe bate as portas na cara sem a menor cerimônia.

Por fim, há outra característica, presente em boa parte da atividade turística, que costuma passar despercebida aos mais distraídos, mas que nem por isso deixa de ter importância, ou de ser, no mínimo, curiosa.

Todos sabem que no Brasil, quando se fala de mercado de trabalho, alguém que tenha passado dos quarenta anos é considerado velho e dificilmente terá chance de disputar uma vaga em condições de igualdade com outro candidato com a mesma formação, porém, com idade inferior. Pois é, pode ser perverso, certamente é injusto e não raras vezes é até uma atitude burra por parte das empresas. Porém, é a mais crua verdade. Apesar disso, vocês já repararam que no turismo pode ser mais fácil encontrar uma boa colocação aos 40 ou 50 anos do que aos 20 ou 25? Vocês não tinham percebido? Pois posso garantir, até por experiência própria, que isso é muito comum e não tem nada de excepcional.

Na verdade, algumas atividades ligadas ao setor, principalmente aquelas mais distantes das áreas operacionais, dependem, cada vez mais, de um bom networking, ou, como prefiro dizer, de uma boa rede de relacionamento. Pois, para mim parece evidente que bons relacionamentos dependem, em boa medida, de tempo para consolidar-se. Dependem de experiências práticas para amadurecer, para serem colocados à prova. Pois é aí que entra a vantagem de se ter mais idade, condição que normalmente, com raríssimas exceções, significa ter mais experiência, ter melhores contatos, conhecer mais pessoas. Principalmente, conhecer as pessoas certas no lugar certo! Costumo dizer, que depois de mais de trinta anos de trabalho no turismo, meu maior patrimônio são os cerca de mil números que consegui armazenar na memória do meu telefone celular! (se algum desqualificado mais criativo descobre esse dado, posso estar sugerindo um novo tipo de seqüestro relâmpago: o do telefone celular, devolvido apenas após o pagamento de um vultoso resgate!), mas, brincadeiras à parte, considero essa uma das melhores características da atividade turística: quanto mais velho (antigo para os mais sensíveis) mais empregável, ou seja, a empregabilidade, preocupação de todos aqueles que pensam estrategicamente, aparece na razão quase direta do envelhecimento! Mas cuidado, refiro-me, evidentemente, ao envelhecimento que é ditado apenas pela carteira de identidade. Um profissional, qualquer que seja a sua área de atuação, que deixar de se atualizar, que tiver dificuldade em entender e aceitar mudanças, enfim, que envelheça profissionalmente, estará condenado ao esquecimento e ao desemprego. O único consolo é que esse resultado, o desemprego, também pode ser o destino de qualquer outro que fique parado no tempo, que viva de passado, independentemente da data de nascimento!

Há quem chame isso de pragmatismo, mas também pode ser chamado de investimento de resultados, de inteligência competitiva, ou até mesmo de instinto de sobrevivência. Tanto faz, essa é a realidade do turismo e do mercado em geral, a nomenclatura pela qual ela é conhecida, por ser uma questão semântica, você escolhe.

 

Capítulo III

 O Turismo de Negócios e Eventos

 Convention Bureaux – Origem e história

 Há tempos se discute, em minha opinião inutilmente, se o turismo de negócios pode ser considerado turismo, na verdadeira acepção do termo. Segundo alguns, só pode ser considerada como turismo a viagem que seja efetuada por livre arbítrio, por vontade própria. Aceitando-se essa premissa, desqualificam-se as viagens de negócios, de eventos, ou por motivos de saúde.

Entretanto, como o que nos interessa aqui não é a discussão estéril sobre a definição do termo, mas sim o enorme impacto econômico, a capilaridade e avassaladora abrangência de todas as atividades ligadas ao setor, vou pedir licença para deixar essa discussão para o ambiente acadêmico, e vou procurar manter-me no objetivo que motivou este livro: fazer uma interpretação prática do conjunto de atividades econômicas relacionadas à indústria do turismo, de forma a oferecer material para reflexão daqueles que, eventualmente, se interessem pelo assunto e queiram partilhar a minha experiência. Nesse sentido, o turismo de negócios e eventos, até por ser a atividade à qual me dedico nos últimos anos, e onde encontrei minha verdadeira vocação, vai ocupar uma boa parte deste trabalho.

Uma das ferramentas mais eficazes (e desconhecidas) à disposição do mercado para promover o desenvolvimento turístico, principalmente o turismo de negócios, são os convention e visitors bureaux. Mas ao tomarmos contato com a sua curiosa história e desenvolvimento, percebemos, não só, que tudo teve origem numa idéia revolucionária para a época (final do século XIX) como também que a trajetória dessas entidades, nos últimos cem anos, é repleta de cases de sucesso e seu conceito original permanece mais atual do que nunca.

De fato, a história da origem dos CVBs é tão antiga quanto gostosa de contar! Pelo que pude pesquisar, no final do século XIX, antes mesmo que a linha de montagem criada por Henry Ford em Detroit para a produção em série dos automóveis da marca começasse a chamar a atenção de empresários de outros estados e países, a cidade, fundada por Jean De La Mothé Cadillac, já era famosa como uma das mais ativas produtoras de fogões e móveis de cozinha do país! Isso já lhe garantia um fluxo de visitantes acima da média, tornando-a uma espécie de Meca dos negócios, numa prévia do que estava para acontecer em termos de revolução conceitual na forma como o turismo era entendido até então.

Detroit, aliás, sempre foi uma cidade com grande apelo turístico e de economia poderosa. Já no início de 1896, muitos homens de negócios das mais variadas cidades ali chegavam para participar de convenções, congressos e reuniões de trabalho. Os hotéis, restaurantes, táxis, bares e boates viviam abarrotados de gente animada e com muita propensão para gastar! A cidade já começava a evidenciar certa vocação para o turismo de negócios naquele final de século, ainda que esse termo fosse quase totalmente desconhecido, e o turismo em si, ainda fosse uma atividade incipiente.

Foi num desses dias, mais precisamente no dia 06 de fevereiro de 1896, que Milton Carmichael, um jornalista recém chegado de Indiana, ligado ao Partido Republicano, começou a trabalhar no The Detroit Journal, um dos principais periódicos da época, jornal de grande influência no mundo dos negócios e com colunistas muito respeitados. No início, a simples vinda de um forasteiro para dirigir um setor fundamental do veículo, causou certo alvoroço e não foram poucas as vozes que ensaiaram descabidas críticas à direção do jornal por atitude tão impopular. Mal sabiam da missa a metade!

Ao analisar o comportamento e o perfil dos empresários locais, o jornalista percebeu que imperava um clima de salve-se quem puder entre os principais setores da economia. A competição, em algumas atividades, era predatória, prostituída, quase suicida. No setor que hoje conhecemos como turismo, a prática mais comum era o mais puro e burro individualismo. Cada empresário insistia em preocupar-se apenas em olhar para o seu próprio umbigo, ignorando o ambiente de negócios em que estava inserido, passando por cima das leis de mercado (que naquela época, obviamente, ainda era um conceito quase desconhecido), voltando as costas para o planejamento estratégico, se é que já havia esse tipo de ferramenta em tempos tão remotos. As coisas funcionavam mais ou menos assim: um dono de hotel, por exemplo, costumava deslocar-se de trem em longas viagens, para divulgar seu empreendimento a potenciais clientes, normalmente em New York, Chicago ou Washington, investindo horas de trabalho, recursos em passagens e estadias, e iniciando um périplo por empresas e entidades, que era copiado, de forma bastante similar, por uma boa parte dos seus concorrentes diretos e indiretos (isso não tem algo de familiar ainda em nossos tempos?)

Mas sigamos adiante. A promoção do negócio se baseava simplesmente nas visitas a clientes, sempre com o mesmo surrado discurso: “olha, se um dia você for a Detroit, lembre-se de que sua melhor opção de hospedagem é o meu hotel. Tenho ótimas tarifas e localização privilegiada. Aqui está o meu cartão e não hesite em me procurar na sua próxima viagem.” O problema era que alguns dias depois, esse mesmo cliente, recebia outro dono de hotel de Detroit com o mesmíssimo discurso! E não eram apenas os hotéis, mas os restaurantes, os donos de boates, enfim, uma corriola de empresários mascates, que faziam do marketing direto a única ferramenta de promoção de seus negócios. Ninguém pensava de forma articulada, nenhum deles foi capaz de perceber que juntos teriam mais força e que a divulgação individualizada do seu negócio não aumentava o tamanho do mercado em que competiam, nem ajudava a melhorar o fluxo de visitantes na cidade, por falta de iniciativas planejadas, articuladas, capazes de organizar, minimamente que fosse, a oferta de serviços. Nem podemos esperar comportamento diferente, pois se ainda hoje é assim que funcionam muitos mercados, como imaginar algo diferente em finais do século retrasado? Evidentemente, a cidade deixava de receber milhões de dólares por não ser capaz de atrair e gerenciar a vinda de convenções, congressos e visitantes com os mais variados motivos. A luta era de vizinhos, as ações eram todas no varejo. Não se vislumbrava nenhuma possibilidade de ação integrada, nenhuma iniciativa que visasse melhorar o ambiente de negócios, de forma coletiva, promovendo o bem da cidade e não os interesses de cada um. Ao fazer essa leitura de forma absolutamente revolucionária, Carmichael decidiu dar um puxão de orelhas nos empresários locais, provocá-los, chamar a atenção para o que ele considerava uma estratégia míope, enfim, fazer uma crítica direta que, assim ele esperava, resultasse numa reação que permitisse, ao menos, a discussão do problema.

 Algumas semanas depois, Carmichael escreveu o texto que reproduzimos abaixo, e que pode ser considerado o estopim para a fundação do primeiro convention bureau do mundo! Chamamos a atenção, mais uma vez, para a acurada visão estratégica demonstrada pelo jornalista, falecido em 1948, em que pese a aparente ingenuidade do texto, o qual, após uma análise mais cuidadosa, revela uma modernidade difícil de entender no apagar das luzes do século XIX:

 O recado de Carmichael aos empresários!

 “Ao longo dos últimos anos Detroit construiu fama de cidade de convenções. Visitantes vêm de milhares de quilômetros de distância para participar de eventos empresariais. Fabricantes de todo o país usam nossa hotelaria para promover reuniões onde discutem os temas de seus interesses. Entretanto, tudo isso acontece sem que haja um esforço por parte da comunidade, nem uma ação que vise dar-lhes algum apoio durante sua estadia entre nós! Eles simplesmente vêm para Detroit porque querem ou precisam! Será que Detroit, através de um esforço conjunto de seus empresários, autoridades e lideres, não conseguiria garantir a realização de mais 200 ou 300 convenções nacionais ao longo do próximo ano? Isso significaria a vinda de milhares de pessoas de várias cidades americanas, que gastariam seus dólares no comércio local, beneficiando a população da cidade, aquecendo a economia e permitindo que toda a comunidade empresarial obtenha melhores resultados em seus respectivos negócios. Não será mais inteligente agir em conjunto pelo bem comum, do que desgastar-se num esforço inútil para obter vantagens pessoais? Os empresários precisam entender que concorrente não é inimigo, precisam aprender a colocar o desenvolvimento da cidade antes mesmo do crescimento de seus próprios negócios”

 Com esta nota de desconcertante simplicidade, Carmichael conseguiu mexer com os brios de alguns empresários e comerciantes membros da Câmara de Comércio e do Clube dos Fabricantes, os quais, em reuniões com hoteleiros, agentes de venda do sistema ferroviário e outros pequenos empresários, decidiram em encontro acontecido no hotel Cadillac, fundar uma organização para promover, de forma ordenada e conjunta, um esforço contínuo para atrair mais convenções para a cidade. Assim surgia o The Detroit Convention & Businessmen’s League, ou Liga de Convenções e Homens de Negócios de Detroit, primeiro nome da entidade que em 1907 passou a adotar a denominação de Detroit Convention & Tourist Bureau.

No início, o convention tinha pouco menos de 20 empresas associadas, mas a idéia vingou e começou a dar frutos em outras cidades dos Estados Unidos e até do exterior. Em 1915 havia 12 outros convention, cujos representantes se encontraram em Detroit para formar a organização que hoje é a IACVBInternational Association of Convention & Visitors Bureaux, entidade que reúne centenas de CVBs do mundo todo.

O surgimento do primeiro convention do mundo, como vimos, foi motivado por um esperto artigo de jornal que questionava a passividade dos empresários locais com relação aos benefícios da vinda de visitantes para a cidade. Mas, na verdade, esse artigo questionava muito mais que isso. Quando interpretado adequadamente, o pensamento de Carmichael permite descortinar o embrião do associativismo no setor de turismo! O que ele queria dizer de fato, é que os empresários deveriam parar de promover a concorrência predatória entre seus empreendimentos, olhando cada um para seus próprios interesses, e privilegiar uma visão global do mercado, atuando de forma coletiva e articulada em favor do desenvolvimento econômico da cidade como um todo, atitude a qual, na visão do jornalista, acabaria por beneficiar cada um dos participantes.

No fundo, Carmichael promovia ali as vantagens de se colocar o bem comum acima do bem privado, ou seja, incentivava, ainda que de forma inconsciente, a formação de capital social organizado, tese que, mais de um século depois, seu xará brasileiro, Milton Zuanazi, na época Secretário de Políticas de Turismo do Ministério do Turismo, abraçou com muita propriedade e entusiasmo. Em discurso proferido em julho de 2005, na abertura de um evento em Florianópolis, Zuanazi defendeu a necessidade de se criar no Brasil exatamente o capital social organizado capaz de tirar o país da situação de atraso em que se encontra. Só mesmo investindo na formação de cidadãos conscientes de seus deveres e obrigações, pessoas preparadas para executar tarefas com o pleno entendimento de sua importância e reflexos, é que alcançaremos o lugar que merecemos no cenário mundial do turismo.

Investindo na formação de capital social, o governo poderá, finalmente, começar a conjugar com alguma chance de sucesso os três verbos mais caros à Política Nacional de Turismo que o mesmo defende: Desenvolver, Qualificar e Promover. Conjugando esses três verbos nas suas múltiplas formas, tempos e variações, o governo já estará fazendo a sua parte. Compete aos empresários fazer o restante e acreditamos que, ao organizarem-se em torno de arranjos produtivos locais com a capacidade aglutinadora dos convention bureaux, já estarão dando um passo enorme na tarefa de transformar o discurso em ações concretas.

Não há como negar que atitudes como aquela, a de defender os interesses coletivos, a de colocar o bem comum acima dos interesses individuais, contribuem muito para forjar cidadãos conscientes de suas responsabilidades e de seus direitos. Digam lá se já não seria um bom começo?

Atrativos naturais, equipamentos de primeira e capacidade de oferecer serviços de qualidade, promovendo o aprimoramento contínuo e a busca pela excelência, nós temos de sobra. Mas é imprescindível que se invista na formação básica dos brasileiros, que preparemos as comunidades para o papel que lhes cabe no processo de desenvolvimento do turismo brasileiro, na construção da cidadania. O turista de hoje não vem atrás de produtos turísticos, vem na tentativa de ter experiências agradáveis, vem esperando conhecer destinos que o respeitem, mas que também saibam respeitar seus cidadãos. O turismo mudou e com ele mudaram os turistas e suas demandas. É preciso que estejamos todos preparados para entender e acompanhar essas mudanças, ou todo o esforço será em vão. O turista quer ser encantado pelas nossas histórias, quer lembrar das experiências positivas por que passou. Especialistas chamam isso de emotional branding, mas não importa como lhe chamemos, o importante mesmo é que saibamos contar as histórias de nossas cidades de forma a envolver o turista emocionalmente, deixando nele as impressões indeléveis que permitirão que volte ou recomende a viagem a amigos e familiares. Parece fácil, mas não se iluda, só parece.

Voltemos agora à história do nosso jornalista americano. Se havia uma coisa que Carmichael não tinha, era ingenuidade. Ao escrever aquele artigo, ele assumiu um risco calculado. Essa percepção está clara na mensagem subliminar que ele quis passar: é muito melhor ter um negócio, qualquer que ele seja e de que tamanho for, numa economia forte, vigorosa e em crescimento, do que lutar para manter uma empresa em funcionamento numa economia estagnada ou em declínio!

Resumindo: ajudando a manter a economia aquecida, você estará ajudando o seu próprio negócio. Está aí, em minha opinião, o DNA de todos os convention bureaux, agir no fomento da economia local, para beneficiar o ambiente de negócios da cidade, e, conseqüentemente, com o aumento do fluxo de visitantes, melhorar o desempenho dos negócios de todos os associados mantenedores do convention.

 Mas voltando à nossa historinha, vale mencionar que, mais ou menos naquela época, final dos anos noventa do século XIX, um fato histórico ajudou a dar visibilidade mundial à cidade de Detroit, e vai ficar, para sempre, ligado à história dos convention:

Naquele mesmo ano de 1896, Charles B. King, um criativo cidadão local, saiu de sua loja em St. Antoine dirigindo uma carruagem sem cavalos, movida por um motor de dois tempos, num fato inédito que marcaria o início do surgimento da indústria automobilística que, até pouco tempo atrás, ainda era a marca de Detroit. Foi a primeira vez que um automóvel rodava pelas ruas da cidade, e o autor dessa façanha, Charles King, chegou a ter dificuldades com as autoridades locais por sua ousadia e impertinência! É que além do barulho infernal produzido pela geringonça, o tataravô do automóvel ainda assustava os cavalos que eram o meio de transporte mais comum.

Por essas e outras, Mr. King foi obrigado a testar seu invento apenas em locais fechados, normalmente um dos parques da cidade, onde não incomodava os pacatos cidadãos que pareciam mais interessados em descobrir novas formas de ganhar dinheiro, do que em prestar atenção à excentricidade de um maluco qualquer metido a professor Pardal! Curiosamente Charles King veio a ser um dos fundadores do convention de Detroit, o qual, para falar a verdade, teve outras figuras importantes em seus quadros, provando que a idéia de unir esforços em prol da promoção da cidade, tinha sido assimilada e entendida pelos formadores de opinião.

Quando tive acesso a alguns documentos históricos do CVB de Detroit, pude encontrar registros de filiação da Edison Illuminating Company, empresa fundada por Thomas Edison, que, para quem não se lembra, foi o inventor da lâmpada elétrica, entre muitas outras coisas. Mais tarde, com o desenvolvimento da indústria automobilística, Mr. Henry Ford, contemporâneo de Charles King e concorrente direto daquele pioneiro no desenvolvimento da “carruagem sem cavalo”, também veio a colaborar com o CVB de Detroit, filiando a sua famosa Ford Motor Company.

Como se vê, os convention bureaux têm certa nobreza na sua árvore genealógica e isso só ajuda a comprovar o acerto do conceito que lhe deu origem. Evidentemente, as coisas não foram tão fáceis como alguns podem imaginar. Já naquela época a palavra investimento era quase sempre confundida com gasto, e quando Carmichael falou em investimento, em gastar dinheiro para trazer gente de fora, imediatamente algumas vozes mais conservadoras alegaram que seria um desperdício aplicar recursos próprios num projeto tão mirabolante. Segundo essa corrente, caberia às autoridades locais investir na vinda de visitantes e na captação de eventos! (nada muito diferente do Brasil de hoje, como se vê!)

Mas a visão estratégica do jornalista, que insistia em defender que cabia à comunidade empresarial articular-se em torno de um projeto comum, e não ficar dependente da burocracia do poder público, acabou por prevalecer. A independência financeira e a ausência de qualquer ingerência política são, até hoje, um dos traços mais marcantes dos convention americanos, que conservam assim o conceito original formulado por seu idealizador. Entre outras vantagens, essa independência garante a continuidade de projetos, garante o foco no aspecto econômico e empresarial da atividade turística e garante a necessária autoridade moral para falar em nome da cadeia produtiva do turismo. Deixar contaminar os convention por relações político-partidárias, até onde se sabe, só ajuda a diminuir a chance de apresentar um trabalho isento e eficaz, e costuma ser o caminho mais fácil para a falência, quer financeira, quer de propósitos.

 Mas não se pense aqui que Carmichael teve a vida fácil após o reconhecimento de suas idéias. Muito pelo contrário. O jornalista já enfrentava lutas delicadas naquela época, inclusive uma que durou mais de 50 anos, que foi o empenho pela construção de um centro de convenções de grande porte, capaz de abrigar eventos como o Detroit Auto Show, maior orgulho da poderosa indústria automobilística que se formou no município nos anos que se seguiram à descoberta das vantagens do automóvel e ao seu desenvolvimento como meio de transporte popular.

A invenção da linha de montagem pela Ford, que resultou em ganhos de escala e melhorou significativamente a produtividade, com a conseqüente queda nos custos de produção e barateamento do produto final, não só contribuiu muito para a popularização do automóvel, como serviu de incentivo para a área de turismo, pois fez com que empresários de todas as partes do país e do mundo se deslocassem a Detroit para conhecerem a novidade. Pois é, nada se faz sem um pouco de sorte, e essa conjugação de fatores positivos, tem muito a ver com a disseminação da idéia dos convention.

 Com relação à construção do desejado centro de convenções, num boletim de 1913 o convention alertava que, devido à falta de espaço adequado, a cidade perdera cerca de 3.500 grandes eventos nos seis anos anteriores! Não foi difícil perceber que isso significava que várias centenas de milhares de dólares deixaram de irrigar a economia da cidade, prejudicando uma boa parte do arranjo produtivo local. Não é de estranhar, portanto, que alguns convention mundo afora, principalmente no Brasil, ainda estejam empenhados no mesmo tipo de luta. Como consolo podemos constatar que a luta pela construção de modernos centros de convenções, se não tem dado muitos resultados práticos, pelo menos conta com um considerável e ilustre antecedente histórico. 

Com todos os problemas, no entanto, os empresários de Detroit, influenciados pelas idéias de Carmichael, acabaram por formatar o conceito que, nove anos mais tarde, viria a dar origem ao primeiro convention do mundo montado nos mesmos moldes dos de hoje – o London Convention & Visitors Bureau, fundado, já com essa denominação e características, na capital britânica em 1905. Para muitos, o convention de Londres é o verdadeiro pioneiro por tratar-se de uma organização cuja constituição e modus operandi, guardam muita semelhança com as entidades atuais. Não é bem assim, já que na Europa, de forma geral, os CVBx funcionam hoje com a injeção de vultosos recursos governamentais, confundindo-se, muitas vezes, com o próprio órgão oficial de turismo. No máximo são entidades de funcionamento misto, mas umbilicalmente ligados ao poder público, contrariando a tese defendida por Carmichael. Pessoalmente, sinto-me muito mais atraído pela originalidade do modelo de Detroit, principalmente se levarmos em conta que ela não foi resultado de nenhuma experiência específica com turismo, mas da observação atenta de um homem inteligente o suficiente para perceber que era chegada a hora de quebrar paradigmas. Baseado nisso, vou pedir licença aos especialistas e acadêmicos, incluindo-se aí dois dos maiores conhecedores do assunto, meus amigos Eduardo Sanovicz e Aristides de La Plata Cury, que haverão de saber perdoar minha impertinência, para considerar o convention de Detroit, mesmo que com uma nomenclatura ligeiramente diferente, como o verdadeiro pioneiro e criador do conceito de convention & visitors bureau.

Desde então muita coisa mudou, o turismo cresceu e ganhou importância estratégica para muitos países. Transformou-se em produto de exportação, atividade geradora de emprego e renda, assumiu status de dínamo do desenvolvimento e ganhou as páginas de economia dos principais meios de comunicação. Entretanto, a idéia de entidades agindo no apoio à captação de eventos e na divulgação dos atrativos turísticos de uma cidade ou região para aumentar o fluxo de visitantes, vem sendo consolidada nos cinco continentes, foi ganhando corpo, e hoje, existem centenas de convention espalhados pelo mundo, mais de 160 apenas no Brasil!

 

Capítulo IV

 Os Convention chegam ao Brasil

 No Brasil, a história dos CVBx é muito mais recente. Na verdade, apenas em novembro de 1983 surgiu a primeira iniciativa com a fundação do São Paulo Convention & Visitors Bureau, nosso pioneiro.

Com um dos melhores produtos do país para trabalhar, a capital do estado de São Paulo, sozinha, realiza mais de 80.000 eventos por ano e tem um dos maiores e melhores parques hoteleiros do Brasil, o SPCVB vem se destacando por estar sempre à frente de iniciativas que visam melhorar a ocupação hoteleira e o desempenho da economia da cidade. Estamos falando de um negócio que movimenta mais de 8 bilhões de reais a cada ano!

Mas não foi fácil. No começo houve muitas lutas a vencer, e outras tantas surgem a cada ano. A abertura do comércio aos domingos, hoje uma conquista de importância indiscutível, só foi possível depois que o SPCVB se envolveu na luta para conciliar os interesses de patrões e empregados, e servir de interlocutor nas exaustivas negociações com o poder público e os sindicatos. Hoje, é uma prática que já virou unanimidade por seus efeitos benéficos para a geração de empregos e renda no município.

 A permanência da Fórmula 1 no autódromo de Interlagos, evento que injeta milhões de dólares na economia da cidade a cada edição, também só foi possível com a intervenção do SPCVB, que se esforçou para comprovar, junto ao Ministério Público, as vantagens e a importância do evento para a economia do município. Antes da intervenção do convention nessa luta, corria-se o risco de ver a Fórmula 1 deslocada para o Rio de Janeiro, pois alguém conseguiu a proeza de convencer as autoridades de que o município perdia dinheiro por ser obrigado a investir milhões de reais para bancar a realização da corrida.

 Outra ação que aumentou muito o fluxo de visitantes com destino à capital é a promoção anual Liquida São Paulo, liquidação que envolve um grande número de shopping centers da cidade e que atrai milhares de visitantes de todo o país, ávidos para aproveitar as ofertas do maior mercado da América Latina. São ações como esta, entre outras, que atestam a importância dos convention bureaux, e o nosso pioneiro, a exemplo de Detroit, tem sabido dar conta do recado com muita competência, muito trabalho e muita criatividade. O trabalho de captação internacional, normalmente efetuado em parceria com a SPTURIS, dirigida pelo competente Caio Luiz de Carvalho, grande conhecedor das questões do turismo, ex-ministro e defensor intransigente do turismo paulista, tem gerado excelentes resultados, colaborando com a consolidação da capital como destino de eventos internacionais.

 Citar nomes é sempre um grande risco pela enorme possibilidade de ferir suscetibilidades, entretanto, não se pode falar do SPCVB, aliás, nem da história brasileira dos CVBx, sem mencionar o trabalho pioneiro de gente como Mário de Melo Faro, primeiro presidente da entidade, João Dória Junior, um dos fundadores e entusiasta da liderança da iniciativa privada nas questões de apoio ao desenvolvimento do turismo. Sílvia Mangabeira, talvez a primeira executiva de CVB no Brasil, profissão que hoje desponta como uma das mais promissoras e importantes de todo o sistema de marketing turístico, também faz parte da história do SPCVB, entidade que mostrou o caminho, hoje seguido por mais de 160 convention atuando por todo o território brasileiro. Como não falar de Roberto Gheller, que dedicou quase duas décadas à entidade e ao turismo paulistano, presente na maior parte dos acontecimentos importantes do setor, e grande incentivador do trabalho dos CVBx?

 Mas nem só de passado vive o SPCVB. Embora tenha muito a ensinar com a sua história de pioneirismo, é bom lembrar que essa história, entre outras vantagens óbvias, embasa várias das ações que a entidade promove pensando no presente e no futuro. A atual diretoria executiva, um grupo de respeitados líderes em suas respectivas áreas, liderada pela executiva de hotelaria Annie Morrissey, está mostrando ao mercado as vantagens de reunir uma seleção de craques em torno de objetivos comuns. Sob a coordenação do executivo Toni Sando, à frente de uma equipe de talentosos colaboradores encarregada de desenvolver e executar os projetos nascidos do encontro das experiências diversas da diretoria, o SPCVB, mais uma vez, está mostrando ao país como reinventar a arte de atrair turistas e potencializar o impacto econômico da atividade num destino tão importante como o da capital de eventos e negócios da América Latina.

Para todos os que têm a missão de divulgar destinos com carência de belezas naturais, ou ainda não consagrados, está aí uma lição que vale a pena aprender e, principalmente, entender.

 Mas se faltam à capital de São Paulo atrativos naturais, o que nunca a impediu de ocupar um lugar de destaque como destino turístico, talvez seja porque a natureza tenha sido pródiga demais na entrega de atrativos ao Rio de Janeiro. Há quem costume dizer que a distribuição não foi justa, pois tal é a concentração de belezas naturais na cidade maravilhosa, que desequilibra, de cara, qualquer comparação! Mas acho que a longa história de rivalidade entre as duas principais cidades brasileiras reflete, para ser bem pragmático, uma visão vesga e muito limitada de quem a alimenta! Inveja deveriam sentir todos os outros países por não poderem exibir a mesma rivalidade. A estes, faltam-lhes competidores, falta-lhes material que justifique a folclórica rusga. Costumo dizer, até com a visão privilegiada de estrangeiro que sou, e, por isso mesmo, visão não contaminada pela emoção do bairrismo, que feliz é o país que tem, em seu território, belezas tão díspares, destinos tão importantes e complementares. Poder apresentar ao mundo duas cidades do porte e com as credenciais de São Paulo e Rio de Janeiro, antes de ser motivo de disputa, deveria ser, sem falso ufanismo, motivo de extremo orgulho para todos os brasileiros.

 Mas vamos deixar a rivalidade Rio / São Paulo de lado e reconhecer que, se a capital paulista foi pioneira na constituição de um CVB no Brasil, isso aconteceu por uma diferença de poucos meses, pois já no início do segundo semestre de 1984, em julho, ou seja, menos de um ano após a criação do convention paulistano, foi a vez do Rio de Janeiro criar seu bureau para explorar melhor o enorme potencial do destino. Hoje, o convention do Rio de Janeiro é referência internacional, participa das principais feiras de turismo do mundo, e é responsável, em grande parte, pelo honroso posto que a cidade ocupa no ranking da ICCA – International Congress & Convention Association, principal entidade mundial representativa do setor de eventos.

Na verdade, ainda no que se refere ao conceito sobre qual teria sido o primeiro CVB do Brasil, também aqui, como no caso do primeiro do mundo, não há consenso. Uma de nossas fontes, testemunha privilegiada de todo o processo, conta uma história curiosa: a idéia de montar um CVB no Rio de Janeiro teria surgido de conversas entre a diretoria da Varig, interessada em aumentar a ocupação de seus assentos internacionais com clientes de eventos, e a Presidência da EMBRATUR, que já vinha estudando essas entidades no exterior. Na época ambas as empresas tinham sede no Rio de Janeiro. Reuniram-se os recursos necessários e a estruturação do projeto teve início. Entretanto, o presidente da EMBRATUR nesse período, (1980-1985), era o ex-prefeito de São Paulo Miguel Colasuonno, que teria comentado seus planos com alguns empresários paulistas. Ainda segundo nossa fonte, estes adotaram a idéia e adiantaram-se, conseguindo registrar a entidade antes mesmo que os cariocas tivessem tempo de fazê-lo. Assim, embora no Rio a entidade já funcionasse de maneira informal, pois seu estatuto data de julho de 1984, abriu-se a brecha para que o CVB paulista saísse na frente, consumando o registro em novembro de 1983, tornando-se, oficialmente e por direito o primeiro CVB brasileiro. Não posso garantir que a história seja verdadeira, mas que ela é curiosa e contribui para alimentar a tradicional rivalidade entre as duas cidades, isso não se pode negar! O que importa destacar é que esses dois CVBx são as fontes onde beberam todos os que vieram na seqüência, como veremos adiante. Sugerimos que o leitor, caso se interesse, aprofunde a pesquisa e tire suas conclusões. Eu, como sou amigo dos executivos responsáveis pelas duas entidades, prefiro ficar em cima do muro e ver o circo pegar fogo, mas que a história é das boas, isso é.

 Voltando a falar sério, o fato é que o Rio CVB tem um histórico digno de registro. Boa parte dos eventos internacionais que escolhem o Brasil como destino dividem-se entre São Paulo e Rio de Janeiro. Ultimamente São Paulo tem conseguido melhorar significativamente sua posição, mas não há como negar que o Rio, por sua excepcional arquitetura natural, sua história e estilo de vida, há muito se consolidou como ícone do turismo brasileiro e mundial, e o Rio CVB tem muito a ver com isso.

Sempre que se pede a algum estrangeiro para falar do Brasil, é inevitável que a segunda citação, logo depois de Pelé, seja a cidade maravilhosa. Isso traz vantagens inegáveis para os processos de captação, uma vez que há sempre uma vontade latente de conhecer o Rio de Janeiro, mas também gera muita responsabilidade para os condutores do turismo carioca. Ser vidraça é sempre uma posição incômoda, mas conseguir conciliar a fama de cidade de lazer, com a necessidade de se firmar como destino de eventos, é um trabalho extremamente qualificado que o Rio CVB vem fazendo há muitos anos e com sucesso evidente. Nesse segmento, o do turismo de negócios e eventos, a disputa com São Paulo, mas também com outros centros empresariais e econômicos, como Belo Horizonte, Brasília e Porto Alegre, por exemplo, faz do trabalho do convention carioca um permanente desafio. Antes de tudo é preciso quebrar o paradigma de eterna cidade boêmia e de belíssimas praias, onde quase nunca o trabalho é levado a sério. É uma tremenda mentira. Cariocas trabalham e bem. Entretanto, convencer organizadores de eventos de que o setor caminha com passos firmes e consolida o Rio como um dos principais destinos mundiais no segmento, é tarefa que exige expertise e foco. Pode parecer fácil, mas é preciso conseguir isso sem perder de vista a manutenção da personalidade, da descontração e do jeito carioca que lhe deu fama. Conviver com o preconceito de ser reconhecida como uma cidade na qual o hábito de trabalhar duro tem raízes pouco profundas é um incômodo, assim como incômoda é a idéia de cidade insegura e violenta. A premissa pode não ser verdadeira, e por certo não é, mas esse preconceito injustificável, fruto de análises superficiais, deve complicar o trabalho de reposicionamento que é necessário desenvolver. É uma equação difícil de fechar e o trabalho do Rio CVB nesse sentido, por seus inegáveis frutos, só pode ser aplaudido!   

 A história dos CVBx no Brasil, entretanto, pode ser dividida em dois momentos muito distintos: antes e depois de 1998. Não há registro de que algo excepcional tenha acontecido naquele ano, a não ser a promulgação do novo texto constitucional brasileiro, ou a indicação, pelo presidente José Sarney, de Irmã Dulce para o Nobel da Paz. Uma análise mais profunda do cenário político-econômico da época, talvez identificasse algum fato ou tendência que justifique a enorme expansão do número de CVBx que se verificaria nos anos seguintes. Mas, para ser bem sincero, não estou disposto a embrenhar-me nessa análise, até por que, nem é esse o propósito deste livro, nem eu teria preparo e conhecimento para entrar nessa seara. O que é certo e curioso, e vamos usar este termo aqui na absoluta ausência de adjetivo mais apropriado, é que o crescimento exponencial do número de CVBx verificado a partir daquele ano não tem paralelo na história. Senão vejamos: não é impressionante que até 1998 o Brasil contasse com apenas dez CVBx, e que nos dez anos seguintes esse número tivesse superado a marca dos 150? Um aumento de 1.400% numa década? Algo estava mudando no cenário do turismo brasileiro, e era algo tão importante como irreversível: o turismo começava a deixar as colunas sociais para ocupar os cadernos de economia dos principais veículos da mídia.  

 Após a fundação dos pioneiros São Paulo e Rio de Janeiro, a saga da expansão do setor teve seqüência com os convention de Florianópolis, Blumenau, Brasília, Petrópolis, Fortaleza, Joinville e Belo Horizonte. Esta ordem cronológica, diga-se, às vezes é contestada, mas foi elaborada com base nas datas de registro dos respectivos estatutos sociais. Sabemos que algumas entidades atuavam como CVBx antes mesmo do registro estatutário, porém, entendemos ser mais correto utilizar o conceito do registro da documentação como referência da data de início de atividades. Baseados nessa premissa chegamos à lista apresentada acima.

Com o aumento vertiginoso do número de CVBx verificado após 1998, é indiscutível que o mercado parece ter tomado consciência dessa nova (?) ferramenta de marketing, colocada a serviço dos destinos. Mas ainda havia um obstáculo: o nome era difícil de pronunciar e seu significado era confuso. Até hoje, nós, executivos de CVBx, somos obrigados a explicar a boa parte de nossos interlocutores qual a origem de nossas entidades e para que elas servem. Para que não restem dúvidas, a melhor maneira é procurar traduzir o nome original em inglês: Convention & Visitors Bureau, (no plural grafado com “x” no final, e CVBx na abreviatura) ou, numa tradução literal, Agência de Convenções e Visitantes. Pessoalmente acho que “Escritório de Eventos e Turistas” é um nome mais apropriado e que define melhor o que fazemos. Acredito que assim fica mais fácil entender a natureza do nosso negócio. Como se vê, um nome complicado para a maioria dos brasileiros, e até para alguns profissionais do trade, mas com uma atuação tão importante quanto lucrativa, ou seja, uma idéia simples e inteligente que, a exemplo de quase todas as que nascem com essas características, deu certo.

 Saindo do anonimato

 A tentativa de organizar os convention bureaux no Brasil, dando-lhes algum senso de unidade e tentando padronizar alguns procedimentos, tomou corpo com a criação, em 24 de abril de 1999, do Fórum Brasileiro de CVBx, formado por pouco mais de uma dezena de entidades, e que teve o convention de São Paulo como primeiro presidente, na pessoa do seu principal dirigente à época, o empresário Roberto Gheller. Naquele tempo, a idéia de convention bureau ainda era pouco conhecida no próprio setor turístico, e nós dávamos os primeiros passos na tal de evangelização a que o empresário Antônio Dias, presidente do Campinas CVB, se referiria anos depois. Tudo era muito difícil, o setor não era ouvido, sequer era compreendido!

O Fórum Brasileiro de CVBx, entretanto, só começou a ganhar musculatura quando, numa reunião realizada em Foz do Iguassu, diante do perigo real de sua dissolução, um grupo de dirigentes resolveu tomar a frente da entidade e redefinir alguns conceitos. Passou-se a defender a mudança da sede para Brasília, casa de todas as grandes entidades nacionais e centro do poder, e a buscar-se um índice de profissionalização mais compatível com as necessidades e com a importância que o mercado de turismo de negócios e eventos começava a exigir. A primeira necessidade, obviamente, era ter uma sede e um quadro de colaboradores próprio. Para isso era preciso capitalizar a entidade, mas a dificuldade era convencer os novos CVBx a participarem como membros mantenedores. Para isso, era preciso apresentar alguma contra partida, algum benefício um pouco mais perceptível do que a simples representação político-corporativa. Era preciso gerar valor, e nisso, modéstia à parte, tínhamos experiência de sobra, pois era nosso desafio diário junto aos mantenedores dos nossos próprios CVBx.

 Em 2000, com o mercado atingindo mais de duas dezenas de convention espalhados por boa parte dos estados brasileiros, começou a desenhar-se aquele que viria a ser o divisor de águas na rede brasileira de CVBx. A questão era a seguinte: todos sabíamos da importância do turismo de eventos, e tínhamos nítida a necessidade de deslocar as discussões em torno do setor, da esfera social para o noticiário econômico. Havia a percepção clara de que o impacto de nossa atividade nas economias regionais, e, por conseqüência, no PIB nacional, era muito significativo, mas, para o pensamento pragmático que inundava as reuniões cada vez mais efervescentes da nova entidade, significativo era muito parecido com nada! Precisávamos de números concretos, de fatos, de argumentos econômicos irrefutáveis. Só assim, demonstrando o nosso peso, a nossa importância econômica, poderíamos chamar a atenção para a atividade, e ocupar o espaço que pretendíamos em meio ao mar de entidades gravitando ao redor da indústria turística.

 A solução surgiu na forma de uma ampla pesquisa, efetuada em parceria com o Sebrae Nacional e com a Consultoria CTI, especializada em turismo. Surgiu assim o I Dimensionamento Econômico do Setor de Eventos no Brasil. Nome pomposo para um documento de peso específico tão contundente que acabou por mudar a história da entidade e, quem sabe, do próprio setor. O documento, um calhamaço de mais de 1.000 páginas, foi lançado numa importante cerimônia em Brasília, em julho de 2002, e revelou uma verdade que não imaginávamos nem nos melhores sonhos!

 A nossa atividade era realmente muito importante para a economia do país, pois todos os números revelados na pesquisa eram superlativos. O setor de eventos empregava quase 3,0 milhões de pessoas, e faturava algo em torno de 18,0 bilhões de dólares por ano, resultado de mais de 327.000 eventos anuais, dos quais participavam 80 milhões de pessoas. Outro dado impressionante era o recolhimento de impostos, que já atingia, no conjunto das três esferas tributárias, municipal, estadual e federal, a cifra de 4,2 bilhões de reais.  Mais do que isso, segundo a pesquisa o setor respondia por mais de 3% do PIB brasileiro!

O trabalho causou uma verdadeira revolução entre os CVBx brasileiros, agora conscientes de sua importância. Munidos desses poderosos argumentos, conseguimos ser ouvidos por autoridades, empresários e, principalmente, pela mídia especializada em economia. Finalmente deixávamos o anonimato para ocupar o centro das atenções. Era um novo caminho, tinha chegado a hora de mostrar que a idéia original de Carmichael, havia dado bons frutos e precisava ser compreendida para que todo o seu potencial pudesse ser aproveitado num país continental como o Brasil. Mas havia um aspecto que era preciso levar em conta: junto com o anonimato, tínhamos deixado a zona de conforto da invisibilidade. Deixáramos de ser pedra para ser vidraça, e isso, como veríamos mais tarde, exigiria uma estrutura muito mais profissional e lubrificada. Era a hora da virada.

 O I Dimensionamento Econômico do Setor de Eventos no Brasil foi lançado em todo o país ao longo de 2002, numa série de seminários que contaram com a presença de autoridades, lideranças empresariais e trade turístico. O mercado, tradicionalmente carente de estatísticas, comemorava os números fartos e o nome dos convention começou a ser pronunciado com um pouco mais de familiaridade. Precisávamos aproveitar o cenário favorável para promover as mudanças que sabíamos ser inevitáveis. Precisávamos de uma entidade forte, representativa, ciente de suas responsabilidades e capaz de ocupar o espaço que lhe cabia.

 

 Capítulo V

A Federação Brasileira de CVBx

 No início de 2002, numa reunião realizada em Brasília com a presença das principais lideranças dos convention que formavam o Fórum Brasileiro de CVBx, a entidade foi oficialmente transformada em Federação Brasileira de Convention & Visitors Bureaux. Tinha início um trabalho de fortalecimento que passou pela redefinição de cargos e funções e pela adoção de um planejamento estratégico capaz de fazer com que a nova entidade fosse capaz de contribuir, de forma efetiva, para a consolidação do turismo brasileiro como dínamo da economia, e atividade reconhecida como forte geradora de emprego e renda.

João Luiz dos Santos Moreira, economista que à época presidia o Porto Alegre Convention & Visitors Bureau, assumiu a presidência da entidade e cercou-se de dirigentes que fizeram a diferença nos anos que se seguiram. Da equipe constavam: Danilo Pedrosa, presidente do Recife CVB, Fernando Ferrero, presidente do Salvador da Bahia CVB, Paulo Boechat, presidente do Belo Horizonte CVB, Marco Antônio Lemos, presidente do Campo Grande CVB, Elydio Santoro de Barros, presidente do Brasília CVB, e Márcio Santiago, presidente do Ribeirão Preto CVB.

 A entidade alugou um conjunto comercial em Brasília e passou a reunir-se em assembléias trimestrais, para ouvir as sugestões dos CVBx associados que já passavam das três dezenas. Assembléias históricas, que ajudaram a forjar a entidade nos moldes em que ela atua hoje, foram realizadas nesta fase em Natal, Salvador, Aracajú e Curitiba. A entidade foi achando seu caminho, ocupando seu espaço, e gerindo ações de consolidação do turismo de negócios e eventos como propulsor da economia. Pequenos convention passaram a ter mais respaldo, procedimentos começaram a ser padronizados e alguns conceitos foram sendo formatados para que se desse uma unicidade aos convention de todo o país. Assim se passou aquele ano de 2002, com a grande expectativa da mudança de governo no ano seguinte.

 Uma das iniciativas da nova diretoria foi a criação de um conselho técnico de apoio às ações estratégicas, composto pelos principais executivos de alguns convention convidados. Era o Comitê Executivo, formado inicialmente por: Vera Sanches, sua coordenadora e executiva do Brasília CVB, Jeanine Pires, executiva do Recife CVB, Rui Carvalho, executivo do Campinas e Região CVB e autor deste livro, Conceição Drumond, executiva do Aracajú CVB, Stella Paiva, executiva do Porto Alegre CVB, e Raimundo Peres, executivo do Iguassú CVB. Em assembléia geral ocorrida em 22.11.2002 em Campinas, ocasião em que foi tomada a decisão oficial de mudar o nome de Fórum Brasileiro de CVBx para Federação Brasileira de CVBx, Heloisa Cavalcanti, do Goiânia CVB foi convidada a integrar o Comitê Executivo em substituição a Raimundo Peres, temporariamente afastado de suas atividades.

A este grupo de especialistas cabia preparar a pauta das assembléias trimestrais, sugerir temas para discussão, apresentar e executar projetos do interesse dos CVBx, e auxiliar a diretoria executiva da federação na implementação das diretrizes formuladas pelo planejamento estratégico. Como era de se esperar, surgiam muitas discussões causadas pela variedade de posições que para ali convergiam. Num ambiente tão propício a debates e formado por profissionais que, embora com os mesmos objetivos, vinham de experiências distintas, todos formadores de opinião e experts em suas áreas, além de ferrenhos defensores de suas bases, era lícito esperar que atritos acabassem por dar o tom de algumas assembléias.

Se a diretoria eleita para dirigir a Federação era formada por um grupo de notáveis, presidentes de alguns dos mais destacados CVBx do país, o Comitê Executivo podia ser chamado de tropa de elite do pensamento conventioniano. Eram todos grandes conhecedores e guardiões das mais testadas técnicas de captação e promoção de destinos, atividade que ainda engatinhava no Brasil. Formava-se ali, nos atritos e tensões resultantes das discussões temáticas, uma nova classe profissional.

Para aqueles ainda pouco familiarizados com a estrutura organizacional dos convention, cabe esclarecer que a diretoria da FBC&VB, estatutariamente, só podia ser formada por presidentes de convention, ou seja, empresários eleitos nas suas próprias cidades para funções não remuneradas, para mandatos de duração pré-estabelecida. Já os executivos de CVBx, subordinados aos presidentes, eram profissionais de mercado, contratados e remunerados, aos quais cabia a tarefa de administrar o escritório e implementar as ações determinadas pelas diretorias eleitas. São os executivos, na maioria dos convention, que tocam o dia a dia da entidade. Impedidos pelo estatuto de serem eleitos para a diretoria da Federação, alguns executivos mais experientes passaram a ter suas habilidades aproveitadas no Comitê Executivo, idéia brilhante da diretoria para formar massa crítica baseada no talento e expertise desses profissionais de ponta.

 Desta forma, era, portanto, natural, que, vez por outra, alguns conflitos surgissem em meio às discussões nas assembléias ou reuniões. Na verdade, os executivos, algumas vezes participando com procurações assinadas por seus presidentes, representavam as bases, os CVBx de todo o Brasil, e era saudável que provocassem alguns debates em torno de idéias que estavam longe de ser unanimidade. Só para registro histórico, ficaram famosas algumas discussões entre o autor deste livro e o presidente da entidade nacional, João Luiz Moreira. Sempre em clima de absoluto respeito e com os limites fixados pelo convívio democrático, as minhas divergências com João Moreira, fruto do encontro da impulsividade de um com a impaciência de outro, sempre buscavam conciliar interesses e pontos de vista distintos, nascidos nas próprias experiências e trajetórias. (Moreira era presidente eleito de convention, empresário experiente e especialista em planejamento estratégico, e eu era executivo remunerado, de um convention em desenvolvimento, vindo de uma carreira de mais de 20 anos no turismo, e com uma vontade muito grande de acertar). Normalmente nossas discussões terminavam em acordo após uma conversa descontraída, longe da solenidade que as assembléias exigiam, mais das vezes, conversas ocorridas no intervalo do café! Idéias acertadas, era hora de voltar a colocar toda a energia a serviço da entidade, e lá voltávamos nós para mais algumas horas de debate em torno de idéias.

 A grande virada da FBC&VB, entretanto, aconteceu em 2003, com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a presidência do Brasil. Não que houvesse algum interesse político ou qualquer envolvimento na campanha ou atividades partidárias. Muito pelo contrário, fiel aos princípios de Carmichael, a Federação sempre atuou de forma isenta e apolítica, defendendo os interesses dos CVBx dentro dos melhores preceitos corporativos. Éramos representantes da iniciativa privada e tínhamos esse papel muito claro. Não havia espaço para política partidária. O que mudou a trajetória da entidade foi o cumprimento de uma promessa de campanha feita pelo candidato Lula ao trade turístico: caso eleito, seria montado um Ministério do Turismo para equacionar e dar encaminhamento às questões do setor. Promessa cumprida de imediato veio a primeira surpresa: o ministro nomeado para a pasta do turismo, Walfrido dos Mares Guia, empresário mineiro da área de educação, por ser um completo desconhecido do trade,  acabou por gerar certo desconforto no mercado, mais pela expectativa de qual seria a linha de atuação de seu ministério e de como ela afetaria o funcionamento do mercado, do que por dúvida com relação à sua competência, embora ele fosse um completo desconhecido.

 No meu entendimento, a segunda boa surpresa, de muitas outras que viriam, foi o anúncio de que, Eduardo Sanovicz, presidente da Anhembi Turismo e Eventos, órgão que geria o turismo municipal da cidade de São Paulo, e ex-diretor de operações do São Paulo Convention & Visitors Bureau, havia sido convidado por Mares Guia para presidir a EMBRATUR! Com essa nomeação o novo ministro conseguiu imediatamente a simpatia do setor e começava a dizer a que vinha. Não esqueço o impacto da primeira impressão que tive de Mares Guia. Estávamos em Brasília para a posse de Eduardo na EMBRATUR, o salão completamente lotado de empresários, dirigentes e autoridades de turismo de todo o Brasil. De repente, o ministro inicia o seu discurso mais ou menos com estas palavras: “não entendo nada de turismo, mas sei contratar quem entende.” O problema foi a enorme pausa que Mares Guia fez entre a primeira afirmação e a segunda. Naqueles intermináveis dois ou três segundos, a platéia, calada, se entreolhava sem entender se era uma piada ou se estávamos diante do funcionário público mais franco do país! Só quando o ministro pronunciou a segunda parte da frase “sei contratar quem entende”, nós percebemos que, na verdade, estávamos diante de um excelente orador, de um homem capaz de fazer com que os outros acreditem nas suas palavras como força de lei, um orador habilidoso e acostumado a enfrentar desafios. Ficou evidente que a empatia foi imediata e, na minha avaliação, foi ali mesmo, naquele dia, que Mares Guia ganhou o apoio e o respeito de todo o trade turístico.

 Não havia como negar, o novo ministro era um homem capaz de criar sinergia e fazer seguidores. O namoro com o mercado não demorou a engrenar, namoro que se fortaleceu com a nomeação de um profissional para dirigir a principal estatal do turismo nacional. De fato, o presidente da EMBRATUR era um homem do nosso meio, amigo de muitas jornadas, e profundo conhecedor dos problemas que impediam o desenvolvimento do setor. O ministro, como todos havíamos percebido, tinha montado uma equipe de profissionais respeitados, com critérios técnicos e larga experiência. O mercado estava sossegado e pronto a colaborar. O turismo brasileiro estava a ponto de escrever uma página importante de sua história.

 Na composição de sua equipe, Sanovicz acabou por desfalcar alguns convention, mas também deixou clara qual era sua opção. A partir daquele momento, a EMBRATUR passou a estabelecer uma sinergia inédita com a FBC&VB, sinergia essa que possibilitou a convergência de idéias e projetos para ajudar a promover o turismo brasileiro em bases mais profissionais e com o respaldo que a enorme representatividade de uma entidade como a Federação de CVBx permitia. Passou a ser comum a presença de diretores da estatal nas nossas assembléias, até como forma de orientar os projetos em discussão e prestar contas ao trade sobre as ações desenvolvidas pelo órgão. Muitas vezes, o próprio presidente Sanovicz participava para apresentar alguns dados e defender os projetos do governo para o turismo.

 Sanovicz teve o cuidado de levar para a EMBRATUR ótimos quadros executivos, quase todos, como ele mesmo, oriundos de convention. Gente como Vera Sanches, do Brasília CVB, Jeanine Pires, do Recife CVB, Karin Carvalho, do Curitiba CVB, Vanisa Schuler, do Porto Alegre CVB e Ney Humberto Dias, do Rio de Janeiro CVB, formaram o time que deu início à recuperação da imagem do turismo brasileiro, desenvolvendo com muita competência vários projetos importantes. Maria Katavatis, profissional da área de eventos da TAM, e profunda conhecedora do trabalho dos CVBx, reforçou o time alguns meses depois.

Estes profissionais também costumavam discutir suas idéias nas reuniões da Federação, onde podiam encontrar a massa crítica necessária ao seu aprimoramento. Com estas contratações, sabíamos que os convention bureaux tinham chegado à maioridade e teriam que provar sua competência vencendo os desafios do novo turismo que se pretendia para o Brasil.

 Lembro que na posse de Sanovicz, em meio ao seu discurso, ele afirmou entre emocionado e peremptório: “está definitivamente encerrada a política dos três ‘esses’ no turismo brasileiro. Sun, sea and sex não podem mais ser os únicos argumentos para a promoção deste país lá fora!”

O recado estava dado, grandes mudanças estavam por vir e a Federação Brasileira de CVBx teria que estar preparada para as novas demandas que viriam junto. Acontece que as nomeações de Sanovicz para as diretorias da EMBRATUR acabaram por gerar uma espécie de dança das cadeiras nos CVBx brasileiros, pois, privados de seus principais executivos, alguns tiveram que iniciar um ciclo de contratações.

 Já na Federação, uma das instâncias mais afetadas, foi exatamente o Comitê Executivo, que perdeu sua coordenadora, Vera Sanches, e uma de suas principais articuladoras, Jeanine Pires. Era preciso recompor as fileiras e, numa eleição da qual participaram vinte e oito CVBx, montou-se a seguinte equipe: Rui Carvalho, autor deste livro e na época executivo do Campinas CVB, que foi eleito coordenador em substituição a Vera Sanches, permaneceram Heloísa Cavalcante, do Goiânia CVB, Conceição Drumond, do Aracajú CVB, e Stella Paiva do Porto Alegre CVB. A estes se juntaram os novos eleitos, reforçando a equipe com gente nova e cheia de vontade de trabalhar, foram eles: Juliana Araújo, do Salvador CVB, Samira Pavesi, que havia saído do Espírito Santo CVB para ocupar a vaga de Jeanine em Recife, e Marco Lessa, do Ilhéus CVB.

Foi com esta formação que o comitê exerceu um importante papel de apoio à diretoria, na busca de soluções para organizar um setor que, embora contasse com mais de um século de história, ainda engatinhava no Brasil.

 Mas a Federação começava a ocupar o seu espaço, crescia, consolidava o segmento. Simultaneamente, com as novas diretrizes para o turismo brasileiro, entre as quais, a redefinição do papel da EMBRATUR, que passou a cuidar exclusivamente da promoção comercial do Brasil no exterior, era preciso assumir novos e importantes desafios. O estilo Mares Guia, com suas metas ambiciosas, exigia inteligência competitiva, planejamento estratégico e capacidade de articulação. Estávamos em casa, essa era nossa especialidade, e sentíamos que estávamos prestes a fazer parte de algo muito importante para o Brasil.

Naquele mesmo ano, a FBC&VB, através de convênio firmado com a EMBRATUR, foi incumbida de organizar a presença do Brasil nas feiras e eventos no exterior, ficando encarregada da contratação do espaço, da montagem e comercialização dos estandes para os co-expositores. Esse convênio foi um divisor de águas no trabalho até então desenvolvido e deu uma dimensão totalmente diferente à entidade. Era preciso profissionalizar-se, era necessário aumentar a equipe de Brasília, contratar especialistas capazes de administrar os convênios com a lisura que o processo exigia. Para atender às novas demandas, a diretoria foi aumentada, e, depois de uma alteração estatutária aprovada por unanimidade, permitiu-se que executivos de CVBx pudessem assumir diretorias da Federação desde que convidados pela diretoria eleita, composta, como vimos, por presidentes de convention. Tive a honra de receber o primeiro convite. Moreira, alguns dias antes da ida a Portugal para participar da BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa, um dos principais eventos de turismo da Europa, convidou-me para assumir a Diretoria de Comunicação da nova Federação Brasileira de CVBx. Em seguida, Juliana Araújo, do CVB de Salvador, foi convidada para trabalhar junto à vice-presidência de feiras e eventos. Aos poucos, por força do novo desenho organizacional, o Comitê Executivo, na forma como havia sido concebido, não fazia mais sentido e acabou morrendo de inanição. Deixou boas lembranças, como gostam de dizer Vera e Jeanine, mas não havia mais razão para funcionar naquele formato, a Federação era outra, as responsabilidades eram outras e a forma de assumi-las precisou ser repensada, resultando na criação das novas diretorias convidadas.

O projeto seguinte da EMBRATUR, no âmbito da sua missão de promover o Brasil no exterior, foi a montagem de escritórios de promoção em alguns mercados estratégicos. Foram criados os EBTs – Escritórios Brasileiros de Turismo, e a FBC&VB, mais uma vez através de convênio específico, passou a administrar esses escritórios em parceria com a estatal. O primeiro a ser montado foi o de Lisboa, inaugurado em Janeiro de 2004 pelo ministro Mares Guia. Na cerimônia, que aconteceu durante a BTL, estavam presentes, além do próprio ministro e de Eduardo Sanovicz, toda a diretoria da Federação de CVBx, e várias outras autoridades do trade brasileiro e português. Vera Sanches, até então ocupando uma das diretorias da EMBRATUR, foi a executiva escolhida para dirigir o novo escritório. Ao coquetel de inauguração, compareceu também o Embaixador Brasileiro em Portugal, na época, o ex-presidente Itamar Franco. O escritório foi instalado no bairro do Chiado, um dos mais tradicionais e elegantes de Lisboa, e transformou-se numa segunda embaixada brasileira em Portugal, pois o apoio às iniciativas de promoção dos produtos brasileiros e a conseqüente passagem de empresários e autoridades do trade por lá, passaram a ser constantes. Não posso negar que todos nós, dirigentes da FBC&VB, sentimos orgulho ao ver que a placa alusiva à inauguração do EBT em Lisboa, menciona a parceria estabelecida entre o Ministério do Turismo, a EMBRATUR, e a nossa entidade. Estávamos competindo na primeira divisão do turismo brasileiro, éramos gente grande. Tínhamos a sensação de dever cumprido, de estar fazendo o que devia ser feito, em suma, de estar participando, de forma definitiva, da construção de um novo Brasil, pelo menos no que se refere à promoção do nosso produto turístico. Como cidadão português senti orgulho de ver que essa nova fase havia começado, exatamente, na capital do meu país, e o que é melhor, eu estava lá, testemunhando a história e tornando-me parte dela.

Nos meses que se seguiram, a mesma parceria possibilitou a abertura dos EBTs de Londres, Paris, Milão e Berlin, todos com a missão de dar apoio à comercialização de produtos brasileiros, e à promoção turística do Brasil. Aliás, nunca é demais lembrar que o modelo obteve pleno êxito e os resultados estão aí para quem quiser ver. Não podemos esquecer que quando Sanovicz decretou o fim da política dos “três esses”, não estava brincando! Desde o início de sua gestão, e com o apoio da Federação e dos EBTs, foram identificados, montados e trabalhados inúmeros produtos turísticos, todos passando longe do trinômio “sol, mar e sexo”.

Desde então, a pauta brasileira de turismo, oferece oportunidades para operadores estrangeiros e turistas que queiram conhecer nosso potencial em nichos como: mergulho, golfe, ecoturismo, turismo de aventura, pesca esportiva, cidades históricas, gastronomia, feiras e eventos, enfim, uma série de produtos capazes não só de aumentar muito o fluxo de visitantes estrangeiros, o que já seria uma vitória, mas, principalmente, de qualificá-los, atraindo turistas com maior poder aquisitivo, e que permanecem mais tempo no Brasil, deixando mais divisas em nossa economia. Todos os números do setor, em que pesem os efeitos das crises mundiais que só contribuem para atrapalhar nossos planos, vêm mostrando consistência, comprovando o acerto da nova política de promoção turística.

EBT Portugal Início das atividades: Janeiro de 2004
Mídia espontânea gerada: 1,7 milhão de euros
Press trips realizadas: 06
Novas operadoras que já comercializam/vão comercializar Brasil pela 1ª vez: 15
Agências de viagem e operadoras de turismo visitadas: mais de 200
* Companhias aéreas visitadas: 05 (TAP, Varig, Air Luxor, EuroAtlantic, Air Atlântico)
** Novos vôos apoiados: 02
Lisboa – Natal (regular da TAP)
Funchal – Natal (charter da operadora Terra Brasil)
*** Viagens da Caravana Brasil: 03 (Golfe e Cidades Patrimônio)
Participação em feiras na Europa: 08
**** Ações promocionais em Portugal: 19
Viagens de Incentivo apoiadas e efetivadas: 36 grupos, 1.875 turistas
Associação à APAVT (Associação Portuguesa das Agências de Viagem e Turismo)

Ampliando sua área de atuação, o EBT realizou o Seminário Descubra Brasil na capital da Ilha da Madeira, Funchal, em junho. Foi a primeira vez que houve uma promoção do País nessa região – que conhece muito pouco sobre os destinos brasileiros. *Dados de 2005
 
 

 

 

EBT França Início das atividades: Março de 2004
Mídia espontânea: 904 mil euros
Press trips realizadas: 05
Novas operadoras que já comercializam/vão comercializar Brasil pela 1ª vez: 12
Agências de viagem e operadoras de turismo visitadas: 498
* Companhias aéreas visitadas: 06 (TAP, Varig, TAM, Air France, Air Luxor e Star Airlines)
** Novos vôos apoiados: 02
Paris – Salvador (charter da operadora Marsans)
Paris – Recife (da operadora Marmara Etape Nouvelles com a Air Luxor)
*** Viagens da Caravana Brasil: 03 (Mergulho, Golf e Pesca)
Participação em feiras na Europa: 12
**** Ações promocionais na França: 16
Grupos apoiados e efetivados: 86 turistas nos segmentos Incentivo, Ecoturismo, Sol e Mar, Cultural, NegóciosA bordo do navio-veleiro Cisne Branco, da Marinha Brasileira, o EBT vem realizando treinamentos de agentes de viagens. Até o momento, 125 profissionais já participaram. O navio está em viagem pela costa do país em comemoração ao Ano do Brasil na França. *dados de 2005
 
 

 

 

EBT Reino Unido e Benelux Início das atividades: Julho de 2004
Novas operadoras que já comercializam/vão comercializar Brasil pela 1ª vez: 08
Agências de viagem e operadoras de turismo visitadas: 60
* Companhias aéreas visitadas: 02 (Varig e British Airways)
** Novos vôos apoiados: 04
Londres – Salvador (charters das operadoras My Travel e Thomas Cook, a partir de maio/06)
Manchester / Londres (Gatwick) – Salvador (charter da operadora First Choice, a partir de maio/06)
Londres – Natal (charter da operadora Thomson Holiday – TUI UK, a partir de novembro)
Press trips realizadas: 08
*** Viagens da Caravana Brasil: 03 (Golfe e Incentivo)
Participação em feiras na Europa: 04
**** Ações promocionais no Reino Unido: 15As quatro operadoras de maior faturamento do Reino Unido vão iniciar fretamentos nos próximos meses para o nordeste brasileiro. São elas: Thomson Holiday – TUI UK, My Travel, First Choice e Thomas Cook. Ampliando mercado além de Londres, a First Choice vai operar com saídas de Manchester. Todas contam com apoio do EBT.*dados de 2005 
 
 

 

 

 

EBT Alemanha e EscandináviaInício das atividades: Agosto de 2004
Novas operadoras que já comercializam/vão comercializar Brasil pela 1ª vez: 10
Agências de viagem e operadoras de turismo visitadas: 354
* Companhias aéreas em visitadas: 11 (Varig, TAM, Ibéria, Lufthansa, TAP, Ibéria, Condor, Martinair, Belair, LTU, FlyBrazil)
** Novos vôos apoiados:  04
Gotemburgo – Fortaleza (da operadora Framtydsresor)
Dusseldorf – Natal / Rio de Janeiro (da operadora Fly Brazil)
Munique – Rio de Janeiro (da operadora Direkt / MTM Reisen )
Frankfurt – Salvador (da operadora Condor)
Press trips individuais apoiadas: 02
*** Viagem da Caravana Brasil: 02 (Ecoturismo e Incentivo)
Participação em feiras na Europa: 08
**** Ações promocionais na Alemanha e Escandinávia: 11
Associação à: ARGE Lateinamerika (voltada para o turismo latino-americano na Alemanha),
Corps Touristique (reúne escritórios internacionais de promoção turística na Alemanha)
Criação do Brazilian Travel Committee-Nordic (bureau de promoção do Brasil nos países escandinavos e nórdicos)
Parceria com a Câmara de Indústria e Comércio Brasil-Alemanha O trabalho pela diversificação da oferta de Brasil junto a operadoras de turismo vem dando frutos. A Ikarus Tours, por exemplo, incluiu as chapadas dos Veadeiros (GO) e Diamantina (BA), Jalapão (TO), Lençóis Maranhenses (MA) e Fernando de Noronha (PE) em seus pacotes *dados de 2005 
 
 

 

EBT Itália Início das atividades: setembro de 2004
Novas operadoras que já comercializam/vão comercializar Brasil pela 1ª vez: 16
Associação à: ADUTEI (escritórios internacionais de promoção turística na Itália),
Agências de viagem e operadoras de turismo visitadas: mais de 50
* Companhias aéreas visitadas: 06 (Varig, TAM, TAP, Alitalia, Eurofly, Blue Panorama)
** Novos vôos apoiados: 03
Milão – Fortaleza (charter da Lauda Air)
Roma (a definir) – Salvador / Natal / Recife (charter da Blue Panorama, a partir do final de 2005)
Milão – Fortaleza / Natal (charter da Travelandia com BRA)
**** Ações promocionais na Itália: 06
Participação em feiras na Europa: 04
Participação de ações do Ministério do Turismo no combate ao Turismo Sexual A Veratour, uma das novas operadoras trabalhadas pelo EBT que vai comercializar Brasil neste ano pela primeira vez, calcula trazer dez mil turistas nos primeiros 12 meses de operação. Estuda fechar parcerias com resorts em Recife (PE) e Salvador (BA). Outra que também já anunciou que vai trabalhar destinos brasileiros – Salvador, Porto Seguro e Trancoso (BA) - é a Alpitour, empresa de maior faturamento da Itália. *dados de 2005 
 
 

Só para se ter uma idéia da verdadeira revolução que essa nova estratégia causou, basta dizer que o número de feiras no exterior em que a EMBRATUR participou expondo o produto turístico brasileiro, passou de pouco mais de 20 em 2002, para quase 50 em 2005. Os investimentos em promoção cresceram, o ministério do turismo saiu de um orçamento de cerca de 350 milhões de reais em 2004, para quase 1 bilhão em 2005, numa prova da importância que o setor adquiriu com os resultados apresentados. Mares Guia gostava de repetir que “não existe vento bom para nau sem rumo”, numa referência à falta de direção que caracterizava a política (ou ausência dela) de turismo no Brasil. Sob seu comando o setor reencontrou seu rumo e a nau segue por boa rota, numa prova inequívoca de que sabemos onde chegar.

A Federação de CVBx também fez a sua parte, pois era preciso corresponder à confiança nela depositada pelos parceiros. Com o consentimento da EMBRATUR abaixou em mais de 60% o custo de participação das empresas brasileiras (co-expositoras) nas feiras internacionais, obtendo como resultado uma presença recorde de empresas e entidades, num crescimento de 107% no número de expositores, quando se comparam os números de 2001 com os de 2004, ano em que teve início o convênio assinado com o governo para operação das feiras. Mais uma tarefa cumprida. Ganhava o turismo, ganhava o Brasil e ganhava a FBC&VB que passou a ter outra dimensão e a ocupar um espaço nunca antes sonhado, embora merecido.

Mas as mudanças no turismo brasileiro não se limitaram à forma de promoção, à criação de novos produtos ou à adequação dos quadros diretivos da EMBRATUR e Ministério, nos quais se abriu mão de apadrinhados políticos para privilegiar a competência e a meritocracia. Por outro lado, talvez por isso mesmo, havia necessidade de mudar completamente a imagem do Brasil no exterior. Era necessário identificar a maneira como os turistas estrangeiros viam a gente, como eles enxergavam o novo Brasil que se desenhava no horizonte de muitos e na cabeça de uns poucos. Partindo dessa premissa, a EMBRATUR, novamente com o apoio e colaboração da FBC&VB, efetuou uma ampla pesquisa com turistas de vários países, que resultou na criação da Marca Brasil. Essa marca, resultado de uma concorrência vencida pelo publicitário Chico Farkas, atendia aos princípios apurados na pesquisa, que mostravam que o turista via um Brasil colorido, flexível, alegre e com uma natureza exuberante. A nova Marca Brasil foi apresentada pela EMBRATUR em várias cerimônias com empresários de todos os setores e para o trade turístico. Foi tão bem aceita que até a Varig, na época ainda voando em céu de brigadeiro (será?), passou a utilizá-la na fuselagem de seus aviões, no que foi imediatamente seguida por dezenas de empresas de todos os setores. O Ministério do Desenvolvimento também passou a usar o símbolo em sua comunicação visual, e a Federação de CVBx recomendou que todos os seus filiados a usassem amplamente. A partir daí, o colorido logotipo que identifica o novo turismo brasileiro, passou a ser visto com freqüência em cartões de visita, formulários e sites de todo o trade turístico, a começar pela ampla adesão dos convention de todo o país. Hoje podemos dizer que é uma marca de sucesso e que cumpre plenamente o objetivo de ser reconhecida como a marca do turismo brasileiro. É uma marca de Estado e não de governo, e é assim que deve ser.

Com a importância crescente da Rede de CVBx, crescia também sua responsabilidade. Era preciso abraçar as causas certas, mostrar maturidade e coerência. Ao mesmo tempo era necessário manter o crescimento e consolidar-se, conscientizando o mercado sobre a importância de investir e organizar o marketing de destinos. Entretanto, mesmo não sendo uma entidade estatal, a FBC&VB era, inegavelmente, uma instituição que precisava atuar em conjunto com as diretrizes do governo, na defesa dos interesses do turismo brasileiro, consolidando sua posição de principal parceira privada da EMBRATUR. Com esse espírito resolveu abraçar a luta contra a exploração sexual infantil, programa que era a menina dos olhos do Ministério do Turismo. No primeiro semestre de 2005 foi lançada a campanha “Quem ama protege”, que pretendia arrecadar recursos para implantar programas de combate ao turismo sexual. Foi desenvolvida uma pulseira de borracha, nova tendência mundial para este tipo de campanha, que era vendida em todo o país por várias entidades, e cuja renda reverteu para o financiamento de programas de combate a essa praga que mancha, vergonhosamente, a história do nosso turismo. Sabemos que é uma questão delicada, difícil, com fortes raízes culturais, mas nem por isso devemos ser menos enérgicos. A situação brasileira em alguns municípios pobres é tão escandalosa que chegamos a ouvir relatos, por parte de uma assistente social que trabalha no Vale do Jequitinhonha, um dos lugares mais miseráveis do país, segundo os quais muitas vezes a única fonte de proteína que as adolescentes conseguem ao longo do miserável dia, é fornecida pelo esperma obtido com a prostituição a que se submetem por absoluta falta de alternativa! É chocante, é nojento, é inaceitável, pode até ser um pouco de exagero, mas a simples possibilidade de que essa seja a verdade diária de centenas de jovens nas regiões menos favorecidas do país é aterradora e exige ações concretas e imediatas. Não há como não ficar indignado, mas apenas indignação não ajuda a amenizar o problema. É preciso que nossa indignação se transforme em mola propulsora de ações que não deixem margem para dúvidas. Lutar contra essa vergonha é uma obrigação de todos os que encaram o turismo como atividade promotora de crescimento social e econômico. Escandalizar-se com situações como essa tem que ser apenas o primeiro passo para exigir medidas urgentes e mais práticas, mas não tenhamos ilusões: se estamos lidando com uma situação limite, com profundas raízes na ignorância ou, o que é pior, na mais constrangedora miséria física e mental, então devemos entender que, sem dinheiro não há muita coisa que possa ser feita. Não compete apenas ao governo lutar contra esse tipo de chaga social, é preciso que cada um faça a sua parte, é necessário acabar com a hipocrisia, ter coragem de dar um basta, identificar, denunciar, e punir exemplarmente quem está envolvido com essa vergonhosa forma de exploração da miséria. Para isso, são importantes ações como a da campanha “Quem ama protege”, apoiada pela Federação de CVBx, mas também é necessário atacar o outro lado do problema, denunciar os incentivadores e beneficiários desse escândalo, os turistas de quinta categoria que juntam um punhado de euros com a única intenção de explorar a miserabilidade de nossas meninas e meninos! Identificar as origens do turismo sexual e punir operadores e clientes, pode ajudar a impedir a vinda dos charteres da vergonha, dos mercadores de cidadania. Mais uma vez, numa prova de maturidade, a FBC&VB, estava lá, colaborando com as autoridades numa causa que só lhe traria o respeito de toda a comunidade, consolidando, ainda mais, sua acertada trajetória como entidade representativa da cadeia produtiva do turismo brasileiro.

 

Capítulo VI

Os CVBx e a captação de eventos – Uma discussão conceitual.

 Se não há como negar a importância dos convention na articulação dos arranjos produtivos locais, é importante perceber que essa importância se deve, em grande parte, à compreensão de que nossas entidades são as mais representativas de toda a cadeia produtiva do turismo, justamente por serem fiéis aos princípios enunciados por Milton Carmichael em 1896, integrando horizontalmente os setores interessados no desenvolvimento econômico dos destinos através do turismo.

Em todo esse processo, que, como se vê, já dura mais de um século, precisamos destacar exatamente o peso da cadeia produtiva do turismo de negócios e eventos como impulsionador do deslocamento das discussões em torno de convention bureaux, da área de lazer e entretenimento para a área de economia. Percebe-se nitidamente nesse deslocamento um ganho qualitativo e estratégico difícil de imaginar alguns anos atrás. 

 De fato, ao concentrarem seus esforços e recursos no apoio à captação de eventos, os convention acabam impactando, direta ou indiretamente, uma série de atividades que não estão, necessariamente, ligadas ao turismo! São empresas que prestam serviços auxiliares em eventos, como segurança; limpeza; gráficas; recepcionistas; tradução simultânea; transporte; floriculturas e decoração; shows; buffets; comunicação visual; restaurantes; casas noturnas; shoppings; táxis; distribuidoras de bebidas; empresas de contratação de mão de obra temporária, enfim, um universo calculado em mais de cinqüenta atividades que, somadas, ajudam a compor a base da economia do turismo que, calcula-se, seja responsável por cerca de 8%% do PIB nacional. Evidentemente, para se chegar a esse número, é preciso incluir na conta, além da chamada cadeia econômica direta, o faturamento das empresas que, temporariamente, se juntam à atividade turística em si, ainda que de forma indireta, para formar o que resolvi chamar de EAT - Economia Ampliada do Turismo. Assim, quando uma construtora, por exemplo, está levantando um hotel, passa a integrar a EAT. Seguindo o mesmo raciocínio, quando o hotel encomendar à indústria têxtil a compra dos suprimentos de cama, mesa e banho de que vai precisar (e são mais de 30 milhões de peças/ano), fará com que esta também some pontos para a EAT! O mesmo acontece com a indústria cerâmica ao fornecer as louças de que o hotel vai precisar, da indústria de eletrônicos e linha branca que fornecerá as TVs, sistemas de som e frigobares, a indústria moveleira e assim por diante, num círculo virtuoso que espalha benefícios por toda a cadeia produtiva regional. Em Campinas-SP, por exemplo, entre 1999 e 2006 foram construídas e/ou ampliadas 25 novas operações hoteleiras, exigindo um investimento de mais de 200 milhões de reais apenas na construção e reforma. Imaginem o valor que atingiremos se computarmos nessa conta os gastos com os itens que mencionei acima!

 Foi representando essa roda da fortuna que os CVBx conseguiram desviar o foco de discussão da área do interesse turístico para a do desenvolvimento econômico. Hoje, no Brasil, os mais de 160 CVBx existentes, são mais solicitados pelos cadernos de economia dos jornais do que pelas colunas sociais ou cadernos de turismo como era comum até pouco tempo, embora, é claro, um bom convention bureau, deva manter bons contatos com os representantes das diversas mídias, já que, efetivamente, representam o conjunto do trade turístico de suas cidades. Evidentemente, indo muito além disso, os convention bem estruturados e mais atuantes, têm sua base de representação bastante ampliada, conseguindo uma abrangência que lhes dá legitimidade para discutir, propor e executar políticas regionais de turismo e influenciar as autoridades na condução dos investimentos no setor, com reflexos muito positivos na atividade econômica das regiões ou cidades que representam.

 Por fim, ao agrupar-se em torno da Federação Brasileira de Convention & Visitors Bureaux (hoje Confederação), o setor tende a crescer em importância e peso político, agindo como caixa de ressonância de uma atividade que é responsável por um faturamento de 37 bilhões de reais anuais, que emprega quase três milhões de pessoas e recolhe 4,2 bilhões de reais em impostos com a realização de 320 mil eventos por ano. (dados da pesquisa Dimensionamento Econômico dos Eventos no Brasil / Sebrae/FBC&VB/CTI Consultoria – 2002)

São números, qualquer que seja o ângulo adotado para análise, que não podem ser ignorados por nenhuma política nacional de turismo, e que, por si só, atestam a pujança do setor e o acerto de Milton Carmichael, quando, lá nos idos de 1896 em Detroit, quase por acaso, deu origem ao conceito que hoje é reconhecido mundialmente como receita de sucesso para o fortalecimento da economia através do turismo de negócios e eventos, os Convention & Visitors Bureaux.

 Mas estamos apenas engatinhando no assunto. Afinal, a atuação de nossas entidades no Brasil é tão nova e abrangente que ainda se discute sua verdadeira missão e prioridades. Mesmo entre os dirigentes de CVBx, ainda não há consenso sobre coisas como missão, objetivos e estratégias. Quando se trata de falar da captação de eventos, por exemplo, verifica-se uma verdadeira torre de Babel. Todo mundo tem uma opinião a dar, mas raros são aqueles que baseiam suas opiniões na observação acurada ou na experiência de mercado. Muito da confusão tem a ver com a semântica. Eu, por exemplo, defendo a idéia de que os CVBx não fazem captação de eventos. CVBx apóiam captações e defendem candidaturas. Não lideram o processo, coordenam as ações dos intervenientes, motivam e orientam os diversos envolvidos no processo de captação. Mas para entender isso é preciso compreender cada etapa do processo, é preciso deixar de lado a retórica e meter a mão na massa. Quantos “especialistas” em eventos já tiveram que fazer uma captação, montar e defender uma candidatura? Parte das dificuldades está exatamente nas características do próprio mercado.

 Nas experiências de que participei pude observar que o trabalho de um CVB nos processos de captação/apoio, podem ser classificados em dez passos principais:

 1-   Pesquisar os eventos “captáveis”;

2-   Identificar as características do evento para avaliar se “cabe” em nossa estratégia (número de participantes, rotatividade, periodicidade, critério de decisão);

3-   Identificar e contatar a pessoa/entidade LOCAL responsável pelo segmento a que pertence o evento pesquisado;

4-   Provocar/motivar o interesse dessa pessoa/entidade em apresentar a candidatura desse evento para nosso destino;

5-   Estudar e construir a melhor estratégia para defesa da candidatura (processo decisório, visita técnica, influência na votação, forma de abordagem, utilização de quais ferramentas);

6-   Produzir os materiais/ferramentas que melhor ajudem a defender a candidatura (dossiê sobre o destino, bidding book, cartas de apoio, brindes);

7-   Planejar e executar a viagem para apresentar e defender a candidatura;

8-   Identificar ou influir na escolha do organizador do evento no sentido de oferecer a grade de mantenedores/fornecedores locais e orientar trâmites a seguir no destino escolhido;

9-   Montar e acompanhar as visitas técnicas de inspeção e as reuniões de negociação com os mantenedores e parceiros locais;

10-       Preparar e executar a estratégia de promoção do evento (normalmente montando estande e/ou apresentação na edição imediatamente anterior do evento, que ocorre em outra cidade).

 Sem o adequado planejamento destes dez passos as chances de obter êxito são bastante escassas. Imagine que queremos captar um congresso médico, por exemplo. Já o pesquisamos, já identificamos seus responsáveis e já concluímos que ele cabe em nossa cidade. É hora de buscar envolver os parceiros, motores dessa captação. Começamos por envolver a sociedade médica representativa da especialidade em nossa cidade ou estado e convencê-la a apresentar a candidatura daquela regional para sediar uma das próximas edições do evento. Sem esse apoio, sem essa vontade política, o convention estaria passando por cima daquele a quem cabe promover o evento, e a chance de fracasso seria enorme.

O que isso significa na prática? Simples. Como trazer para a nossa cidade, por exemplo, o Simpósio Nacional de Cardiologia, se não tivermos a concordância da Sociedade de Cardiologia do nosso Estado? Por isso dizemos que é competência da entidade médica ou de classe captar o evento. Evidentemente, tomada essa decisão que é quase sempre político/corporativa, essa entidade vai precisar do apoio do convention para montar e defender a candidatura. Afinal, é o convention o especialista na infra-estrutura de eventos da cidade. É o convention o especialista no banco de dados de informações de atendimento ao turista, é ele que conhece e promove os atrativos turísticos, que conhece como ninguém os pontos fortes e as fraquezas do destino. Mas atenção: estamos falando apenas da defesa da candidatura no que se refere ã logística, à infra-estrutura e à divulgação dos atrativos da cidade. Ainda é preciso que a entidade promotora elabore a “candidatura” científica, ou seja, qual será a temática do congresso, qual a proposta técnico-científica, que palestrantes serão convidados, etc. Sem isso o processo não estaria completo e as chances de ganhar são muito reduzidas. Por isso achamos mais correto dizer que os convention apóiam a captação de eventos, ainda que, por vezes, como vimos, sejam obrigados a tomar a iniciativa de motivar a entidade médica ou de classe a apresentar a candidatura, mostrando-lhes as chances de vencer e os benefícios do evento para todos os envolvidos e para o destino candidato.

 Se não entendermos esta dinâmica fica difícil administrar as expectativas das empresas que se associam aos convention como mantenedoras, na esperança (ou certeza) de aumentar a visibilidade e fechar negócios com mais facilidade. Mas atenção: o CVB não tem obrigação de agir diretamente para incrementar os negócios do seu mantenedor! Calma, é isso mesmo que você leu, mas vamos interpretar corretamente a frase: o que quero dizer é que, ao contrário do que muitos mantenedores pensam, o CVB não realiza negócios diretamente em nome deles, não negocia valores, não substitui os departamentos comerciais de seus mantenedores. O CVB abre espaços, cria oportunidades, provê a informação. Compete a cada mantenedor adotar uma atitude proativa e identificar as oportunidades de negócio disponibilizadas por aquele evento. É muito importante que isso fique bem claro, ou correremos o risco de, mais uma vez, frustrar expectativas. Lembre-se de que sempre é mais fácil criticar do que “sair da caixa” e aproveitar todas as oportunidades que um evento proporciona. Lembro-me de um restaurante filiado a um CVB que dirigi, que se queixava que o Convention não havia levado nenhum cliente até ele no ano anterior, por isso ele estava considerando a possibilidade de desligar-se da entidade. Quando lhe perguntei se ele olhava regularmente o calendário de eventos disponibilizado pelo CVB na área restrita do site, respondeu-me que não gostava muito de internet. Quando o informei que esse calendário também era enviado na forma impressa a cada mantenedor, ele alegou não ter tempo de olhar “essas coisas de convention”! Respirei fundo, passei a mão nos seus ombros e respondi: “o senhor já pensou em conversar com o organizador do evento e oferecer o seu restaurante, oferecendo, por exemplo, um desconto a quem se apresentar com o crachá oficial do evento?” – “Ã?” Foi a resposta que ouvi! Francamente, é muito fácil criticar o trabalho dos outros com base na própria preguiça ou falta de iniciativa, mas isso não pode servir para desclassificar o trabalho importantíssimo de um bom CVB. Por outro lado, se os convention enfrentam problemas como este de forma muito freqüente, e sei que sim, talvez esteja na hora de repensar nossa estratégia de comunicação. Podemos estar errando ao não conseguirmos comunicar-nos adequadamente com nossos mantenedores, afinal, cliente tem sempre razão, não é?

 A geração de oportunidades de negócio para nossos mantenedores, como tentei mostrar, deve ser a conseqüência de um bom planejamento estratégico e resultado do trabalho contínuo e persistente de um bom convention. Nunca é demais lembrar que convention agem na promoção do destino e no incentivo à economia regional através do fomento do turismo de negócios e eventos, mas não podemos deixar que se estabeleça uma relação direta, de causa e efeito, nas atividades deste ou aquele mantenedor. Convention, acima de tudo, fazem marketing de destino. Convention são ferramentas de marketing que integram horizontalmente os setores interessados em posicionar uma cidade ou região como sede de eventos e feiras, viagens de incentivo, negócios e lazer. Em bom português, CVBx abrem portas, facilitam contatos, oportunizam negócios, defendem destinos.

Vale ressaltar o pensamento de Carmichael:: vamos trabalhar juntos para desenvolver a economia local, e com isso, todo mundo terá benefícios. Participem de uma entidade que promove o desenvolvimento econômico, para que o seu negócio se desenvolva num mercado em crescimento e daí você possa tirar suas possibilidades de lucro e sucesso.

Em resumo, e para ser fiel ao espírito carmichaeliano, antes de perguntar o que o convention da sua cidade pode fazer pelo seu negócio, você precisa avaliar o que o seu negócio pode fazer para ajudar o convention a melhorar a economia da cidade e o seu poder de atratividade para eventos, negócios e turismo. Agindo assim, você aumenta as chances de sucesso do trabalho do convention, e prova ter visão estratégica ao priorizar o bem coletivo em detrimento do privado. Já é um bom começo, Milton Carmichael, ficaria orgulhoso de ver até onde foram suas idéias geniais!

 Mas não pense você que, equacionada a questão da verdadeira missão e objetivos de um convention bureau, a tarefa de promover o destino passa a ser facilitada. Na verdade, o empresário Antônio Dias, primeiro presidente do Campinas e Região Convention & Visitors Bureau, com quem eu aprendi muitas e proveitosas lições sobre planejamento e estratégia empresarial, mas, acima de tudo, aprendi o valor da ética nos negócios, costuma dizer que trabalhar em convention, é evangelizar, é pregar todo o dia o mesmo sermão, repetir o mesmo discurso, convencendo um aqui, outro ali, até ver formado o consenso e os resultados começarem a aparecer. Aí então, ao invés de relaxar para colher os frutos, é preciso recomeçar a pregação, pois sempre haverá uma ovelha desgarrada que nunca ouviu falar de convention bureau, ou que os confunda com secretarias de turismo, departamento de vendas da hotelaria local ou coisa muito pior.

 Para falar a verdade, mesmo no nosso próprio meio ainda é fácil encontrar profissionais desorientados, confusos quanto ao papel que cabe aos convention no desenvolvimento dos destinos. Nunca é demais lembrar que anos atrás, falar de convention bureaux costumava despertar dois tipos de reação: espanto e apatia. O primeiro pela complexidade do nome, a segunda pela ignorância quanto à sua utilidade. Pois bem, apesar dos esforços de alguns profissionais, entre os quais modestamente me incluo, e do salto qualitativo e visibilidade que conseguimos com a parceria CBC&VB/EMBRATUR, parece que ainda temos um longo caminho a percorrer, ainda há muitas alminhas para catequizar.

É curioso como muitas vezes, mesmo nas entranhas do setor, o papel dos CVBx ainda é confundido ou ignorado. Mas o que mais espanta é a dificuldade que o próprio sistema de CVBx, representado hoje, como dissemos, por mais de 160 bureaux em todo o Brasil, tem com relação ao conhecimento da própria origem. É freqüente a confusão verificada na compreensão de seu verdadeiro papel no fomento da atividade turística, na análise dos impactos econômicos em nossas cidades.

Certa ocasião, quando proferia uma palestra sobre a origem dos convention, fui surpreendido por um presidente de CVB que desafiou: “mas a missão das nossas entidades não é captar eventos?”. Não necessariamente, como disse anteriormente. Novamente podemos estar perante uma questão semântica, mas vale a pena tentar descomplicar as coisas estabelecendo claramente as diferenças entre meio e fim, entre objetivo e ferramenta. Já vimos que é mais apropriado dizer que o apoio à captação de eventos cabe melhor como definição de nosso papel nesses processos. Ele é uma das ferramentas que utilizamos para cumprir nossa missão: “promover o desenvolvimento econômico e social do destino”. Este é o fim. Captação de eventos é o meio, a ferramenta, aliás, uma delas, pois há outras. Para esse desenvolvimento acontecer, entretanto, é importante que o trade turístico, principal suporte das atividades dos convention, entenda o princípio enunciado por Carmichael quando da criação do primeiro convention em Detroit. Vale lembrar, mais uma vez, que já naquela época Carmichael chamava a atenção dos empresários de que só seria possível impulsionar o setor de eventos, se todos entendessem o mais importante: promover o desenvolvimento do destino, deixando de lado a preocupação em obter resultados imediatos com o próprio negócio. A principal lição que se tira daquela primeira tentativa de organizar a promoção de um destino, é que isso só é possível se os interessados optarem pelo bem coletivo em contraponto ao bem individual.

O raciocínio é mais ou menos o seguinte: se você tem um negócio, qualquer que seja, numa economia estagnada, sujeita a um regime de competição predatória, ou em declínio, é bem provável que seu negócio, mais tarde ou mais cedo, venha a revelar-se inviável. Já numa economia em crescimento, organizada, num ambiente de competição civilizada, com todos os players, ainda que ocasionalmente concorrentes, lutando juntos com o objetivo de melhorar o ambiente de seus negócios, talvez haja uma chance muito boa de ver seu negócio prosperar e gerar lucro.

Para comprovar a necessidade de evangelizar referida pelo empresário Antônio Dias, vale relembrar que o significado implícito na mensagem de Detroit era: “não pergunte o que o convention pode fazer pelo seu negócio, mas o que você pode fazer para ajudar o convention a melhorar o seu negócio!”. Parece um simples jogo de palavras, mas é bem mais que isso. É uma pancada na cabeça para as mentes fechadas, conservadoras e preguiçosas de boa parte de nossos líderes.

 Entendendo a atuação de um convention sob o aspecto da promoção do destino via esforço conjunto, fica mais fácil perceber que uma das ferramentas mais eficazes é a captação de eventos, ou o apoio a ela. Isso nos leva ao ponto de partida, afinal, os convention são ou não entidades de captação? Bom, pelo que expusemos até aqui, talvez a resposta mais adequada seja um ambíguo sim e não. Sim porque a ocorrência de eventos num determinado destino é uma das principais formas de impulsionar a economia através da movimentação dos arranjos produtivos locais, mais especificamente, através do incremento nos negócios das mais de 50 atividades envolvidas direta ou indiretamente na operação e execução do turismo de negócios e eventos.

Como isso é do interesse de todos os convention, é fácil entender a necessidade de envolvimento deles nos processos de captação. Entretanto, nunca é demais insistir que estar envolvido no processo de captação é diferente de ser o captador do evento. Vamos relembrar como se desenvolve a atividade de captação na maioria dos convention? Por razões óbvias, sabemos que o tipo de evento que mais interessa aos destinos, até por terem a característica de impactar um número maior de atividades, e apresentarem organização mais profissional, são os congressos, simpósios e jornadas. Este tipo de evento está quase sempre ligado à área da saúde, ao setor médico e farmacêutico. Um congresso médico, de abrangência nacional ou internacional, por exemplo, costuma ser planejado com bastante antecedência, e seus promotores, na hora de escolher o destino, costumam levar em conta fatores como logística, capacidade hoteleira, atividades de lazer e atrativos turísticos, e muitos outros detalhes que podem determinar ou influir na escolha da cidade. Já vimos antes que esse tipo de preocupação costuma ser a matéria prima do trabalho dos convention, pois como especialistas nos seus destinos, eles são a ferramenta mais indicada para defender a candidatura e demonstrar a capacidade que o mesmo apresenta para atender as exigências da entidade promotora. Paralelamente, os convention também atuam como facilitadores, permitindo o acesso dos organizadores a toda a infra-estrutura de serviços de suporte a eventos, além de fazerem a interface com autoridades e órgãos públicos municipais. Desta forma, contribuem efetivamente para o sucesso do evento.

 Não raras vezes, é também através dos convention que os organizadores de congressos conseguem melhorar ou obter as negociações com a hotelaria, espaços de eventos e serviços de suporte em geral, atividades que estão entre as que mantêm um relacionamento mais próximo com os convention, integrando seu corpo de associados. Tudo isso é muito importante para se obter êxito na captação de um congresso, e, essa capacidade de articulação, essa integração horizontal das atividades impactadas pelo setor de eventos, por si só, já justificaria a existência dos convention na maior parte dos destinos com um mínimo de infra-estrutura. Entretanto, é preciso não confundir este processo de apoio a eventos, com a captação propriamente dita. Essa, como já demonstrei, quase sempre é atribuição da entidade de classe representativa da atividade profissional inerente ao tema do congresso. Como estamos falando de congressos, simpósios e jornadas, as exceções são tão esporádicas que nem vale a pena mencioná-las neste livro.

 Por aí se pode concluir que a decisão de sediar ou não um congresso, não está em poder do convention, mas de um arranjo estratégico que envolva a entidade de classe regional, muitas vezes exigindo o apoio da entidade de âmbito nacional ou internacional, aliada a uma forte atuação do convention local e entendimentos com alguns outros parceiros que, dependendo do caso, podem ser as autoridades municipais, associações de classe e empresas patrocinadoras. É este conjunto de parceiros, é da sinergia entre este grupo que depende o sucesso da captação.

Assim mesmo, uma série de fatores, muitas vezes imponderáveis, pode afetar a decisão final. Por sermos ainda entidades com pouca penetração na sociedade, e cuja função ainda está envolta em dúvidas, é freqüente no Brasil que os convention precisem adotar uma postura mais pró-ativa em relação a essas entidades de classe, no sentido de motivá-las a apresentar a candidatura do destino para sede de um próximo congresso da especialidade. Entretanto, é bom lembrar que não é só essa capacidade de mobilização ou essa proatividade que garante o sucesso na captação. Antes de iniciado o processo, é preciso munir-se de toda a informação possível, para evitar que se faça um esforço inútil, indo atrás, por exemplo, de um congresso que, ocorrendo a cada dois ou três anos, tenha uma rotatividade geográfica pré-determinada (uma edição em cada região brasileira, por exemplo). Como vimos antes, isso está descrito no item dois dos dez passos para a captação.

 Outro cuidado se refere ao tamanho e recursos que o evento exige. É preciso ter certeza de que o congresso cabe no nosso destino. Informações como número de participantes, necessidade de espaços para atividades paralelas, número de salas requeridas, capacidade e qualidade do parque hoteleiro local, enfim, todas as informações que envolvam a logística do evento precisam ser consideradas antes que o convention decida envolver-se na captação. Esse trabalho exige muita pesquisa e, não raramente, muitas reuniões, idas e vindas, consultas a outros CVBx, além de um trabalho de planejamento que deve ser efetuado sempre com os olhos voltados para a relação custo/benefício para o destino (reveja a relação dos dez passos para captação). Repare que fazemos questão de ressaltar, mais uma vez a preocupação maior do convention: os benefícios que podem ser obtidos para o destino, e não para este ou aquele mantenedor ou (associado)! Estes, se o convention trabalhar adequadamente, serão forçosamente beneficiados como conseqüência do aumento da atividade econômica na cidade ou região, fechando assim o círculo proposto por Carmichael em 1896.

 Com relação ao benefício direto para o mantenedor de um convention, ou seu envolvimento nas negociações, é preciso dizer que já presenciamos atitudes que, se numa análise superficial aparentam estar corretas, na verdade não resistem a um olhar mais profundo. Um bom exemplo desses desvios é a situação na qual o convention condiciona o apoio à captação de um evento ao fato do promotor se utilizar dos mantenedores desse convention para realizar o evento. Aparentemente estaríamos protegendo legitimamente quem nos sustenta, justificando assim nossa razão jurídica como associação ou fundação.

Se analisarmos com mais cuidado a questão, entretanto, veremos que essa exigência, a de contratar apenas mantenedores, pode resultar num prejuízo enorme para o destino e sua economia! Se o promotor do evento já tiver seus próprios parceiros, e se negar a levar o evento para aquele destino por não poder ou não querer atender às exigências do convention, pergunto: Quem ganhou? Quem perdeu?

É fácil constatar que, se agíssemos assim, estaríamos optando por proteger os negócios de um ou dois mantenedores (organizadores de eventos, por exemplo), meia dúzia que seja, em detrimento de toda uma cadeia produtiva que se beneficiaria pela ocorrência do evento na nossa cidade (táxis, hotéis, restaurantes, museus, atrativos turísticos, etc). A conseqüência dessa proteção descabida poderia ser a perda do evento, ou seja, um tiro no pé! Resumindo: é evidente que o cenário ideal é aquele cuja captação resulte na contratação do maior número possível de mantenedores, e é por isso que os convention lutam até os quarenta e seis do segundo tempo! Porém, é bom nunca esquecer que o objetivo principal, como vimos, é a vinda do evento para a cidade, de forma a beneficiar todo o destino e não apenas alguns mantenedores. Além disso, convém levar em conta que, mesmo quando uma entidade promotora de um grande congresso, nos diz que já tem, por exemplo, um organizador para o evento, é quase certo que um contato direto com esse organizador resulte na contratação de vários mantenedores locais, já que dificilmente uma empresa de fora poderá levar toda a força de trabalho necessária ao sucesso do evento. Isso, o sucesso do evento, é o que todos querem, e parece claro que, mesmo sendo de fora da cidade, um bom organizador de eventos, facilmente constatará que é mais econômico e mais produtivo para todos, utilizar-se dos serviços de empresas do próprio destino sede do evento. Ou seja, em certo grau, a proteção devida ao nosso mantenedor está garantida pela própria natureza da atividade e até pelo bom senso. A ação do CVB, nesse caso, deve concentrar-se mais em garantir que, dentro de nossa cidade, sejam contratados nossos mantenedores e não seus concorrentes locais, não filiados ao convention. Nesse caso sim, concordo com os que defendem que um CVB deve funcionar mais ou menos como um “clube de negócios”. Isso é fato.

O organizador, mesmo de fora da cidade, certamente precisará da capacidade aglutinadora do convention, da facilidade com que nossas entidades se movimentam entre a cadeia produtiva local, e o resultado, evidentemente, será um evento de sucesso, e a realização de ótimos negócios para todos os envolvidos. Desta forma, podemos considerar que, mesmo não tendo o CVB intercedido diretamente na contratação de seus mantenedores, nem colocado isso como condição para seu envolvimento, o trabalho efetuado está perfeitamente dentro dos propósitos e objetivos previstos no estatuto e não há nenhuma razão para que os mantenedores se sintam abandonados ou preteridos.

 Para que o leitor possa ter uma noção mais exata da teoria que aqui defendemos, consideremos o seguinte exemplo: Uma determinada associação médica nacional decide escolher o destino do seu próximo congresso e considera as propostas de várias cidades. Ao manter contato com o convention de uma das mais prováveis candidatas, ele percebe que, para realizar o congresso ali, teria que contratar a empresa “X”, um OPC (Organizador Profissional de Congressos) mantenedor do convention local. Pois bem, neste exemplo o CVB, aparentemente, estaria cumprindo seu papel ao proteger os interesses de um dos seus mantenedores, o qual, na sua visão estreita, lhe paga exatamente para isso. Acontece que a entidade médica, de âmbito nacional, através de um processo de concorrência, por exemplo, já escolheu o OPC que organiza todos os eventos da entidade naquele ano. Perante a exigência de contratar o OPC local, a entidade considera levar o congresso para um destino mais flexível e as negociações emperram.

Na prática, aquele CVB que exigiu a contratação de seu mantenedor, defendendo uma espécie de reserva de mercado, prestou um desserviço ao seu destino. Com essa atitude, para defender apenas um de seus mantenedores, o convention impediu que hotéis, restaurantes, táxis, empresas de comunicação visual, empresas de áudio-visual, gráficas, empresas de decoração, locadoras de veículos, agências de receptivo, enfim, dezenas de atividades que gravitam em torno do setor de eventos, ganhassem dinheiro, já que o evento foi parar em outro destino. Mesmo que algumas dessas empresas não tenham ligação com o convention, seria correto prejudicar essa cadeia econômica em nome do princípio estatutário de defender os mantenedores? Você decide, mas nos CVBx que eu já dirigi, essa atitude xenófoba nunca prosperou.

Um exemplo assim, por si só, já explica e justifica o conceito defendido por Milton Carmichael, segundo o qual, os CVBx devem dar prioridade ao marketing de destino, ao desenvolvimento integrado da economia local, de forma a que todos se beneficiem, independentemente de serem ou não associados à entidade. Por outro lado, imagino que se encararmos estas considerações de forma mais racional, chegaremos à conclusão de que o verdadeiro trabalho de articulação dos convention é, exatamente, trazer para o seu corpo de mantenedores, empresas representantes de todos os setores impactados, direta ou indiretamente, pela atividade turística, entendida aqui com a maior abrangência possível, e considerando a transversalidade que é sua principal característica.

Isso significa dizer que os convention não devem ficar restritos às empresas do chamado trade turístico. É preciso ir além e compreender toda a abrangência da nossa atividade, para que não deixemos de fora de nossos quadros empresas ligadas a setores que, aparentemente, não têm ligação direta com o turismo. Refiro-me, por exemplo, ao que resolvi chamar de Terceira Onda. São empresas do setor de telefonia, setor financeiro ou automobilístico, energia, entre outros, que devem ser convidadas a contribuir com a política de apoio a eventos desenvolvida pelos CVBx. Mas, antes disso, é preciso que os convention associem empresas como gráficas, agências de publicidade, empresas de decoração, cooperativas de táxis, entidades como as associações comerciais, a mídia, as universidades, as autoridades, enfim, um universo que formará uma rede de apoio que, essa sim, dará representatividade legítima aos convention bureaux.

A questão das ondas de impacto, porém, no meu entendimento, merece uma reflexão cuidadosa por parte de todos nós, pois se constitui numa das principais bandeiras de nossa luta pelo reconhecimento da importância da nossa atividade para o desenvolvimento do país.  Falemos, então, sobre ondas de impacto: como todos sabem, quando alguém viaja há atividades que são impactadas diretamente, independentemente do motivo da viagem. São os setores de transporte, hospedagem e alimentação, por exemplo, que constituem o que chamamos de primeira onda. Lembre-se que todo o visitante conjuga quatro verbos em suas viagens: comer, dormir, comprar e visitar.

Em seguida, vêm atividades que, embora impactadas com menor intensidade, estão sempre presentes no dia a dia do turista de eventos e negócios. São as empresas de prestação de serviços especializados (organizadores de eventos e congressos, decoração, segurança, comunicação visual, locação de equipamentos, montadores de estandes, etc) elas formam a segunda onda e, obviamente, não estão presentes nos gastos das viagens de lazer, o que, por si só, já demonstra a importância econômica do turismo de negócios e eventos.

Com as duas primeiras ondas os convention já têm uma relação muito próxima. Normalmente, é nessas empresas que buscamos a maioria de nossos associados ou mantenedores e o entendimento dos benefícios de estarem associados a um CVB, são facilmente(?) explicados e demonstrados. O problema está justamente na terceira onda, ou no que João Luiz Moreira, presidente da CBC&VB, chama de beneficiados não contribuintes. Incluímos nesta denominação aqueles setores que, sendo beneficiados, direta ou indiretamente, pela atividade turística, que provoca o aquecimento da economia local, jamais contribuíram para o seu desenvolvimento ou para o suporte de suas atividades.

Sempre que nos dirigimos a um banco, a uma operadora de telefonia celular ou a uma montadora de automóveis na tentativa de conseguir algum patrocínio, algum envolvimento num projeto de captação de eventos, ou na produção e desenvolvimento de materiais de divulgação, invariavelmente nossa proposta é negada com a onipresente justificativa de que eles não têm nada a ver com o setor de turismo! Dificilmente os convention conseguem que eles integrem seus quadros de mantenedores. A desculpa é sempre a mesma: não têm ligação com o turismo. Pode até ser verdade, mas é o mesmo tipo de raciocínio enviesado que o cidadão comum e desinformado utiliza ao dizer que não tem nada a ver com política! Ora, se, como dizia o filósofo, viver é um ato iminentemente político, pois a política permeia todas as decisões do dia a dia de qualquer cidadão responsável, pode-se dizer que quem não gosta de política corre o risco de ser governado por quem gosta! Voltando à nossa conversa, podemos concluir que os segmentos econômicos acima citados, ao não enxergarem a conexão do setor de turismo com uma boa parcela de suas atividades, estão demonstrando, na verdade, uma visão obtusa e limitada da permeabilidade que rege a economia de um país moderno e globalizado.

 Trocando em miúdos, não é difícil provar que a atividade turística, por sua transversalidade, ao impactar quase todos os setores da economia, não deixa de fora nenhum dos setores mencionados. Senão vejamos: por onde passa toda a movimentação financeira do setor de turismo? Por onde circulam os milhões de reais transacionados numa feira, numa exposição ou num congresso? Não é pelo sistema financeiro? As próprias inscrições dos eventos, as taxas, os impostos, o pagamento de fornecedores, não são pagos através dos bancos instalados no país? Se o setor de eventos crescer de forma consistente, o sistema financeiro não terá sua atividade impactada por esse crescimento? Então como é que eles podem afirmar que não têm nada a ver com o turismo? E o que dizer do deslocamento de centenas de milhares de pessoas a cada ano, que por motivos de lazer ou trabalho, mas, de qualquer forma, utilizando-se de um dos vários segmentos do que hoje entendemos por turismo, levam consigo seus telefones celulares, e se utilizam do sistema de roaming, pagando tarifas mais elevadas, pagando taxas de deslocamento e aumentando significativamente o faturamento das operadoras? Será que também esse setor tem o direito de se sentir alheio à economia do turismo?

O exemplo mais emblemático, porém, ainda é o da indústria automobilística. Mantendo nosso pragmatismo pergunto: será que o leitor tem idéia de quantos milhares de veículos são adquiridos anualmente pelo conjunto das locadoras que formam o chamado sistema rent-a-car, representadas pela ABLA – Associação Brasileira de Locadoras de Automóveis? Em 2008 a frota empregada por seus associados era de 318.865 veículos! E onde vocês acham que eles foram comprados? Quem os fabricou? E o que seria do mercado de venda e montagem de ônibus, se não fosse a indústria do turismo? Na mesma linha de raciocínio podemos fazer outro exercício de imaginação: como estaria o mercado de venda de vans se não fosse impulsionado pelo turismo? Quem e com que finalidade compraria modelos como a Mercedes Sprinter, a Renault Traffic ou a Fiat Ducatto, apenas para ficar em três exemplos produzidos por grandes montadoras internacionais com fábricas no país? Não é lícito concluir que qualquer arrefecimento na atividade turística poderá afetar o faturamento dessas empresas? Então o que há de errado no fato de elas serem chamadas a contribuir com o nosso negócio?

 Esta é a lição de casa que precisamos fazer. Evidentemente, uma coisa é chegar numa reunião com um diretor de uma dessas montadoras e dizer o quanto nossa atividade é importante para o negócio deles. Dito assim, sem nenhum dado concreto que demonstre essa importância e esse impacto em números irrefutáveis, o máximo que conseguimos é o cafezinho e a promessa de que irão analisar o assunto e nos responderão oportunamente, ou seja, nunca! Outra coisa bem diferente é embasarmos a nossa argumentação com dados estatísticos capazes de lançar luz sobre a dimensão real desse impacto. Sabemos que é grande, mas grande o quanto? Que participação podemos pleitear desse grupo de empresas? De que forma se daria essa participação?

 Creio que nossa nova frente de luta está identificada. Com a coordenação da CBC&VB devemos tentar quantificar o impacto de nossas atividades no negócio dos setores citados e apresentar a conta. Esta pode ser uma nova e promissora fonte de receita para os convention. Só garantindo a saúde financeira de nossas entidades, conseguiremos desenvolver um trabalho profissional e eficaz em favor dos nossos destinos. Não adianta querer inventar a roda. O fato de copiarmos uma idéia original formulada há mais de um século, e testada em todo o mundo por décadas, talvez não nos obrigue a ficar presos ao purismo original e, pelo contrário, tenha chegado a hora de buscarmos nosso próprio modelo, nosso próprio caminho, atitude que passa, no meu entendimento, pela capacidade de identificarmos novas formas de financiar nossas atividades.

 O exemplo aqui citado, que chamamos de Terceira Onda de Impacto, embora possa ser uma boa alternativa, certamente não é a única. Outro caminho que pode ser tentado, embora mais difícil por implicar na transferência de receita oriunda de recursos públicos, é tentar pleitear uma parte do valor pago por todos os passageiros embarcados nos aeroportos brasileiros, a chamada Taxa de Embarque cobrada pela Infraero. De fato, se utilizarmos o mesmo raciocínio, como não chegar à conclusão de que, ao agir na captação de eventos e incrementar o fluxo de visitantes para os seus respectivos destinos, os convention não são co-responsáveis pelo movimento verificado nos aeroportos, nas atividades de embarque e desembarque? Sendo assim, não seria justo que uma parte, mínima que fosse, dos recursos oriundos da Taxa de Embarque fosse destinada aos convention das cidades que têm aeroporto? Ou, talvez mais justo ainda, que fosse repassada à CBC&VB que se encarregaria de encontrar uma fórmula equânime de distribuir esses recursos entre os CVBx brasileiros? Será que alguém duvida do acerto e do alcance de uma medida como essa? Já imaginaram o trabalho maravilhoso que poderia ser feito pelos convention se a receita fosse turbinada pela entrada desses recursos? É claro que seria preciso discutir amplamente de que forma se daria essa participação, seria necessário criar leis específicas para regulamentar a matéria, e isso pressupõe o apoio de parlamentares defensores dessa tese.

Não é tarefa das mais fáceis, mas valeria a pena tentar, pois tudo que se fizer pela independência financeira dos convention vai, certamente, resultar em benefício para os destinos brasileiros, e contribuirá para tornar a atividade turística auto-sustentável, aumentando a sua eficiência, a sua capacidade de gerar empregos, qualidade de vida e renda. Não seria descabido dizer que, ao assumirmos essa luta, estaremos criando condições do país se desenvolver de forma integrada através do turismo, frequentemente apontado como uma das melhores soluções para ajudar a diminuir a perversidade da nossa distribuição de renda. De fato, o Brasil pode melhorar muito sua posição como destino turístico se soubermos aproveitar a força mobilizadora dos CVBx, e colocar o sistema a serviço da promoção comercial brasileira, atraindo turistas, investimentos e progresso. Ao que parece, tanto a EMBRATUR como o Ministério do Turismo, já descobriram essa lógica e os resultados têm sido a quebra sucessiva de recordes. Apostar na parceria com os convention foi uma das atitudes mais acertadas da política nacional de turismo iniciada pela administração de Walfrido dos Mares Guia (no Ministério) e Eduardo Sanovicz (na EMBRATUR).

 Outro exemplo de fortalecimento dos CVBx nos chega de Campinas. Nos oito anos em que dirigi aquela entidade lutamos para que a prefeitura entendesse a importância do trabalho. Na administração Hélio Santos, que se elegeu em 2004, conseguimos reestruturar o Conselho Municipal de Turismo, e convencer o prefeito a enviar projeto de lei à Câmara Municipal determinando que, dos 5% recolhidos pelos hotéis como ISSQN, 2% fossem destinados ao FATUR – Fundo de Turismo da Prefeitura, que é administrado pelo Conselho Municipal de Turismo, órgão enxuto e no qual a iniciativa privada tem forte influência e liderança. Não é uma forma direta de alocar recursos públicos para o CVB, pois isso nem seria permitido pela legislação. Na prática, porém, os recursos, da ordem de R$ 1,2 milhão/ano, foram colocados a serviço da promoção turística, tendo o Campinas CVB à frente desse processo, liderando e coordenando a participação em feiras no Brasil e exterior, e produzindo materiais de qualidade com significativos resultados.  

 Voltando ao nosso tema anterior, nunca é demais lembrar que não é todo o tipo de turista que nos interessa se quisermos alcançar objetivos tão nobres como a geração de emprego e a distribuição de renda. Durante décadas, a estratégia de promoção do Brasil no exterior se baseou num tripé que abria as portas a um turista indesejável e predador. Todas as ações falavam das praias, do sol e da beleza da mulher brasileira. Tudo isso é verdadeiro e não há razão para nos envergonharmos desses fabulosos atributos naturais. Entretanto, insistindo apenas nessa linha de promoção, tudo que conseguimos foi atrair multidões de operários europeus e americanos, ávidos por experiências sexuais, muitas vezes com garotas miseráveis cujos pais não viam outra saída para melhorar a renda familiar. É triste, mas é a mais pura verdade e precisamos encarar isso de frente e com coragem.

Esse tipo de turista não queremos nem precisamos. Ele gasta pouco e ajuda a corromper nossa sociedade, muitas vezes protegidos pela leniência de nossas autoridades. A miserabilidade de parte da nossa população nos obriga a ser pragmáticos e procurar soluções que consigam corrigir alguns desvios na forma como encaramos a atividade turística. Um bom exemplo disso é a seriedade com que o Ministério do Turismo e a EMBRATUR, com o apoio decisivo da CBC&VB, promovem a campanha contra o turismo sexual infantil da qual já falamos aqui. Essa luta é de todos e não pode ser postergada. É preciso exigir que governo e iniciativa privada garantam recursos para financiar os projetos do programa. Entre outras coisas, para evitar que situações vergonhosas e absolutamente surrealistas como a da exploração da sexualidade de nossas crianças, continuem a fazer parte do dia a dia de milhares de brasileiros, cuja distância em relação à cidadania plena só é inferior à distância em relação ao mínimo de dignidade.

 

 Capítulo VII

 Os Convention são solução para tudo?

 Voltando a falar de CVBx, há dois pontos que precisam ser discutidos. O primeiro é a discussão sobre a necessidade de estabelecer algumas regras para a sua implantação, e o segundo é como garantir a viabilidade financeira dessas entidades.

 Com relação ao primeiro ponto, nota-se que com o entendimento, correto, de que o turismo é uma atividade econômica, não poluente, e capaz de empregar mão de obra intensiva e pouco qualificada, veio também a percepção, falsa, de que montar um convention bureau é o bastante para resolver os problemas de qualquer cidade que pretenda competir profissionalmente no mercado de destinos turísticos. É um erro que pode custar caro. Os convention bureaux não são panacéia para todos os males, não são a cura milagrosa capaz de transformar um povoado isolado e sem infra-estrutura em sucesso turístico. Muito pelo contrário, há algumas regras que é preciso levar em consideração sob pena de se montar uma entidade condenada ao fracasso em poucos meses. Na verdade, para que uma cidade possa trabalhar adequadamente o turismo de eventos, e vamos aqui lembrar, mais uma vez, que este livro pretende discutir, preferencialmente, esse segmento, é fundamental que reúna algumas características muito específicas, pois esse tipo de turismo só pode desenvolver-se com base em quatro grandes pilares: Logística, parque hoteleiro, espaços para eventos e atrativos turísticos.

Na logística consideramos a localização geográfica, a existência de aeroporto, condições de acesso, (estradas e malha aérea, por exemplo) e a qualidade e diversidade de serviços especializados em atendimento de eventos. Sem isso, a tarefa de atrair grandes eventos fica muito mais difícil, pois não adianta um destino ser belíssimo, ter praias maravilhosas, excepcionais condições de hospedagem, mas não haver como chegar lá com rapidez e segurança. Há destinos que sofrem muito com essa dificuldade, quer pela má qualidade das estradas, comum na maior parte dos estados brasileiros, quer pela ausência de um aeroporto em condições de atender a demanda, ou com uma malha aérea deficiente, problema também muito comum no nosso país, em decorrência da crise quase crônica enfrentada pelo setor de infra-estrutura. Colocar mil ou duas mil pessoas, vindas de várias partes do país, numa determinada cidade, é uma operação que exige certa dose de experiência, mas, acima de tudo, exige condições de transporte de massa compatíveis, ou o embarque terá que ser iniciado dias antes, complicando a operação e aumentando custos. A outra alternativa, talvez menos viável ainda, seria optar pelo fretamento, mas, evidentemente, tanto uma  alternativa quanto outra, variam dependendo do tipo de evento e das necessidades específicas de transporte. Leve-se em conta que, com a falta de aeronaves no mercado, o fretamento deixou de ser uma alternativa fácil, mesmo para quem pode pagar por isso.

 Ter um parque hoteleiro moderno e bem dimensionado é outra característica que faz diferença na hora de escolher o destino do evento. O participante de eventos, normalmente pessoas com um nível sócio-econômico acima da média, costuma exigir alguns serviços que uma rede hoteleira antiquada não é capaz de oferecer. Comodidades como internet banda larga no quarto, salas de reuniões moduladas, serviço de quarto 24 horas e business center, são mimos que fazem parte da rotina de quem viaja com alguma freqüência, mas que ainda não estão disponíveis numa boa parte de nossas unidades hoteleiras, principalmente em destinos pouco tradicionais, ou nos hotéis ditos “familiares”. Há exceções, claro, mas elas apenas confirmam a regra. Simplicidade e descontração não podem ser sinônimo de falta de conforto ou amadorismo. O tempo do hotel que era bom por ter lençóis branquinhos e limpinhos já vai longe. Hoje, as exigências são bem maiores e o tamanho ou localização do hotel não devem servir de desculpa para a ausência de um serviço profissional e que procure atender ou superar as expectativas do cliente. O tamanho do parque hoteleiro, evidentemente, também é fator decisório na captação de eventos. Todos conhecemos ótimos destinos que não podem acomodar grandes eventos por não terem um parque hoteleiro adequadamente dimensionado. É necessário que haja hotéis em quantidade suficiente, e de várias categorias, permitindo hospedar os participantes de um evento, sejam eles altos executivos de grandes empresas, ou os técnicos encarregados da montagem dos estandes ou do palco de um show. Mas atenção, é comum ouvir dizer que tal cidade tem, por exemplo, 10.000 leitos, e que, por isso, pode muito bem acomodar um evento para, digamos, 8.000 pessoas. Nem sempre. O importante não é saber quantos leitos tem, mas saber quantos tem disponíveis na data do evento. Ou seja, é preciso levar em conta a ocupação média mensal do destino. Se ela for de, por exemplo, 60%, então não podemos considerar 10.000 leitos, mas apenas 4.000, o que representa um obstáculo e tanto para um evento com aquele tamanho. Enfim, detalhes que só quem vive o dia a dia deste grande negócio é capaz de tirar de letra.

 A questão dos espaços para eventos talvez seja um dos principais diferenciais quando se fala de atender grandes eventos. A inexistência de um bom centro de convenções pode inviabilizar o destino. O ideal é que uma cidade que pretenda competir nesse mercado, possua um centro de eventos profissional e bem planejado, mas também algumas outras alternativas, como auditórios, pavilhões, salas de vários tamanhos, teatros e salões diversos. Aliás, é claro que os melhores destinos de eventos são aqueles que possuem, não um centro de convenções, mas um centro de eventos. Resolvemos chamar de centro de eventos o equipamento que apresenta, no mesmo complexo, um centro de convenções com auditório principal, auditórios menores e salas de apoio de variados tamanhos, centro de exposições com pé direito alto e entradas de serviço amplas, permitindo a entrada de veículos pesados e todo o tipo de montagem, praça de alimentação com vários tipos de comida, no estilo das praças de shopping center, e estacionamento adequado ao tamanho dos eventos que pode receber. Tudo isso, preferencialmente, com cabeamento estruturado, piso reforçado, ar condicionado e em localização de fácil acesso. Convenhamos, não há muitos lugares assim, mesmo em destinos consagrados, mas é o tipo de equipamento que costuma povoar os sonhos dos organizadores de eventos. Fora dos grandes centros como São Paulo e Rio de Janeiro, não costuma haver fartura de empreendimentos com estas características. É claro que a falta de um centro de eventos assim não inviabiliza completamente o destino, já que, sempre há a possibilidade de competir pela captação de eventos menores. Especialistas costumam dizer que, mais de 60% dos eventos que acontecem no Brasil, recebem menos de 500 pessoas. Entretanto, parece óbvio que um destino que se apresente ao mercado com um equipamento como o descrito acima, leva evidente vantagem. Além disso, um centro de eventos bem construído deve ser modulado, com as salas capazes de atender diversos eventos simultâneos e de tamanhos variados, o que ajuda a melhorar a sua utilização e a rentabilizar o investimento.

 Já a existência de atrativos turísticos variados e de qualidade, pode ajudar muito a fazer a diferença na hora de escolher a cidade que vai sediar o evento. Está mais do que provado que os participantes de eventos precisam de alternativas para os períodos em que não estão participando dos trabalhos. Atrações turísticas como parques, museus, monumentos, locais pitorescos, boa gastronomia, centros de compras, artesanato, etc…, são importantes para ajudar a prolongar a permanência dos visitantes, e, principalmente, como motivo para que eles levem suas famílias, aumentando muito o gasto per capita, beneficiando toda a cadeia econômica da cidade. Ter um mix de atrativos turísticos bem equilibrado, com variedade de opções e qualidade, costuma ser um diferencial competitivo capaz de pesar muito na decisão final.

O destino que não reunir estas características dificilmente poderá competir em condições de igualdade num mercado tão disputado e profissional como é o da captação de eventos. Mesmo assim, é curioso perceber como algumas cidades, sem apresentar sequer um destes quatro pilares, ainda assim tentam desenvolver-se como destino de eventos e montar seu próprio CVB. Na maioria das vezes, quando sou chamado a opinar sobre a conveniência de implantar um convention num destino assim, costumo alertar para a necessidade de, primeiro, criar e desenvolver a infra-estrutura, para só depois pensar na montagem de um CVB que irá trabalhar pelo aumento do fluxo de visitantes. Muitas vezes, chega-se à conclusão de que é melhor trabalhar com mais ênfase no lado visitors, aproveitando as qualidades naturais do destino e seu potencial turístico, do que tentar competir no mercado de eventos que, como vimos, exige mais do que belas paisagens e ótimo clima. O que é importante deixar claro, é que um convention não pode “inventar” um destino! Se não há condições de desenvolver o turismo de eventos, se a vocação não for o turismo de negócios, então o convention bureau precisa, para ter chance de sucesso, adequar-se ao perfil do destino e trabalhar na promoção e divulgação das melhores características do local. Muitas vezes, no entanto, nem é recomendável que o CVB seja implantado, pois o risco de ter que fechá-lo depois de alguns meses, ou de transformá-lo em entidade de fachada, é muito grande. Convention bureaux são excelentes ferramentas de marketing, mas não são capazes de solucionar todos os problemas, e, por isso mesmo, não são remédio para todos os males. Talvez seja por essa razão que, dos atuais 160 CVBx brasileiros, apenas um pouco mais de 50 apresentem um trabalho efetivo de promoção do destino. A maior parte dos outros vive à míngua, tentando sobreviver aos trancos e barrancos, servindo de palanque para dirigentes vaidosos, que fazem qualquer coisa para ocupar um lugar à mesa sem ter que pagar o almoço. Alguns debatem-se na mesmice e acabam morrendo por inanição, outros, por teimosia, transformam-se em CVBx de um homem só, em CVBx que nada têm em comum com a idéia original do associativismo. Tanto uns como outros terão pouca chance de sucesso, mas sempre servem para satisfazer a vaidade do presidente, ou do grupinho que representa. Mas não se iludam, planejamento adequado, capacidade de angariar recursos e uma gestão profissional, são requisitos indispensáveis e precisam ser levados em conta na hora de decidir se o caminho é a montagem de uma entidade desse tipo ou não.

 Se, como vimos, um convention bureau pode não ser a solução ideal para qualquer destino, por outro lado, é preciso reconhecer que aonde eles existem, normalmente, a atividade se desenvolve com mais foco, com mais e melhores resultados e com muito mais eficiência. A base de todo o trabalho dos CVBx é a grande representatividade. É preciso que a arte de fazer alianças e estabelecer parcerias seja praticada da maneira mais abrangente. Um CVB só pode realizar um bom trabalho mediante duas coisas que nem sempre lhe são oferecidas: tempo e dinheiro. Tempo porque em mais de trinta anos de trabalho não conheci nenhuma ação de curto prazo que tivesse sido aplicada ao turismo com sucesso. Dinheiro porque, infelizmente, sem ele não há muito o que fazer. Com recursos volumosos, podem fazer-se materiais de melhor qualidade, realizar mais viagens de prospecção e captação, contratar profissionais mais qualificados, estar presente em todas as feiras do setor com vistosos estandes, enfim, empreender ações que, coordenadas, resultem numa grande visibilidade para o destino, visibilidade essa que pode ser convertida em resultados. Sem dinheiro, como dizia o célebre personagem do filme Carandiru, “sem chance”, tudo fica mais difícil, inviabiliza-se o trabalho do CVB.

 Parece uma constatação óbvia, porém, ainda há muito exemplo de CVBx que lutam há anos para equilibrar sua condição financeira, alguns mal tendo recursos para pagar seu custo fixo. É claro que CVBx assim, não podem apresentar nenhum trabalho concreto, nenhum resultado visível. Existem, na maioria das vezes, por razões políticas, por conveniência de alguns e para uso pessoal de outros. No fundo, eles atentam contra o próprio conceito de convention bureau. Mas não pense o leitor que essa situação deva sempre ser creditada à ineficiência com que são administrados! Antes fosse, seria mais fácil de compreender e a solução seria deixá-los morrer por falta de financiamento. O problema é que, de forma geral, e até por serem formas relativamente novas de associativismo no Brasil, os CVBx padecem da síndrome das associações sem fins lucrativos: precisam encontrar, diariamente, maneiras de manter o associado motivado e ciente dos resultados obtidos. Num mercado onde as coisas precisam ser planejadas, às vezes com anos de antecedência, convenhamos, não é fácil. Por isso não canso de repetir a doutrina de Antônio Dias, o empresário de Campinas que presidiu o CVB local por cinco anos: trabalhar em CVB é evangelizar, é levar a mesma mensagem ao rebanho a cada dia, mensagem nem sempre renovada, mas sempre impregnada de forte esperança. Eu completaria: trabalhar em convention bureau é exercer a arte de potencializar os pequenos acertos e minimizar os erros! É preciso fazer barulho, estar presente, aproveitar cada pequeno ganho, cada passo dado, para levar ao associado um punhado de boas notícias. Manter a motivação do associado mantenedor é, talvez, o maior desafio de qualquer convention. Mas não estamos sozinhos nessa dificuldade. Carmichael também passou por isso lá em Detroit no final do século XIX, ou seja, apesar de tudo, estamos em boa companhia.

  

Capítulo VIII

 A cobrança da room tax – questão de sobrevivência!

 A principal fonte de receita dos CVBx é uma contribuição voluntária feita pelos hóspedes dos hotéis filiados. Essa contribuição, lançada na fatura a cada diária, tem valor variável de acordo com o que estabelece o estatuto de cada convention, e é conhecida mundialmente como room tax, literalmente, taxa de quarto. Mas não é bem isso. Alguns CVBx insistem em chamá-la de “taxa de turismo”, um erro que pode sair caro, como veremos adiante. A denominação original, em inglês, também não conta com unanimidade, pois há muito quem defenda o termo em português. O fato é que a grafia original é usada no mundo todo, e nós, no Brasil, por mais que tentássemos, não encontramos nenhuma outra expressão para substituí-la. Assim sendo, ficou mesmo conhecida como room tax! O problema principal do nome em português está no fato de que, em alguns destinos com pouca freqüência de turistas de lazer, cidades mais voltadas para negócios e eventos, como Campinas, Londrina, Uberlândia, Maringá, Ribeirão Preto e tantas outras, fica complicado explicar ao hóspede a razão de ser lançada na conta uma “taxa de turismo”! A rejeição é grande, pois quase sempre o visitante alega não ser turista, pois está na cidade a trabalho ou a negócios. Pronto, está aí uma situação que poucos recepcionistas de hotel estão preparados para evitar. Quando se usa a expressão original, room tax, fica mais fácil evitar essa armadilha. Afinal, qualquer visitante, independentemente da razão de sua viagem, está no hotel utilizando o quarto, ou seja, é mais fácil explicar a cobrança de uma “taxa de quarto” do que de uma “taxa de turismo”, concordam?

 Esta taxa é causa freqüente de discussões e atritos, mas sem ela o sistema de CVBx não sobreviveria. A sua aplicação é obrigatória na maioria dos CVBx, e é cobrada por dia e por apartamento. Assim, se o hóspede está com a família num quarto cuja diária é de, por exemplo, 230 reais, e se o CVB daquele destino cobrar room tax de 1,80, como é o nosso caso aqui em Campinas, este valor será lançado junto com a diária e recolhido ao convention no final de cada mês. Se o hóspede estivesse hospedado num quarto sozinho, ele pagaria a mesma room tax, pois o valor é fixo e por apartamento, e não por pessoa. Os valores de room tax variam de convention para convention, pois são determinados pelo estatuto e pelos acordos bilaterais com os hotéis. Na maioria dos casos, o hotel só pode filiar-se ao convention se concordar em recolher e repassar ao CVB os valores cobrados do hóspede a cada mês. É raro existir outra forma de contribuição, como mensalidade, embora alguns CVBx usem um sistema misto de cobrança (mensalidade + room tax). O mais comum é que o room tax seja mesmo a única contribuição do hotel para o convention, o que torna a hotelaria nosso melhor parceiro, e também o único que não paga diretamente para manter essa parceria, já que não há nenhum custo na filiação do hotel ao CVB. Na verdade, trata-se de uma relação de confiança, de parceria, ou as coisas não darão certo. É preciso que o hoteleiro entenda que, sem os recursos da room tax, o CVB terá dificuldades em aumentar o fluxo de visitantes, prejudicando o parque hoteleiro ao não ajudar a aumentar a ocupação. Por outro lado, se o recolhimento de room tax for eficiente e repassado integralmente ao convention, isso pode representar um volume de dinheiro que possibilite um trabalho efetivo de captação de eventos, de divulgação do destino, com o conseqüente aumento no número de visitantes na cidade, com benefícios evidentes para toda a economia, e, claro, para os hotéis. Parece um raciocínio simples, mas é, na verdade, o ponto de maior conflito entre CVBx e seus mantenedores. Teoricamente tudo deveria funcionar bem. O hotel não tem custo, o hóspede é convidado a contribuir com um valor irrisório, mas só o faz se concordar, se o sistema for bem administrado pode resultar no recolhimento de milhares de reais, e esses valores nas mãos dos CVBx resultariam em várias ações do interesse do município ou região, principalmente no aumento do fluxo de visitantes e na melhoria dos serviços, o que, lá na ponta, voltaria aos associados em forma de aumento nas vendas e na ocupação. Parece, e de certa forma é, um sistema fácil e eficiente onde a relação ganha/ganha está presente e todos ficam felizes, certo? Errado. A prática mostra que as coisas são bem diferentes.

 Alguns hoteleiros, aliás, como muitos outros associados de diferentes ramos de atividade, ainda têm dificuldade em entender qual a verdadeira missão dos CVBx. É comum encontrar quem ache que o convention deve agir como departamento de vendas do hotel, realizando negócios em benefício dele, ou, no máximo, do conjunto dos associados. Não que isso não fosse possível, já que, como entidades privadas sem fins lucrativos, não haveria nenhum impedimento legal para que agissem assim. O problema aí está na maneira como essas ações teriam que ser conduzidas. Para quais hotéis incentivar negócios? Quais os associados que deveriam ser beneficiados? Como garantir a equidade nessas ações? Como ser imparcial? Como não deixar-se seduzir pela possibilidade de obter algum lucro ou alguma vantagem advinda da proteção deste ou daquele associado especificamente? Pois é, são perguntas demais, são riscos demais, são dúvidas demais para serem deixadas ao acaso. No meu entendimento, há ainda a questão, não menos importante, de estarmos desvirtuando a idéia original, e genial, se levarmos em consideração a época em que foi formulada (1896) que diz claramente que o segredo do sucesso de um destino está na capacidade de articulação e divulgação de sua infra-estrutura como um todo, privilegiando as ações coletivas em detrimento das individuais!Trata-se, é claro, do prosaico, mas infalível ditado popular que diz que “a união faz a força”! Pois não foi essa a idéia que Carmichael defendeu e que fez escola no mundo inteiro nos últimos 111 anos? Pois então? Qual a vantagem de se constituir uma entidade para trabalhar para meia dúzia de escolhidos, se os efeitos desse trabalho, quando realizado com competência, beneficiam toda a cidade ou região? Porque ter essa visão limitada e vesga, se uma abordagem abrangente e mais estratégica resulta em mais e melhores benefícios para todos?  Parece fácil, parece lógico, parece óbvio, mas a prática nos diz que ser fácil, lógico e óbvio, em se tratando de mudança de atitude, de paradigma, não significa consenso nem ausência de problemas.

 Eu já disse aqui que considero a manutenção da motivação dos associados como um dos maiores desafios de qualquer CVB. Pois eu também percebi que essa motivação, esse interesse, essa chama, só pode ser mantida se soubermos ajustar as expectativas de cada associado ou mantenedor. A melhor oportunidade de fazer isso é por ocasião da filiação, no momento em que se negocia a adesão desta ou daquela empresa. O problema é que para que as expectativas do associado sejam colocadas na perspectiva correta, é preciso que os próprios CVBx entendam bem qual a sua função, ou seja, o que podem e, principalmente, o que não podem fazer ou prometer! Isso nos leva de volta ao ponto de partida, ao conceito de Carmichael, ou seja, à constatação de que, mesmo nós, executivos de CVBx, ainda temos dificuldade em ser fiéis aos princípios básicos que deveriam nortear nossas entidades! Na medida em que permitimos ainda que se faça alguma confusão, na medida em que não sabemos dizer claramente a que viemos, o que queremos e como pretendemos conseguir isso, trazemos confusão e ambigüidade às relações com nossos mantenedores e associados. É essa ambigüidade que precisamos combater, e o caminho me parece óbvio e inevitável: buscar a padronização de procedimentos baseada na aplicação do mesmo conceito condutor. Precisamos entender e aplicar conceitualmente todos os instrumentos que formam o ferramental dos CVBx, de forma unificada, sem deixar margem a desvios. Não proponho uma ditadura conceitual, mas um entendimento que nos permita falar a mesma língua de norte a sul do país. Amparados pela legitimidade da Federação Brasileira de CVBx, devemos chamar a nós a responsabilidade de educar os novos e converter os desgarrados. Só assim, unidos no mesmo ideal, conseguiremos garantir o ambiente propício e necessário à preservação do sistema e de cada uma de nossas entidades.

 Como se vê, a questão da sustentação financeira, por estar ligada ao sucesso no recolhimento de room tax, e este, por sua vez, à correta aplicação do conceito original do associativismo, conceito esse que deve ficar bem claro no momento da captação de novos associados ou mantenedores, deve ser encarada como a prioridade zero de todos os CVBx que trabalham por resultados práticos para seus destinos. Por mais que haja diferenças entre nossos produtos turísticos, por mais que essas diferenças obriguem à convivência de CVBx com perfis distintos, por vezes diametralmente opostos, é preciso ter firmeza de propósitos, não fazer concessões à barganha na hora de implantar o room tax nos parques hoteleiros. Temos notícias de problemas enfrentados por vários CVBx com relação ao recolhimento de room tax. Esses problemas têm origens variadas, podendo ser gerados por questionamento junto às autoridades de defesa do consumidor, onde essa cobrança já foi contestada algumas vezes, ou, na própria dificuldade, ou melhor, impossibilidade de fiscalização junto à rede hoteleira, o que nos obriga a confiar cegamente na honestidade de nossos parceiros hoteleiros, os quais, não estando sujeitos a fiscalização de nossa parte, têm oportunidade de recolher os valores do room tax junto ao hóspede, e escamotear o seu repasse, enviando aos CVBx quantias inferiores às recolhidas efetivamente, ou seja, repassando apenas os valores que eles entendem suficientes.

No primeiro caso, o da queixa que, eventualmente, algum hóspede possa fazer junto às autoridades, a solução quase sempre é a informação de que a contribuição, apesar do nome taxa, não é obrigatória, e por isso mesmo, não pode ser contestada legalmente. Em 2004, a FBC&VB encomendou ao tributarista Ives Gandra Martins um estudo sobre a legalidade dessa cobrança. A conclusão do abrangente trabalho dá conta de que não há nenhuma ilegalidade justamente por ter a mesma caráter opcional e, por tal razão, não poder ser considerada taxa, ou contribuição sujeita a contestação. A simples recusa do hóspede é suficiente para que o valor seja estornado. Esta prática, assim como a informação de que a room tax não é obrigatória, deve ficar visível e absolutamente clara para todos os hóspedes, de forma a evitar ações de ilegalidade que só trarão desgaste e aborrecimentos. Acreditamos que com esses procedimentos, transparência e informação acurada, os CVBx estarão a salvo de ações penais ou de questionamentos jurídicos por parte das autoridades ou do consumidor. Caso eles aconteçam mesmo assim, o esclarecimento e a informação da não obrigatoriedade costumam ser suficientes para pavimentar a via do entendimento.

 Já o segundo caso, o da sonegação do repasse por parte do hoteleiro, é um pouco mais difícil de solucionar. O parecer do Dr. Ives Gandra Martins afirma, claramente, que isso configura apropriação indébita, já que, se o hotel concordou em repassar o que recolhe a título de mensalidade para pertencer à associação, seria quebra de contrato não efetuar o repasse. O mais grave, no entanto, é que se o hotel recolhe a room tax em nome do CVB e não repassa os recursos, então estaria sim se apropriando de valores que não lhe pertencem e pode ser contestado judicialmente. O problema aqui é que isso mexe diretamente com interesses individuais e com mudanças de atitude. Não é função do CVB, nem de nenhuma associação, promover brigas ou mover processos contra seus associados. O próprio espírito do associativismo não aconselha esse tipo de atitude. O sistema só funciona se for entendido por todas as partes envolvidas, ou seja, ele está baseado numa relação de confiança que não pode ser rompida. Ao recolher e não repassar eventuais recursos de room tax, muito mais do que incorrer num crime, o hotel está ajudando a desmontar uma parceria que, no longo prazo, poderia trazer inúmeros benefícios para todos, ajudando a melhorar o ambiente de negócios da região, da cidade, e, por conseqüência, ajudando a ele mesmo. Convenhamos, é como dar um tiro no pé! O melhor caminho volta a ser o da parceria, da confiança num trabalho de qualidade e de resultados, mas de resultados coletivos e não, necessariamente, de resultados individuais. Somos obrigados a lembrar os princípios fundamentais do associativismo, do “unidos venceremos” que deram origem ao primeiro CVB de que se tem notícia. Como já disse antes, essa parceria começa no momento da captação do associado, nas conversas que envolvem o processo de adesão. Se soubermos explicar os verdadeiros objetivos do CVB, e se conseguirmos ajustar a expectativa do associado, teremos mais chances de estabelecer uma parceria baseada na confiança mútua, onde o espaço para a sonegação do room tax , inevitavelmente, tende a diminuir. Mas isso é apenas o começo. Depois, é preciso fazer um intenso marketing de relacionamento, um trabalho de pós-venda que contemple todos os envolvidos no processo de recolhimento do room tax. É necessário estar sempre presente, demonstrar ao hoteleiro que estamos trabalhando com ele constantemente, que estamos ao seu lado. Precisamos dar-lhe informações de nossas atividades, de nossos projetos, apresentar resultados, ainda que genéricos ou qualitativos, mas resultados mesmo assim! Tudo isso, entretanto, corre o risco de falhar se não houver treinamento constante. Um dos grandes problemas da hotelaria é o enorme turn over (troca constante de funcionários) principalmente nos setores mais sensíveis aos propósitos do room tax, como a recepção e reservas. É muito freqüente que o funcionário trabalhe ali apenas por um determinado período de sua vida profissional, ou para pagar a faculdade, ou até arranjar uma colocação melhor. Esse é o perigo! O CVB investe num treinamento sobre a cobrança e o recolhimento de room tax, e, passados meia dúzia de meses, os profissionais que atendem os hóspedes, já não são os mesmo e estão completamente despreparados para efetuar essa cobrança. Nesses casos, a resistência ao pagamento da contribuição, segundo pesquisas que temos feito aqui em Campinas, costuma aumentar significativamente. Sempre que constatamos em nossos relatórios que a arrecadação caiu em determinado hotel, verificamos que a equipe de recepção e reservas sofreu alterações e está sem treinamento. É aí que costumam ocorrer os diálogos que tiram o sono dos executivos de qualquer CVB; O hóspede, pego de surpresa com o lançamento de uma taxa de turismo da qual não tinha conhecimento, pergunta ao recepcionista:  

   “- taxa de turismo? O que é isso?”

“Nada não senhor, essa taxa não é obrigatória e o senhor não precisa pagar, vou estornar, só um minuto.” Ou então:

“Por que eu estou sendo cobrado com uma taxa de turismo, se eu não sou turista, só vim participar de um congresso!?!”

“Não precisa se preocupar senhor, vou mandar estornar o débito.”

 É claro que deste jeito, os CVBx vão morrer à míngua, já que dificilmente alguém aceitaria pagar qualquer valor que fosse perante atitude tão passiva. Para fazer frente a essas situações, que são o dia a dia das recepções dos hotéis, nossas coletorias de recursos, é que se faz necessário que os CVBx mantenham programas de treinamento constante junto aos profissionais que lidam com o hóspede. Conseguir equilibrar as expectativas do hoteleiro é importante num primeiro momento, o da adesão, mas, manter as equipes motivadas, é fundamental e só assim conseguimos ter, em cada recepcionista, um vendedor de room tax. Para isso, é preciso que o funcionário do hotel conheça bem o CVB, e, principalmente, entenda claramente os seus propósitos e como a entidade pode ajudar a manter o seu emprego! Sem treinamento constante isso é impossível. Pela experiência que temos, podemos dizer que, a existência de alguém bem treinado para promover esse relacionamento constante com os nossos parceiros da hotelaria, costuma ser um bom investimento para qualquer CVB que pretenda ter sucesso no recolhimento de room tax. Materiais gráficos adequados, em linguagem simples, são imprescindíveis, pois funcionam como apostilas e ajudam a orientar os recepcionistas em caso de dúvidas. Porém, a presença da equipe do CVB, regularmente, para dar mini-palestras e treinamentos é uma questão vital para a consolidação do relacionamento que precisa ser cultivado a todo custo.

 Esse trabalho de treinamento pode e deve ser feito pela equipe do CVB como rotina, porém, isso não anula a necessidade do principal executivo da entidade se fazer presente em visitas de acompanhamento, periódicas, regulares, preferencialmente com o gerente geral ou o proprietário do hotel. Desta forma, constrói-se um círculo de comprometimento do qual fica mais difícil escapar. Forma-se uma aliança em torno de interesses comuns, que permite um melhor acompanhamento das atividades, fortalece a parceria, e reduz o risco de falhas no recolhimento e repasse dos valores da room tax. Como se vê é necessário implantar um sistema de treinamento e acompanhamento capaz de garantir não só um excelente relacionamento com o setor hoteleiro, mas também uma proximidade entre CVB e hotel que iniba a sonegação ou afrouxe o processo de cobrança de room tax.

 Por mais que o sistema de treinamento colabore muito para a redução dos índices de rejeição ao pagamento da room tax, entretanto, vale lembrar que estamos lidando, na maior parte das vezes, com brasileiros, criaturas naturalmente imediatistas e individualistas. Nos Estados Unidos, por exemplo, a cobrança não costuma ser questionada pelo hóspede e é encarada de forma absolutamente rotineira e normal. O americano, até por questões culturais, aceita melhor a idéia de colaborar com projetos sociais, com iniciativas dedicadas a melhorar a sociedade, enfim, entendem melhor o associativismo, são mais abertos a colaborar com ações coletivas. No caso da room tax, até pelo fato de lá os CVBx existirem há mais de um século, é natural que não haja problemas de recolhimento. Em muitas cidade o recolhimento é obrigatório e o modelo de sustentação financeira dos CVBx, embora conte com o apoio oficial, está fortemente alicerçado na iniciativa privada que recolhe milhões de dólares para entregar à instituição que promove o turismo da cidade ou trabalha no desenvolvimento do turismo de  negócios. Frequentemente as cidades americanas apresentam outro tipo de governança do turismo, com a inexistência de secretarias municipais ou órgãos públicos de turismo. Lá é comum que a iniciativa privada cuide dos destinos do turismo, planeje e execute as ações de promoção e divulgação. Resta ao governo regulamentar a atividade e garantir, através de leis específicas, a saúde financeira das entidades privadas. CVBx como os de Orlando, Lãs Vegas, New York e tantos outros, são verdadeiras máquinas de promoção turística e trabalham com orçamentos e recursos humanos muito superiores aos de algumas prefeituras brasileiras. Só para se ter uma idéia, o orçamento divulgado do CVB de Lãs Vegas para 2007 foi da ordem dos 245 milhões de dólares! No Brasil é diferente. O brasileiro, desconfiado de qualquer taxa ou imposto, escaldado por sucessivos governos que sugam cada centavo sem explicar adequadamente onde os recursos são investidos, mostra-se, geralmente, arredio ao pagamento de qualquer contribuição. Se souber que essa contribuição é opcional e tiver alguma dúvida sobre os benefícios diretos que a mesma lhe traz, então, está montado o cenário perfeito para a rejeição pura e simples, e lá se vai o nosso querido dinheirinho! Qual a solução? Já sabemos como manter o hoteleiro motivado e a nosso favor, já aprendemos que é importante trazer para o nosso lado as equipes dos hotéis, estando sempre presentes e dando-lhes treinamento constante, só falta agora achar uma maneira de trazer para a nossa causa o maior interessado: o hóspede que é convidado a pagar do seu próprio bolso os recursos com que fazemos nosso trabalho! A pergunta que devemos fazer, pois eles, hóspedes, sempre a fazem, é: o que eu ganho com isso? Sim, as pessoas costumam entender facilmente que os CVBx são entidades que promovem o desenvolvimento turístico, mas, sempre prevalece a pergunta impulsionada pelo característico individualismo brasileiro: “e eu, hóspede, o que eu ganho se colaborar com o seu CVB?” (é o famoso e eu kiko?)

Foi tentando responder a essa questão que em 2003, em conjunto com o empresário Antônio Dias, na época presidente do CVB de Campinas e Região, e meu superior direto, resolvemos que era preciso achar alguma maneira de oferecer uma vantagem imediata aos hóspedes que pagam a room tax nos hotéis associados, ou, melhor ainda, encontrar alguma maneira de estimulá-los a pagar.

 Hoteleiro experiente e moderno, homem de extrema sensibilidade e acurada visão estratégica, Antônio Dias é proprietário de um dos melhores resorts do Brasil, o The Royal Palm Plaza Hotel Resort, de Campinas, eleito este ano como o melhor hotel de eventos do Brasil, contando em sua estrutura com mais de 5.000 m² de área locável. Sempre preocupado em melhorar o empreendimento, que começou com área total de 10.000 m² e hoje já tem mais de 70.000 metros, Antônio Dias também levou muito a sério a tarefa de presidir o CVB de Campinas, até pela importância da região, sua diversidade e pujança econômica. Desde o início, foi sempre defensor de idéias modernas, e um dos grandes responsáveis pelo enorme reconhecimento que este CVB alcançou junto aos seus pares em pouco tempo de existência, uma vez que, fundado em julho de 2000, já ocupávamos uma diretoria da FBC&VB em 2003, no início da entidade, e fomos votados por unanimidade para presidir o Fórum Paulista de CVBx, entidade que, na época, reunia os 10 CVBx existentes legalmente no estado.

Numa das muitas conversas que mantive com Antônio Dias na tentativa de encontrar uma solução para a questão do recolhimento de room tax que tanto nos preocupava, Antônio afirmou que, no seu entendimento, um CVB precisaria prover a cidade com as ferramentas de promoção que, eventualmente, estivessem faltando. Dizia também que achava fundamental que o CVB desse visibilidade aos seus associados, e sugeriu que deveríamos produzir um guia turístico, pois, não sendo Campinas um destino turístico reconhecido, teríamos que partir do zero e mostrar que, mesmo sem praias ou belezas naturais, havia muita coisa para ser visitada e apreciada. Achei a idéia interessante e começamos a montar o esboço do que seria nosso guia trimestral. Discutimos conceito, formato, conteúdo e nome. Lembro-me bem que ele fez questão de escolher o nome, descartando outros que foram sendo sugeridos pelos parceiros chamados a participar do projeto. No final, decidimos publicar o Guia Bem-Vindo Campinas. Este foi o nome que Antônio Dias escolheu, com o argumento de que, mesmo entre visitantes estrangeiros, a expressão Bem-Vindo costuma ser conhecida, pelas mesmas razões pelas quais alguém que não fala inglês, consegue compreender o termo “welcome”!  Achei o argumento irrefutável, de uma praticidade típica da mente aguçada de Antônio, e, mesmo sem ser o nome que mais me agradava, entreguei os pontos. Pois que fosse Bem Vindo.

A idéia original era que produzíssemos o guia Bem-Vindo e que ele circulasse, com exclusividade, dentro do quarto dos hotéis associados ao CVB, ajudando o visitante a escolher atrativos turísticos de seu interesse, restaurantes, boates, opções de compras, informando sobre a agenda cultural e de eventos, enfim, apresentando ao hóspede o que há de melhor para fazer na região. O projeto gráfico foi desenvolvido e a idéia começou a tomar forma.

Quando discutimos o conceito houve necessidade de conciliar a idéia original de Antônio Dias, que entendia que deveríamos produzir um guia, com conteúdo fixo, para auxiliar o visitante nas suas escolhas enquanto permanecesse na região, com a necessidade de produzir uma publicação comercialmente viável. Antônio queria também que o guia contivesse um perfil da região, demonstrando toda a diversidade econômica e cultural, e um breve histórico de cada uma das vinte cidades que fazem parte da região de abrangência do CVB de Campinas. Eu, preocupado com a viabilidade financeira do projeto, queria uma publicação mais com cara de revista, com matéria de capa diferente a cada edição, com entrevistas, coluna social, crônica e alguma matéria sobre automóveis. No fundo, eu achava que, se produzíssemos uma publicação que conseguisse unir a utilidade de um guia turístico à variedade de uma revista de interesse geral, ganharíamos mais adesão de potenciais anunciantes e a simpatia do público em geral, e não apenas dos hóspedes dos hotéis. Acabamos por ficar de acordo com um projeto que contemplasse as duas vertentes, e a Revista Guia Bem-Vindo Campinas acabou sendo lançada no início de 2003, com 100 páginas, em formato 21x28cm, lombada quadrada, bilíngüe (português e inglês) tiragem de 15.000 exemplares e circulação trimestral. Foi um absoluto sucesso que logo chamou a atenção de outros destinos. Porém, o toque de classe que fez do projeto uma iniciativa pioneira entre os CVBx brasileiros, foi a introdução do Cartão Bem-Vindo, que permite o acesso à Promoção Bem-Vindo.

Tudo começou numa visita que eu fiz a um hoteleiro que relutava em filiar-se ao CVB por achar que a cobrança da room tax iria gerar situações de conflito com os hóspedes, que se negariam a pagar por terem dificuldade de identificar os benefícios que eles, hóspedes, teriam. Lá estava de novo o tal do “e eu kiko?” argumento que o brasileiro gosta de usar quando vê que não tem argumentos. No meio da conversa esse hoteleiro comentou:

“se ao menos o hóspede tivesse algum benefício imediato ao pagar a taxa! Sei lá Rui, o brasileiro não gosta de pagar nada e não ter retorno, essa história de entidade que trabalha pelo desenvolvimento turístico da região, é muito vaga. Entidade é coisa de centro espírita e turismo, bom turismo para o nosso hóspede é um bando de desocupados relaxando de papo pro ar (sic)! Eles são homens de negócios, trabalhadores, técnicos a serviço de grandes empresas, vão perguntar: e eu? O que ganho com isso?”

Fiquei perplexo com aquele raciocínio tortuoso, mas compreendi que era preciso ver as coisas de todos os ângulos, era necessário colocar-se no lugar de quem é chamado a contribuir, era preciso saber entender a complexidade (?) mental dos hóspedes de todos os tipos de hotel. A ficha caiu finalmente, Campinas, definitivamente, ainda não era um destino turístico.

Confesso que saí de lá decepcionado por não ter sido capaz de vencer os argumentos dele. Saí com uma sensação de fracasso, eu achava que conseguiria trazer mais aquele hotel para o nosso grupo de associados, tínhamos quase 90% dos hotéis com potencial para atender executivos e eventos, mas ainda faltavam uns três ou quatro, e aquele era um deles.

Aquele argumento ficou perturbando minha cabeça no trajeto até o escritório e, de repente, a idéia ficou clara na minha mente! E se conseguíssemos convencer nossos associados, principalmente os fornecedores de serviços, restaurantes, táxis, lojas, a oferecer um desconto, um brinde, um benefício especial para os hóspedes dos hotéis filiados ao CVB? Não era resposta imediata que eles queriam? Não era vantagem pessoal que eles buscavam? Então por que lutar contra isso? Se não podes derrotar um inimigo, junta-te a ele, não é o que diz o ditado? Daí para a criação da Promoção Bem-Vindo e do respectivo cartão, foi apenas uma questão de tempo. Conversei com Antônio Dias que deu mais alguns retoques na idéia, e, depois de algum tempo, acho que inventamos o ovo de Colombo da room tax. Funciona assim: o hóspede, no ato do registro no hotel, recebe junto com a chave do quarto o cartão da promoção Bem-Vindo, contendo seu nome e validade. Esta corresponde ao período da hospedagem, ou seja, enquanto ele estiver hospedado, até o limite de trinta dias consecutivos, ele tem direito a usufruir das vantagens na rede de associados. No verso do cartão informa-se que no Guia Bem-Vindo localizado no apartamento, encontram-se todas as informações sobre a promoção e os estabelecimentos participantes, bem como, os benefícios oferecidos. Para obter essas vantagens, basta que o hóspede apresente o cartão na chegada ao estabelecimento participante e o benefício será imediatamente oferecido.

Evidentemente negociamos com a rede de associados a concessão de diversos tipos de vantagem, sempre em caráter de exclusividade, ou seja, o benefício oferecido na promoção Vem-Vindo, não poderá ser estendido a nenhum outro grupo ou promoção de que o estabelecimento venha a participar. Com isso, conseguimos descontos nos táxis, refeições gratuitas, drinques de cortesia, entrada em casas noturnas sem fila e sem consumação, enfim o tipo de vantagem que incentiva o visitante a circular pela cidade e a gastar mais, beneficiando toda a cadeia produtiva do setor. Para os estabelecimentos participantes da promoção, e depois do benefício aprovado pelo CVB, era oferecido espaço destacado na seção do guia que apresentava a promoção, ou seja, era uma maneira de obter mais visibilidade sem ter que comprar espaço publicitário. Foi uma idéia simples, mas que se revelou muito prática e eficaz. O sucesso veio rápido e a Bem-Vindo tornou-se conhecida como a publicação oficial do turismo da região, sempre esperada e comentada, tornando-se sucesso de crítica e de público. Como editor, já percorri o país divulgando o projeto, e, em parceria com a Must Marketing, empresa de São Paulo encarregada da comercialização e produção, temos conseguido manter e até aumentar a qualidade da publicação. A iniciativa foi implantada em outros destinos como Ribeirão Preto, Belo Horizonte e Brasília. Foi apenas uma idéia simples que deu frutos, cada CVB precisa encontrar seu próprio caminho. Pode haver necessidade de ajustes no projeto. Nós mesmos já alteramos o formato e o conteúdo da publicação, transformando-a em livreto pocket, o que lhe confere mais flexibilidade e a torna mais prática para uso do visitante. Entretanto, o que importa destacar, é que é preciso que os CVBx busquem maneiras de manter a motivação de todos os intervenientes no processo de cobrança e recolhimento de room tax. É fundamental que se motive o recepcionista, o dono do hotel ou seu gerente, a equipe do CVB e, principalmente, o hóspede, que é a peça mais importante de toda essa engrenagem de arrecadação. Sem a concordância dele tudo será em vão. Nossa missão principal é fazer com que ele entenda que está contribuindo para uma boa causa, mas que, além dos efeitos benéficos dessa contribuição para a sociedade ou o setor de turismo, há vantagens inequívocas e imediatas das quais ele pode usufruir naquela mesma visita. Isso diminui resistências, lubrifica a comunicação, abre as portas para uma correta arrecadação, que vai garantir a saúde financeira do CVB e permitir que as metas de promoção, divulgação, captação e treinamento de mão de obra sejam alcançadas, com benefícios para toda a cadeia produtiva, fazendo-a gerar emprego e renda para toda a população.

 Gostaríamos muito de ter um guia Bem-Vindo em cada um dos principais destinos brasileiros, de forma a padronizar a informação ao turista, e transformar o veículo num sistema capaz de atrair grandes anunciantes, possibilitando assim a obtenção de recursos para os CVBx. Sabemos que há dificuldades de toda a ordem. A similaridade dos CVBx brasileiros não é tão grande como se poderia desejar. Há diferenças instransponíveis, mas temos certeza de que o grupo de trabalho implantado no âmbito da FBC&VB saberá encontrar uma saída.

 O mais importante, no entanto, é que não há dúvida que ficou muito mais fácil explicar aos hóspedes dos nossos hotéis para onde vai o dinheiro obtido com a room tax, e provar que eles, visitantes, têm vantagens imediatas quando nos ajudam a manter o sistema através da sua contribuição com o pagamento da taxa. O nível de rejeição diminuiu, e os hotéis associados ao CVB passaram a oferecer um diferencial competitivo em relação aos outros. Hoje, é cada vez mais comum o hóspede perguntar pela revista ou pedir informações sobre a promoção. Sempre que isso acontece num hotel não associado, cria-se uma situação na qual o estabelecimento pensa seriamente na utilidade de ser filiado ao CVB e juntar-se a um grupo que tem projetos comuns, que tem estratégias definidas e que, consequentemente, desenvolve parcerias que tornam o ambiente de competição menos predatório. No fundo, estamos sendo fiéis, novamente, ao espírito pioneiro de Milton Carmichael. Sei que ele ficaria orgulhoso dos nossos avanços, por saber o quanto as suas idéias floresceram por aqui.


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